Notas iniciais
E aí?

Quinn acordou com os primeiros raios solares batendo em seu rosto, seu corpo doía e estava exausto. Como um ser tão pequeno podia fazer tanto estrago? Ela se virou na cama sonolenta, tendo a sensação de estar sendo observada. Quando abriu os olhos deu de cara com uma Rachel Berry com uma expressão no rosto que chegava a ser quase angelical. Quase. Algo bom não poderia sair dali. Sua expressão indicava serenidade, mas seus olhos estavam completamente debochados.

"Foi bom pra você?" A morena disse, começando a gargalhar em seguida.

Quinn ficou encarando com uma expressão séria no rosto a morena se sacudir na cama de tanto rir. Como Rachel pouco se importou, ela levantou da cama, puxando o lençol junto. Estavam completamente nuas.

"Você é ridícula." A loira ressaltou.

"Qual é, Quinn. Isso sou eu falando sobre isso! Você não queria que eu parasse de agir como se nada tivesse acontecido?" Rachel tentou dizer em meio as risadas, mas a frase teria mais efeito se tivesse ficado séria.

A morena podia estar brincando com o assunto, mas aquilo não incomodou a loira. Ao contrário, fez com que a tensão que sentia em relação ao que estavam fazendo se desfizesse. Era somente Rachel, uma das pessoas que mais confiava no mundo. Não tinha como não se sentir à vontade, vendo a morena agir de forma tão natural mesmo com a nudez que compartilhavam.

"Acho que eu preferia a Rachel de antes." Quinn revirou os olhos, segurando o riso, tentando não dar mais motivo para Rachel. "Vou tomar um banho e quando voltar quero você e o seu pouco caso fora do meu quarto." Arqueou a sobrancelha.

Rachel ia rebater, mas a loira entrou no banheiro, fechando a porta em seguida. A morena caminhou até o armário da loira, perguntando-se se ela ficaria irritada se botasse uma de suas roupas. “Sim, ela ficaria”, concluiu, colocando uma blusa de Quinn. Colocou um short e saiu para preparar o café da amanhã.

...

Brody acordou sentindo uma dor incômoda no pescoço, tinha ido dormir em uma posição completamente desconfortável e já sabia o porquê. Uma garota estava em seus braços. Sua cabeça estava rodando, então se forçou a lembrar o que tinha acontecido. Depois de Rachel ter ido embora e Quinn sumido, ele convenceu Santana a ir para outro bar em que ele também pudesse se divertir, os dois beberam demais e aí as imagens só vinham em flashes em sua cabeça. Santana com uma garota, sorrisos, olhares, toques, ele beijando alguém em outro lugar e entrando no próprio apartamento com a garota sem saber como.

Prometeu a si mesmo que nunca mais faria uma coisa dessas, antes de se desvencilhar delicadamente da garota e se levantar. Colocou uma bermuda qualquer e saiu do quarto. Onde estava Santana? Lembrava-se dela ainda estar com ele quando chegou ao loft... Puxou as cortinas do outro quarto e sorriu inevitavelmente. Claro que ela estava ali. Acompanhada. Como poderia ser chamada uma amizade em que o nível de intimidade era tanto que seus amigos dormiam com outras pessoas em seu apartamento?

Queria acordar a latina sem ter que acordar a outra garota, então voltou à sala e pegou um tubo vazio de caneta e uma folha de papel. Terceira tentativa, direto na testa de Santana. Ela se movimentou, abrindo os olhos com o susto e Brody começou a rir de sua cara sonolenta. Quando ela focalizou o rapaz fez sinal de que o mataria quando saísse dali. Ele estava sentado no chão, tentando segurar as contrações de sua barriga enquanto se esforçava para rir sem fazer barulho. Ela lhe tampou um travesseiro, impossibilitada de fazer qualquer outra coisa porque estava nua enrolada no lençol.

Os dois pararam imediatamente com a briga silenciosa quando a garota se mexeu ao lado da latina, mas não acordou. Ela fez sinal para que ele saísse e colocou a roupa que estava usando no dia anterior, saindo com uma cara completamente mal humorada do quarto.

"Estou morrendo." A latina anunciou, largando-se na cadeira e enterrando o rosto nos braços.

"Eu também." Brody concordou.

"A gente podia sair e deixar elas aí." Santana disse com a voz abafada.

"Deixá-las sozinhas? No meu apartamento?" O moreno arregalou os olhos.

"Não é como se elas fossem roubar alguma coisa. Só se for a sua cama ou a tv. Elas não teriam força pra levar a cama e se levassem a tv seria ótimo, você está precisando de uma nova mesmo..." A latina constatou.

"Engraçadinha."

"Falo sério." Ela levantou o rosto. "Vamos sair daqui."

"Eu não consigo, eu passei a noite com a garota..." Brody disse.

"Você nem sabe o nome dela." Santana gesticulou irritada.

"Acho que é Sara. Espera, é Angela." Ele disse incerto.

"Quase igual." A latina fez uma cara de tédio.

A pequena discussão foi resolvida quando Sara (ou seria Angela?) saiu do quarto de Brody, encabulada. O rapaz teve a impressão de já ter visto ela antes da noite anterior e lhe deu bom dia com um sorriso. Santana se esforçou para não fazer uma cara de quem ia vomitar, levantando-se para ir ao banheiro.

“Eu... é... onde estou?”

"Brooklyn." O morena informou.

A garota arregalou os olhos, completamente perdida.

"Relaxa, eu não moro tão afastado assim..."

"Mora sim." Santana se intrometeu na conversa, saindo do banheiro. "Bem vindo ao Brooklyn querida, mais precisamente ao bairro de Brushwick." Ofereceu um sorriso irônico para a garota. "Tem uma estação de trem na Broadway a uma quadra daqui. Mas não é a de Manhattan, só pra avisar."

"Não fale com se não tivesse morado aqui, Santana." Brody disse.

A latina deu de ombros, jogando-se no sofá e ligando a tv.

"Eu pago um táxi pra você." O moreno virou-se para a garota.

“Pode ser agora?” Ela perguntou, completamente sem graça e com um leve ar de ansiedade.

"Claro." Brody levantou-se, buscando a carteira e vendo que ela continuava tensa. "Hey... Relaxa." Ele sorriu tranquilamente. "Qual o seu nome?"

“Izzie, e o seu?”

A latina soltou uma risadinha do sofá, recebendo um olhar de censura do rapaz.

"Brody."

Ele acompanhou a garota até a porta e trocou poucas palavras com ela antes dela sair apressada.

"Fala sério, você é tão ruim de cama assim?" Santana provocou o amigo.

"Vai se ferrar." Ele jogou-se no sofá também. "Eu não sei... Acho que ela é só muito princesinha. Lembra dela no bar?"

"Lembro. Foi a que eu disse que parecia mimada, não foi? Eu nunca erro."

"Não gosto disso. Eu nunca mais te acompanho na bebida."

"Aham, claro. Podemos sair daqui agora?"

"Quer saber?" Brody olhou para ela. "Vamos!" Levantou-se do sofá, indo para o próprio quarto colocar um tênis e uma camisa e puxando a latina consigo para fora do loft.

...

Quinn saiu do quarto encontrando Rachel em pé ao lado da pia, fazendo café e usando uma roupa que era sua. Ela até ia reclamar, mas não queria dar motivos para a morena fazer qualquer tipo de comentário. Como se isso a impedisse...

"Uau. Você está tão sexy que eu te levaria para a cama. Espera... Já levei." Rachel provocou.

A loira estreitou os olhos para a morena abusada de cara falsamente inocente. Aproximou-se dela, tirando a garrafa que ela estava segurando de suas mãos e prensando-a na pia.

"Rachel." Quinn sussurrou simplesmente em seu ouvido, antes de descer os lábios para o pescoço.

Mordeu a pele quente escutando um gemido fraco da morena, que logo colocou as mãos em sua cintura, apertando-a. Um barulho de porta sendo aberta se fez ouvir, fazendo com que elas se separassem rapidamente. Santana entrava no apartamento com Brody. Quinn olhou para baixo, sorrindo de lado e sentando-se à frente de Rachel, que continuou fazendo o café como se nada tivesse acontecido.

Santana entrou na cozinha, lançando um olhar questionador para Quinn.

"O que foi, Santana?" A loira logo perguntou.

"Eu pensei que você tivesse passado a noite sob os cuidados da minha amiga... Ela está por aqui?" A latina olhou em volta. "Você simplesmente sumiu."

"Eu só vim embora pra casa. Sozinha." Quinn se limitou a dizer.

"O que foi um desperdício, ela é gostosa." Santana comentou.

"Eu não perdi nada." A loira disse de forma enigmática, antes de se levantar e se retirar da cozinha.

"O que me irrita... é que eu nunca consigo pegar a Fabray nesses momentos. Ela sempre consegue esconder." A latina desabafou, frustrada.

"Talvez ela não esteja escondendo, talvez ela realmente não esteja fazendo nada demais." Rachel sentou-se à mesa.

"É, talvez..."

Rachel reconhecia aquele sorriso no rosto da latina. Era o que ela usava quando estava louca de curiosidade sobre um fato e que estaria mais atenta para descobrir do que se tratava. O irritante é que quase sempre ela descobria. A morena deu os ombros imperceptivelmente. Pouco se importava.

"Essa roupa é sua, Rachel?" Brody disse desconfiado, encostado na bancada, com os braços cruzados sobre o peito másculo.

"É sim, gostou?" Ela provocou o rapaz.

"Estranho." Ele disse, sustentando o olhar desafiador que a morena lhe lançava. "A blusa é muito grande para você, não?"

"Eu gosto de usar blusas largas para dormir." A pequena relaxou a expressão completamente, encostando-se confortável na cadeira e bebendo um gole de café.

Era, indiscutivelmente e acima de tudo, uma boa atriz. Brody também relaxou, antes de lhe lançar um último olhar intrigado, deixando o assunto para lá. Santana estava com uma cara de tédio tão grande que a morena duvidava que tivesse escutado qualquer coisa sendo dita no ambiente.

...

A luz que entrava pela janela dava uma aparência ainda mais leve para o quarto claro. Abriu os olhos de forma lenta, ainda sonolento e deparando-se com uma imagem que fez um leve sorriso surgir em seus lábios. Gostava de acordar abraçado com ele, mas ele era tão inquieto que não parava de se mover nenhum minuto durante a noite, sendo raras as vezes em que isso acontecia. Deslizou as mãos pelas costas pálidas do rapaz, em um carinho paciente que seguia a linha de sua coluna até seu pescoço, acariciando os fios castanhos de sua nuca. Sentia que ele tremia levemente. Kurt não gostava de dormir sem camisa, mas cedia aos pedidos de seu namorado e amava a sensação de suas peles se encostando antes de dormir. Lhe passava tranquilidade.

Blaine não aguentou e inclinou-se para poder beijar sua nuca. Queria acordar com aquela imagem todos os dias, queria se sentir atraído daquele jeito para sempre. Kurt era o amor de sua vida, disso tinha plena certeza. Amava apenas ficar olhando-o enquanto ele discursava sobre os mais diversos assuntos, na maioria das vezes indignado com as coisas que lhe aconteciam. Ou a cara facilmente assustada que fazia quando algo lhe chamava atenção. Ou modo com suas sobrancelhas se juntavam quando estava preocupado e como seus olhos ficavam em um tom muito claro de azul quando queria chorar. Pequenas coisas que só o faziam ter mais certeza de que queria o homem que estava deitado ao seu lado. Pequenas coisas que o faziam conhecê-lo profundamente...

Não da forma que seria capaz de imitá-lo, mas da forma que poderia dizer que sentia sua falta, de uma forma que o fazia se apaixonar todos os dias.

"Bom dia..." Kurt disse roucamente com um leve sorriso, sentindo o próprio corpo se arrepiar com os carinhos de Blaine.

"Bom dia, Sr. Anderson Hummel..."

Kurt soltou uma risada, virando-se para encontrar o rosto sorridente de Blaine e receber um beijo delicado nos lábios.

"Esse vai ser o meu nome?"

"O nosso nome..."

"Nosso." Kurt repetiu, sentindo uma sensação quente percorrer o próprio corpo.

"Eu acho que dormimos demais." Blaine disse de repente, olhando o relógio em cima do criado mudo e se afastando.

"Hey, volta..." O moreno de olhos claros chamou com um bico nos lábios, sentando-se na cama. "Que horas são?"

"Quase na hora do almoço e eu..." Blaine hesitou, mordendo os lábios. "Combinei com as meninas de almoçar com elas..."

"Combinou? Espera... É sábado Blaine, a gente nem tomou café da manhã... E por que você não vai almoçar comigo?" Kurt perguntou, procurando a camisa largada ao lado da cama e se vestindo.

"Você vai fazer compras hoje, eu não quero passar o dia inteiro no shopping..."

Kurt suspirou, jogando-se de volta na cama e cobrindo-se com o lençol.

"Hey..." Blaine aproximou-se, descobrindo o rosto do rapaz. "Eu vou preparar o café da manhã para você, ok? E trago aqui no quarto."

"Você sabe que eu odeio sujar a cama."

"Isso é mentira, porque você ama quando eu faço isso. E eu não tenho culpa se você é desastrado."

Kurt ainda estava relutante, então Blaine se inclinou para um beijo calmo. O rapaz cedia ao poucos e logo tinha o moreno sobre si, apertando sua cintura enquanto ele deslizava as mãos pela barriga definida de Blaine. Definitivamente o café da manhã podia esperar...

...

Quinn lia tranquilamente um livro no sofá, quando Rachel entrou na sala, falando ao celular.

"Almoçar na rua? Por que vocês não vêm aqui pra casa?" Rachel perguntou.

"Porque eu estou sem o Kurt hoje e quero você e a Quinn comigo..." Blaine respondeu do outro lado da linha.

"Aconteceu alguma coisa?" A morena perguntou em um tom preocupado.

"Não! Quer dizer... Ainda não."

"O que você está aprontando Blaine Devon?"

"Você pode, simplesmente, parar de fazer perguntas e vir me encontrar?"

"Eu vou falar com a Q..." Rachel cedeu, suspirando.

"Obrigado!" Ele disse em tom irônico, fazendo a morena rir antes de desligarem.

A loira encarava Rachel com uma expressão curiosa no rosto.

"Onde está a Santana?" A morena perguntou.

"Acho que no quarto dormindo..."

"Essa garota não sabe fazer nada além de dormir?" Rachel olhou assustada para a porta do quarto da latina.

"Encher a cara e levar desconhecidas para a cama?" Quinn respondeu arqueando a sobrancelha.

"O Blaine quer que a gente vá almoçar com ele hoje..." A diva revirou os olhos.

"Você e a San?"

"Não. Eu e você. E não me pergunte, eu não sei do que se trata..." Rachel disse ao ver a expressão confusa da loira.

A morena se jogou no sofá. Ainda estava usando as roupas de Quinn. A loira olhou de cima a baixo o corpo moreno, era extremamente difícil olhar para Rachel e impedir que flashes da noite anterior tomassem conta de sua mente. Aquilo preocupava Quinn. O calor que agora lhe parecia familiar tomou conta de seu corpo novamente. Ela se aproximou sem hesitar e subiu no colo da morena, que apenas a encarava, apreensiva, os rostos muito próximos.

"Então você vai precisar de um banho, não?" Quinn sussurrou.

Rachel se inclinou para os lábios rosados e de início o beijo já se tornou intenso. A mão ágil de Quinn abriu caminho pela blusa de Rachel, agarrando um seio desnudo. Um gemido e um som de porta se abrindo. Droga! As coisas entre elas pareciam fluir somente durante a noite. Rapidamente a loira saiu de cima de Rachel, sentando-se ao seu lado, as respirações pesadas. A morena jogou a cabeça para trás no sofá, fechando os olhos, sentindo-se frustrada.

Brody tinha acabado de sair do banheiro. Como elas podiam ter esquecido que ele estava lá?

"Vocês estão bem?" O rapaz perguntou.

Quinn não respondeu. Apenas se levantou murmurando algo sobre tomar um banho gelado. Um sorriso imperceptível perpassou os lábios de Rachel.

"A Santana está por sua conta hoje. Por favor, não a deixe fazer nada estúpido." A morena pediu.

"Esse seria um bom conselho. Três anos atrás." Brody disse.

"Ela está diferente." Rachel mordeu o lábio. "Está piorando. Nem conversar comigo ela conversa mais, só quer saber de balada e trabalho."

"Acho que ela só não tem nada de novo para contar." O moreno tentou tranquilizá-la.

"É só que... faz cinco anos." Ela abaixou o olhar, diminuindo o tom de voz. "Só... fique com ela, está bem?"

O rapaz assentiu. Rachel se levantou, encaminhando-se para também tomar um banho.

Quando encontraram com Blaine no local combinado, o rapaz estava visivelmente nervoso. Recusou-se a falar para onde estavam indo, parando para pensar sem explicação aparente em frente à vitrine da Tiffany & Co. Tomou coragem e entrou na loja, sendo seguido pelas duas.

"Você só pode estar brincando." Quinn disse.

"O quê?" Blaine virou-se tenso para encarar a loira.

"Blaine, vocês nem se formaram ainda!" Ela disse.

"Eu sei, está bem? Eu sei. Mas estamos juntos há seis anos! Eu não acho que esteja me precipitando. Ele é o cara, eu... fui feito para amar o Kurt." O moreno disse, em tom mais baixo, falhando a voz e fazendo Quinn relaxar a expressão.

"Espera. Você vai pedir o Kurt em casamento?" Rachel finalmente se pronunciou.

"Qual é a surpresa?" Blaine disse, já levemente irritado.

“Posso ajudar?” Uma atendente perguntou com um sorriso.

"Nenhuma, é só que..." A morena deixou a frase morrer.

"Que..." O moreno insistiu.

"É só que você podia esperar mais um pouco. Vocês moram juntos, não tem diferença..." Quinn falou no lugar da morena.

"É claro que tem!" Blaine disse.

A atendente se afastou, percebendo o clima que se instalava.

"Olha... eu chamei vocês aqui para me ajudar, porque pensei que me entenderiam. Mas estou vendo que eu teria feito melhor chamando a Santana, talvez." O moreno falou em seguida, em um tom decepcionado.

"Na verdade você teria feito melhor chamando só a Quinn." Rachel disse, apática.

Quinn buscou os olhos de Rachel. Eles estavam novamente frios e opacos. Blaine respirou fundo, fechando os olhos. Talvez não fizesse mesmo sentido aquela discussão. Os dois se amavam, certo? Qualquer um que olhasse de fora pensaria que um pedido de casamento não demoraria.

"Desculpa." Quinn finalmente disse, mordendo o lábio inferior. "É que eu tenho uma visão diferente sobre isso. Mas a vida é de vocês e o amor também e sinceramente eu nunca vi nada parecido com vocês dois... Vem, eu te ajudo a escolher." A loira abriu um sorriso sincero e animado.

Blaine na mesma hora segurou a mão da loira, radiante e logo eles começaram a olhar praticamente todos os anéis de noivado da loja. Rachel olhou em volta, odiava aquela sensação, odiava se sentir mal quando era pra estar feliz por seus dois amigos. Mas não conseguia evitar. Anel de compromisso. Noivado. Casamento. Eram palavras que tinham um efeito completamente negativo e melancólico na morena. Era angustiante, era sufocante. Sem perceber ela se deixou cair em uma poltrona perto do balcão, olhando para os dois sem realmente os ver.

As palavras que havia escutado anos atrás em um passado onde era inocente e apaixonada estavam ecoando em sua mente. Declarações, pedidos, ilusões, discussões, brigas, término, dor...

"Esse é lindo, mas é muito chamativo, não?" Quinn perguntou, olhando para o escolhido nas mãos de Blaine.

"Chamativo? Você sabe que o nome do meu futuro noivo é Kurt Hummel, certo?" O moreno disse.

"É, tem razão. Ele nunca te perdoaria se não escolhesse algo que pelo menos metade de NY percebesse a quilômetros de distância." A loira concordou.

Os dois riram e voltaram a olhar para as joias. Pareciam estar cada vez mais desfocados para Rachel. Sua visão tornava-se turva e as vozes ficavam cada vez mais distantes...

"Rachel? Ei, você está bem?"

A garota de cabelos loiros e olhos claros estava a sua frente e a pouca distância de seu próprio rosto. Quinn acariciava a lateral de sua cabeça e segurava um copo d’água nas mãos, oferecendo-o a Rachel.

"Você está pálida..." Blaine disse, preocupado.

Foi questão de segundos e Quinn percebeu que a morena não estava bem. Agachou-se na sua frente para chamá-la e apesar de estar de olhos abertos ela parecia não escutar. Rachel aceitou o copo, bebendo rapidamente e fechando os olhos, procurando voltar à realidade.

"Quer ir pra casa?" Quinn ofereceu.

"Não, eu..." A morena sacudia a cabeça. "Me desculpa, Blaine." Abriu os olhos com um olhar culpado.

"Não tem problema, Rach." Ele segurou sua mão. "Eu já escolhi!" Ele disse em seguida, mostrando o anel com o enorme brilhante.

"É lindo..." Ela sorriu mais com os olhos do que com os lábios. "A cara do Kurt."

O moreno sorriu de modo doce antes de se afastar para o balcão novamente. Quinn o olhou por sobre o ombro e pensou muito antes de dizer alguma coisa. Formular uma frase era extremamente difícil, porque Rachel se tornou uma pessoa ainda mais difícil durante esses anos.

"Rachel... Eu acho que a gente precisa conversar." A loira disse.

"Eu não sei se quero ter essa conversa." A morena suspirou. "Não com você."

A expressão da loira estava confusa. No que ela tinha se metido?

"Somos amigas, não somos?" Quinn checou.

"É claro que somos. Mas eu não quero falar sobre isso." Rachel parecia irredutível.

"O que você me contou aquele dia..." A loira insistiu.

Quinn viu a pouca cor que tinha retornado aos lábios de Rachel sumir novamente.

"Eu menti." A morena desviou o olhar, visivelmente incomodada.

"Você não mentiu!" Quinn exaltou-se.

"Meninas? Vamos? Estou morrendo de fome!" Blaine surgiu atrás de Quinn.

Rachel levantou-se imediatamente e foi esperar do lado de fora da loja. Quinn ainda continuou parada.

"O que aconteceu?" O moreno perguntou.

"Faz cinco anos, Blaine! Cinco!" A loira disse, tentando segurar a sensação ruim que de repente a dominava.

"Eu sei..." Ele fez uma cara compreensiva.

"Eu não consigo entender..." Quinn virou-se para o rapaz.

"Ela o amou de verdade, Q. Algumas coisas machucam mais do que podemos perceber."

"Eu sou a única que acho que o amor dos dois não devia ser tão perfeito assim pra ter causado tanto estrago? Esse tipo de estrago?" A loira perguntou, um certo tom de indignação em sua voz.

"Como assim?" Blaine aproximou-se dela.

"Ele não era nenhum príncipe em um cavalo branco, Blaine. A Rachel nunca teve dele o tratamento que merecia. Nunca teve o amor que merecia." Quinn explicou.

"Mas ela o amava. Podia não ser amada de volta da mesma forma. Podia não ser o melhor namoro do mundo ou o homem da vida dela, mas ele foi importante. E a importância que ela deu a ele é somente dela. O amor que a gente sente é somente nosso." O moreno argumentou.

"O que você quer dizer com isso?" A loira procurava entender.

"Que podemos amar alguém com todas as nossas forças e não sermos amados de volta. E que isso não diminui o que a gente sente. Amor não se cobra, se sente." Blaine concluiu.

Os três almoçaram rapidamente em um restaurante perto dali, porque Kurt não parava de ligar para o moreno para que o buscasse na rua para irem ao cinema. O rapaz tentou convidar as duas, mas elas estavam sem ânimo. Pra falar a verdade, Rachel e Quinn não trocaram uma palavra desde que saíram da loja. Deixou-as em casa e a única coisa que escutou no caminho foi Rachel reclamando dos malditos turistas que não sabiam dirigir em NY e deixavam o trânsito caótico.

Os pensamentos de Quinn martelavam em sua cabeça. Era tão óbvio na época de escola. Blaine foi feito para amar Kurt. Santana foi feita para amar Brittany. Mas a sentença: Finn foi feito para amar Rachel parecia completamente errada. Sempre lhe pareceu. Não era o amor que a morena merecia. E isso a estava puxando para baixo até hoje. Mas... ela o amava ou amara. Era extremamente irônico. Os que não mereciam eram amados. Mas de uma coisa Quinn sabia. Se Rachel tinha sido feita para amar alguém, com certeza nunca seria Finn Hudson. Ela não permitiria que ele a machucasse mais.