How To Make A Friend
10 Capítulo 10
Decorrido algum tempo, os pesadelos ficavam cada vez mais e mais frequentes. Chegou ao ponto de o alquimista ter crises de sonambulismo. Não sabia o que estava acontecendo, mas acordava em meio às praças, ruas e recantos da cidade, sem se lembrar de como havia parado lá. A única coisa que sentia era uma sensação estranha que fazia seu coração ficar apertado, uma angústia inexplicável, e um calafrio que lhe percorria o corpo todo. Os cidadãos ficavam apreensivos, com medo de que o filho daqueles que devastou o lugar uma vez, estivesse tramando algo, e o olhavam com desconfiança. Sentia-se mal, mas isso logo passava, pois não importava mais.
Cada dia era como um renascer, como uma nova vida vivenciada com o mais puro ar de contentamento e voluptuosidade. Já não importavam mais os olhos de condenação alheios, nem a não percepção dos demais, tinha a única coisa que importava ao seu lado. E não demorou muito para que tamanha amizade, que sempre resguardou um sentimento mais, finalmente demonstrasse tal sentimento. Não era qualquer sentimento. Em todos os lapsos de sonhar acordado, imaginando como seria ter alguém ao seu lado, o que estava vivenciando agora superava todas as expectativas. Nas noites de tormenta, frias e aterrorizantes, havia alguém que o abraçava por de baixo dos cobertores e o fazia se sentir como se nada pudesse atingi-lo. E quando alguém o olhava atravessado, havia alguém que o encarava de modo ameaçador e o fazia sentir como uma pessoa normal. Toda ação nutria cada vez mais esse sentimento que dominava Noah de alma, corpo e mente. Amor este, que apesar de parecer acolhedor e cumulativo, não era recíproco. O alquimista ainda não sabia, mas as ações do homúnculo para consigo, não eram por sentimento, mas por “pagamento”. Não que Noah não fosse o tipo de pessoa que ninguém pudesse amar, ainda mais se tratando de alguém feito por ele mesmo. A verdade é que Omne não estava o iludindo, sequer tinha ideia de tais sentimentos, pois sentimentos são como um grande vazio desconhecido para essas criaturas geradas de modo artificial; apenas retribuía os “favores” que o alquimista tinha lhes feito. Quando o indagou a respeito de seus sentimentos, e a verdade foi declarado pelo homúnculo, o chão em que o alquimista pisava havia se desfeito em mil pedaços, e o corpo se despedaçava juntamente, jogado ao ar e sem mais expectativas. A primeira desilusão amorosa de um amor que se quer existia, pelo menos por parte de um. Aquilo tudo era de mais para ele suportar sozinho. O sentimento de desolação e desespero tomou conta de seu racional, e tal sentimento despertou algo dentro de si que já estava se fortalecendo há algum tempo. Sentiu o coração tomado por trevas e as últimas lembranças foram as a preocupação nos olhos de seu querido amigo, antes de cair desacordado no chão.
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