Acordando, e já apaziguado de seus próprios sentimentos, o garoto resolve sair um pouco do isolamento de sua casa e apreciar um pouco de ar livre. Vai até a porta, tira a cabeça para fora da casa. Imagina todas as possibilidades de coisas desinteressantes que poderia ver; ou todas as coisas interessantes que não poderia fazer; e pronto. Volta para dentro de sua casa. Segurou firme o pingente de cristal do colar que seus pais haviam lhe dado de presente, com um aperto no coração e guardou-o dentro da vestimenta novamente.

Toda aquela situação já acontecia há anos, não seria algo a se mudar de uma hora para outra. Era melhor ignorar qualquer resquício de sentimentalismo e continuar a viver em seu mundinho isolado dos demais, em sua ociosidade costumeira. E, afinal de contas, ele não precisava daquilo. Tinha um modo de pensar e viver diferente dos outros, ele não precisava abrir mão de suas ideologias para se enturmar com as outras pessoas e ser aceito. Mas faria isso sem pensar duas vezes.

O trajeto da casa para a escola e da escola para a casa, com todos aqueles olhares de condenação e todo o desprezo já havia se tornado uma rotina. Algumas vezes, o jovem alquimista se percebia perdido em seu emaranhado de pensamentos e sonhos e parava... Começava a pensar em tudo o que havia feito nos últimos anos... Nada. E aí começava a pensar em qual seria a sua utilidade nessa vida. Existem pessoas que nascem para serem infelizes sem motivo aparente, é a ordem natural das coisas, pensava ele. Talvez ele fosse uma pessoa tão boa que todo esse sofrimento seria uma forma de equilibrar-se com a entropia do universo. É, talvez fosse este o motivo. Era mais aliviante pensar desta forma.

Qualquer que fosse o motivo, ele preferia ignorar e continuava a prosseguir da mesma forma que estava fazendo todo esse tempo. Quem é que precisava de alguém que tivesse seus problemas e precisasse de ajuda para resolvê-los, e brigar quando as opiniões divergissem, e amparar quando estivesse triste? Isso era um verdadeiro desperdício de tempo e energia que poderiam ser usados em alguma coisa útil como dissecar insetos, criar novas substâncias artificiais ou... Bem... Ele precisava.

Aquele modo de viver, sem se preocupar muito com consequências ou com o futuro parecia ser bem agradável e fácil, porém deixava uma bagunça enorme, em qualquer lugar que se olhasse. Seria uma boa hora para transformar todo aquele ócio em alguma coisa útil e então tratou de começar a arrumar a casa de cima a baixo. Depois de algumas horas exaustivas de trabalho doméstico, cada frasco, livro e ingrediente e estava em seu devido lugar. Não havia sequer um objeto naquela casa que não reluzisse na presença do menor facho de luz. Na verdade, havia sim um objeto. Um livro meio empoeirado com uma capa marrom de couro, fechado por uma fivela de cobre meio oxidada. Levou um certo tempo para a imagem do livro voltar à memória e perceber que aquele era o livro usado por seus pais nos seus experimentos alquímicos. Teria sido impossível encontrá-lo em meio àquela bagunça, mas, agora, com o artefato em mãos, ele poderia conhecer um pouco mais a fundo sobre o mundo do qual fazia parte, afinal, o sangue de dois grandes alquimistas corriam em suas veias, ele tinha uma aptidão natural para tudo aquilo.