How Things Began...
3 Bons Amigos
Notas iniciais
Eram 17:03h e eu já estava pensando que ele não viria. Sempre dava um jeito de olhar discretamente para o relógio a cada 2 segundos, mas mesmo assim o tempo não passava. Eu honestamente me sentia como se estivesse numa daquelas vezes em que Seb tentou me fazer jogar Xadrez com ele, e tudo que eu lembro é que perdi uma sexta a noite inteirinha por causa disso.
De repente alguém bateu na porta que dava no porão e Chuck foi atender.
– Opa, cheguei muito cedo? — Meu Deus, era ele. Loiro do cabelo espetado, blusa preta de regata, bermuda de skatista, piercings nos lábio e no nariz e, claro, um sorriso adorável no rosto.
– Haha, chegou na hora, cara! Meu nome é Chuck, eu sou o baterista- Chuck cumprimentou David com um aperto de mão que rendeu um curto abraço (e uma pontada curta de raiva em mim também).
– Bom, não vão se acostumando… Se tem uma coisa que eu não sou, é pontual! Hehe — Ele não era uma graça?
– Opa, quer dizer que você vai deixar que possamos nos acostumar com alguma coisa? Hein?! — Disse Seb sorrindo, se referindo ao fato dele entrar mesmo na banda.
– Veremos… Hehe! — David respondeu sorrindo de lado e esticando a mão para Seb.
– Oh, desculpe! Esse aqui é o Sébastien Lefebvre, o Seb. Ele toca guitarra. — Chuck apresentou Seb e David deu um sorriso simpático.- Esse aqui é o senhor Jeff Stinco, que também toca guitarra, só que mal! — Chuck deu uma risada marota e levou um soco de Jeff — Au… Enfim, esse é o Sr. Langlois, Patrick vulgo Pat. O grán câmera man, o melhor amigo, e o faz-tudo da banda sem nome! — David sorriu para Pat, mas logo em seguida fez uma cara muito fofa de "o que isso quer dizer?" e eu tive que rir, pra dentro, daquela cena.- Ah, e claro, você deve lembrar dessa adorável voz — Chuck apontou pra mim -, esse aqui é o Mr. Bouvier! Ou Pierre, como preferir. Ele coloca as cordas vocais pra funcionar…
–…E toca baixo. Toca bem. — David terminou a frase citando o que eu disse para ele no telefone, olhou para mim com um sorriso enorme no rosto e os olhinhos esverdeados e brilhantes, quase sumindo no meio das suas bochechas.
– … Mas você é melhor. — Completei, sorrindo de volta para ele, apertando sua mão e agradecendo por já ter nascido com as bochechas naturalmente vermelhas (o que disfarçava a minha vergonha extrema).
David sorrio e desviou o olhar para o chão. Peraí… Eu estava deixando ele encabulado? Que demais! Haha, Viu só como é bom?
– Bom… E eu sou o David. David Desrosiers ou DD, como preferirem. Eu meio que toco baixo, moro longe de tudo que presta e gosto de Zebras… Hehe acho que isso é tudo.
Todos rimos, parecia que David era o tipo de pessoa que não agüentava muito tempo sem soltar alguma piada ou bobagem qualquer. O que era bem engraçado considerando que ele também tinha um jeito pra lá de tímido.
David tirou seu baixo preto da capa e um pequeno amplificador (engraçado né? um amplificador pequeno haha… Não? Ok…) da mochila com estampa de zebra e perguntou onde colocava as coisas. Chuck o ajudou enquanto os outros afinavam seus respectivos instrumentos e Pat preparava a câmera. E eu? Bom, eu ficava ali, parado e observando… O que se a de fazer, afinal?
Depois de tudo preparado, David perguntou:
– Érr… E aí? Vamos tocar o que? — Boa pergunta, meu caro Desrosiers. Quer dizer, eu até tinha algumas músicas, mas nada que já tivéssemos ensaiado, e pior, nada que os meninos tivessem conhecimento… Quer dizer, pelo menos eu pensava assim, até que Seb falou:
– Hmmmm… Podemos fazer algum cover idiota… Com sempre. Ou…- Me fitou com um olhar maléfico — Podemos, FINALMENTE, tocar uma das mil músicas que o Pierre tem "escondido" da gente!
O que?? Como esse filho da puta descobriu isso??? Que vergonha! Céus… E bem na frente do David??? Ah, mas não mesmo!! Pode esquecer! Não mesmo, cara! Sem chance! Na-na-ni-na-não, man! Era melhor Seb já ir desistindo disso, já foi errado ele falar dessas músicas idiotas abertamente, agora tocá-las? Sem chance alguma! Não, não, não e não! Isso não vai acontecer!
– É sério isso? Uau! Que show Pierre! Pode ser, cara? — Perguntou Chuck.
– Érr… Bem… Claro… Eu acho… — Meldels, qual era o meu problema? Já me convenceram assim? Que vergonha da minha própria existência.
E só pra piorar — ou melhorar -, David ria de tudo aquilo: Da ousadia escrota de Seb, da minha vergonha-mor e do jeito como eu suava frio de desespero. Ok, ok, era pra piorar mesmo… A única coisa boa nisso tudo era o sorriso extremamente lindo do David.
– Ok, podexá que eu pego! Eu bem sei onde ele esconde essas letras "secretas"! Haha — Caramba, viu? Esse nerd estava bem abusadinho pro meu gosto!
Seb pegou as letras e eles escolheram a primeira que escrevi: "I'm Just a Kid". Certo, até que era uma boa letra, mas poxa, não era menos vergonhoso por isso! Enfim.. Fomos inventando a melodia na hora, e logo em seguida comecei a cantar…
– I woke up it was seven, waited till eleven just to figure out that no one would call…
Chuck entrou logo em seguida com a bateria, depois Seb, então Jeff e por último David, que parecia curtir muito a música e tocava fazendo biquinho — uma gracinha, diga-se de passagem-.
–…'Cause I'm just a kid tonight!! — Finalizei.
– Uau! Cara, isso ficou dez! Sério! — Disse Seb. Hunf, é bom mesmo que tenha gostado, Lefebvre, depois do tamanho da vergonha que me fez passar…
– Ficou mesmo! Poxa, Pierre, porque você nunca mostrou isso pra gente? — Disse Jeff logo em seguida.
– Bem… Sei lá, não estão boas o suficiente…
– Estão sim. — Disse David, e eu nem me importei de ter sido cortado. Aquele comentário me fez brilhar os olhos.
– Além do mais, como você pretendia que virássemos uma banda de verdade se não mostrasse as letras, cara? — Questionou Chuck.
– Eu ia mostrar um dia…- Dei de ombros.
– Bom, que bom que esse dia foi hoje! — Disse Pat, encerrando a sua filmagem.
Depois que todos pararam de me amolar, viramos para David e ficamos esperando que ele falasse alguma coisa. Ele estava distraído olhando as unhas, mas quando se deu conta que estava sendo observado, quase caiu pra trás de susto.
– Hã… E aí, gente… Tudo bom? — Disse ele meio constrangido.
– Você poderia nos responder isso, que tal? — Disse Jeff sendo super direto.
– Hã? Ah! Haha, foi mal, eu sou meio devagar ás vezes… Sabe como é, Ritalina me acalma, mas ás vezes ficou calmo até demais e desligo.. Hehe — David continuo, fugindo totalmente do assunto, mas deu pra perceber que foi na inocência.
– Hehe… Tá, e aí? — Gente do céu, como esse Jeff tava afiado hoje! E com afiado eu quero dizer estupidamente grosso.
– Vocês são ótimos! E eu realmente gostei das músicas, de verdade. — David respondeu com doçura no olhar. Pat estava certo, ele realmente parecia uma criança. Tão meigo e pequeno…- Eu realmente vou pensar. Vou pensar com carinho, prometo.
Nos contentamos com essa resposta e nos despedimos de David, que prometeu ligar muito em breve com a decisão final. Terminamos de recolher os instrumentos e eu tive que lidar, claro, com altos comentários sobre as minhas músicas. Pedimos pizza rimos e brindamos aquele ótimo dia.
– Bom, eu já vou indo galera. — Era com certeza a primeira vez que eu saia da casa de Chuck antes que todos os outros. Mas poxa, já passava das 23h e eu mal estive em casa esse final de semana inteiro. Eu realmente precisava descansar, deitar um pouco na minha linda caminha e esquecer do mundo.
Peguei um táxi até em casa, não aguentava dar mais nenhum passo sequer, e acabei dormindo no percurso inteiro.
– Hã… Garoto, já chegamos! — Fui acordado pela voz grossa do taxista. Pedi desculpas, paguei e fui correndo para dentro de casa.
– Ahhh… Lar doce lar! — Falei assim que botei os pés na sala, que estava super quentinha, já que alguma boa alma havia deixado a lareira acesa.
Queria correr para cama e deixar de lado tudo que havia acontecido nesses dois dias loucos: esquecer da doideira do bar, da ressaca mal resolvida, de falar com David no telefone e ainda suar frio mesmo depois de sóbrio, de vê-lo pessoalmente e ficar com sérias dúvidas sobre mim mesmo, de ver minhas músicas serem lidas publicamente, de cantar uma de minhas canções, de me despedir de David e me sentir estranhamente mal por ter que dizer tchau á ele… Eu simplesmente queria deitar e ser deixado de lado pelo mundo. E era isso que eu iria fazer durante meu domingo: Deitar e fim. Adeus mundo, adeus pensamentos, adeus banda e adeus David. Nesse dia eu queria apenas paz e minha caminha. Mas antes, claro, eu precisava comer alguma coisa. Fui até a cozinha praticamente caindo de sono, cambaleando como se ainda estivesse bêbado, abri a geladeira e peguei um leite gelado pra comer com cereal, quando notei que o bilhete da minha mãe ainda estava lá. Puta merda, eu sai o dia inteiro e nem dei explicação pra ninguém… Ainda bem que já estava decidido a passar o dia no meu quarto, porque amanhã, depois de um looooongo sermão, meus pais não iriam me deixar pisar fora de casa de jeito maneira.
–… Fuck… — Foi a última coisa que falei antes de apagar num sono profundo.
Como de esperado, fui acordado com minha mãe batendo panela (o que me fez quase cair da cama) e meu pai bufando de raiva enquanto soltava uma palavra ou outra entre cada 10 palavrões. Só consegui entender a última parte:
– … Se quer passar o final de semana em noitada bebendo como um louco até seus fígados não aguentarem mais, tudo bem. Mas não seja tão idiota a ponto de sair sem avisar em que bar você foi!
Claro, antes de sair, ele fez questão de bater a porta com toda a força do mundo o que fez os parafusos da maçaneta se soltarem. Ele ainda berrou alguma outra coisa lá de fora e saiu batendo o pé.
Meu pai não é um cara bravo, ele é muito tranquilo quanto a quase tudo. Ele apoia a gente e não nos repreende em relação a nada. Mas uma coisa que ele não consegue aceitar, é quebra de confiança. Se eu prometi algo, eu tenho que cumprir, senão ele se transforma totalmente… E eu meio que prometi avisar pra onde eu vou e quando volto, sempre.
É… O que se a de fazer? Voltei a dormir, claro.
O resto do dia foi bem monótono, comi, dormi, vi televisão, dormi, comi e como esperado, consegui tirar tudo aquilo de louco da cabeça. Até que…
Eram cinco da manhã quando meu celular começou a tocar.
– Puta que pariu, se for o Comeau, ele morre! — resmunguei, e olhei a tela da celular: número desconhecido — Hmmm… Alô? — Disse, ainda meio grogue, ainda meio bravo…
– Pie? Oiiiii!– Era a voz infantil de David! Mais que isso, era a voz de David ás 5h da manhã, totalmente elétrica!
– Hã… Oi. David? — Não, Pierre, o coelinho da Páscoa.
– Haha, é! Desculpa te ligar agora, eu sei que já está anoitecendo… – David falava praticamente embolando uma palavra com a outra. Cara… Ele estava muito energético!
– Anoitecendo? Dave, são 5 horas da madrugada!
– Que? Claro que não…– Ele fez uma breve pausa, provavelmente foi olhar o relógio — CARAMBA! É mesmo! Opa ... Mil desculpas, Pie! Eu sei lá, achei que eram uma 22h da noite, não sei porque… Haha.– Por incrível que pareça: não, ele não aparentava estar bêbado!
– Érr… Tudo bem, cara… Mas e aí, por que ligou? — Perguntei, esfregando os olhos, já completamente acordado.
– É que eu tive a brilhante ideia de experimentar café – "experimentar"? Haha, poxa vida, David realmente era uma criança! -, e sabe como é, né? Café depois de Ritalina, uma baita loucura no organismo! Mas eu não sou doido, tá? Ok, eu sou, mas não é por isso que eu tô assim, ok? – Não, eu não sabia como era! David estava muito agitado, nem respondeu minha pergunta.
– Hã… Haha, ok, relaxa cara.
– Ah, eu liguei porque eu tenho uma boa notícia! Pelo menos eu acho que é boa… Será que é boa mesmo? Hmmm… Deixa eu pensar… Ah, deve ser! — Ele não fazia o menor sentido, e isso só o tornava ainda mais divertido.
– Haha… Manda aí!
– Bom, eu queria dizer que, TAM-TAM-TAM-TAAAM – David imitou o barulho de tambores. Que gracinha! -, eu, David Desrosiers pensei muito na proposta de sua vossa banda-sem-nome!
– E…?
– E… Eu aceito, Pie. Quero ser da banda.
Aquela frase fez meu coração bater acelerado. E ele ainda questionou se era uma boa notícia? Claro que era! Era a melhor de todas! A melhor coisa que eu ouvia em muito tempo e eu nem sei porque! Simplesmente era bom demais pra ser verdade! Tive que me beliscar algumas vezes até ter certeza que aquilo era real.
– Uau! Que ótimo David! Vai ser dez! Fico muito feliz, de verdade!
– Eu também.– Ele disse com uma voz meiga. Dava pra perceber que ele realmente estava feliz com a decisão tomada, e isso me fez delirar de alegria ainda mais!
Ficamos alguns minutos em silêncio até que eu me dei conta de algo e tive que perguntar a ele:
– Hã, mas pera aí, por que você foi ligar justamente pra mim?
David demorou um pouco pra responder e eu logo me senti mal por ter questionado isso...
– Sei lá, gostei da última vez que nos falamos no telefone, Haha.– Ele disse, enfim.
– Ahhh, ok! Haha — Ri de nervoso.
– …E, eu fui com a sua cara, Pie – Ele disse docemente, me arrancando um sorriso de orelha a orelha e me deixando completamente vermelho -. E eu acho que vamos ser grandes amigos.
– É, eu também acho. — Disse soltando um sorriso de lado envergonhando.
Passamos o resto da madrugada conversando sobre tudo e qualquer coisa. É, seríamos grandes amigos, com certeza.
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