How It Ends
1 01. - Princess, and prince
Notas iniciais
O sol esplendoroso daquele final de tarde ainda cobria o gramado verde dos campos ao redor de Cair Paravel, enquanto em um deles bem aos fundos do grande Palácio em uma divertida brincadeira, se encontravam o príncipe herdeiro e suas irmãs. Ambos degustavam de uma divertida recreação, que foi nomeada há alguns poucos séculos como “cabra-cega”. Naquele momento, Rilian, o belo príncipe já com seus vinte e um anos e possuidor de raríssimos olhos azuis esverdeados, se encontrava totalmente às escuras tendo assim seus olhos vendados por uma faixa de tecido grosso o bastante para impedir que sua visão lhe desse a localização de suas astutas irmãs, que se esgueiravam e rodeavam o príncipe, provocando-o para que este encontrasse ao menos uma de suas pequenas e adoráveis fugitivas. Não muito longe dali, Meridia, que era considerada a irmã mais velha dentre as pequenas, embora não fosse de fato filha consanguínea dos reis, e sim uma linda moça de cabelos longos e levemente avermelhados cuja mesma o rei havia encontrado em alto mar durante uma de suas inúmeras viagens e decidira por fim, levar a pequena menina de volta a Cair Paravel, onde poderia terminar de criar e educar a adorável criança como uma de suas herdeiras. Meridia arrastou as barras de seu longo vestido de cor azul céu ao longo do verde gramado até estar próxima o bastante dos irmãos, para transmitir o recado enviado pelos reis. Ela se prostrou ereta diante destes, pondo suas mãos entrelaçadas diante do colo e gentilmente, com voz suave disse-lhes:
– Sinto atrapalhar a diversão, mas o rei e a rainha nos esperam para o jantar às sete horas, e presumo que pela altura do sol já esteja na hora de todos se recolherem para cuidar de sua higiene e trocar suas vestes visivelmente bem surradas, e sujas. – disse a moça exatamente no mesmo tom ensinado pela rainha nas inúmeras aulas de decoro, mas sem esconder um sorriso singelo.
Mais a frente, o príncipe que ao ouvir a voz da princesa mais velha retirara a venda de seus olhos e já tinha assim uma visão bem nítida da linda moça a sua frente, este deu alguns passos em direção à mesma com um largo sorriso e com postura ereta se manifestou:
– Suas vestes visivelmente surradas e sujas? – proferiu o rapaz em tom de zombaria. – Com quem estamos falando? A governanta do palácio? –seguiu Rilian recebendo apenas o olhar de desaprovação de Meridia.
– Ainda está cedo Meridia, por favor, apenas mais um pouco de tempo? – se manifestou uma das princesas mais novas.
– Sinto muito Izzy, mas são ordens da rainha. – respondeu Meridia voltando-se para a caçula dos Valerious.
– O sol ainda nem se pôs! – implorou a segunda mais velha, a princesa Adelaine.
– Mas logo ele estará em repouso, e as estrelas cobrirão o céu e...
– Rilian, convença-a. – dessa vez, quem se declarou foi a graciosa Samire, a filha de um dos reis antigos, Pedro.
Após um largo e convencido sorriso o príncipe que já estava bem próximo, apenas voltou-se para Meridia e com ar garboso manifestou-se diante a expressão decidida e determinada da irmã de criação:
– Mais alguns minutos... – disse Rilian em tom suave. – Elas estão se divertindo, eu estou todos estamos... Por que não se une a nós? Vamos, desfaça essa pose supercomportada e divirta-se um pouco!
– As ordens vieram diretamente da rainha, apenas estou transmitindo a vocês... – respondeu a moça mantendo sua determinação de inicio. – Além do mais, você deveria dar o exemplo, começando por se recompor... – Meridia proferiu tais palavras observando a maneira como as barras das calças do irmão estavam para fora das botas, e como as golas de sua camisa estavam abertas, deixando exposto parcialmente o peito e o pescoço do rapaz, algo que a deixou levemente corada ao observar. – Veja como está se portando. Em pouco lembra alguém da realeza, parece mais um simples camponês.
– Uh! – um riso debochado soou com um assovio pelos lábios generosos do rapaz. – Estamos um pouco críticos esta tarde! – Rilian cruzou os braços sobre o peito mantendo uma perna atrás da outra e ambas afastadas. – Acha que estou descomposto princesa? Minhas vestes estão pouco adequadas?
– Nem tanto quanto seu comportamento. – rebateu a garota.
– Eles vão começar de novo. – resmungou Izzy, que naquele momento estava entre as outras duas meninas.
– Veja só! – mais um riso soprou da boca do príncipe herdeiro, que voltou seus lindos olhos para as pequenas irmãs. – A princesa considera meu comportamento pouco aconselhável... O que fazer?
– Mostre a ela! – induziu Samire, levando um cutucão logo em seguida de Adelaine.
Rilian por sua vez, sorriu diante do encorajamento, e então voltou o olhar para Meridia e então se aproximou dizendo:
– Já ouviu o ditado: Se não pode vencê-los, junte-se a eles? – as palavras foram ditas em um tom mais baixo, quase como em segredo. – Bom, acho que não pode nos vencer por estar em menor número então...
Com um leve quebrar de cabeça, o príncipe curvou os joelhos parcialmente e inclinou o corpo para frente estendendo os braços e os conduzindo até as pernas da moça, puxando-a por sobre seus ombros e em seguida se virando e carregando a mesma até o centro do campo, enquanto esta se debatia as suas costas e ameaçava-o com as mãos fechadas, em punho.
– Rilian, ponha-me no chão agora mesmo. – exigia a princesa enquanto esperneava sobre os ombros do irmão de criação. – Ou eu juro que acabo com você...
O príncipe, apenas ria enquanto se exibia para as irmãs mais novas que aplaudiam a travessura do adorado irmão. Ele andou, e até girou com a garota nos ombros, deixando-a um pouco tonta, e por fim, após todos os xingamentos, contidos é claro, da irmã ele a pôs no gramado, de pé diante de si, onde ela pode se recompor ajeitando os cabelos e o vestido limpinho agora amassado.
– Seu, seu... Bruto. – disse ela cerrando os dentes. – Eu devia...
– Devia? – ele zombava com os braços novamente cruzados diante do corpo.
– Devia comunicar ao rei sobre este seu comportamento infantil.
– Ora, vamos lá, você pode fazer melhor do que bancar a dedo duro. O que houve com aquela garotinha arisca que me batia por se sentir incomodada? –ele apenas ria com a expressão da garota.
– Aquela garotinha cresceu agora me faça o favor, e faça o mesmo. – rebateu a princesa rosnando como um gato bravo. – Quanto a vocês? –disse se voltando as mais jovens. – Ouviram o que eu disse, vamos, vão se trocar para o jantar... Vamos... –ela deu alguns passos conduzindo as meninas menores em direção ao palácio.
– E mais uma vez ela foge como uma menininha assustada! – resmungou o príncipe, sem olhar a irmã, sabendo o que aquelas pequenas palavras causariam na mesma.
As pequenas paralisaram onde estavam e voltaram os olhares curiosos e esperançosos para a mais velha, esperando, na verdade, ansiando que esta desse ouvidos as provocações do irmão. Meridia por sua vez, segurou as saias de seu vestido e se virou encarando Rilian então se manifestou:
– Não cairei na sua provocação dessa vez, não perca seu tempo, nem gaste seu vocabulário. – e se virou mais uma vez disposta a seguir em frente, deixando as pequenas desapontadas.
– Garotinha fujona, princesinha assustada. – continuou Rilian com ar de deboche.
– Argh... – rosnou a princesa, apanhando uma vareta das mãos de Izzy, e se virando em direção ao irmão. – Eu vou te mostrar quem é a garotinha assustada.
As meninas menores ficaram eufóricas e se prepararam para assistir ao espetáculo. Não importava o quanto elas crescessem nem o tempo que passasse, enquanto os irmãos mais velhos vivessem naquele palácio elas sabiam que sempre teriam aquele tipo de divertimento. Algo que sempre acabava em boas risadas e histórias para contar no natal.
Meridia avançou pelo gramado, como um vento em fúria e se preparou para bater no irmão com aquela vareta, como se aquele objeto fosse uma espada em riste. Rilian descruzou os braços e deu uns passos atrás rindo, satisfeito com o ataque esperado, enquanto buscava um modo de se defender desviando da irmã. Este apanhou uma vareta concedida por Samire que instigava a pequena batalha, e se prostrou em posição de luta, assim impedindo os golpes da princesa Meridia contra ele, com graça e leveza, mostrando-se um exímio espadachim. Sim, ele era tão bom quanto o rei, Caspian X com certeza havia ensinado muito bem ao filho, que por sua vez absorveu cada ensinamento com total sucesso. Meridia também era boa, apesar das inúmeras saias de seu vestido real, ela também havia aprendido muito, mas não com o rei e sim com o próprio Rilian que fez questão de ensiná-la como se defender sozinha caso um dia ele não estivesse por perto para protegê-la como era seu desejo. Ela o atacou muitas vezes, mas em nenhum momento o atingiu, embora tenha chegado perto muitas vezes.
– Está enferrujada! Precisa treinar mais, isso que dá não vir me procurar mais... – provocou Rilian.
– Ora, fique calado... – rebateu a moça tentando insistentemente acertá-lo.
As meninas assistiam a tudo eufóricas e animadas, fazendo até mesmo apostas de como tudo aquilo acabaria. E como já não era de se esperar o contrário, Rilian conseguiu surpreender Meridia em uma virada repentina, tomando a “arma” das mãos da irmã de criação e puxando-a pela cintura, virando a mesma de costas para si, deitando-a por um momento sobre uma de suas pernas mantendo-a na horizontal enquanto olhava em seus olhos castanhos esverdeados.
– Não foi tão ruim, mas ainda tem que treinar mais... – Rilian enfatizou com voz rouca e cansada pela pequena briga. – Princesa!
O ar quente que saia da boca do príncipe chegava ao rosto de Meridia, que podia sentir o suave hálito de hortelã cujo mesmo costumava mascar todo o tempo, para manter, como ele costumava dizer: — os beijos frescos, para as belas damas. Um pequeno momento de silêncio se fez presente entre ambos, enquanto seus olhos mantinham contato visual, como se mil coisas devessem ser ditas, mas sem uma única palavra ser proferida. Ao fundo da cena, as jovens princesas dando-se por satisfeitas e até sentindo-se “sobrando” decidiram que já era hora perfeita para se retirar. Assim, Rilian permaneceu com Meridia em seus braços sem se dar conta da retirada das garotas. Finalmente a princesa decidiu se manifestar:
– Rilian... –ela sussurrou sem querer aquilo que deveria ter soado com voz firme.
– O que? – ele sussurrou de volta, como se tentasse descobrir o que ela queria dizer.
– Me solta... – ela pediu.
Rilian respirou fundo, e antes de fazer o que a garota pedira se manifestou mais uma vez dizendo:
– O que aconteceu com você? Porque não brinca mais com a gente como costumava fazer? – o semblante do rapaz naquele momento estava nostálgico. – Nós costumávamos nos divertir tanto.
– Eu cresci Rilian. – ela esclareceu tentando convencer-se daquilo. – E você também deveria crescer.
E com isso, Meridia ergueu-se por si ficando novamente de pé, ajeitando suas roupas descompostas e jogou a vareta usada antes como diversão no chão e se virando seguindo rumo ao palácio, mas parando no meio do caminho para dizer:
– Logo a rainha dará uma festa, e nela provavelmente eu conhecerei meu futuro noivo. Este tipo de comportamento não cabe a uma moça que está por se casar.
Ouvir aquilo não agradava nem um pouco os ouvidos de Rilian, que franziu a testa naquele exato momento, mostrando insatisfação com a notícia proclamada por sua irmã. Meridia por sua vez, apenas deu sua ultima palavra:
– O jantar será servido às sete. Não se atrase...
E com isso, ela se retirou da visão do príncipe adentrando ao palácio, deixando Rilian com os olhos fixos na porta vazia. Ele bufou pensativo, em seguida lançando a varinha que ainda mantinha em suas mãos o mais longe que sua força podia jogar a mesma.
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