How I Met Marilyn

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Alguma alma viva que goste de Marilyn Manson?

☦ How I Met Marilyn ☦

Esse pequeno relato é sobre como Marilyn Manson e eu nos conhecemos. Sabemos que ele é um grande shock-rocker e que muitos jovens são fascinados por ele. Mesmo que isso não interesse a tantas pessoas, o meu nome é Twiggy Ramirez e eu tive a oportunidade não só de conhecer um dos andróginos mais famosos do mundo, mas também de tocar na banda dele e conviver com ele. Confesso que o nosso primeiro encontro foi engraçado e ao mesmo tempo intenso. Nem em meus sonhos mais ousados eu conseguiria imaginar as coisas loucas que faríamos como companheiros de banda. E eu também não fazia a mínima ideia de que me apaixonaria perdidamente por ele...

—*—

Toco baixo desde criança. Ah, e toco alto também. Piadinhas à parte, o baixo é um instrumento muito importante, infelizmente subestimado. De qualquer forma, a maioria das bandas tem um baixista, você querendo ou não. Como eu também estava interessado em fazer história, decidi que faria parte de uma banda. Procurei no jornal e vi um anúncio bem grande, escrito em letras garrafais:

—*—

MARILYN MANSON, BANDA DE METAL ALTERNATIVO. VOCALISTA DE MESMO NOME. PRECISA-SE DE BAIXISTA.

—*—

— Eureca! – bradei.

Li o endereço e vi que era a apenas algumas quadras de onde eu morava. Tranquilo como um esquilo, peguei o meu baixo e saí andando pela rua, até chegar ao meu destino: Uma casa enorme de grande! Uau, alguém ali da banda tinha bolas para comprar algo decente! Fiquei imaginando os instrumentos incríveis que eles tinham e as roupas chiques que eles usavam... Hum, e eu ali, com o meu baixo velho e o meu jeans sem marca! Que frio na barriga! Só esperava não passar muita vergonha na frente daqueles fodelões.

*TOC-TOC*

Bati duas vezes na porta e esperei.

— Sim? – um sujeito mais do que bizarro abriu a porta, quase me fazendo cair para trás.

— É... – eu o olhei de cima a baixo. Era branco, mas branco mesmo, branco com força! Branco como um albino, branco como um vampiro, branco como o mais imaculado dos lençóis! As empresas de sabão em pó deviam estudá-lo, porque não existia um branco mais branco do que ele.

— O que você quer, pouca sombra? – a sua voz era grave e rouca, dando-me vontade de sair correndo no mesmo minuto. Era uma voz de russo, de russo com dor de garganta. Talvez um russo de ressaca, ou um russo a fim de ceifar criancinhas por aí. Nem um pouco convidativo, eu sabia.

— É... Eu vi o anúncio no jornal. Sou Jeordie White e atuo como baixista. Tenho anos de experiência e quero fazer parte da banda Marilyn Manson! – tentei parecer alto e imponente, mas era impossível ser tão alto e imponente quanto ele. – Aliás, quem é Marilyn Manson?

— Você está falando com ele. – revirou os olhos. E que olhos! Eu mal conseguia encará-los. Eram olhos grandes, perniciosos e estagnados, um de cada cor. Uma íris azul e a outra castanha. Lentes de contato. Marilyn gostava de lentes de contato. E eu sentia que aquele olhar me queimava por dentro.

— Posso entrar? – perguntei, com a voz trêmula. Os braços longos, pálidos e ossudos dele eram completamente tatuados e os seus dedos eram compridos como os de um extraterrestre. Seu peito e abdômen estavam despidos. Eu não podia evitar olhá-los: Eram ainda mais brancos que o rosto dele! Marilyn era quase transparente. Eu conseguia ver várias de suas veias: Roxas, azuis e pulsantes. Seu rosto comprido e quase cadavérico estava coberto por pó compacto, tão saturado de camadas quanto um reboco de parede.

— Sim. Pode entrar. – disse, sem nenhuma expressão facial. Eu apenas sorri de uma forma afetada, limpei os pés no tapete e me embrenhei naquele casarão mal-assombrado. A figura assustadora ao meu lado fechou a porta e me levou até a sala. Eu estava ansioso e com vontade de sumir. Toda a minha confiança estava lá pela sola do sapato, acompanhada da minha autoestima de minhoca.

— Que música você quer que eu toque? – meus lábios tremeram. Manson vestia uma calça preta de vinil extremamente apertada, ressaltando as suas pernas longas e finas. Ele também calçava botas pretas femininas de cano longo, com vários cadarços entrelaçados e imensos saltos plataforma. Como se não bastasse, o sujeito ainda exibia entre os braços um frufru rosa choque. Talvez fosse um frufru de festa à fantasia ou de parada gay, eu não sabia ao certo. Mas a minha mente confusa cismava porque cismava que Marilyn era na verdade uma drag-queen versão from hell. Porque se não fosse, eu já não sabia mais o que era.

— Toque o hino da França! – disse, dando uma risada de escárnio. Ele lambeu os lábios, usando a sua língua tão peçonhenta quanto a de uma jararaca. Eu sentia que seria envenenado pela sua boca em questão de minutos.

— O hino da França? – indaguei, surpreso. Eu nem sabia que a França tinha um hino. Digo, eu nunca tinha me interessado em ouvir a droga do hino de um país que não me interessava em absolutamente nada.

— Eu estou sendo sarcástico. – semicerrou os olhos. – Não acredito que estou lidando com mais um que não sabe brincar... – analisou as unhas longas, afiadas e vermelhas. – Estou entediado... Toque Back In Black, do AC/DC!

Eu toquei. Quase errei algumas notas, afinal Marilyn não tirava os olhos de mim um único segundo, intimidando-me. Talvez ele estivesse testando o meu poder de concentração, ou apenas tentando me devorar com os seus olhos de serpente. Eu não conseguia deixar de prestar atenção na sua maquiagem, tão escura e grotesca... Aqueles olhos estavam tão cobertos por delineador preto que se assemelhavam aos de um panda: Um panda possuído, no mínimo. O batom dele era vermelho, vermelho sangue, destacando aqueles lábios sempre tão proeminentes... Afinal, por que eu estava prestando tanta atenção nele?

Assim que terminei de fazer a linha do baixo de Back In Black, Manson me parabenizou com palmas contidas e educadas. Olhou-me com serenidade, um olhar que eu nem sabia que ele tinha.

— Você se saiu bem. – murmurou. – Conseguiu resistir à pressão do meu olhar ameaçador. É o primeiro, devo dizer. Os caras da banda certamente ficarão impressionados quando eu contar a eles.

— Obrigado... – pus o meu cabelo atrás da orelha e desviei o olhar. – Fiz o melhor que pude... – voltei a olhar para ele. – Mas entendo perfeitamente o motivo pelo qual poucos conseguem te olhar e se concentrar ao mesmo tempo. Você... Você tem o poder de desconcertar as pessoas... – mexi no meu cabelo mais uma vez. Eu estava nervoso, o meu coração batia forte. Era bizarro. Quase tão bizarro quanto ele.

— Eu desconcerto as pessoas? – riu, caminhando empinado e displicente em minha direção. Eu estava sentado num pufe vermelho e institivamente me afundei nele quando Manson se curvou diante de mim e pôs o seu rosto perfeitamente imperfeito na altura dos meus olhos. O seu nariz era adunco, dando-lhe um quê de realeza. Eu não queria olhar nos olhos dele, mas não tinha muita escolha. – O quanto eu te desconcerto?

— O bastante para me dar medo. – sorri timidamente, incomodado como em nenhum outro momento. Levantei-me do pufe e me afastei de Marilyn Manson. Eu não queria tanta proximidade entre nós dois. Aquilo era constrangedor. – Bom, Mister Manson, você acredita que eu seja bom o bastante para a sua banda? Dê a sua resposta o mais rápido possível. Não quero perder o meu tempo.

— Você já é um de nós, Twiggy Ramirez. – anunciou, chamando-me por um nome eu até então não conhecia, mas sentia que era meu.

— Esse é o meu nome artístico agora? – perguntei, não deixando de sorrir por me sentir parte de uma banda, por finalmente me sentir parte de algo. – Mas por que Twiggy Ramirez?

— Porque é o nome de um sex symbol, Twiggy, aliado ao nome de um serial killer, Richard Ramirez. Eu sou Marilyn Monroe, a atriz, e Charles Manson, o assassino. Todos na minha banda têm nomes nesses moldes. Você ainda vai conhecer um por um. Sinto muito não poder apresentá-los agora. Creio que os meus companheiros de banda estejam saindo com as suas namoradas no presente momento. Sabe como é, encontro de casais, cinema, comédia romântica. Eu não tinha namorada para levar, logo não fui. Odeio a solidão. – murmurou, chateado.

— Você não tem namorada? – engoli seco. – Como não?

— Eu não faço o tipo que as garotas gostam. – desabafou, olhos tristes e cansados. – Elas gostam de homens grandes, fortes, morenos e bem vestidos. Já eu? Sou magro, de aparência nem um pouco saudável, pálido como um fantasma, além de me vestir da forma mais amedrontadora de todas. – suspirou pesadamente. – Não que eu queira mudar por elas. Eu amo as minhas roupas, a minha maquiagem, o meu cabelo. – disse, alisando o próprio cabelo com os seus dedos compridos de extraterrestre. E como eu amava os cabelos de Manson, sempre tão negros, longos e lisos, escorrendo sem volume algum até o fim da sua cintura... Como eu queria tocá-los, como eu queria senti-los! Juro que eu imaginava a textura sedosa e o êxtase de tê-la em mãos... Era quase como provar dela! – É que às vezes eu me olho no espelho e penso no que há de errado comigo...

— Nada. – balbuciei.

— O que você disse? – perguntou, um pouco hesitante. Sua voz sempre tão grave e poderosa se encontrava frágil como vidro naquele momento. Eu estava tocando na ferida dele. Qualquer coisa que eu dissesse o faria chorar. Eu sabia. De alguma forma eu sabia.

— Nada. Eu disse que não há nada de errado com você. – murmurei.

— Obrigado. – sorriu. Sorriu tão puramente que eu tive vontade de chorar. Era irreal. Eu parecia uma menininha perto dele, tão indefesa quanto um cervo na campina.

— Vou me mudar para cá? – perguntei, mudando de assunto.

— Não tem necessidade. – deu de ombros. – Mas a casa é sua sempre que precisar. – sentou-se num banquinho que dava para a janela e permaneceu ali, com a mão no queixo, observando as crianças que brincavam pela rua e o Pinscher barulhento da vizinha que latia até para um fiapo de grama fora do lugar. Manson achava a vista bonita. Eu o achava mais bonito ainda.

Apenas alguns segundos se passaram, porém pareciam anos. Eu analisava cada mísera parte do rosto dele, desejando tocá-lo. Eu nunca tinha sentido nada parecido por um homem. Mas Marilyn era como uma garota; uma garota bonita. Eu me perdi; perdi-me olhando para ele. Sonhei acordado durante tanto tempo que me assustei quando o objeto da minha admiração me trouxe de volta à realidade:

— Twiggy? – Marilyn parou de observar a janela e virou o rosto na minha direção, justo no momento em que eu estava olhando para ele. Seriamente falando, tentei disfarçar, mas era impossível: O meu rosto estava tão vermelho quanto a bandeira da China. – Você está olhando para mim?

— Não, eu... – entrelacei meus dedos um nos outros. Senti uma gota de suor escorrer pela minha nuca. – Digo... Você me surpreende... – eu sabia que não estava falando coisa com coisa, mas era o máximo que eu conseguia falar, no estado em que me encontrava.

— Twiggy... – ele se levantou do banquinho e veio na minha direção. Sua mão grande, porém delicada, tocou o meu ombro. Senti todo o meu corpo esfriar. Tremi. – Você não precisa ter medo de mim. Não precisa prestar atenção em mim o tempo todo, pensando que eu vou te matar.

— Matar? – incrível como ele ainda não tinha percebido. Manson estava pensando que eu o olhava por desconfiança de que ele fosse uma ameaça. Não, não! Eu o olhava por admiração, por vontade de estar perto... E ele precisava saber disso! – Marilyn... Eu sei que isso é tão estúpido e infantil, mas... Eu... Eu... – eu não conseguia admitir. De jeito nenhum.

— Entendo. – tocou o meu rosto e o acariciou. Eu senti um arrepio descer pelas minhas costas. Fechei os olhos. Nunca uma mão tão perfeita tinha me tocado. Aqueles dedos deslizaram pelos meus lábios. Eu estava gelado de pavor. Era maravilhoso.

— Você... Você entende? – indaguei, estático e envergonhado. Eu parecia tão doente, tão impuro, tão...

Marilyn não teve pudores, eu sabia que ele não tinha. Tão somente aproximou a sua boca de meu ouvido e fez da sua voz grave o som mais sedutor de todos os tempos:

— Você me quer? – as minhas pernas amoleceram. Eu quis morrer. Eu quis morrer nos braços dele.

— Desculpa... – murmurei.

— Desculpa por quê? – perguntou.

— Por ser tão idiota. – abaixei a cabeça e enxuguei uma lágrima. Voltei a olhar em seus olhos. – Posso tocar o seu cabelo? Eu ando querendo fazer isso desde que cheguei.

— Você não é o primeiro a pedir isso. – riu. — Não sei o que as pessoas veem no meu cabelo. Não há nada de excepcional nele. – segurou uma mecha e me permitiu tocá-la. Eu me mantive um pouco hesitante. – Não seja tímido. Finja que o cabelo é seu.

— É tão lindo... – meus dedos se perderam em meio a tantas madeixas negras e lisas. Eu não tinha o cabelo tão perfeito quanto o dele. Acho que ninguém tinha. – É lindo, é lindo mesmo...

— Está falando do cabelo? – olhou-me de uma forma sedutora – Ou de mim? – o meu rosto já não era mais um rosto; era um pimentão. Usei uma das mechas do seu cabelo para cobrir as minhas bochechas. Tolice a minha. Quem não veria aquele rubor? Era preciso ser cego. Ou um bom fingidor.

— Marilyn... – eu estava rindo, mas queria desaparecer como um ninja numa nuvem de fumaça. Ele me deixava nervoso e constrangido. O tempo todo. Sem descanso. Ainda assim, eu tentava me manter dentro da realidade, sem perder os meus limites. Eu continuava acariciando os seus cabelos. – São fios tão delicados... Eu poderia brincar com eles pelo resto do dia...

— Fios delicados? – os meus dedos curiosos exploraram mais uma vez o seu cabelo. Manson tocou a minha mão com as suas unhas compridas. Arrepiei-me. Cogitei a ideia de ser arranhado por elas. Engoli seco e suspirei. – As suas mãos que são delicadas... É um toque tão gentil... Tão inocente... Quase como o de uma criança.

— O quê? Você gosta das minhas mãos? – questionei, surpreso. Ele assentiu. – Não, as suas que são bonitas... Tão pálidas, com dedos tão compridos... E essas unhas longas e vermelhas... Eu quero tanto...

— Toque-me. – estendeu uma das suas mãos perfeitas bem diante dos meus olhos. Tentador. Irrecusável. Não tive outra escolha senão percorrer os meus dedos por aquele pedaço de loucura, sentindo cada veia roxa saltada por baixo da encantadora pele imaculada. – Você me dá arrepios, sabia? – entrelaçou seus dedos nos meus.

— Isso é bom ou ruim? – a minha mão tremeu dentro da dele. Aquelas unhas me pressionaram de leve, como se Marilyn não quisesse que eu o soltasse. Seus olhos agridoces transbordavam de desejo.

— Você está com medo? – o rosto mórbido de Manson se aproximou lentamente do meu, intimidando-me. Aqueles olhos eram tão provocativos e devoradores... Eu recuei o máximo que pude, até acabar encurralado na parede pelos braços longos e tatuados de meu companheiro. Ele segurou o meu queixo com delicadeza. Inevitavelmente senti a sua respiração pesada. – Você quer isso?

— Eu quero tudo, desde que seja seu. – fechei os olhos e aguardei. Meus lábios foram agraciados com os dele, tão quentes quanto eu imaginava. Eu me encolhi na parede, perdendo o fôlego. Abri ligeiramente a boca para sentir a sua língua. Ele me pressionou na parede e quase me sufocou com a sua voracidade. Puxei o seu cabelo de leve, fazendo-o suspirar. No segundo seguinte, senti as suas unhas afiadas apertarem a minha cintura. Eu retribuí o seu beijo com carinho e loucura; já queria aquilo há muito tempo. Permiti a mim mesmo: Permiti experimentar da paixão e de todo o seu desespero. Estar com ele era como morrer; morrer sem sentir medo.

Quando terminamos, confesso que me senti estranho. Eu tinha acabado de beijar Marilyn Manson. E eu mal sabia que, anos depois, ele se tornaria tão importante para tanta gente. Todo aquele sucesso ainda estava muito distante da nossa realidade.

— Fizemos algo muito errado agora... – murmurei, ainda em seus braços.

— Por que, Twiggy? – pôs o meu cabelo atrás da orelha. – Foi só um beijo...

— A gente confundiu um pouco as coisas, você não acha?

— Talvez, mas foi uma confusão boa, você não acha? Digo... – pensou bem nas palavras que diria a seguir. – Eu não estou arrependido.

— Eu também não.

☦ Fim ☦

Notas finais
Se você gosta da banda e escreve sobre o assunto, saiba que eu adoraria ler a sua fic. Mande-me uma MP e vamos falar sobre os nossos CDs e serial killers favoritos.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!