Notas iniciais
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Após algumas horas de vigia, cutuquei James e pedi para que ele assumir o posto. Ele concordou. Enrolei-me no farrapo de cobertor que tenho, deitei no canto do quarto e fechei os olhos, pela primeira vez em muito tempo dormindo com um pouco de paz.

A luz do sol entrou pela janela e me acordou suavemente. Não posso dizer a mesma coisa de Troian.

- Levanta – ela puxou meu cobertor e o frio me agarrou como um monstro – Hoje nós vamos para São Francisco.

Bufei, puxei meu cobertor de sua mão e encarei-a ferozmente.

- Como pretendem ir para São Francisco, Vossa Inteligência? – falei — Estamos em Manhattan.

- Se me permite dizer – disse Damon arrumando sua mochila – Eu consigo andar pelas sombras, senhorita. Vós sois bem vindas para nos acompanhar.

- Ninguém mais diz vós e sois, cara – respondeu Caleb mordendo uma tirinha de carne – Experimente dizer: Você e é.

- Vose – Damon franziu a testa – Francamente, opto pela minha linguagem erudita.

Caleb riu.

- Erudita – falou – Como Divergente?

- Desculpe-me?

- Esquece – Caleb ficou de pé e ajudou Anne a levantar-se – Carollyn, querida, levante-se também, ou Troian vai te arrastar pelos cabelos. Alguém acorde Peter, por favor.

- Levanta – James deu um pontapé leve no filho de Atena, que resmungou e praguejou.

Levantei, guardei meu cobertor na mochila e comi uma barrinha de cereal.

- Você realmente vai andar pelas sombras? – perguntei a Damon – Isso vai atrair a atenção dos monstros.

- Como um farol – assentiu Damon – Mas sempre que andamos pelas sombras, corremos para um lugar seguro.

- Posso usar um feitiço de ocultamento, como o que eu usei nesse prédio – falei.

Peter sorriu.

- Filhos de Hécate, o que faríamos sem eles? – perguntou.

Coloquei minha mochila nas costas e a espada na bainha. Os seis semideuses deram as mãos enquanto eu começava a murmurar os encantamentos. Eles me olhavam fascinados por realizar magia só com murmúrios, isso encheu meu ego. Há muito tempo aprendi que quanto mais simples a magia parecer às pessoas, mais temido é o feiticeiro. A verdade é que cada feitiço me desgasta um pouco, ainda mais do que na época em que os deuses viviam.

Runas brilhavam em verde claro quando as sombras surgiram. Pulei nas sombras junto com meus novos companheiros. Anne estava num tom estranho de verde, Caleb estava pálido. As runas brilhando eram lindas aos meus olhos, mas Peter olhava com curiosidade para elas.

Caí de costas no pavimento de um estacionamento. Péssima escolha, Damon, péssima escolha.

- Semideuses! – gritou uma dracaena.

Vários monstros surgiram. Monstros em roupas de escritório, policiais, professores. Aquilo me encheu de raiva. Eles roubaram nossa vida, tiraram nossa paz, e agora querem se passar por nós?

- Ignis! – gritei levantando as mãos.

Fogo formou um círculo a nossa volta. Troian tirou três flechas da aljava e disparou, transformando monstros em pó. Não adianta, eles não morrem por mais que vinte minutos.

- E agora, gênia? – rosnou a ruiva – Você nos prendeu num círculo de fogo.

- Confie em mim – falei com a raiva ainda retumbando nos meus ouvidos – Damon, por favor, diga-me que você tem algum poder sobre a terra.

- Sim, Hades é o deus do submundo.

- Perfeito.

Um sinal com as mãos e o fogo ergueu-se como uma serpente no céu. A serpente rastejou por todo o estacionamento, queimando carros e monstros. Explosões vieram de todos os lados, meus companheiros estavam assustados, mas eu apenas me concentrava em manter o fogo vivo. Ele era alimentado com toda a minha frustação como semideusa por ver Gaia vencer.

Ouvi sirenas policiais. Como eles ousam ter policiais?! Como um último gesto de rebeldia, joguei todo o fogo em direção à base policial dos monstros. Gritei para Damon. Ele acenou para o chão e a terra cedeu, nos engolindo e nos escondendo dos monstros.

Meus braços doíam e meus pulmões estavam em brasa, como se eu tivesse corrido uma maratona. Mas eu nunca me senti tão feliz por usar o INCENDIO EM LATIM antes. Olhei para os lados e vi que estávamos em um túnel escuro debaixo da terra.

- Que loucura foi essa? – perguntou Anne – Garota, juro que quase saí correndo quando vi aquela serpente de fogo.

- Foi sinistro – confirmou James – E olha que poucas coisas são sinistras para mim.

- Obrigada – sorri tirando um pouco de suor da testa.

- Agora, voltando à situação atual – Peter disse – Será que alguém percebeu que estamos dentro da terra? E, tipo, o nosso inimigo é a própria terra.

- Essa não é uma terra comum – Damon tocou a parede de pedra – Dá para sentir a magia fluindo das paredes.

Era verdade. A magia que o túnel emitia era como um abraço caloroso de uma mãe. Quando Troian ligou sua lanterna e iluminou as paredes, vimos runas poderosas de proteção.

- Onde diabos nós estamos? – sussurrei.

A resposta foi o toque gelado de bronze celestial contra o meu pescoço.

- Não se mexam – instruiu uma voz de garoto – Sigam-nos.

Fomos levados à ponta da espada por pessoas que nem mesmo conseguimos ver. Andamos por quinze minutos, ou talvez menos, até chegar a um salão imenso, do tamanho de uma catedral, iluminado artificialmente. Pessoas andavam de um lado para outro, várias passagens negras que levavam a outros túneis. No fundo do salão, havia algo como uma casa grande fechada pedra, com uma porta de carvalho negro e uma janela.

As pessoas nos levaram para aquela casa. A porta foi aberta por uma loira de olhos verdes que tinha uma faca na nuca de Caleb. Na verdade, a casa era um escritório. Estantes de livro cobriam as paredes e uma longa mesa de madeira com papéis, relatórios e um pote de jujubas.

- Senhora – disse o garoto que mantinha a espada na minha nuca quando entramos na sala – Achamos estas pessoas desautorizadas nos túneis.

Havia uma garota sentada à mesa, com dois galgos metálicos a escoltando, um de ouro e outro de prata. Ela parecia ter dezessete anos, mas seu olhar era maduro e firme. Usava uma camiseta roxa do Acampamento Júpiter, casaco militar, jeans negros e coturnos, e conseguia fazer tudo isso parecer uma combinação de roupas elegantes e intimidantes ao mesmo tempo. Tinha olhos castanhos quase negros, pele bronzeada, cabelos negros presos numa trança longa sobre o ombro, nariz reto e uma aparência severa.

James, Troian e Caleb caíram sobre um joelho.

- Senhora Pretora – disse James respeitosamente – Sabia que os boatos sobre sua morte eram totalmente infundados.

A garota sorriu, mas seus olhos não a acompanharam.

- Todos nós estamos meio mortos, na verdade – ela disse – Levantem-se. James Thill, filho da guerra. Troian Goldstein, uma das melhores arqueiras que tive o prazer de conhecer. Caleb Eason, o herói sobre pés velozes.

Eles se levantaram.

- Meu irmão está aqui? – perguntou James.

- Brutus Thill é o nosso instrutor de esgrima – disse a garota – Tyler, Jeremy, podem nos deixar. Bonnie, fique.

Os semideuses que nos escoltaram até lá saíram do escritório, deixando somente a garota loira que escoltou Caleb.

- Conheço os romanos, mas os gregos ainda são desconhecidos para mim – a garota disse – Meu nome é Reyna, sou a pretora do antigo Acampamento Júpiter e uma das atuais líderes dessa resistência.

- Sou Anne Smith, filha de Dionísio – apresentou-se.

- Damon Roy, filho de Hades.

- Peter Saggio, filho de Atena.

- Carollyn Black, filha de Hécate.

Os olhos de Reyna brilharam na nossa direção.

- Que gregos interessantes temos aqui – ela disse – Já conheci filhos de Atena e Hades antes. Annabeth Chase e Nico Di Ângelo, respectivamente. Ambos a bordo Argo II. Ambos mortos – ela suspirou com tristeza – E você, Carollyn Black, seu irmão ficará muito feliz em vê-la.

Franzi a testa.

- Irmão? – perguntei. Não existem muitos filhos de Hécate, meus irmãos morreram na Batalha de Manhattan, quando lutamos no lado de Cronos, liderados por... – Deuses, ele está vivo ainda?

- Ele é muito esperto – Reyna disse – Foi ele quem encheu nossa caverna e túneis com magia. Ficou de cama por duas semanas por causa do desgaste que a magia causa. Está bem agora. Eu reparto a liderança dessa resistência com ele.

Não posso negar que será reconfortante ter um parente direto para conversar.

- Vocês devem estar cansados – disse a pretora – Bonnie, leve-os para as casas de banho e depois mostre os dormitórios e o Refeitório.

Começamos a sair do escritório atrás de Bonnie, mas Reyna disse:

- Não você, Carollyn Black, eu quero trocar algumas palavras com você.