Notas iniciais
Então, como prometido, depois de 466584652652315 dias sem postar, aí está o capítulo... 21 se não me engano -q espero que gostem ^^

Ele abriu a porta com violência e desabou ao chão, enterrando as mãos entre os joelhos. Chuck não podia aceitar. Não queria. Simplesmente não conseguia... Peggy esperando um filho de Pierre! Aquilo era demais para ele. Era mais do que ele podia suportar. Os últimos minutos tinham sido como uma tortura para ele. Imaginar Peggy, feliz, com um bebê nos braços e Pierre ao seu lado como um pai dedicado... Ele não conseguia imaginar nada pior do que aquilo...

Desesperado, ele tentou enganar sua mente, pensando que a revelação de Pierre não passava de uma brincadeira, que aquilo era apenas um pesadelo do qual ele iria acordar a qualquer momento. Sua cabeça girava enquanto ele tentava, inutilmente, desviar seus pensamentos da cena dolorosa da felicidade. Peggy não podia fazer isso com ele, era injusto demais depois de tudo que ele fizera por ela... Tudo o que ele sofrera por ela...

O Simple Plan estava acabado, e ele sabia que nada poderia trazê-lo de volta por que Pierre, e nem os outros, iriam aceitá-lo de volta. Todos o consideravam um traidor, mentiroso e manipulador, mas ele não se importava com isso. Já se fora o tempo em que ele se preocupava em manter a imagem de um músico talentoso e amigo de todos. Não havia espaço para mais nada em sua vida além de Peggy... Se ela fosse sua... Se houvesse alguma forma de fazê-la ficar com ele, o mundo inteiro poderia morrer que ele não se importaria.

Mas agora... em pensar que uma parte de Pierre estava crescendo dentro dela, se fortalecendo a cada segundo... Chuck cerrou os punhos e esmurrou o pé da mesinha de centro com violência. Sua vontade era de interpelá-la naquele mesmo momento, de arrancar aquilo de dentro dela com suas próprias mãos...

Mas ele não podia... pelo menos não naquele momento... Peggy jamais o perdoaria se ele a fizesse perder o filho, e ele não suportaria conviver com isso.

A raiva se apoderou ainda mais de Chuck quando ele pensou em David. Se ele tivesse sido mais rápido, se ele não tivesse se apaixonado por Bel, se não o tivesse traído... Se, se e SE! De que adiantavam as condicionais agora? Mudar o passado era impossível, e o culpado de tudo era David! Peggy não estaria grávida agora se David não tivesse o abandonado. Peggy...

Chuck soltou um longo suspiro doloroso quando sua mente foi novamente invadida pela sua imagem. Tentando afastá-la, ele se levantou lentamente. Decidiu que se ficasse ali parado, jogado ao chão da sala, acabaria louco. Então ele foi até o banheiro, decidido a tomar uma ducha para se acalmar e refrescar a cabeça. Logo os jatos de água eram lançados sobre ele e, enquanto a água fria corria livremente pelo seu corpo, uma ideia começou a brotar em sua mente. Ele sabia que não poderia fazer nada contra David, porque Seb e Jeff estariam de olho, mas... se ele agisse indiretamente, eles não teriam como culpá-lo de nada. É claro que nada poderia aliviar a dor de ter perdido Peggy definitivamente para Pierre, mas o pensamento de que David sofreria por isso já lhe dava um certo consolo. Sorrindo, Chuck desligou o chuveiro. De alguma forma, David iria pagar pela sua traição.

***

Já passava do meio-dia quando ele chegou ao local combinado. Fora difícil se acalmar depois do telefonema de Chuck, mas David decidiu que não havia motivo para ter medo agora. Tinha consciência de que fizera o certo, por mais difícil que tenha sido dizer a verdade para Pierre e perder os amigos e o Simple Plan. Tudo tinha acontecido tão rápido, e David ainda sentia como se um vendaval tivesse passado pela sua vida, deixando tudo de pernas para o ar.

Tentando manter a cabeça no lugar, ele entrou na lanchonete. Porém, ao avistar Chuck o esperando a um canto do lugar, David não pôde evitar oscilar. Os últimos dias ainda estavam muito vívidos em sua mente, e as ameaças de Chuck, “você vai me pagar por isso, David...” pairavam sobre ele como um mau augúrio. Lentamente, ele caminhou até o ex-baterista. Afinal eles estavam em público e Chuck não poderia fazer nada contra ele ali.

-David... – cumprimentou Chuck displicentemente.

-Você queria falar comigo? – Sua voz saiu mais tremida do que ele esperava.

-Sente-se! – Mandou ele.

David contornou a mesa e foi se postar à frente do amigo. Ou ex-amigo...

Chuck injetou-lhe um olhar de puro rancor, ao que David engoliu em seco.

-Eu acho que não preciso lhe dizer o quanto me decepcionei com você. – começou ele – Eu o julgava leal, mas agora vejo que sempre estive sozinho...

-Eu nunca deixei de ser leal a você, Chuck. Eu te protegi esse tempo todo, sempre me preocupei com você. – Disse ele, enchendo-se de coragem.

Chuck gargalhou debochadamente.

-Claro! Até que Bel virou a sua cabeça, não foi? Você não se preocupou comigo quando contou tudo pra ela. A ela, uma estranha, você não hesitou em revelar todas as minhas fraquezas e os segredos do meu passado, coisas que só diziam respeito a mim!

-Mas você as usou para machucar Pierre... Não estou dizendo que você fez de propósito, mas sua obsessão em esconder as coisas só serviu para que ficasse cada vez mais cego...

Chuck o fuzilou com o olhar.

-Você acha que tem moral para me dizer isso? Acha que o que fez comigo foi justo? – Seu tom de voz foi se tornando mais ameaçador a cada sílaba.

David abaixou os olhos para a mesa. Suas mãos tremiam.

-Você não pode achar realmente que o que fez foi correto... – disse ele baixinho.

-Não importa! Não interessa se o que fiz foi certo ou errado, David, eu só quis preservar o Simple Plan! A banda pela qual demos o nosso suor e sangue! Pela nossa amizade! Os outros não precisavam saber, era só você manter a sua boca fechada que tudo ficaria bem, como sempre esteve, mas nem para isso você serve... eu devia mesmo ter imaginado que um fraco como você não agüentaria ser pressionado, que acabaria dando com a língua nos dentes, mas não! Eu fui um tolo... Eu confiei em você, David! Confiei meu maior segredo a você, o que eu não tinha coragem de admitir nem mesmo para mim, com a esperança de que você me ajudasse a superar o estrago que meus pais fizeram na minha vida, e você me traiu... me abandonou como um rato abandona o navio ao primeiro sinal de fragilidade. Eu não tenho orgulho nenhum em dizer que errei!

Consternado com as palavras de Chuck, David não pôde evitar que as lágrimas começaram a correr pelo seu rosto. O amigo estava sendo duro demais com ele.

-Eu só quis consertar as coisas... – foi tudo que ele conseguiu dizer dentre os soluços.

-Você devia ter confiado em mim ao invés de fazer tudo por conta própria. Você estragou tudo, David! Você destruiu o Simple Plan! Se tivesse feito tudo o que eu disse, se não tivesse perdido a cabeça por causa de uma paixonite estúpida, o Simple Plan ainda estaria de pé e Pierre não quereria nos ver pelas costas, mas agora está tudo acabado.

-Mas talvez ele ainda estivesse com a Peggy e não precisaria viver longe do filho...

David não poderia ter dito nada pior! Ao ouvir isso, Chuck sentiu a raiva se apoderar de seu corpo, e todas as suas tentativas de se manter calmo, descarregando um pouco de sua frustração em David, caíram por terra. De um salto, ele se levantou da cadeira, fazendo-a cair para trás. Chuck agarrou as vestes de David com violência e o encarou com uma expressão letal em seu rosto.

-Como você se atreve? Como tem coragem de me dizer uma coisa dessas?

David se sentiu sufocado e seus olhos saltaram das órbitas.

-Me... desculpe... Chuck... não quis... perdoe... – tentou dizer ele, mas estava banhado em lágrimas e as palavras não saíam como ele queria.

-Você é um estúpido idiota! – Bradou Chuck, mas parou ao perceber que estava gritando.

À sua volta, as pessoas o olhavam com assombro. As conversas haviam cessado e todos os rostos estavam voltados para Chuck. Percebendo isso, ele soltou David e passou as mãos sobre o cabelo compulsivamente, tentando se controlar. Pôs a cadeira no lugar novamente e se largou nela, ainda com os olhos em David. O baixista ainda chorava como criança.

-Acho que não temos mais nada para conversar. – concluiu Chuck, com a raiva contida. – Vai lavar essa cara, você me envergonha chorando em público desse jeito.

Ainda tremendo, David se levantou e caminhou até o banheiro da lanchonete. As pessoas o observavam com uma mescla de receio e compaixão. A meio caminho, ele tropeçou em uma menina, fazendo-a derrubar o suco que levava.

-Me desculpe... – ele se apressou a dizer, com a cabeça ainda baixa.

A garota correu em direção a mãe e David entrou no banheiro se sentindo ainda pior, se é que isso era possível.

Lá na mesa, ao fundo do bar, a expressão de Chuck não poderia ser mais sombria...

***

David saiu do banheiro recomposto. Estivera trancafiado uns trinta minutos em um dos boxes, chorando intensamente, o rosto coberto pelas palmas das mãos, mas agora que saíra, sua aparência revelava impassibilidade. Aliviado, ele percebeu que Chuck não estava mais ali, então voltou até a mesa uma última vez para apanhar as chaves que se esquecera de carregar por causa do seu acesso compulsório. Feliz, ele reparou que as pessoas não mais o olhavam como um bicho estranho, mas haviam voltado às suas conversas particulares.

Ao alcançar a rua, porém, David logo se deu conta de que não podia simplesmente virar as costas para seus infortúnios. Mesmo no conforto de seu carro, eles não o deixavam em paz. A única diferença era que agora Chuck não estava mais ali para torná-los ainda piores.

David ligou a ignição do automóvel antes de dar uma boa olhada em seu rosto no espelho retrovisor. Estava horrível, mas ele esperava dar um jeito nisso quando chegasse em casa. Engatando a primeira marcha e girando o volante habilmente, ele deslizou o carro até o tráfego de trânsito.

David se sentia cansado e derrotado. Talvez ele procurasse Bel mais tarde, mas ainda tinha medo de que a garota se recusasse a falar com ele agora que conseguira desvendar toda a verdade. Pesaroso, ele soltou um longo suspiro. O tráfego não estava muito engarrafado naquele momento e logo ele poderia chegar ao seu prédio. David mal podia esperar por se livrar daquela roupa imunda e desabar a cama. Sua vontade era de dormir o máximo possível para esquecer-se da conversa desastrosa que tivera com Chuck...

Ao pensar no ex-amigo, David se sentiu desolado. Sabia que há muito a alma de Chuck estava perturbada e não podia deixar de pensar que tinha uma parcela de culpa em tudo o que andava acontecendo ultimamente. Afinal fora por causa dele que Chuck havia começado essa empreitada destrutiva. Fora David quem dera a ideia de separarem Peggy e Pierre. Como ele fora estúpido! Agora o Simple Plan estava acabado e Pierre jamais o perdoaria. Chuck estava certo, ele era o culpado. Com um aperto no peito, ele pensou que as coisas nunca mais voltariam a ser como eram antes...

Então as imagens dolorosas tiveram que dar espaço para a apreensão, porque, de súbito, ele teve que frear o carro. Distraído como estava, David quase se chocou com um Opala preto que vinha à sua frente. Algo mais adiante estava fazendo com que os carros andassem mais devagar, e ele apurou os olhos para ver além.

Uma blitz policial estava fazendo uma barricada, parando todos os carros que passavam por ali. Talvez estivessem atrás de algum foragido, e isso só serviria para que David chegasse ainda mais tarde em casa.

Logo uma fila de automóveis estava formada, todos eles com motoristas mal-humorados por terem que perder tempo com aquilo. Mas David percebeu que eles eram liberados assim que apresentavam os documentos, então ele esperou com os seus em mãos e o vidro abaixado.

-Documentos, por favor! – Ordenou um policial assim que chegou a sua vez.

David entregou-os na mesma hora, e aguardou ser liberado como os outros. O policial se demorou, esquadrinhando o documento com os olhos apertados. Então ele fez um gesto, chamando um segundo policial, e eles trocaram algumas palavras em voz baixa. De vez em quando, eles lhe lançavam olhadelas furtivas, e David, desconfortável, passou as mãos sobre o cabelo, tentando assentá-lo no lugar. Talvez eles estivessem apenas falando sobre o seu estilo incomum...

O primeiro policial se aproximou novamente, dando novas ordens:

-Saia do automóvel!

David arregalou os olhos, tentando entender, mas obedeceu prontamente. O policial o fez caminhar alguns passos e instruiu-o a colocar as mãos sobre a cabeça. Enquanto ele o apalpava, procurando algo que David não podia imaginar o que era, o segundo policial revistava o carro.

-O que está havendo? – Ele perguntou, incapaz de se conter.

-Estamos verificando uma denúncia...

A explicação do policial se perdeu quando o outro deu um grito de excitação.

-Pensou que podia passar por nós com isso, não foi, espertinho? – Exultou ele, ao chegar até David balançando algo que ele desconhecia.

-Desculpe, mas não entendo... – Começou David.

-Não tente se fazer de desentendido, você foi pego em flagrante!

-E quanto tem aí? – quis saber o primeiro.

-Vinte! Vinte papelotes de cocaína pura!

David arregalou os olhos, espantado. De onde tinha vindo aquela droga toda?

-Eu... não sei como isso pode ser... nunca vi essa droga na minha vida... – disse ele com a boca seca, tentando explicar. Seu rosto estava lívido como uma folha de papel.

Os policiais riram.

-Não adianta, você está encrencado. – falou um deles, enquanto o outro tirava um par de algemas da cintura.

As pernas de David começaram a tremer.

-Você está preso por porte ilegal de entorpecentes, Senhor David Desrosiers! – Declarou ele energicamente.

-O quê? – Exclamou David, muito espantado.

Mas era tarde demais... As algemas se fecharam sobre seus punhos com um baque seco, fazendo-os doer.

Notas finais
Semana que vem tem mais ;* [/queromeusreviews]