How

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Dois revolveres, duas pessoas, cinco anos, alguns meses, muitos motivos e uma mesma finalidade: a morte. É a saída mais pertinente pra quem se vê excessivamente como um peixe fora d'água e já está cego de desilusões e frustrações repetitivas.

Entramos no quarto, eu na frente e ele depois, fechando a porta com várias voltas na chave, jogando-a por baixo do vão. Quando ele se virou, eu já estava sentada em sua cama, fitando o nada. Ele se aproximou e sentou do outro lado, quase de costas pra mim e, depois de um longo tempo em silêncio me virei pra ele, colocando uma perna dobrada pra cima da cama.

-Por que tudo isso?

-Não tem mais jeito. Acabou, e você sabe disso.

-Mas você é tão inteligente, tem tantas virtudes e tanta coisa pra mostrar ao mundo...

-Pára! Na boa, pára... Nada do que você me disser agora vai fazer eu mudar de ideia. — Disse ele no mesmo tom áspero e seco de sempre.

Levantei-me e fui pra longe dele. Era no mínimo insuportável a ideia de não ouvir aquele tom de voz rude outra vez. Percebi sua leve hesitação e esperei.

-E você? Por que? — Ainda arrogante em suas palavras.

O fitei por um instante muito curto pois meus olhos queimavam ao cruzar com os dele.

-Eu não consigo mais lutar. Na verdade nem sei mais pelo o quê lutar. Não sei o que quero... Nunca me vi tão perdida em dezoito anos. — Respondi olhando pro chão, até ele rir, debochando. — Que que é?! Porra, você não entende...

-É lógico que eu te entendo! Pára de histeria. Se eu não te entendesse, não faria isso com você.

-Então por que você sempre ri?

-Eu acho um desperdício, um puta desperdício. Se eu pudesse voltar cinco anos atrás...

-Não! Você não pode!

-Ah, jura? — E revirou os olhos.

Respirei fundo e comecei a andar de um lado pro outro. Ele também suspirou e curvando o corpo, apoiou os cotovelos nos joelhos e cruzou as mãos, pousando o nariz sob os dedos indicadores, apontados feito uma arma.

Depois de muito ir daqui-ali em seu quarto, me bateu um desespero inexplicável. Uma mistura de pânico por não saber pra onde ir, com a certeza de que não dava mais pra voltar atrás. Então me encostei na parede, deslizando até chegar no chão e chorei a seco. Era uma dor, um pedaço enorme de mim sendo amputado com faca de cozinha. Não saía som, tampouco lágrimas, mas doía. Aquele vazio impossível de se preencher, uma lacuna impossível de se completar... Enfim, lágrimas.

Ele olhava pra mim com aflição, mas se mantinha firme pra não se entregar á minha dor e sua respectiva pena. Estiquei as pernas e quando abri os olhos, ele estava ajoelhado entre as minhas pernas. Perdi todo o ar, além do susto, tê-lo muito perto me dava arrepios.

-Pára de chorar. Isso vai acabar logo, eu prometo.

Eu tentei me recompor, tomando ar o suficiente pra explodir meus pulmões e me limpei. Não conseguia mais parar de olhá-lo. Talvez tenha deixado pra lá aquela história dos meus olhos queimarem e tenha tomado coragem para encará-lo de igual pra igual.

-Pára de me olhar assim.

-Assim, como? — Perguntei, hipnotizada.

-Com essa cobiça evidente. Eu não tenho nada pra te oferecer.

-É isso o que você diz pra tudo.

-O que você quer que eu faça?

-Você sabe muito bem.

-Não insiste... Eu não tenho nada pra te dar.

-Será que não tem mesmo?

-Se você quer, pegue-o.

-Mesmo?

-Tenta a sorte. — Dando-me os ombros.

Eu não sabia o que fazer, ali e em toda minha vida. Fiquei assustada feito um bicho encurralado pensando "poxa, depois de todos esses meses..." até que despertei, quando ele fechou a cara enquanto se preparava pra se levantar.

Agarrei-o com toda minha força pelo colarinho de sua camisa e dei-lhe um beijo com uma entrega jamais feita por mim antes. Demorei a ser correspondida mas fui bem recompensada. Senti como se não houvessem mais paredes e teto, somente o chão, e as nuvens desabrochando no céu cinzento. Eu não sabia como parar... Meu desejo estava sendo saciado como quem passa anos no deserto e de repente se afoga no mar, o mais profundo.

Ele começou a pestanejar, do tipo "chega, você já tem o suficiente", mas eu insistia. Mesmo sem mais tocar seus lábios, podia sentir sua essência, as batidas do seu coração e o abracei forte. Era nítido o meu carinho por ele... Tinha que ser! E ele por mais pedra que fosse, se sentiu tocado em sentimento.

Segurei suas mãos e continuei com a cabeça apoiada sobre seu peito. Ele me apertou uma e soltou d'outra para poder afagar meus cabelos.

-Vamos acabar logo com isso. — Disse, com certo pesar.

Indo em direção ao criado mudo, pegou os dois revolveres guardados na gaveta sob uma flanela amarela-trigo. Fui ao seu encontro e abracei suas costas, envolvendo-o em meu pequeno colo em comparação á seu corpo robusto. Em uma das minhas mãos, ele posicionou uma das armas e desenrolou-se do meu abraço, voltando a ficar de frente pra mim.

Minhas mãos tremiam e isso piorou depois que soltei da sua e comecei a manusear o objeto com mais atenção enquanto ele me observava. Bang-bang! Tentei brincar com ele e fiquei surpresa com sua reação, estaticamente.

Com o revolver na mão, ele rebateu minha mão armada e deslizou o cano da sua arma no meu lábio inferior até minha camisa. Não sei se ele queria me zoar, me descontrair ou se já estava completamente louco. Não havia mais volta ou solução, se não me entregar ao momento também. Pelo menos eu estava feliz com alguém especial.

-Fica aí, não se mexe. — E, não que eu o obedecesse mas, não conseguiria mesmo me mexer, fiquei ali. Ele correu pra poder ligar o som e aumentá-lo no último volume. Ao voltar, engatilhou a sua e apontou firmemente á mim. — Senta. — Inclinando a cabeça para mostrar-me a cama. Agora meu corpo tremia por inteiro, estava perdida em meus sentimentos de admiração, medo e atração, todos rodando dentro de mim. Louco... Era só isso que eu poderia atribuí-lo.

Não resisti quando ele veio suavemente pra cima de mim. Não soltei da arma e o envolvia pelo peito da mão em seu pescoço, beijando-o de olhos abertos pois, era difícil demais acreditar que aquilo que eu almejava feito uma idiota, tornou a acontecer bem nessa hora que estávamos marcados pra morrer. Senti raiva.

-Deixa eu mudar sua vida, pelo amor de Deus... — Implorei-o, eu não podia deixá-lo morrer.

-Eu seria injusto com você, não jogaria limpo...

-Mas é pra isso que essa merda de vida serve. Ninguém joga limpo e nada é claro pra nós. Eu não quero que você morra... Você não pode...

-Shh... — Posicionando o cano exatamente em meu coração. — Eu jamais poderei retribuir o que você quer fazer comigo. A vida tem dessas, você se sacrifica por tudo que lhe convém sem receber nada em troca na maioria das vezes.

-Não precisa me amar.

-Ainda que eu quisesse... Eu não consigo.

-Você aposta suas fichas aonde você pensa que te convém. Se for pra errar, acerta uma vez na sua vida e vem errar tudo comigo.

E pela primeira vez, eu consegui tirar um sorriso dele. Afastando a arma de mim, ele se deitou na cama e me puxou pra perto dele. Pousei minha cabeça e minha mão armada sobre seu peito novamente... Aquelas batidas. Por Deus! Por que que eu não sou um motivo suficiente pra ele viver?

-Eu não seria um motivo o suficiente pra te manter viva, entende? — E inevitavelmente, ele respondeu minha pergunta.

-Não quero entender... Queria você vivo. Queria planejar coisas com você, queria beber mais com você, fumar mais, te sacanear mais, ver você crescer e ser vitorioso em tudo o que fosse fazer. Temos perguntas demais e nossa maldição é querer responder todas elas numa tacada só.

-Isso não é possível. Você sabe que uma pergunta respondida gera outra pergunta. E assim como os problemas, você mata um, nasce outro, e outro, e outro...

-E daí? Compartilha comigo, vamos resolvê-los.

-São insolúveis. Eles respiram, caminham e pisam na minha cabeça, me ofendem, me ferem. E os seus não são diferentes.

Ele era invencível em suas palavras. Como alguém poderia aceitar a morte daquela maneira? Nem Sócrates passava tanta segurança daquele jeito. Me senti inútil, por não poder fazê-lo viver, por não conseguir derrubar seus argumentos e principalmente, por que sabia que tudo aquilo que me deixara impotente, não estava á meu alcance.

-A minha vida toda eu tentei, ainda que por pouco, fazer que alguém se apegasse á mim. Faz tempo que não choro, não sinto mais algo nobre, não amo... Aliás, só amei duas vezes. Tudo foi um erro... Achar que era pra ser diferente e não suportar o fato de que você não serve pra nada, não sabe fazer nada e toda aquela normalidade está te cercando cada vez mais afoita pra te devorar. Do que adianta ter um cérebro se você não sabe usá-lo? Fui ingênua o tempo todo... Ignorante e cega. No final eu sabia que morreria cedo de alguma forma.

-Você viveu tempo o suficiente pra eternizar o que você amou. Lembre-se disso, é o que eu faço.

-Eles não merecem a eternidade...

-E nós também não.

Ah, que ódio. Não adianta. Levantei-me com uma expressão totalmente insatisfeita e o fitei, apoiada em meu cotovelo e em seu peito.

-Eu odeio a forma que você lida passivamente com isso.

-Não é passividade... Estou aceitando... É meu acerto de contas. Depois desse tiro, eu não vou dever mais nada á meu pior credor: eu mesmo.

E com uma cara de derrotada, bufei completamente sem rumo. Eu já havia perdido as noções básicas desde o momento em que saí da minha casa pra poder encontrá-lo na estação até ele me trazer aqui.

-Posso te beijar de novo?

-Você costuma ser cara de pau com as pessoas?

-Com você eu nunca fui porquê não deu tempo. Tô sendo agora porque, sei lá... Quero morrer em três minutos, pensando que levei alguma coisa boa dessa merda toda.

E de modo intimidador, pelo menos pra mim soava assim, ele sorriu feito um bobo, carismático, revelando sua verdadeira face.

-Vem cá.

E então me preparei. Segurei o choro até a alma e passei a perna por suas coxas, deixando meu corpo pesar sob o dele. Senti, pela primeira vez em muitos anos, a tensão abandonar meu corpo e fiquei feito um animal invertebrado, entregue á maior das tristezas e ao pequeno amor que sentia por aquele maldito cara tranquilo em pré-leito de morte.

E depois de muito beijá-lo, pedi para que ele o fizesse por mim. Eu jamais teria ali, a coragem de atirar na minha própria cabeça. Seria mais vontade, sem contar que eu não queria morrer com ele, piorou matá-lo. Ou me matava e assistia ele morrer por suas mãos, ou ele me matava e eu atirava na pessoa mais incrível que conheci nos últimos meses de vida. Nem pra isso eu sabia o que decidir.

-A hora que você quiser, ok? — Disse pausadamente entre os beijos que insistia em trocar com ele.

Senti um arrepio quando ouvi o som do meu gatilho, justamente na pausa de uma música para a outra... Será que tudo ali colaborava pro meu pânico ou desistência? Pensa só, se eu desistisse... Ele me mataria e se mataria em seguida, sem se lembrar desse afeto infantil que eu pude finalmente dar á ele. Ou será que ele me mataria e continuaria a viver? Ou pior, se mataria na minha frente. Eu não suportaria vê-lo morrer. Eu não queria matá-lo mas teria que fazê-lo.

Ao sentir a morte chegando, gemi num prazer doentio e beijei seu pescoço. Apoiei o cano sobre seu peito, me levantei com certa dificuldade e, quando consegui ficar trepada em cima dele, ainda de olhos fechados, arrastei minhas mãos trêmulas e prontas pra atirar, até subi-las e mirar em sua cabeça. Esperei ele mirar e em poucos segundos, senti o cano tocar macio, um palmo acima do meu umbigo.

-Obrigado por tudo.

E explodindo em choro e dor, tudo me veio a tona e o ódio imperou de uma vez por todas. Ele conseguiu tomar conta de mim e, se eu tivesse aberto os olhos aquele momento, ele veria o demônio e não mais meus olhos verdes.

-Adeus... — E atiramos.

Hoje por volta das 23h30, os vizinhos do quarto 409 se incomodaram com a música alta e ao bater para comunicar tal incômodo, estranharam a chave que foi encontrada jogada pelo vão da porta. Ao abrir, foram encontrados corpos um jovem casal de idades entre 20 e 25 anos, armados com duas pistolas garruchas. Segundo a perícia, eles poderiam ter trocado tiros entre si, mas como isso seria praticamente impossível, há hipótese de que a mulher tenha dado o primeiro tiro contra o rapaz e depois, ter tirado a própria vida. Até agora, mesmo com a identidade do casal reconhecida, ninguém apareceu para a liberação dos corpos.

Notas finais
Mil beijinhos para o Isaac, que me apresentou "The Neighbourhood". Agradeço ao acaso (e minha escuta muito boa de inglês) que fizeram a música casar com a história, ao menos um pouquinho. Rafa, você tá me deixando suicida... Não pare de escrever! Obrigada.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!