Hotel Maldito: O Conto
1 Hotel Maldito
1987 — Texas
Numa noite onde o vento soprava quente e seco, derrubando as folhas mortas das árvores, erguendo a poeira da terra árida, a luz do luar ofuscava os elementos da vida.
A porta da iluminada recepção se abriu e por ela entrou a jovem e discreta Megan. Ela parou diante do balcão e foi atendida por uma senhora chamada Carmen.
De aparência muito respeitosa e ágil, Carmen foi clara quanto aos procedimentos do hotel. Deixou Megan ciente que por questões de segurança, os hóspedes não poderiam deixar seus quartos após a meia noite.
Carmen entregou para Megan um cartão magnético que daria acesso ao quarto quinhentos e dois, no último andar. Com apenas uma bagagem em mãos, Megan usou o único elevador que havia para chegar ao seu quarto.
O ambiente era aconchegante e muito bem dividido. Mas Megan não tinha tempo para grandes observações. Tomou um banho quente e colocou um pijama comprido, cujo modelo não era popular entre as mulheres de sua idade, mas cabia à época.
Depois de muito revirar sua bagagem, não encontrando sua agenda, Megan lembrou de tê-la deixado no carro. Ela saiu do quarto e foi até o elevador. O relógio na parede da alcova marcara uma da manhã.
O elevador chega à recepção e Megan caminha até o balcão, não encontrando a simpática senhora.
Na grande sala ao lado da recepção, havia um homem de costas usando uma enceradeira. Ele empurrava a mesma para frente e logo a puxava para trás.
— Com licença! — disse Megan se aproximando dele.
O homem se ereta com tranquilidade. A enceradeira se desliga. Megan para com estranheza.
— O senhor poderia me dar uma informação?
De costas e com a voz rouca, ele responde:
— Aqui neste hotel você só precisa saber de uma coisa.
Megan mantem o silêncio, quando repentinamente, o homem vira-se com um olhar tomado pela escuridão, dizendo:
— Onde fica a porta do inferno.
Megan se apavora. Ele continua:
— Porque é por ela que você vai entrar.
Megan começa a correr para o elevador, enquanto o homem, andava rapidamente em sua direção.
Desesperada, ela pressiona o botão lateral que fecha a porta do elevador. Os cabos metálicos rangem. O dispositivo a transporta até seu andar.
Em pânico, Megan entra no quarto. O telefone sobre o pequeno criado mudo ao lado de sua cama começou a tocar. No primeiro toque ela se assustou. No segundo toque somente observou o aparelho. Infinitas ideias do que poderia estar acontecendo passaram por sua cabeça. No terceiro toque ela se viu atraída pelo aparelho. No quarto toque não hesitou em atender, e ouvir do outro lado da linha, a voz de Carmen:
— Eu disse para você não sair do quarto.
— Mas que porra foi essa lá embaixo? — questionou em pânico.
As luzes do quarto começaram a piscar. Megan olhou para os lados. As luzes ficam estáveis.
— Você acordou a criatura.
— Do que a senhora está falando? Eu vou ligar para a polícia!
Megan desligou o telefone e fez o que havia premeditado. Mas a linha telefônica estava muda.
Ao colocar o aparelho no gancho, o mesmo tocou; e foi atendido no primeiro soar.
— O que vocês querem de mim? — perguntou Megan com as mãos trêmulas e timbre de voz agitado.
— Eu sou a única pessoa capaz de aprisionar a entidade maligna que há neste hotel. Mas para isso, você precisa seguir minhas instruções.
— Então vá à recepção e tire aquela coisa de lá! Eu quero ir embora!
— Você precisa prestar atenção no que vou dizer se quiser sair deste lugar viva.
Megan respirou fundo e manteve a calma:
— Tudo bem, sua velha maldita. Estou ouvindo.
— Vou ignorar todo seu ódio por mim. — ela faz uma pausa; logo prossegue — Seu cartão acessa o quarto quinhentos e quatro. Você deve entrar e fechar a porta. Deve seguir até o banheiro. Lá dentro, haverá uma garotinha e uma banheira cheia d'água. Você deve afogar a criança.
— Você ficou maluca? — retrucou Megan — Eu não posso fazer isso.
— Se você não fizer isso, nunca mais vai sair desse andar.
— Quer saber de uma coisa? Que se foda todos vocês!
Megan desligou o telefone e dirigiu-se até o corredor. Confiante em sua atitude, pressionou o botão que abriu a porta do elevador e de dentro dele, uma criatura humanoide jogou-se contra seu corpo e sua pele sentiu um forte queimar e sua visão, ficou escura.
Um forte clarão ofuscou seus olhos. Megan estava diante de sua mala, dentro do quarto, atônita.
O telefone tocou a tirando daquele pasmo. Megan o atendeu nervosa:
— O que está acontecendo?
— Muitas pessoas já tentaram sair deste hotel, mas nenhuma delas conseguiu. E sabe por que? Porque elas não seguiram as regras! — disse Carmen irritada.
— Tudo bem, — falou Megan tentando se tranquilizar controlando a respiração — como vou sair daqui?
Megan estava diante da porta do banheiro do quarto quinhentos e quatro. O telefone ao lado da cama tocou. Ela atendeu.
— A presença da morte fará com que o espelho do banheiro se quebre e dele, saia o cartão do quarto quatrocentos e oito. Uma vez submersa, a menina não pode sair viva da banheira.
— E o que acontece se ela sair?
— A mesma irá se transformar num demônio que se alimenta de carne e sangue. E não tente quebrar o vidro por conta própria. Isso fará com que a coisa dentro da menina se liberte.
Megan colocou o telefone no gancho e lentamente, abriu a porta do banheiro, onde viu uma menina de aproximadamente oito anos sentada no chão, abraçando suas pernas, encostada na banheira cheia d'água. Com a voz tranquila e meiga, ela perguntou:
— Você é a nova babá?
— Sim, sou eu. — respondeu Megan.
— Por que minha mãe ainda não voltou?
— Eu não sei. Mas você precisa tomar o seu banho para ficar pronta.
— Você vai lavar meu cabelo?
— Se tudo ocorrer bem, eu acho que vou acabar lavando sua alma.
Os olhos da menina ficam escuros e sua pele cinzenta. Seus cabelos lisos e negros flutuam e com sua voz rouca, ela diz:
— Ninguém vai tocar na minha alma.
Megan se vê diante de sua mala. O telefone em seu quarto toca.
— Mas que diabos você fez? Eu disse para não quebrar o vidro!
— Eu não quebrei o vidro! Eu só dialoguei com ela! — respondeu Megan irritada.
— E o que foi que você disse?
— Eu disse que talvez lavaria até a alma dela; mas eu não tive a intenção de irritá-la!
— Sua imbecil. Não se deve fazer piadas com demônios! Agora volte lá e acabe com isso!
As mãos de Megan estavam sobrepostas no peito da menina imersa na banheira. A mesma se debatia na tentativa de escapar. O espelho começou a trincar e Megan fez ainda mais força. A água começou a borbulhar e uma leve fumaça branca emergiu dela. O espelho se quebrou e a menina parou de se debater. Megan olhou para trás e entre os cacos no chão, viu o cartão para o quarto quatrocentos e oito. O telefone tocou na sala. Ele pegou o cartão cuidadosamente e foi até a sala, atendendo o telefone.
— Muito bem. Agora você deve descer pelas escadas até o quarto quatrocentos e oito. Ao chegar lá, haverá uma mulher amordaçada e presa a cama. Dentro da barriga dela está o cartão para o quarto trezentos e dois. Peguei-o.
Quando Megan se viu diante da mulher presa e amordaçada, sentiu-se com medo e confusa. Uma faca de cabo preto e lâmina afiada estava ao lado do telefone, sobre um pequeno criado mudo na lateral da cama. A mulher olhava para Megan tentando dizer alguma coisa, mas nada do que fizesse, faria com que ela mudasse de ideia.
Com as mãos ensanguentadas e o olhar opaco, Megan atendeu o telefone no quinto toque.
— Você está se saindo bem. Vá para o próximo quarto.
No vazio e sombrio corredor o som de uma motosserra ecoava aos gritos de um homem agonizando em dor. E no fim de tamanha tortura, Megan andou pelo corredor em passos leves e curtos, com seu pijama banhado em sangue. No andar inferior, ela abriu a porta do quarto cento e nove, abraçando Carmen, assim que a mesma, deixa o quarto sorridente.
— Muito bem, querida, muito bem!
Carmen segue com Megan até a recepção. Ela se dirige para trás do balcão e pega um molho de chave. Volta para a frente do balcão e entrega as mesmas para Megan:
— Quero que você fique com elas. Será importante.
— Eu não quero nada disso. — disse Megan vendo o raiar do sol pela janela, em estado de choque — Eu só quero ir para casa.
Carmen colocou o molho de chaves em sua mão e disse:
— Você terá uma nova casa.
Carmen deixou o hotel correndo de alegria. Megan andou até o estacionamento e adentrou em seu carro. Sentiu um forte cansaço que por um leve instante, sentiu seu corpo sobre uma cama de lençóis limpos e cheirosos. Ao abrir os olhos, constatou que a sensação era real. Ela usava as roupas que antes eram da recepcionista Carmen. Olhou ao seu redor e estava dentro de um quarto. Levantou-se rapidamente e saiu no corredor do hotel. Estava diante do quarto cento e quatro.
Confusa com todo o ocorrido, Megan correu até o estacionamento e não viu seu carro naquela manhã fria e nebulosa. Ao olhar para o lado, viu Carmen a olhando sorridente e parada.
— O que está acontecendo? — perguntou Megan.
— Você pode fugir para bem longe. Pode se esconder em qualquer lugar ou até mesmo, contar para alguém o que está acontecendo. Mas a partir do momento em que você dormir, voltará para o quarto cento e quatro e será a recepcionista deste maldito hotel.
Megan estava incrédula. Carmen continuou:
— Você é obrigada a informar para os hóspedes que sair do quarto após a meia noite é proibido por questões de segurança. E deve torcer para um deles sair, porque somente assim, terá a chance de fazê-los seguir as regras que irá levá-la para a libertação.
— Sua velha cretina! Desgraçada! — gritou Megan.
— Pode xingar o quanto quiser. Para minha família, eu estou há dois meses trabalhando aqui. Mas para mim, foram dois anos de sofrimento. Mas agora, chegou a sua vez.
Carmen seguiu andando pela estrada e gradativamente, seu corpo sumiu na neblina matinal branca.
Megan berrou de ódio, desejando a todos os leitores deste conto, que ao se hospedarem em seu hotel, deixem seus quartos após a meia noite, e sigam os passos que a levem para sua libertação.
Fale com o autor