Hotel California
7 Capítulo Final - Sacrifice
Notas iniciais
Mia dirigia em alta velocidade ao mesmo tempo em que tentava ligar para Dean Dez usando o viva-voz. Estava dirigindo há um dia e meio, desde que conseguiu fugir do Hotel Califórnia e roubou aquele carro. Estava chovendo e começava a entardecer, mas para seu desespero ainda não tinha entrado no estado do Kansas. Com sorte conseguiria chegar de madrugada, mas algo lhe dizia que seria tarde demais.
Não entendia direito o que significava estrelas cadentes despencando do Céu, mas depois daquela visão, ela teve outra que com certeza significava algo. Nela, Mia viu Sam curando Crowley numa igreja em ruínas. A mesma igreja onde há alguns dias ela fez aquele ritual para invocar o Rei do Inferno.
Precisava avisar os Winchester sobre o que acontecia no final da sua visão. Sam não podia imaginar, mas ele estava correndo um grande perigo. Ele era o sacrifício.
"Você ligou para Dean Winchester. Você sabe o que fazer." — anunciou a saudação da Caixa Postal.
– Droga, Dean... Por que vocês nunca atendem o telefone quando é um caso de vida ou morte? — resmungou ela — Ok, não entre em pânico, mas eu tive uma visão. Sim, mais uma. Mas pelo menos agora eu entendo por que. Parece que eu tenho um lado meio demoníaco... Enfim, minha visão! Não deixe Sam terminar o terceiro teste, ok? Você ouviu? Não deixe sob hipótese alguma ele terminar o serviço e curar o desgraçado do Crowley. Porque... Se ele fizer isso... É o fim, Dean. Eu não sei como dizer isso de uma forma mais sútil, mas se ele fizer isso... Ele morre. Então, por favor, não deixe isso acontecer, ok? Droga, você precisa ouvir esta mensagem...
Mia desligou e ligou para Sam em seguida. E o celular dele também estava na Caixa Postal e a gravação anunciou:
"Oi! Esta é a linha direta de Sam Winchester. Você não deveria ter esse número. Deixe sua mensagem."
– Sam! Olha, eu sinto muito sobre as piadas com o seu cabelo. E também pelo Ronald... Mas eu preciso que você me escute atentamente, ok? Dean tem algo importante para te dizer... Mas se por acaso ele não estiver por perto, lá vai: Não cure o Crowley! Entendeu? Não faça isso porque... Não o cure, ok? Eu tive uma visão e... Apenas confie em mim. Ah! Eu também vi outra coisa, mas eu ainda não entendo o que pode ser. Estrelas cadentes dizem alguma coisa pra você? Pois é, pra mim também não. Mas eu sei que significa alguma coisa. Alguma coisa grandiosa está para acontecer, Sammy. Por favor, tomem cuidado.
Mia desligou o celular e deu uma olhada na sua perna. Nem tudo naquele hotel tinha sido alucinação. Ela realmente havia machucado a perna durante o acidente. E pela dor que sentia e pela febre que aumentava a cada instante, ela estava piorando. Mas Mia sabia que precisava continuar a viagem. Precisava impedir o que quer que fossem aquelas estrelas cadentes. E precisava ter certeza de que Sam ficaria bem, que Dean o impediria de... Se sacrificar pelo bem maior.
Pensando nisso, Mia dirigiu o mais rápido que pode e logo viu uma placa que indicava que o estado do Kansas estava a 100 km.
Enquanto isso, na igreja em ruinas, Dean desenhava uma armadilha do diabo no chão. Crowley estava sentando no meio dela, preso a uma cadeira com correntes especiais que o impediam de escapar.
– O que é isso? — perguntou o demônio.
– O que parece? — devolveu Dean sem paciência jogando o spray perto do que sobrou do altar.
Em seguida saiu da igreja e foi até o Impala. Sam estava se confessando para purificar o seu sangue e assim poder curar a alma de Crowley e completar o terceiro teste para selar o Inferno. Mal sabia ele que se fizesse isso, ele morreria.
Quando fechou o porta-malas, Dean levou um leve susto ao ver Castiel parado ao lado do Impala.
– Dean, eu preciso da sua ajuda. — pediu o anjo seriamente.
Mia não sabia, mas Sam e Dean tinham recuperado a Tábua dos Anjos horas antes ao atraírem Crowley para uma armadilha depois de terem salvo a Xerife Mills do demônio. Agora Castiel precisava daquele artefato para descobrir qual era o último teste para fechar o Céu, já que Metatron, que tinha escrito a Palavra de Deus, estava sendo torturado por Naomi no Céu naquele exato momento.
E o que nem um deles podiam imaginar é que fechar o Céu nunca foi a verdadeira intenção de Metatron. O anjo escriba de Deus tinha outro plano: se vingar de todos os Anjos os expulsando do Céu. Os testes que Castiel realizou até então, não eram testes de verdade, mas sim partes de um poderoso feitiço para fazer todos os Anjos caírem do Céu.
Enquanto isso, Mia dirigia ainda mais rápido. Já havia anoitecido e ela estava exausta. Tentou sem sucesso falar com Sam ou Dean novamente. Ela não sabia, mas Naomi naquele momento contava para Dean e Castiel sobre as verdadeiras intenções de Metatron e também sobre o que aconteceria com Sam se ele terminasse os testes. Dean ficou desesperado e Castiel o levou até a igreja bem a tempo de impedir Sam de curar Crowley. Em seguida, o anjo foi para o Céu para descobrir se Naomi estava falando mesmo a verdade e teve uma desagradável surpresa.
– Naomi te contou sobre mim, não foi? — deduziu Metatron colocando uma faca dos anjos no pescoço de Castiel — Você devia ter ouvido.
Mia parou o carro. A gasolina tinha acabado.
– Eu não acredito nisso... — xingou ela descendo do carro.
Enquanto Mia via a igreja em ruínas ao longe, Metatron fazia um corte no pescoço de Castiel e retirava a graça do anjo. Este era o último ingrediente para completar o feitiço que marcaria aquela noite para sempre.
– Viva essa nova vida na Terra, Castiel. — disse Metatron enquanto curava o corte que havia feito no anjo — Encontre uma esposa, faça bebês e quando você morrer e a sua alma voltar para o Céu, me procure e me conte a sua história.
Mia começou a andar em direção à igreja com dificuldade. Estava mancando muito e sentia-se extremamente fraca. De repente algo a fez parar e ela caiu no chão. Um arrepio e uma sensação de calor passaram pelo seu corpo . Ela não sabia como, mas entendeu que os símbolos gravados em suas costelas tinham desaparecido. E tinha medo de imaginar o motivo. O que será que tinha acontecido com Castiel? Será que ele tinha ido mesmo embora para o Paraíso ou será que era outra coisa? Algo pior?
Mia sentia ainda mais medo ao tentar encontrar uma explicação para aquilo quando de repente algo chamou ainda mais a sua atenção. Ela olhou para o Céu e assistiu em choque algo que começava a aparecer entre as nuvens. Automaticamente lembrou da visão que teve e entendeu. Não eram estrelas cadentes. Eram Anjos. Eles estavam caindo. Centenas, talvez milhares deles. Despencando lá de cima com suas asas em chamas.
Mia também viu ao longe Sam e Dean sentados no chão, encostados no Impala e assistindo a queda dos anjos igualmente em choque.
Ela não conseguia entender, mas pelo visto Castiel não tinha fechado os portões do Céu. Algo muito ruim havia acontecido e o impedido de fazer aquilo. Mia sentiu mais medo. Nunca, nem mesmo quando enfrentou os Cães do Inferno, ou Crowley, ou a própria morte tinha se sentido como naquele momento.
Castiel começou a acordar perto dali, se levantou e também ficou olhando para o Céu sem entender o que estava acontecendo. E quando Mia o viu ao longe o medo passou e deu lugar ao alívio.
– Cas... — murmurou ela andando em sua direção com dificuldade enquanto os Anjos continuavam caindo.
Achou que nunca mais o veria e suspirou aliviada por estar enganada. Por um instante não se importou com o fato do mundo estar de cabeça pra baixo aquela noite. Começou a caminhar em sua direção enquanto os anjos continuavam caindo. Precisava arrastar praticamente arrastar a perna, mas a felicidade de vê-lo novamente e principalmente o fato dele não ter voltado para o Céu lhe dava força para continuar.
– Cas! — gritou ela se aproximando cada vez mais.
Ele se virou ao ouvir a sua voz e quando Mia finalmente o alcançou ela fechou a mão e deu um soco na cara dele antes de dizer:
– Isso é por você ter pensado, só pensado, em me deixar. — e o abraçando forte, acrescentou — E isso é por você ter voltado.
Mia se aconchegou no peito de Castiel e fechou os olhos enquanto os Anjos continuavam caindo. Mas se afastou ao notar que ele parecia completamente indiferente ao seu abraço.
Ele levou a mão à boca e olhou o sangue em seus dedos.
– Por que você está sangrando? — estranhou Mia.
– Porque você me bateu. — respondeu ele — Aliás, por que você me bateu?
– Desculpe... Mas no fundo você sabe que mereceu isso... Ah! Eu sei que eu recusei sua ajuda antes, mas já que você está aqui, um milagre seria ótimo. — disse ela mostrando a perna machucada — Hora de curar os doentes, Castiel.
– Você é alguma espécie de maluca? — perguntou ele sem entender — E quem diabos é Castiel? Eu conheço você?
– Isso não tem graça... Cas. O que aconteceu com você? — perguntou ela preocupada enquanto olhava para o céu novamente.
– Na verdade... Eu não lembro. — admitiu ele também olhando para cima — Eu nem sei como eu vim parar aqui. E qual o problema com o céu? E por que você me chamou de... Do que mesmo?
Ele voltou a olhá-la e notou que ela estava tremendo. Mia começava a entender o que estava acontecendo. Castiel podia não ter caído como os outros Anjos, mas definitivamente ele não estava normal. Mia preferia ficar presa no Hotel Califórnia para sempre do que não ser reconhecida por ele. Aquilo doía. Pensou que talvez aquele fosse mais um pesadelo, mas se convenceu de que era real. Infelizmente. Sentia-se completamente perdida. Não sabia o que fazer. Queria sumir dali e desaparecer.
– Desculpe... Eu não quis ser rude. — lamentou ele — Você parece mesmo machucada. Eu vou te levar até um hospital... — sugeriu ele se aproximando.
– Não! — recusou ela andando para trás — Não precisa... Eu estou bem. Acho que eu consigo chegar no hospital sozinha.
Mia se afastou e começou a andar, mas uma forte dor na perna a fez cair no chão e ela gritou. Castiel correu e a ajudou a levantar. Seus rostos ficaram próximos e ele a olhou intrigado.
– Você realmente não lembra? — indagou Mia sentindo medo da resposta.
– Lembrar do quê? — estranhou ele enquanto a encarava confuso — Desculpe... Nós nos conhecemos?
Mia sentiu uma dor profunda e desta vez não era na perna. Se afastou um pouco e respondeu:
– Talvez de outra vida.
– Tem certeza que você consegue chegar no hospital assim? — perguntou ele pensando que ela estava delirando por causa da febre.
– Sim. Eu vou ficar bem. Você não precisa mais se preocupar comigo... E... De qualquer forma, eu estou feliz por você ter ficado no fim das contas... — confessou ela mesmo sabendo que ele não era capaz de entender naquele momento.
– Obrigado... Eu acho. — estranhou ele — Você deve ter batido a cabeça também. Eu devia te levar ao hospital...
Mia o abraçou de repente e uma lágrima escorreu por seu rosto. Ele não entendeu aquele gesto, mas instintivamente passou a mão por seus cabelos em retribuição.
– Quem é você? — interessou-se ele.
Mia lembrou da madrugada em que Castiel entrou no seu quarto antes dela conhecer Sam e Dean e se envolver com o sobrenatural e respondeu:
– Uma amiga.
– Mas qual o seu nome? — insistiu ele cada vez mais intrigado.
– Isso importa? — devolveu ela o olhando mais uma vez antes de se afastar.
Castiel a observou indo embora e fez uma última pergunta:
– Você vai ficar bem?
Mia parou e se virou para ele antes de responder:
– Eu vou sobreviver... Como eu sempre fiz.
Em seguida ela voltou a caminhar e Castiel voltou a olhar para o Céu. Bem perto dali, Sam abalado pelo terceiro teste que não chegou a completar, mas que o marcou profundamente, perguntou para o irmão:
– Dean... O que está acontecendo?
– Os anjos... Eles estão caindo. — respondeu Dean também em choque.
Mia olhou mais uma vez para Castiel e depois para Sam e Dean ao longe. Sam não parecia muito bem, mas ela tinha certeza que Dean cuidaria dele. Dean sempre encontrava um jeito de ajudá-lo.
Olhou para o Céu e deu as costas para tudo aquilo. Voltou para a estrada. E caminhou sem saber exatamente pra onde, mas com uma única certeza: ela tinha que recomeçar. Longe dali.
Pegou o celular no bolso. Ainda restava um pouco de bateria. Era suficiente para fazer uma ligação. Procurou o número nos contatos e encostou o aparelho no ouvido. Quando a pessoa do outro lado finalmente atendeu, Mia despejou:
– Elena? Sou eu. Eu preciso da sua ajuda.
Fim
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