Horror em Serra Branca

2 Capítulo 1 — Bem-vindos de volta




A estrada cortava o mar de morros como uma cicatriz pálida. O céu, coalhado de nuvens baixas, carregava um vento úmido com cheiro de chuva e terra virada. Placas enferrujadas anunciavam Serra Branca com uma lentidão antiga, como se a cidade não tivesse pressa alguma de receber quem voltava.


Gabriel estacionou o carro diante da pracinha, onde o coreto parecia menor do que ele lembrava. Desligou o motor e ficou um instante olhando para os próprios dedos no volante, tentando conter o tremor discreto que sempre surgia nas margens do estômago. O relógio da igreja dominava o largo — quatro faces impassíveis. Uma delas estava trincada. Ele percebeu, sem querer, que o ponteiro dos minutos insistia no mesmo lugar, como se lhe faltasse fôlego.


— Chegamos — murmurou, rouco, como se falasse consigo.


Ao lado, Lívia ajeitou os cabelos com movimentos rápidos e nervosos. Tinha vinte e dois anos e a pressa de quem ainda acredita que vai dizer tudo certo na primeira tentativa.


— É aqui mesmo a lanchonete? — perguntou, tentando soar casual.


— É — respondeu Gabriel, sem tirar os olhos do coreto. — A gente vinha muito aqui.


A Lanchonete do Zeca exibia pintura nova, mas o mesmo letreiro vermelho cansado. O sino tilintou quando entraram. O azulejo branco devolvia sombras alongadas. O balcão de fórmica guardava arranhões que Gabriel reconheceu sem saber por quê; tudo estava no lugar e, ao mesmo tempo, ligeiramente errado — como uma fotografia antiga reimpressa com contraste demais.


Augusto já os esperava numa mesa de canto, com sorriso aberto e um caderno de anotações ao lado do café.


— Olha só, o delegado que virou lenda local — provocou, levantando-se para abraçar Gabriel. — E com direito a estagiária misteriosa. Prazer, eu sou o Augusto. Jornalista em crise criativa e fotógrafo por teimosia.


— Lívia. Muito prazer! — ela disse, corando quando tropeçou na alça da bolsa.


Logo depois, Kenny entrou assobiando baixinho, jaleco leve por cima da camiseta, como quem nunca largou o laboratório. Atrás dele veio Maya, elegante, o olhar varrendo o ambiente com precisão calculada. Por último, Hanako — cabelo preso, postura impecável, uma distância bem medida no olhar. A presença dela parecia cortar o ar em dois.


Houve abraços, risos contidos, tapas nas costas. Uma alegria sincera, que logo encontrou um limite invisível — o mesmo que separava o que aconteceu do que ninguém queria nomear.


— Então… — Augusto esfregou as mãos. — Quem começa?


— Você — disse Maya, com o queixo. — Sempre tem uma história pronta.


— Eu? — Augusto fez-se de espantado. — Continuo correndo atrás de pauta que preste e fugindo das que me matam. O jornal quer “coisa grande”, a cidade só me dá festa católica e nota de falecimento… E, bom, dizem que Serra Branca resolveu dar manchete sozinha.


O silêncio pousou como poeira. Lívia observou cada rosto com curiosidade quase devocional.


Kenny quebrou a tensão:


— Falaram em… desaparecimentos, não foi? — clínico.


— Falaram — confirmou Gabriel, seco. — Oficialmente, nada além do que vocês leram. Extraoficialmente… tem coisa que não fecha.


Hanako cruzou as pernas e encostou o copo nos lábios sem beber.


— E o que fecha, pra você? — perguntou, baixa.


— Nada — Gabriel sorriu sem os olhos. — Essa é a parte boa. Ninguém precisa estar certo. Só descobrir quem está errado.


Maya apoiou os cotovelos na mesa, unindo as mãos diante do rosto.


— Se há um padrão, a gente encontra. Se for histeria coletiva, a gente desmonta. Mas… — pausou — não existe histeria sem fagulha real.


Uma garrafa de guaraná estalou no balcão. Zeca acenou breve, reconhecendo rostos que já não eram adolescentes.


— Vocês lembram — arriscou Augusto — do casarão Villalobos?


A frase caiu na mesa como um prego.


— Lembro — disse Kenny — de quando a gente fazia merda e chamava de aventura.


— Não era aventura — cortou Hanako, sem aspereza, só precisão.


Maya baixou os olhos para o tampo da mesa. A lembrança atravessou-os sem pedir licença: o cheiro doce das velas, o sal grosso, o livro pesado nas mãos de Augusto, as máscaras de animais pendendo da parede, a porta que se abriu sozinha, e o relógio da igreja parando em 00h13.


— Dizem que o casarão foi isolado pela polícia — informou Gabriel, pragmático. — Cena de crime. Sumiu um empregado antigo da família… Villalobos.


— O sobrenome que dá calafrio — Augusto riu curto. — Vai ver foi por isso que voltei tão depressa quando você ligou.


Kenny tamborilou na mesa.


— Isolado por quê? Arrombamento? Sangue?


— Ouvi que sim, ouvi que não — disse Gabriel. — Quase tudo, cochicho. A única certeza: há ligação com o passado.


— Nosso passado — concluiu Hanako. — Os rumores dizem que Ana não foi encontrada pra falar, nem o noivo, José César.


O sino da igreja soou três vezes, cada badalada lenta, arrastada.


— Eu… estudei os arquivos da cidade antes de vir — disse Lívia, tirando um bloco amassado. — Tem muita lenda misturada a registro oficial. Escrevem como se a casa fosse viva. “A casa escuta”, “a casa se lembra”… parece teatro, mas se repete nos depoimentos.


— A casa escuta… — repetiu Augusto, provando as palavras. — Naquela noite a gente disse que era brincadeira. Sempre dissemos. — Olhou Maya. — E se não fosse?


Maya desviou o olhar.


— Brincadeira ou não, causa e efeito existem. Crianças fazem rituais idiotas. Adultos desaparecem por motivos racionais. A questão é… quais.


Zeca serviu o café de Gabriel. O aroma amargo rompeu a película fria sobre a mesa.


— A gente precisa ir até o casarão — disse Gabriel. — Amanhã cedo. Sem heroísmo, sem bravata. Olhar de longe, checar o perímetro. Se há algo que nos diz respeito… a gente encara.


— E se isso for o bastante pra nos puxar de volta? — Hanako retrucou.


— Então a gente vai junto — Augusto concluiu. — Se for pra se ferrar, que seja em grupo.


Kenny ergueu o copo:


— Brindo à objetividade — e fez careta com o guaraná morno. — O verdadeiro horror de Serra Branca.


Riram — brevemente, como quem precisa lembrar que pode. Entre piadas sobre gasolina cara, estradas esburacadas e gincanas antigas, a sombra do não-dito permaneceu à mesa.


Lívia observava os cinco. Parecia aprender cada linha nova dos rostos, cada silêncio.


— Você tá bem? — Gabriel perguntou.


— Tô… Só é estranho. Parece que a cidade conhece vocês melhor do que eu.


— A cidade conhece — disse Hanako. — E não é elogio.


Um homem de capuz entrou, comprou cigarros e saiu sem levantar os olhos. A porta rangeu num tom que ninguém lembrava.


Maya se levantou, inquieta.


— Vou dar uma volta. Esticar as pernas. Vocês vêm?


Do lado de fora, o ar estava mais frio. A rua estreita se estendia em direção ao morro, onde o casarão — invisível dali — insistia em existir. Gotas finas começaram a costurar luz e sombra nos paralelepípedos.


Caminharam, testando o peso da cidade nos sapatos: vitrine do armarinho, barbearia com a cadeira vazia, banca de jornal. Um mural exibia fotos de desaparecidos ao lado de rifas e anúncios de costura. Uma foto — mulher de vestido claro — parecia ter sido colada e arrancada mais de uma vez; restaram bordas rasgadas.


— É novo? — Maya perguntou ao homem que fechava a banca.


— Quase tudo aí é velho — ele disse. — Em Serra Branca, parte do que parte… fica.


A frase ficou para trás quando chegaram à igreja. O relógio, no alto, parecia observá-los. Um relâmpago riscou o céu e, por um instante, os ponteiros pararam. Gabriel recuou dois passos, como se mudando o ângulo corrigisse o tempo.


— Alguém mais viu isso? — perguntou.


— Vi — disse Hanako. — E não vi. Depende do que você quer ver.


— Que horas a gente se encontra amanhã? — Lívia apertou o casaco.


— Oito — Gabriel respondeu. — Aqui, na praça. Daqui, seguimos. Olhar de longe. Sem garantias de entrar. Sem bravata.


— Posso levar luvas — Kenny disse. — Vai que a razão resolve aparecer.


Augusto abriu o caderno e rabiscou títulos que não pretendia usar: O Passado Bate à Porta. A Casa que Escuta. Serra Branca Respira. Fechou devagar.


— Prometam uma coisa: nada de sumir sozinho. A gente desbravava essa cidade juntos. Se for pra reaprender o mapa, que seja com todo mundo vendo as mesmas ruas.


Hanako e Gabriel trocaram um olhar cheio de histórias mal resolvidas.


— Promessa — disse ela.


— Promessa — disse ele.


O vento engrossou; a chuva, enfim, caiu. Correram de volta à lanchonete. Zeca fez um gesto de boa sorte, como quem já viu gente tomar a direção errada.


Antes de sair, Augusto olhou o relógio da igreja uma última vez. Não sabia por quê; só sabia que precisava. Os ponteiros continuavam firmes, imóveis.


00h13.


Um arrepio percorreu-lhe a nuca.


— Deve ser defeito — murmurou.


No asfalto molhado, uma pegada solitária de barro parecia começar em lugar nenhum e terminar no meio da rua. Lívia foi a primeira a ver e apontou, mas um carro passou, respingou alto, e a marca desapareceu como se nunca tivesse estado ali.


— Amanhã, oito — Gabriel repetiu.


— Amanhã — responderam os outros.


A cidade respirava baixo, compassada, como quem espera. No alto do morro, mesmo fora de vista, o casarão continuava a observá-los.



Tique-taque.


No quarto do hotel, Gabriel sentou-se à beira da cama depois do banho. Tirou da carteira a foto de Beatriz: o vinco marcava um segredo no outro lado. Fitou demoradamente o sorriso no vestido vermelho de alças. Deslizou o polegar, hesitou, e desdobrou. Do outro lado, Hanako, alguns anos mais jovem — sorriso contido, olhos acesos. O coração de Gabriel bateu doloroso.


Tique-taque.


Em outra cama, no mesmo hotel, Kenny observava a chama de um velho Bic vermelho. O isqueiro, o mesmo da noite no casarão, acendia sempre, antigo demais para isso. Kenny apagou. Acendeu. Apagou. A chama parecia lembrar.


Tique-taque.


No banheiro, diante do espelho embaçado, Maya jogou um punhado de pílulas para dormir na boca e bebeu água direto da torneira. Os olhos inchados e vermelhos diziam que o choro não era recente — era reincidente.


Tique-taque.


À janela, Hanako fitava a escuridão que engolia a cidade. Sentia o casarão como olhos nas sombras: cada batida do próprio coração medida por uma casa que conhece medos, segredos — e poderia revelá-los a qualquer momento. Seu breve pensar calou as cigarras juntas, como pausa de respiração, e ela ofegou de medo ao perceber.


Tique-taque.


Na cama, Augusto espalhara fotografias. Algumas antigas — os amigos entre doze e dezessete anos, despreocupados. Outras, puro registro: cenas de crime, acidentes, apreensões. Ele pegou a foto de um homem de rosto marcado por cicatrizes e tatuagens, o ódio dissolvido no olhar. A lembrança voltou para a lanchonete quando o homem de capuz entrou para comprar cigarros. Augusto balançou a cabeça, enxotando a paranoia de estar sendo seguido — mas não largou a fotografia.


O relógio não errava: eles é que tinham voltado.


Notas finais
Se leu até aqui, vale um comentário! Pode ser só um "oi" :) Até o próximo! XXX