Horizontes Virtuais
1 Doces Lembranças
Seus olhos se abriam devagar, embora não tivesse nenhum sentido ainda ativo, sua percepção veio lentamente, primeiro, algumas luzes desfoque se formaram no vidro a sua frente, depois alguns sons baixos de sirenes e alertas começaram a preencher seus canais auditivos de uma maneira vagarosa e lenta, foi então que começou a sentir seus pelos e pele responder ao frio que estava presente na pequena cabine de vidro, alguns segundos se passaram até que a luz dentro de sua cabine se acendeu e um painel de luz formou-se no vidro embaçado cor cinza a sua frente.
James piscou algumas vezes quebrando os pequenos fragmentos congelado de suas pálpebras, em seguida, com dificuldade, ergueu a pata até o painel luminoso em sua frente apertando o botão que dizia “liberar comporta”, passou-se alguns segundos até que ouviu um clique metálico e o som de ar escapando, sua cabine emitia uma luz amarela em seu interior e o vidro, antes embaçado e com traços de gelo, ficou incrivelmente nítido e limpo, percebeu que o exterior da sua cabine possuía uma luz que emitia um brilho oscilante a qual piscava a cada 3 segundos, a sala era iluminada por tal luz e uma pequena lâmpada fluorescente, a cabine então começou a erguer-se liberando na sala ar congelado em forma de fumaça.
Demorou um pouco até seu corpo responder ao comando dado pelo cérebro, deu o primeiro passo mas a perna vacilou e tremeu fazendo-o segurar firmemente na barra de apoio da lateral especialmente projetada para esse tipo de situação, ouviu então uma voz feminina e robótica no alto falante discreto no canto superior da sala –Todos aqueles a qual já acordaram da criogenia, bem vindo a bordo da nave Gateway, por favor siga a seta luminosa no chão, e esvazie o armário pessoal todo e qualquer pertence que possa estar guardado, qualquer bem que não for retirado, será descartado sem exceção, caso sinta enjoo, favor usar os sacos plásticos de cor preta encontrados nos respectivos armários pessoais, todos que já estiverem despertado favor comparecer a sala de reuniões para designação de tarefas e a audição da palestra.
James, embora sentisse enjoado, estava se sentindo mais forte, seu estômago ansiava por algo que pudesse lhe dar sustento, fazia exatamente três anos que não comia nada, e agora apenas lembrava dos gostos de suas refeições favoritas o que fazia seu estômago ficar apenas mais violento, andou até o armário com seu nome escrito, ao se aproximar uma pequena chapa de metal levantou revelando um teclado numérico com dez dígitos brilhando na cor verde limão, lembrou-se quase instantaneamente da combinação que havia programado no teclado e discou, em seguida com um clique metálico, o armário liberou as travas da porta de metal revelando o interior, nele havia uma pequena mochila de um tecido semelhante ao de calças jeans, um pequeno saco plástico preto, Sua carteira, um PDA avançado.
PDAs eram mais avançados do que os celulares sofisticados da época, incluindo o seu antigo, porém era de uso apenas militar, embora pusesse baixar aplicativos e outros programas civis, e um saco com o logo da CFL , uma águia pousada encima da sigla com dois fuzis, um em cada pata, abriu o saco e viu alguns documentos e papéis avulsos que não tinha nenhum interesse em ler agora, procurou mais a fundo e achou uma barra energética média, embora não seja sua favorita gostava do sabor que elas tinham, haviam sido criadas para auxiliar os soldados em combate com uma forma prática e fácil de se ter alimentos, embora não fosse tão grande saciava de verdade a fome, sem falar que eram muito nutritivas, dessa vez havia sido sortudo, era uma de maçã verde com cereais, banana e uvas, abriu facilmente o pacote e comeu em quase meio segundo, sentiu seu estômago agradecido e se aquietando conforme a sensação de satisfação tomava conta de sua mente, nunca havia ficado tão feliz em comer algo antes, viu que ainda restava quatro delas.
Em situações de combate significaria comida para uma semana, mas como não havia nenhum combate eminente havia garantido café da manhã almoço e janta, com direito a um lanche da meia noite ou da tarde.
Abriu sua mochila e pegou as roupas que estavam nela, o uniforme dos fuzileiros para situações sociais, uma camisa de manga curta com o símbolo da CFL estampado no peito no lado direito, era tecida em algodão e o símbolo feito em um tecido mais rígido e durável, no lado do braço direito possuía a patente estampada na manga da camisa, no lado superior esquerdo do peito possuía uma plaqueta com o nome completo e abaixo dela uma identificação do tipo sanguíneo, atrás da blusa possuía o emblema de sua unidade cobrindo suas costas toda, a sua era a unidade Cérbero, seu emblema era o grande cão infernal com as três cabeças saltadas para fora do escudo rosnando de maneira intimidadora em um fundo vermelho com pequenas labaredas saltando de suas patas grossas até o peito passando por todos os músculos definidos, embora gostasse de tal emblema ainda achava que o corpo de fuzileiros o tinha tirado de algum grupo de motoqueiros a qual o responsável por desenhar tal emblema pertencia, era engraçado de se pensar devido ao fato da reputação atual de quem faz parte de um grupo desses e um soldado formado pela organização, colocou a calça pesada camuflada padrão do exercito e prendeu o coldre vazio a perna, colocou a mochila nas costas e recolheu o saco onde estavam as barras, pegou o PDA e a carteira deixando-os no mesmo bolso, checou duas vezes o armário para ter certeza de que não havia nada e assim tirar a possibilidade de sua mente o flagelar depois por algum objeto perdido, amarrou o cadarço das Pesadas botas de couro preto .
Estava pronto, prendeu bem o cinto e seguiu a seta no chão, a porta automática abriu revelando um corredor iluminado por lâmpadas que na verdade eram tiras na parede na interseção da mesma com o teto, em sua aresta, seguiam por todo o corredor.
Não iluminavam quase nada, mas esse não era objetivo, o objetivo era mesmo destacar a seta vermelha que se encontrava no chão, para não haver erro que fosse, seguiu sendo guiado pela luz e a direção que apontava a seta no chão, seus passos ecoavam por todo o corredor, que fora o som de suas pesadas botas tocando o chão, reinava apenas o silêncio, se não fossem algumas das outras câmaras criogênicas ainda ativas na sala anterior, se sentiria como de fosse a única forma de vida dentro da nave, como se tivesse sido projetada para que o capitão se isolasse de tudo quando sua mente lhe pregava uma daquelas quedas de humor, entendia esse sentimento, e muita das vezes queria apenas ter um lugar como esse para fugir, mas questões mais importantes lhe tiravam tal desejo o golpeando como a boa e velha realidade sempre tem o costume de fazer, havia um canto na sua antiga casa na colônia lunar, mas estava sempre no quartel pra conseguir seu dinheiro e não dava muita atenção para esta área da casa, sempre que nela chegava a única coisa que seu corpo ansiava era pelo confortável encontro do mesmo com a cama, que sempre se fazia com um impacto violento onde dormia sempre antes de encostar-se a ela.
Não sentia saudade, mas havia criado um apego com aquela cama, seria a melhor coisa do mundo se pra onde estivesse indo tivesse uma parecida, havia gastado dinheiro extra com a compra dela, mas seu pai costumava dizer que para conforto não Há economia de gastos, mas agora havia dormido por três anos seguidos e não esperava ter que voltar a dormir tão cedo e nem mesmo podia já que precisava ouvir o que haviam pra dizer nessa tal palestra, cruzou os metros restantes, sentia algumas vezes um certo incomodo do seus membros inferiores e superiores por ter passado tanto tempo em sono criogênico, ao chegar perto da porta um som digital soou e logo a porta ergueu no portal, liberando a passagem, a próxima sala estava toda iluminada pelos mesmos feixes de luz na parede, com a diferença que estavam fortes dessa vez e eram exatamente para iluminar, havia uma grande mesa no centro dela com arestas de metal e seu centro era de vidro, ficou claro que era uma mesa de holograma, eram bem comuns em qualquer lugar que fosse e a desse estilo não era diferente, observou que tinha algumas cadeiras espalhadas formando três fileiras com trinta cadeiras em cada, sabia que era pra toda a tripulação mais os que ainda estavam em sono criogênico, a sala era fechada e não havia nenhum sinal de janelas ali, percebeu que já estavam sentados uns quinze outros, alguns em grupos conversando, outros com celulares holográficos mexendo em alguma coisa e outros checando algumas coisas em PDAs pessoais. Pegou o seu próprio PDA, tentou acessar sua localização, mas ainda não tinha instalado o software da região, só o que disponibilizava era que estava no quadrante ômega do setor treze, um dos últimos setores explorados pelo planeta Terra, projetou um holograma mostrando um triângulo verde piscando na tela em um fundo preto, se tivesse o software instalado poderia dizer com precisão mesmo que não estivesse na atmosfera de um planeta, fechou o mapa voltando para o menu principal, acessou a galeria de fotos e acessou uma especifica, a sua favorita, que também era seu flagelo, uma foto de uns anos antes de decidir embarcar naquela missão, sendo abraçado pelo seu ex namorado.
Era um lobo como ele, mas era de cor diferente, era negro, lembrava quando às vezes a cor preta de seu pelo brilhava no sol ou em alguma luz. James sempre foi solitário, sofreu bullying e agressões físicas por anos até que pegou trauma de interações sociais, sempre que se via necessário em algum tipo de interação sempre tentava finalizar tal trabalho com maior rapidez possível e o mais isolado também, eis que apareceu um lobo negro chamado Derick, Derick estudava no mesmo curso que ele e participava do grupo que ele havia sido colocado, estavam realizando um trabalho de coleta de algumas assinaturas para apoiar um projeto de verão, o projeto mais criativo, com maior número de assinaturas iria ganhar uma viagem ao parque aquático que tinha em seu antigo país.
Não se interessava em ir nessa viagem muito menos em passar qualquer tempo que fosse com sua turma, mas precisava das notas, significaria que teria um pouco de descanso e poderia relaxar, já que não precisaria de um número tão alto no seu boletim para passar, seu projeto era de um pequeno gerador caseiro que iluminaria algumas luzes de LED para formar a palavra que desejasse, sempre foi bom com ferramentas então poderia sem problema algum resolver toda parte mecânica do projeto e talvez até mesmo fazê-lo todo sozinho e preencher com os nomes dos integrantes do grupo mais tarde.
Era melhor desse jeito, porém Derick não achava, foi até a oficina de trabalho da escola e encontrou James sentado na bancada com um fone de ouvido envolvendo suas orelhas as deixando isoladas de qualquer som exterior, andou em sua direção sem que fosse notada sua presença, viu mais de perto algumas ferramentas espalhadas pela bancada encima de uma planta do projeto do gerador impressa em papel azul e desenhado, riu com a reação de James com a música e como era fácil de ele ser levado pela mesma, sorriu e encostou em seu ombro. James ao sentir o toque se assustou tirando rapidamente o fone de suas orelhas, virou para trás quase que no mesmo instante e viu Derick de pé o encarando com um sorriso de quem o estava espionando a algum tempo. Passou os braços pela bancada puxando as ferramentas tentando evadir toda a situação:
-Er... er d-desculpa eu ainda não estou pronto pra entregar, falta os ajustes finais e alguns toques... Eu... P-preciso...- antes que pudesse dizer mais alguma coisa derrubou as ferramentas no chão.
–Hey...acalma acalma, não quis assustar você desculpa, só vim aqui pra tentar montar alguma coisa que talvez pudesse ajudar no projeto- Derick começou a se abaixar quando James o impediu de continuar, alegando que conseguiria recolher sozinho as ferramentas caídas, aquele sujeito era um tanto peculiar a James e o deixava desconfortável, enquanto Derick dava continuidade as suas tentativas de interação com James, eis que James se levanta com todas as ferramentas postas em um estojo cor cinza já surrado que usava para transportar De maneira mais prática, dobrou a planta formando um pequeno rolo que colocou debaixo do braço e andou a passos largos para a saída.
-Espera... – pediu Derick – você não precisa se esquivar das pessoas sempre, as vezes tudo o que precisamos é de um amigo.
James parou na porta por alguns segundos, todos os “amigos” que tinha conhecido só esperaram a primeira oportunidade que tiveram para lhe humilhar, tudo que ele precisava era dele mesmo e sempre havia se beneficiado da própria companhia, Derick se aproximou novamente em pequenos passos.
-Olha... James não é?... Só quero que saiba que sei pelo o que esta passando e caso queira conversar, pode me procurar a qualquer hora.
James ao perceber que Derick havia terminado de falar, deu um passo de forma relutante para fora da oficina, e logo em seguida caminhou com mais passos largos, escutou Derick suspirando e dizendo não tão alto –quando Estiver pronto- saiu do portão da escola seguindo a rua, era tarde e o movimento na rua estava ainda bem ativo, ficou pensando na forma de como Derick falava e de como ele mesmo com todas as tentativas de evasão de James continuou com suas formas de interagir com James, mas o que ele queria? Eu já não tenho nada, o que mais podem querer tirar de mim? Pensou James, aquilo o deixava com raiva, sempre que conseguia tirar as memórias ruins da sua cabeça parece que de alguma forma seu passado voltava para o assombrar, e já estava cansado dele, iria dar um fim nisso no dia seguinte, estava determinado a enfrentar Derick dizendo que não iria cair no truque que tanto usaram nele por tanto tempo, iria dizer para se manter afastado e que era melhor assim.
O céu começava a ficar com tons de laranja recorrente do horário, cruzou alguns quarteirões e seguiu por alguns becos até que chegou na sua casa, não era uma casa com um quintal e tudo mais, era um grande cubo com duas janelas encima e duas embaixo, muitas casas eram daquele jeito, com a superpopulação e o espaço se tornando cada vez mais escasso a solução foi habitar em moradas em forma de cubo, possuíam um amplo espaço interno e por ser prático poderiam se postas em praticamente qualquer lugar e uma do lado da outra ou emplihadas para formar um grande cubo formado por todos os apartamentos, eram feitas de chapas de um material sólido derivado do carbono, embora fosse bem maleável ,ainda sim era bastante resistente, além de ser hidrofóbico , possuíam um padrão de cômodo, embora a cor interna e a arrumação dos móveis davam a unicidade de cada apartamento fazendo os parecer diferentes um do outro, as chapas possuíam pequenos poros que permitiam que as brisas e correntes de ar passagem livremente pela chapa, permitindo que o ar interno circulasse e fosse sempre renovado, sempre que havia um plano de construção de uma nova morada integrada a uma já existente, o dono dessa mesma recebia uma notificação formal e um pequeno incentivo monetário que fazia ser uma oferta quase que irrecusável, tal incentivo era pago para as casas que tivessem contato com a casa que fosse construir, possuía em suas laterais escadas estrategicamente colocadas para dar acesso aos andares superiores e sempre que um novo apartamento surgia essa escada era conectada ao próximo andar e assim em diante, James ainda não possuia um vizinho morando unido a sua casa e não ligaria se tivesse também.
Levou a chave até a fechadura, destrancou a porta e entrou em sua casa, a entrada era um cômodo com algumas estantes, uma antes da porta onde geralmente guardava as chaves ou algumas coisas que geralmente só lembrava de pegar quando estava na porta, coisas como alguns cabos ou microchips específicos para alguma função, possuía neste cômodo três passagens, uma às doze horas que levava em direção a escadaria principal que por sua vez levava a um corredor onde tinha-se passagens a dois quartos separados, uma às duas horas que levava a sala de estar, nela havia uma outra pequena passagem que levava ao banheiro, na casa possuía dois, um na parte de baixo e outro no fim do corredor do segundo andar, na ultima passagem que se localizava as oito horas, havia um pequeno corredor que levava até a cozinha, James gostava de ficar nela, tinha uma grande mesa de vidro quase no centro com algumas cadeiras e encostado na parede estavam os balcões e alguns eletrodomésticos, a geladeira ficava perto da entrada da cozinha e havia um conjunto em linha reta de balcões na parede esquerda com alguns armários suspensos, entre um e outro encontrava se o fogão e perto da mesa encima da bancada principal da cozinha que tinha como objetivo imitar algum bar sofisticado, onde encontrava-se a pia, tinha um espaço pra uma televisão holográfica, consistia em um dispositivo em forma de tigela que ao ser ligado forma a imagem em uma definição absolutamente incrível.
James sempre ficava perplexo imaginando como que inventaram tal objeto, gostava de pensar em como as coisas funcionavam e gostava de desmontar as coisas para descobrir isso, dessa vez estava cansado e um tanto conturbado com a situação na oficina da escola, pegou um pacote de comida desidratada na geladeira, aqueceu a água e despejou dentro da embalagem a mexendo com uma colher, comeu o que era uma sopa de legumes e vegetais e foi direto para seu quarto, percebeu que já estava escuro.
Deitou em sua cama olhando para o teto, imaginava e se lembrava do que havia passado na escola onde era implacavelmente perseguido pelos chamados “valentões” e de todas as experiências ruins que havia sido submetido, sempre foi solitário, portanto, não havia ninguém para conversar, seu humor caiu no instante em que se recordara disso e já conseguia sentir a sensação das lagrimas escorrendo pelo seu rosto, o que eles podem querer mais? Porque não me deixam em paz simplesmente?
Tais perguntas pairavam em sua cabeça há tanto tempo que nem conseguia lembrar-se da primeira vez a qual haviam sido feitas, colocou o travesseiro na frente do seu focinho, não queria pensar nisso, seria mais uma noite entre muitas outras que não iria conseguir dormir. Pensar naquilo apenas o esgotava mais e tornava cada movimento de seu diafragma em um gume afiado que lhe furava o peito toda vez que o mesmo enchia-se de ar e esvaziava com a expiração, não iria aguentar aquilo, levantou se e foi até o banheiro, abriu o armário de remédios que se encontrava encima da pia do lado direito do espelho, era uma caixa preta que era parte da casa, uma manobra do projetista de criar na própria parede um armário onde sabia que seria usado para tal propósito.
Devido ao preço de novas medicinas mais avançadas, ter remédios sofisticados em casa era uma espécie de tesouro próprio ou da família, daqueles que eram guardados em um cofre como dinheiro, ou joias preciosas entre outros, e era sobre isso que esse armário era a respeito, por ser do mesmo material do que a parede da casa e por ter sido construído na mesma, era resistente o suficiente para aguentar tentativas de arrombamento como explosivos leves, ferramentas como pé de cabra ou martelos e marretas e até mesmo calibres mais pesados e feixes de laser, possuía um vidro na sua frente tão resistente quanto qualquer outra parte, e um painel com um pequeno visor na parte superior onde permita-se ver o que era digitado, podendo ser uma combinação entre letras e números, apenas letras ou apenas números, James sempre usava uma senha padrão para as coisas pois achava mais difícil de se esquecer assim, assim como havia uma senha padrão caso só fosse pedidos números na combinação, dessa vez, embora houvesse a possibilidade de se usar letras, quis apenas usar números, digitou: zero, três, zero, cinco, onze, zero, seis, o painel fez um som digital e o vidro subiu liberando o conteúdo do armário, James pegou um pequeno frasco redondo e transparente e uma cartela em papel laminado, abriu a tampa do frasco liberando dois comprimidos azuis e pegou um comprimido branco da cartela, aspirinas e antidepressivos, que bela sobremesa, pensou ele, abriu a bica da pia e colocou um punhado de água na boca junto com os remédios e os engoliu, trancou o armário com os remédios dentro e voltou para o seu quarto, ao deitar na cama sentiu o efeito e logo após fechar os olhos já estava dormindo.
No dia seguinte, após se arrumar, saiu para a escola com a mente limpa e apenas uma coisa importante a se fazer, iria falar para Derick se afastar e assim manter-se.
Chegou na sala de aula e sentou no fundo dela, deixou a mochila no chão e abaixou a cabeça na mesa observando a porta, não conseguia impedir de balançar sua cauda, sempre ficava balançando ela quando estava com alguma coisa pra fazer, após alguns minutos Derick cruzou a porta, ele ficou mais confiante de falar quando o viu se aproximar de onde ele estava sentado, levantou a cabeça e antes que pudesse falar algo Derick disse:
-Olha cara, desculpa por ontem e bem esqueça o que eu disse ok? Percebi o seu jeito e bem não vou tentar mais falar com você, era só isso mesmo- deu um sorriso e sentou se algumas fileiras na frente de James.
Este ficou parado perplexo com o que acabara de ouvir, nunca havia visto tal reação antes e havia sido totalmente fora do esperado por ele, e como havia alguém assim tão imprevisível, havia subestimado todos até então, mas ele... Ele era... Diferente dos outros, ele simplesmente não se importava e apenas seguiu exatamente o que ele ia falar para ele fazer, passou pela sua cabeça que poderia ser uma espécie de leitura mental, mas essa ideia era tão estúpida que foi esquecida logo depois de pensar, cinco horas haviam se passado e Derick não havia se virado para trás ou então mostrado qualquer interesse nele, James não havia escrito nada o dia todo apenas observando ele, como ele podia ser tão filho da puta assim? Ele havia feito James se interessar mesmo não querendo e como ele podia fazer aquilo, como ele podia estar encharcando a cabeça de James daquele jeito, como ele era filho da puta nesse ponto? Pensou James.
Sentia raiva por estar pensando em Derick ao mesmo tempo em que ainda estava fascinado pelo fato de que alguém pudesse ser tão neutro daquele jeito. Ouviu o sinal do intervalo tocando, havia passado as seis aulas pensando nele e isso o enchia mais de raiva, pegou sua carteira e levantou, viu Derick abraçar uma garota, não a conhecia, mas agora ele tinha uma amiga, será que ele era neutro com ela também? Perguntou-se.
James suspirou e andou para a cantina, comprou uma pequena garrafa de suco industrializado e um sanduíche de carne que gostava, sentou-se no seu lugar de sempre, uma mesa no fim do recinto, havia pichações feitas com canetas, lápis, corretivos, até mesmo estiletes, algumas eram difamações de alguns alunos antigos ou atuais, outras eram número de turmas de formandos passadas ao lado do ano da formatura, outras eram apenas algo relacionado a sexo de alguma forma seja o desenho até mesmo número de algumas pessoas. James sentou na cadeira e aproximou-se dá mesa deixando o suco encima dela para desembrulhar o sanduíche que parecia apetitoso, só parando de pensar em Derick que percebeu a fome que estava, o ingeriu rápido assim como o suco e voltou logo para a sala, sentou em seu lugar e pegou seu celular.
Era um celular normal, o corpo era todo feito de um cristal artificial feito para tais aparelhos como telas de TV, computadores e celulares, Era um pouco maior que sua pata, mas não o atrapalhava, haviam saídas de projetores de holograma e podia interagir com os mesmos sendo moldando um objeto ou girando uma imagem 3D, as linhas de comunicação permitia que pudesse se comunicar com alguém que estivesse até dois sistemas solares de distância, era capaz de receber transmissões de vídeos holográficos e capacidade da reprodução de realidade virtual, os mais avançados conseguia uma maior faixa de quadros para essas reproduções e mais números de hologramas por vez, mas nada se comparava aos PDAs militares, estes tinham uma sofisticação fora do comum que era difícil até de imaginar, iniciou e o vidro tornou se preto e uma mensagem de boas vindas apareceu na tela junto com diversos painéis luminosos e abas de aplicativo junto com seus atalhos, clicou na aba de jogos e a tela ficou preta por alguns poucos segundos em seguida ficando toda branca com os jogos subindo no menu, clicou em um jogo chamado “galaxy Razor” que era um jogo multiplayer online de tiro em primeira pessoa, ao clicar no ícone o celular voltou a ficar totalmente negro e sua forma mudou virando um óculos, James o colocou e iniciou o jogo, o logo do jogo tomava a tela inicial junto com as opções: iniciar jogo, sair do jogo e opções.
Ao conectar se com o celular James usava uma rede chamada neuronet que permitia que ele realizasse diversas ações como se estivesse realmente realizando as, porém, seu corpo nem se quer movia, não importando a ação que ele tomasse durante a conexão neuronet, como no caso dos membros fantasmas, onde a pessoa, tem seu membro amputado, porem ainda o sente, embora ele não esteja diretamente ligada ao seu corpo. Selecionou o menu iniciar jogo e em seguida a imagem de uma galáxia formou e em seguida novos menus foram aparecendo: Inventario, Contratos recebidos, detectar jogadores próximos e conectar a partidas.
Este jogo também se tratava de interações com outros jogadores, tornando uma boa fonte de créditos do próprio jogo, completar missões que eram montadas pelos próprios jogadores que podiam ser enviado para amigos ou qualquer jogador, além de existirem contratos que eram na verdade pedidos de ajuda para completar alguma missão que fosse.
James era requisitado as vezes para completar algum contrato e quando sua renda andava baixo ele as completava, olhou o canto direito inferior da tela e percebeu que o ícone de um pequeno boneco estava com o numero dois o que significava que havia dois amigos online, quando recebeu uma transmissão de vídeo:
-Você não deveria estar estudando?- Reconheceu a face na hora, era de um amigo que havia feito na escola no ano letivo passado, estudavam na mesma sala e por isso conversavam bastante e muitas vezes matavam aula para ficar jogando Galaxy Razor.
-Você também não deveria?- James disse com um sorriso sarcástico, juntando-se a sala de espera de partida de Verminator, o nome online de seu amigo, ambos se chamavam pelo nome online tantas vezes que as vezes até se esqueciam do nome um do outro, James se chamava Whiteflash em sua conta em Galaxy Razor e muitos outros jogos, era uma segunda identidade muito querida por ele, além de ter um certo renome, James era um jogador acima da media e por isso destacava-se no quesito de se ter contratos e também possuía uma fama entre alguns jogos, como o Galaxy Razor e alguns outros que gostava de jogar, já teve até fãs inclusive durante a época do campeonato mundial, mas agora apenas uma pequena parte de sua antiga fama ainda residia acesa, em algumas salas ou partidas.
A partida começou e James usou as configurações usuais de batalha, um rifle de assalto de modelo fictício do próprio jogo, uma pistola semiautomática chamada JKHMARK ll ela existia fora do jogo e era de uso exclusivo das forças militares de defesa da terra ou de corpo de exploração espacial, o rifle então apareceu nas suas patas, cobertas por luvas, do canto superior tinha a imagem de vídeo da câmera de Verminator, e assim mantinham contato durante a partida, esse mapa era de uma colônia em marte que havia sido invadida por seres de outro planeta e destruído toda a colônia, embora nessa partida era apenas um player versus player então não teria nenhum alienígena durante o combate, James tirava vantagem da baixa gravidade para movimentar-se com mais liberdade, conseguia realizar saltos mais altos, atingir plataformas mais elevadas, e assim, ter um campo de visão mais limpo, correu ate uma plataforma de metal e saltou uma pequena ravina chegando sem problemas na outra plataforma, continuou a correr saltando pequenas muretas de concreto, avistou o primeiro inimigo, parou alguns segundos estabilizando a mira nele e disparou com o rifle contra a sua blindagem, percebeu seu corpo piscando em vermelho varias vezes, o que significava que havia acertado os disparos realizados, até que o mesmo caiu no chão e desapareceu, naquelas partidas ao morrer você era transferido para a sala de espera onde podia acompanhar o resto da partida com expectador ou sair da sala e ficar sem o dinheiro ganho por completar o jogo e os pontos de experiências que eram ganhos, continuou avançando para o centro do mapa, saltou em direção a uma plataforma posta em uma torre de concreto com a base um pouco destruída mas ainda de pé, devia ter uns dez metros de altura no total e era um ponto muito usado pelos snipers que adoravam possuir o controle de todo o mapa, do alto de algum ponto, onde possuíam um amplo campo de visão, e dessa torre era capaz de ter visão da maior parte da cidade.
Quando chegou ao topo, não havia ninguém, porem, podia ver que no centro da cidade havia formado um combate com troca de tiro um pouco intensa, percebeu através da tela de Verminator que ele estava em meio ao fogo cruzado, podia ouvir certas vezes alguns xingamentos soltos por ele.
-Estou indo ajudar Verminator, mantenha eles sobre pressão- Disse indo em direção a escadaria interna da torre destruída, iria segui-la ate o ponto onde a parede cedeu e dali realizar um salto até o chão sem sofrer danos.
Ao chegar no topo da escadaria encontrou com um sniper do time inimigo indo se posicionar onde antes James estava, ambos se surpreenderam, James tentou apontar-lhe o rifle porem o sniper o chutou fazendo os braços de James irem para o lado desequilibrando todo o corpo, um segundo golpe o atingiu na pata fazendo-o largar o rifle que caiu da torre, James fechou o punho e desferiu um soco a qual foi parado pelo sniper, que rapidamente, tentou acerta-lhe um terceiro golpe mas James bloqueou o mesmo com o antebraço, colocando-o na frente do rosto, segurou o braço de seu atacante e com a outra pata livre levou-a para o coldre de sua pistola, seu atacante percebeu o movimento, e logo segurou o pulso de James fazendo com que seu braço parasse, pela força que estava fazendo sem querer seu dedo deslizou pelo slide e apertou o gatilho, realizando vários disparos no chão, até que sentiu seu pulso ser torcido fazendo-o largar a pistola, para se livrar de seu agressor James desferiu uma joelhada em seu tronco fazendo o perder as forças nos braços, assim puxou seu agressor na direção de onde ele estava, desviou o corpo da direção de onde o do seu agressor ia, ficando assim em vantagem perante a situação por estar nas costas do sniper, passou o braço pelo pescoço dele, o segurando, enquanto sacou a faca tática do seu ombro direito, a encravando nas costas do atacante, que então o xingou e piscou em vermelho logo em seguida desaparecendo, números e varias pontuações extras foram aparecendo em sua tela cada vez mais aumentando seu score, pegou a pistola e guardou-a no seu coldre, desceu a torre e pegou o rifle que estava no chão, viu que os tiros acidentais chamaram atenção de outros inimigos que o surpreenderam assim que saiu da torre, com disparos, James deslizou em uma rasteira encostando na pequena mureta de concreto usando-a de cobertura, puxou do seu cinto um cartucho novo e retirou o que antes estava no rifle, colocando o novo, segurou-o firme e percebeu a mureta desfazendo e ficando cada vez menor por causa dos disparos que eram realizados contra ela, não teria a mínima chance se esperasse até que não tivesse pra onde correr, pegou do seu cinto uma granada de fragmentação, apertou o botão vermelho que estava em cima dela fazendo-a abrir e um pequeno indicador de LED com algumas barrinhas em vermelho começou a encher-se, fazendo um bipe digital a cada segundo que passava, James a conteve por algum tempo e a lançou por cima da mureta em direção aos disparos, ouviu alguém gritando "cuidado" e outros dois gritando "granada" até que ela explodiu, percebeu que sua pontuação havia aumentado e novos números em sua tela foram aparecendo o que indicava que havia matado alguém naquele arremesso, respirou fundo e segurou firme seu rifle levantando rapidamente e correndo em direção a área negra formada pela explosão da granada, viu um dos que estavam atirando deitado no chão meio tonto com a explosão, disparou contra ele, sua barra de vida estava baixa o que não levou muitos tiros para que fosse eliminado, o segundo recobrou-se mais rápido e sacou de novo sua arma contra James, que conseguiu ser mais rápido ainda e disparou contra ele, piscou em vermelho e desapareceu como os outros, a essa altura havia ouvido risadas malignas de Verminator e algumas provocações sujas feitas para o time adversário enquanto ele disparava.
-Por onde esteve Whiteflash? Parou pra fazer um lanchinho ou pra fazer as unhas?- Disse num tom que indicava que estava irritado com sua demora, mas não podia fazer nada contra, embora, entendesse a frustração dele.
-Sim, mas o meu manicure achou que não paguei o suficiente e tentou me atacar na torre norte, e como se não bastasse, chamou o segurança e os amigos encima de mim sabe? Ai tive que dar um jeito de me explicar pra eles- Respondeu rindo e logo ambos caíram na gargalhada.
Ouviu a sirene indicando o final da partida e a tela ficou toda preta por alguns segundos voltando pra tela da sala de espera, viu que havia ficado em primeiro da partida e por isso conseguiu bastante dinheiro.
-Você vai outra?-Perguntou Verminator iniciando outra sala de espera – Não preciso voltar pra aula, ou para o que restou dela, talvez de noite eu jogue.
-Você quem sabe camarada- Disse ele finalizando a transmissão de vídeo, James voltou para o menu principal e finalizou a neuronet, uma serie de linhas azuis começou a aparecer no seu visor e a tela ficou transparente, tirou o óculos, que, ao perder contato com o rosto começou a mudar de forma até a forma retangular que tinha antes, viu que o professor estava anotando algo no quadro e parecia não ter percebido que passou a aula toda jogando, não fazia diferença para James, suas notas estavam altas como sempre e podia negligenciar algumas horas de aulas de certas matérias, embora não pudesse tomar outra advertência.
O sinal tocou e o professor virou se para a turma dizendo as ultimas informações que James não tinha acompanhado, mas sabia de que assunto se tratava, pegou a sua mochila e levantou quando todos fizeram o mesmo, colocou a nas costas e andou em direção a saída, andou por alguns metros do corredor da escola, mal dava para se movimentar devido a tanta gente nele, todos indo em direção a saída, assim que pode entrou pela porta da sala de artes e depois a porta dupla que dava na oficina, colocou a planta desenrolada encima da bancada, pegou algumas ferramentas e começou a mexer na parte do motor fazendo alguns ajustes nas peças e prendendo novas, embora ficasse bastante silêncio ainda conseguia ouvir a algazarra que estava o corredor, todos tentando sair ao mesmo tempo e um falar mais alto que o outro, pegou seu celular de novo e colocou uma música instrumental da qual gostava pra se concentrar, apertou alguns parafusos após consultar a planta, moveu uma mangueira onde iriam passar fluidos que serviriam de combustível e a prendeu no reservatório principal feito de uma garrafa de plástico.
Todo seu projeto foi feito de materiais reciclados, só o motor que era um motor antigo de metal, a qual havia sido comprado com ajuda de todo o grupo, foi o mais barato que achou, mas, com ferramentas certas e o toque necessário, era capaz de fazer até mesmo aquele motor velho funcionar como se tivesse sido tirado da fábrica no dia anterior de ser instalado na máquina, e era o que James estava fazendo, só algumas ferramentas básicas, um pouco de óleo e estava pronto, porém precisou da ajuda de um maçarico pra tapar alguns furos que tinha na parte de baixo, mas não era problema, conseguiu um rápido e resolveu o assunto, já estava quase pronto, a feira era na próxima sexta-feira e iria estar pronto bem antes de lá, tirou os fones de ouvido e percebeu que o barulho já havia parado, recolheu a planta enrolando a de novo e o estojo de ferramentas, colocou novamente a mochila nas costas e seguiu.
Ao chegar na porta da sala de artes, tropeçou na lixeira e perdeu o equilíbrio, indo de encontro com a porta, que com seu peso, abriu, derrubando-o no chão, ouviu as ferramentas se espalharem pelo corredor, olhou rápido pros lados e sentiu se aliviado por não ter ninguém, porém, viu Derick com a mochila nas costas, levantou as sobrancelhas ao ver a cena mas permaneceu em silêncio, James ajoelhou no chão e levantou indo recolher as ferramentas, viu Derick se aproximar e começou a formar as palavras na boca que não precisava de ajuda, mas ele simplesmente o ignorou como se não estivesse ali, James ficou olhando ele caminhar em direção a porta e sair da escola , como se ele não tivesse visto James cair a poucos passos dele, lembrou do que aconteceu na sala de aula e Derick encheu a cabeça de James novamente, lembrou-se dá raiva que sentia, mas que... Qual era a dele, ele nem se quer quis ajudar nem sei se ele me viu mesmo. Pensou James.
Recolheu as ferramentas no chão e colocou-as no estojo, assegurando de que estava fechado dessa vez, voltou para casa e passou a noite olhando pro teto pensando em Derick, no estranho lobo preto que conseguia ler pensamentos, teve pouco tempo, mas percebeu que Derick havia certos músculos definidos, talvez fizesse algum esporte, merda... Agora além de estar pensando nele estava pensando em como ele era bonito.
James sentiu suas bochechas ficando mais quentes e jurava que estavam vermelhas, sua cabeça não parava de projetar imagens de Derick tirando a camisa, colocou o travesseiro na frente do focinho e gritou sendo abafado pelo travesseiro, o retirou porém seu rosto continuava o mesmo, virou para o lado voltando a abraçar o travesseiro e fechou os olhos, amanhã iria falar com ele e isso estava decidido e nada que sua cabeça pudesse colocar de trava iria impedi-lo de falar com Derick.
No dia seguinte na hora do intervalo perto do final do dia encontrou ele sentado na mesa perto do centro do refeitório, se aproximou um pouco vacilante tentando conter todos os impulsos de recuar e se isolar novamente, mas não, não dessa vez, dessa vez iria progredir, engoliu em seco e com a voz falha chamou a atenção de Derick.
-oh olha quem está aqui, isso vai ser interessante, então fala o que você quer- Ele disse com um sorriso sarcástico e a voz mais ainda ao se virar e ver que James estava de pé na frente dele.
-É que... É que... Eu pensei no que você havia dito e...- James pensou se ainda dava tempo de sair correndo e se esconder em algum lugar, suas bochechas começavam a rosar e ficar mais quente.
-O que é?- a voz de Derick agora era de impaciente
-Eu estive pensando no que você me disse lá na oficina e bem, eu gostaria de... E-eu gostaria de conversar com você...
-Depois do seu jeito acho que não estou muito a fim de conversar.
James abaixou a cabeça, corado e um pouco triste.
-Me desculpa ter te tratado tão mal daquele jeito, espero que não esteja irritado comigo.
-Tudo bem, era só oque eu precisava ouvir, tudo bem, se é minha amizade que está pedindo eu aceito, vamos ser amigos- ele deu um sorriso e James teve que mais uma vez conter-se para mão explodir de emoção ou abraçar Derick, invés disso contentou-se em apertar a pata dele, foram conversando para a sala e Derick sentou-se ao lado dele.
Os dias seguiram com Derick e James ficando cada vez mais amigos e mais próximos, lembrava-se da sensação quente e prazerosa que foi o primeiro abraço de Derick, apenas desejou que aquele momento nunca mais acabasse, o grande dia havia chegado, os últimos do ano letivo, iriam apresentar seu projeto, as outras turmas já haviam apresentado e recebido suas notas, o suas notas, Seu grupo era o último, ligou e ajustou os cabos e sucesso, Seu reator estava ligado, James o conectou no painel que começou a exibir as letras de LED, os professores que estavam julgando o trabalho aplaudiram e todos comemoraram, passaram com nota máxima e foram logo liberados, todos estavam conversando e decidindo o que iam fazer depois e dizendo que iriam sentir falta um do outro mais tarde, James não se interessava por tais coisas e na primeira oportunidade que teve se esgueirou para fora sem ser notado e caminhou em direção sua casa.
Estava feliz por finalmente estar de férias e finalmente livre da escola, era seu último ano e agora que sua vida começava de verdade, precisava arrumar um emprego e fazer tanta coisa ao mesmo tempo em que ficou confuso, mas não queria pensar naquelas coisas agora, eles estavam certos, estava na hora de comemorar, mas iria fazer do seu jeito, iria chegar em casa e fazer uma pequena jogatina de Galaxy Razor, talvez pedir uma pizza e tomar uns refrigerantes.
Animou-se com seu plano e apertou o passo, a rua estava deserta sendo iluminada pelos semáforos em conjunto com a iluminação pública, entrou depressa em casa e deixou a mochila na sala, conectou seu celular a TV através da troca de dados sem fio e colocou o celular em forma de óculos.
Seu celular podia interagir com a casa através de qualquer eletrodoméstico seja a TV ou o micro-ondas, sistema antigo inventado chamado smart house, tudo poderia ser conectado na casa e todos os aparelhos trocavam dados e informação entre si, iniciou a neuronet e logo se juntou a uma partida.
A partida já havia começado a uns segundos mas não impediria de jogar, escolheu como ponto de surgimento no jogo um avião de transporte que passava por cima do campo de batalha, surgiu no interior com seu armamento de sempre, checou a pistola e em seguida o rifle, colocou o nas costas e pegou um paraquedas que estava pendurado, vestiu e saltou do avião, esperou alguns segundos e logo o abriu desacelerando sua queda, foi ouviu a voz familiar e no canto superior da tela viu o rosto de Verminator, ele havia seguido e entrado em sua partida.
-Adorei a consideração por ter me convidado, seu otário.
James riu e respondeu em seguida:
-Ah para de graça, não posso ficar longe da minha esposa por nem cinco minutinhos que ela já vem atrás de mim.
-Alguem tem que ficar de olho pra ver se você está matando os inimigos e não se esfregando neles.
Ambos riram e o rosto de Verminator foi substituído pela câmera.
-Estou em direção ao ponto A, estou em queda livre perto da floresta, preciso de uma carona quando chegar lá.
-Certo, vou pedir emprestado um carro aqui com jeitinho pra vê se eles me dão.
-Tem certeza que sou eu quem vai ficar se esfregando nos inimigos?
-Há Há Há...muito engraçado, chego ai em três minutos.
Chegou ao solo e firmou suas patas, tirou o paraquedas de si e pegou o rifle engatinhando o mesmo, mirou em volta e não viu nada, chegou perto de uma árvore e checou a integridade dos galhos mais baixos, começou a subir por ela, chegou numa posição mais alta e encostou as costas no tronco principal da árvore.
-Perímetro seguro Verminator, aguardando.
-Certo, estou a caminho com algo bem sutil, você nem vai perceber que sou eu.
Nesse momento James avistou um par de soldados do time inimigo, estavam patrulhando a floresta onde ele havia aterrissado, deveriam ter visto seu paraquedas ao longe, centralizou a mira e encostou o dedo no gatilho, respirou fundo e prendeu a respiração, informou em voz baixa a situação para Verminator e, antes que pudesse dizer mais algo, ouviu um barulho de motor ao longe se aproximando, os dois embaixo também ouviram e levantaram as armas atentos, James voltou a mira-los e foi quando das árvores surgiu Verminator, em um caminhão de transporte, buzinando e gritando seus famosos gritos de guerra, os dois desviaram de seu caminhão disparando contra ele, Verminator virou o caminhão e deu meia volta indo de encontro aos dois, dessa vez os acertou, não conseguindo desviar, foram eliminados por atropelamentos, Verminator saltou da cabine do motorista rindo e zombando.
-Você viu aquilo? Aquilo é estilo, Há, eliminação dupla baby ah é o Verminator é demais.
James ficou aliviado por Verminator ter um plano dessa vez... Ou apenas entrar gritando seu nome e atirando pra todo lado, também dava certo na maioria das vezes.
-Então e isso que você chama de sutil certo? Realmente nem iria advinha que era você.
-Pra quem acabou de ser salvo, você não me parece muito agradecido sabia?
James desceu da árvore e subiu na caçamba do caminhão e sentou encostado na cabine.
-Muito obrigado senhor deus do “oh meu deus uma fortaleza, vou entrar atirando pra tudo que é lado” oque seria de mim se não fosse toda sua presença e seus planos meticulosamente armados e revisados com todo o cuidado do mundo.
Verminator olhou de relance enquanto subia na cabine novamente ligando o motor.
-Agora sim eu gostei, anda o resto do time esta em confronto no centro.
Ambos moveram-se pelas estradas principais do mapa, consistia em partes de uma cidade abandonada cercada pela floresta onde James aterrissou, estava silêncio e não havia sinal de nenhum inimigo por perto, passaram por estruturas em chamas e prédios destruídos, ouviu Verminator dizer:
-Whiteflash... Olhe o mapa.
James olhou o mapa e avistou um inimigo se aproximando rapidamente mas não identificou oque era pelo radar.
-Oque é aquilo? Consegue identificar?
-Não, ele usa um embaralhado de radar de um nível muito alto, não consigo usar o identificador nele.
Viu um brilho no céu e quando tentou distinguir o que, era o objeto começou a disparar contra o caminhão, os disparos pegaram no chão e foi subindo, até que, próximo de chegar, ele subiu e desapareceu de novo no céu.
-Jato de ataque!!- gritou para Verminator, ele então desviou da linha de tiro jogando violentamente o caminhão para a esquerda, obrigando James a segurar firme na lateral da caçamba para não cair dela e foi quando, do meio da estrada, um soldado surgiu com um lança-misseis e disparou na frente do caminhão, fazendo-o capotar e tombar de lado ao fim dos giros, James não conseguiu se segurar até o fim e acabou tendo que soltar-se antes que fosse esmagado, caiu no chão e rolou para não se machucar, correu até o caminhão virado de lado e quebrou a janela do motorista para Verminator sair, ele, se arrastou para fora tossindo, James o ajudou a ficar de pé e quando virou na direção de onde o disparo veio, viu seis soldados um do lado do outro carregando as armas, vindo em direção que eles estavam.
James arrastou Verminator pelo colete até a atrás do caminhão usando o mesmo de cobertura, ele se recuperou e pegou o rifle novamente, James encostou-se ao caminhão também sacando seu rifle, deu uma breve olhada nos soldados e os mesmos começaram a disparar, voltou rápido.
-Seguinte, temos uma chance, se concentrarmos o fogo em uma direção só, podemos colocá-los em pressão para recuarem e ai eu uso a minha granada de fumaça pra sairmos da frigideira que isso aqui esta.
-Certo... Estou com você Whiteflash- Disse com o olhar determinado.
James respirou fundo e olhou para seu parceiro, ele deu um aceno positivo com a cabeça dizendo que estava pronto. James soltou o ar, respondendo ao seu aceno e deu o sinal, ambos começaram a disparar na mesma direção, receberam fogo inimigo de volta, mas estavam menos expostos que seus atacantes, lhes dando a vantagem e obrigando os soldados inimigos a recuar depressa.
-deu certo por enquanto, mantenha assim por mais um tempo e nos saímos daqui.
Foi quando James recebeu uma nova notificação no canto superior da sua tela, estranhou e clicou no pequeno acento de exclamação amarelo, era uma notificação de sua casa, alguém acionara a campainha, que enviou a mensagem ao seu celular, que era um óculos naquele momento, achou mais estranho ainda, não lembrava de ter pedido a pizza que tinha pensado em pedir mas já acontecerá antes então aceitou.
-Verminator, espera um pouco.
Entrou no menu e desativou a neuronet, viu as linhas azuis e logo os óculos ficaram transparentes.
-Hey ei ei ei onde você vai? Volta aqui. Vai me deixar nessa situação sozinho? Hey- Levantou Do sofá e pegou a mochila tirando a carteira dela, colocou no bolso e foi atender a porta, abriu ela e a carteira tentando abrir ela.
- Não sei se pelo telefone eu pedi troco ou não, mas é que... haha... Eu esqueci, mas eu tenho trocado caso precise.
-Não se preocupe tenho alguns trocados aqui.
Ao ouvir aquela voz seus olhos arregalaram e parece que seu coração parou por um segundo, mas invés disso começou a bater mais forte, sentiu o cheiro familiar com traços de um perfume que conhecia, levantou a cabeça e olhou pra frente e viu, um arrepio subiu pela sua espinha ao perceber que seus sentidos estavam corretos, era Derick que estava em sua frente, na roupa que havia ido para a escola, estava segurando um pacote de preparo rápido de pipoca de micro-ondas.
-Ufa... Que bom que era a sua casa essa, acabei errando umas cinco vezes antes de ir na certa hahaha.
Seu coração novamente foi atingido por aquela voz, suas bochechas começavam a corar enquanto olhava ele com os olhos arregalados ainda e suas palavras se tornaram gaguejos não linguísticos.
-Certo, certo, vamos tentar de novo, só que agora em uma língua que eu entenda, por favor.
James tomou ar e tentou inutilmente acalmar seu coração e seus pensamentos que pareciam mais um centro de cidade em hora do rush.
-Oque... C-como você... o-oque.
Derick riu achando toda a cena engraçada.
-Bom, não podemos deixar de comemorar o último dia de escola certo? Achei seu endereço através de algumas pessoas, bom, é claro que não sabiam os detalhes, só me deram a rua e o bairro, fui algumas portas para saber.
-Mas... Mas... Eu não arrumei nada e...não acho que...pode não ser.
-Derick desfez o sorriso em uma expressão triste.
-Tudo bem, eu vou embora então.
-NÃO!!!
Derick se assustou com a rápida resposta e a reação de James, muito diferente de semanas anteriores.
-Tudo bem, eu tenho alguns filmes aqui e estava pensando se gostaria de assistir comigo.
-Claro... Entre.
Ambos entraram e James fechou a porta.
-Bonita casa.
-É igual a sua, ou a de todo mundo.
Derick riu de novo.
-Eu moro em apartamento, não são iguais aos cubos, mas digo mais em questão da arrumação de móveis e decorações.
-Obrigado.
-Onde estão seus pais?
Por muito tempo foi uma questão complicada para James lidar com, mas acostumou-se e por fim não ligava mais.
-Minha mãe morreu por um ataque cardíaco quando eu era filhote, e meu pai morreu anos depois durante a guerra de revolução dos rebeldes das colônias do setor nove.
Derick sentiu-se culpado por perguntar.
-Me desculpa, eu não sabia sobre isso.
-Tudo bem, não tem problema, eu já superei.
-Então, como viveu depois disso?
-Recebia os salários de meu pai e vou receber durante a vida toda, e minha mãe trabalhava no setor público da cidade, então, também recebo os salários dela, morava com a minha tia até uns anos atrás mas ela teve que se mudar devido ao emprego, e eu decidi então ficar aqui, já sabia me cuidar sozinho.
Derick sorriu com um ar um tanto pensador.
-Parece então que sempre foi assim.
-Acho que sim... Então... Que filme vai ser?
-Peguei alguns recentes, mas eu estava com bastante vontade de assistir Jogo espacial quatro o golpe.
James gostava daquela série de filmes, contava a história de como um policial interplanetário lidava com problemas, até que um dia sequestram um ministro de um planeta e ele tem que salvar antes que fosse tarde demais, muitos críticos de cinema haviam reclamado das últimas versões do filme por sempre se tratar de um mesmo assunto mudando apenas os personagens, para James aquele era o charme escondido do filme, mas para a Hollywood e os envolvidos na gravação não era, então apostaram alto na gravação desse último título, onde mudaram completamente o ambiente e dessa vez o policial que seria o caçado, na época, James havia ficado bem curioso para assistir, porém acabou perdendo a estreia e por fim foi deixando sempre de lado.
-Wow, depois de tanta procrastinação, nunca pensei que finalmente veria esse filme.
Foram ambos para sala e Derick conectou o seu celular na TV, James olhava apenas pensando em como o destino era mesmo surpreendente, decidiu por fim colocar o pacote de pipoca para cozinhar no micro-ondas para que ficasse pronto o mais rápido possível, sentia cheiro de manteiga derretendo por cima da pipoca conforme ela ficava pronta, até mesmo Derick da sala comentou o cheiro bom.
Assim que ficou pronta a despejou em uma tigela grande e levou para sala com alguns sachês de sal, não sabia o quanto Derick gostava de sal em sua pipoca então não arriscou, sentou no sofá e Derick deu play no filme.
Aquilo estava realmente acontecendo? Era tudo um sonho? Ou havia sido atropelado no caminho de casa e estava em coma agora em algum hospital? Não conseguia tirar essas perguntas da cabeça e não conseguia imaginar estar ali do lado de Derick vendo um filme, no seu sofá, mesmo que estivesse acontecendo naquele momento, em certas partes do filme Derick comentava algumas coisas e outras apenas ria e falava alguma experiência passada que tivesse de alguma forma certa coincidência, James se aproximou cada vez mais sorrateiramente, enquanto Derick se distraia com o filme, até que se encostou a ele, segurou seus impulsos e manteve a cabeça longe do ombro de Derick, mesmo que pra James, parecesse tão confortável e macio e convidativo e aconchegante.
O filme acabou deixando um olhar de maravilhado no rosto de Derick, ele estava comentando e dizendo o quanto ele gostou.
-São que horas James?- disse finalmente ficando um pouco mais calmo e menos eufórico.
James ativou seu celular e a tela apareceu revelando o grande relógio no meio dela.
-Onze e meia.
-Oh merda...onze e meia? Mas já? Droga ficou tão tarde assim?
-Qual o problema?
-A linha que uso no metrô para de funcionar as onze.
-Mas você não tem outro jeito de chegar em casa?
-Ter até tenho, mas não acho que ainda tenha ônibus por ai.
James pensou em algumas alternativas mas não achou nenhuma plausível, até que sua próxima ideia veio-lhe a cabeça.
-Bom, se quiser você pode passar a noite aqui.
Derick o olhou meio perplexo.
-Não precisa, eu dou meu jeito de chegar em casa.
-Olha você mesmo já disse que estava tarde e que não teria nenhum transporte a essa hora da noite.
-Sim, mas não é motivo pra te incomodar com algo tão banal assim.
James deu um sorriso.
-Ora, não é banal, você pode acabar se machucando por aí ou alguém lhe fazendo algum mal.
Derick suspirou e ficou em silêncio por um tempo mas depois se rendeu a proposta.
-Certo... Eu fico... Mas não quero incomodar.
-Você não vai, tenho certeza.
Foram para o quarto de James e ele armou uma cama secundária para Derick, forrou com um lençol limpo e deu um travesseiro do armário, Derick se aconchegou na cama e deitou nela, James deu a Derick uma coberta também que logo foi usada para cobrir o corpo dele, James apagou as luzes e fechou os olhos.
Fez um completo silêncio no quarto, eram apenas ouvidos sons da noite como grilos e alguns carros que passavam pela rua, ficou encarando o teto escuro, pensando nos motivos de Derick ter sido trazido até ele pelo destino ou sorte, mas agora estava ali, do seu lado.
James?-sussurrou Derick.
-Sim?-disse James em tom de voz normal.
-Eu acordei você?- perguntou Derick no tom voz normal também.
-Eu meio que não consegui dormir.
-Sabe... Eu queria agradecer pelo dia de hoje eu me diverti muito.
-Não, eu que tenho que agradecer, afinal foi você quem me procurou para vermos um filme lembra?
-É... Sim... Mas...
James virou de lado e olhou para Derick, seu pelo negro escondia-o completamente no escuro deixando somente os olhos que brilhavam no escuro em amarelo.
-Algo errado Derick?
-É que... Eu não fui completamente sincero com você.
-Oque está tentando dizer?
Nesse momento perdeu os olhos de Derick por alguns segundos e sentiu um certo peso em suas pernas e seus braços, e então sentiu a respiração quente dele contra o seu pescoço, sentiu o arrepio de antes percorrer sua espinha novamente, seus pelos ficaram eriçados e os olhos de Derick estavam bem próximos dos seus, sentiu o focinho de Derick encostar no seu próprio e o mesmo silêncio preencheu o quarto, mas, dessa vez, um novo som estava presente, os batimentos fortes e acelerados de James, ficou um pouco envergonhado e seu rosto estava totalmente quente, patas avançaram pelo seu torso e Derick envolveu a cintura de James em seus braços acabando por ficar mais próximo dele, sentia a atmosfera hipnotizante e envolvente que era sentir a respiração vindo em intervalos padronizados contra o focinho de James, o calor que ele emitia para o seu corpo, e sentiu então, a língua úmida e quente de Derick em seu focinho, a saliva logo esfriou no ar do quarto e então os lábios de Derick tocaram nos de James, ficaram assim por alguns segundos e Derick soltou depois, James respirou fundo soltando o ar pela boca e em seguida passou os braços delicadamente pelo pescoço de Derick voltando a beijar-lhe, dessa vez a língua de ambos se tocaram e para James era a primeira vez que havia beijado alguém e por isso não sabia oque fazer, recuou com a língua mas Derick a puxou de volta e então decidiu-se entregar-lhe a ele.
Seus lábios perdiam contato por um breve segundo e logo as línguas moviam-se em uma valsa harmoniosa, os cheiros, os sons, ambos estavam envolvidos um no outro perante o sublime beijo que ardia em reflexo da paixão envolvida.
Derick recuou e suas bocas desencontraram encerrando levemente o beijo.
-Eu só queria ter certeza...
James ainda estava perdido da última experiência, seus sentidos voltavam devagar e logo os pensamentos foram formando-se.
-Certeza d-de que?
Mais uma pausa e sentiu Derick se aproximando de sua orelha e então sussurrou nela.
-De que você gostava de mim, tanto quanto eu gostava de você...
Para James aquele foi um choque que mudaria sua vida para sempre, desde então passaram a se encontrar mais até que em um parque da cidade Derick o pediu em namoro, ele se mudou para a casa de James, Derick começou a trabalhar como gerente em um pequeno banco da cidade e James havia contado de seu sonho de ser um soldado mas nunca iria se realizar por não se achar capaz de participar do treinamento, Derick o incentivou, até que por fim, James participou do recrutamento e no ano seguinte foi chamado, Derick o havia curado dê sua depressão e sua baixa estima havia sumido, mudou-o por completo, não era mais o antigo James, agora era um novo lobo, extrovertido, sem medos tolos.
Por três anos compartilhou sua vida com Derick até que no final do terceiro ano, o banco onde Derick trabalhava havia sido atacado e Derick um dos feridos durante o ataque, foi levado ao pressas para o hospital onde James ficou dia e noite acompanhando sua recuperação
-James... — Derick havia acordado no período entre as medicações fortes e os anestésicos.
-Amor... Não fale... Poupe suas forças.
-Vão me levar logo pra cirurgia... Antes que eles me levem quero agradecer por tudo.
James não conseguiu conter as lágrimas e apertou a pata de Derick.
-Não... Não... Não fale isso, por favor.
-Lembre-se James, não existem limites.
-Você Não pode dizer isso... Não faça isso, por favor- Sua voz falhava pelo choro.
-Te dou dois caminhos, no primeiro você eu saio daqui e provo sigo com suas palavras que limites estão em tudo e no segundo você faz como eu disse e vive dizendo que não existem limites.
-MAS VOCÊ ESTA MORRENDO!!
Derick deu uma de suas risadas.
-Então parece que é uma escolha fácil pra você.
Os médicos então apareceram e empurraram a cama de Derick levando-a pelos corredores do hospital até a sala de cirurgia.
-Lembre-se... Não existem limites.
Não estava preparado para ver aquelas portas branco fecharem, assim como não estava preparado quando recebeu a notícia que seu amado havia falecido durante a cirurgia, foi embora sem dizer uma palavra e chorou como nunca antes, as últimas palavras dele ainda pairavam em sua mente como um grande eco, ficou por semanas sumido de seu quartel, mas decidiu que talvez fosse uma boa ideia pensar em outra coisa, decidiu olhar o quadro de missões para alguma disponível em sua patente, escolheu uma que sempre teve vontade de fazer, uma missão fora de seu sistema solar, fora de seu setor do espaço para algum remoto, a missão dizia que seria realocado para a base no planeta Kronosphere, no setor treze, um dos últimos que havia sido explorado pelo planeta terra, era para cumprir sua promessa, então não existiam limites que diziam que não poderia aceitar aquela missão, o pagamento era bom e conheceria outros lugares.
Semanas de palestras preparatórias para a missão e vários de sua turma sendo eliminados do programa, até que por fim, todos os preparativos haviam sido feitos e todos que permaneceram seriam realocados para sua nova base, a nave gateway, um cruzador de batalha construído nas instalações da lua era a nave que iria transportar tripulação, veículos, mantimentos e outras coisas que foram requisitadas por Kronosphere, devido a sua grande distancia, foi necessário que James entrasse em sono criogênico por três anos, seu pensamento enquanto o gelo o consumia eram as palavras de Derick, James não conseguia imaginar que havia chegado tão longe.
Fechou o PDA voltando a olhar a sala ao redor, percebeu que ela estava cheia, já estava pensando no passado por horas sem que percebesse, na frente da sala, atrás da mesa de vidro, encontravam-se alguns oficiais em fardas azuis, todos os soldados estavam atentos e haviam parado de falar um com o outro ou mexer em celulares ou PDAs.
-Sejam bem vindos cavalheiros! O programa Kronosphere lhes da as boas vindas e parabeniza a todos que chegaram até aqui, Sou o comandante encarregado dessa nave e Major Thomas Willis- Ele dizia em voz alta para que todos o ouvissem.
-Todos vocês provaram a si mesmo e aos seus superiores que são aptos para lidar com situações que talvez sejam requeridas de vocês enquanto estiverem em solo ou em alguma missão do planeta, não se enganem, Kronosphere pode ter lindas paisagens e bonitos cenários, mas o planeta ira engolir vocês se derem a chance, possuímos alguns animais exóticos e muito perigosos.
O major reduziu todas as luzes da sala e iniciou varias projeções de hologramas na mesa transparente, explicando diversos animais, como Jackals, eram como cachorros pequenos, porem, possuíam partes do corpo como tentáculos, que tinham seus ombros como origens, os usavam para prender sua presa, enquanto a devorava, e animais maiores como os Bullhorns, eram como grandes touros só que algumas vezes maiores e com um exoesqueleto por todo seu corpo que formava uma grande armadura de osso que nem mesmo balas de calibre mais pesadas atravessavam.
-Vocês iram saber mais conforme se instalarem aqui cadetes, e bem vindos ao inferno.
Toda a sala começou a abrir e onde eram paredes na verdade eram persianas, que revelaram uma sala inteira feita de vidro, a visão dava para o espaço, dando a impressão que flutuavam livres por ele, varias estrelas mais que conseguia contar e majestoso o planeta azul e verde aproximava-se devagar, e atrás dele a grande estrela amarela que fornecia calor e luz, era uma visão linda que por alguns minutos maravilhou James, ate que as persianas voltaram a se fechar junto com as paredes, voltando a mesma sala de antes
-Quero que vocês se apresentem na academia da nave em cinco minutos, sigam as luzes vermelhas, a gravidade zero deixou seus corpos moles e frágeis como lindas donzelas, mas aqui não vai ter nenhum cavaleiro encantado estão me ouvindo?
Um alto coro disse em resposta:
-SIM SENHOR!
-Aterrissagem em cinco horas, nem um minuto a mais e nem um minuto a menos, estão dispensados cadetes.
James olhou para baixo e em seguida disse tão baixo que nem mesmo ele sabia que havia dito.
-Eu sei... A vida tirou meu cavaleiro encantado.
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