Horizonte Eterno
17 Memórias Sempre Voltarão
De joelhos no chão, Elise se encontrou fitando as palmas de suas mãos ensanguentadas.
Misturado ao sangue, a sujeira e as feridas da batalha que circundam todo o seu corpo.
Sua exaustão física só não perde para a sua mental, custando acreditar se tudo realmente havia acabado.
Claus era um monstro, e sua derrota veio apenas pelo poder da flecha de Eslie.
Seu olhar ametista voltou-se novamente para o esqueleto do rei morto, como se buscasse uma confirmação absoluta, e essa confirmação era a flecha cravada no monte de ossos.
— Pode se levantar?
Elise cruzou seu olhar com o autor da pergunta.
— É claro — apesar da dificuldade, o fez.
Ela pegou a mão de Talin e apoiou-se nele para manter-se de pé.
A Altair pôde perceber que diferente dela, o Aeron não se permitia saborear a vitória que tiveram, mantendo seu olhar atento ao grande grupo de monstros que ainda cercam todo o castelo.
Ela não sabia dizer se era uma diferente de maturidade ou alguma paranoia dele.
— De algum jeito, a gente conseguiu…!
Aether chamou a atenção de Elise com suas palavras, ajeitando o corpo desmaiado da liberta ruiva no chão.
Apesar do pequeno sorriso em seu rosto, foi fácil perceber uma pintada de tristeza em seu olhar.
— Aether…! O Elmond e a Lena…!? — ela esperou pelo pior, mas ainda buscou esperança.
— A Lena ficará bem — seu tom foi firme, pois acreditou que isso era necessário.
— Mas e o El…
— Você já conseguiu entender o que ele não quer falar, Elise — Talin num tom mais seco tomou a palavra, calando a Altair que sentiu um gosto azedo na boca.
Ela abaixou o olhar, sobrecarregada com emoções e acontecimentos demais para saber como reagir corretamente agora.
Ao olhar para o elfo novamente, viu ele imerso em pensamentos enquanto fitava a face da liberta.
Instintivamente deu um passo adiante, mas a fraqueza gerada pela exaustão a fez perder a consciência no processo, e coube a Talin impedir sua queda e a colocar ao lado de Lilith.
— É claro que estava mentindo… — o Aeron alternou seu olhar sobre ambas — Vocês duas certamente terão problemas com limites.
— Comandante!
Théo chegou ao local com a maga de terra apoiando-se nele.
Agora, no mesmo local estavam todos os sobreviventes da expedição.
Talin não precisou dizer nada para que eles começassem a se aproximar, mas bastou um passo para cessarem o avanço, pois a atenção de todos foi para a súbita agitação no véu sobre Luvelin.
Uma ventania direcionada ao véu tomou conta do local.
Forte o suficiente não só para arrastar pequenos fragmentos de terra, mas como colocar abaixo mais das estruturas já fragilizadas do reino caído.
Uma aura vermelha começou a escapar tanto dos esqueletos quanto dos monstros ao redor do castelo, e tal evento os surpreendeu a tal ponto que olharam para si mesmo num misto de medo e confusão.
— Entendo… Sendo o rei o catalisador da maldição, agora que foi derrotado… — Talin olhou para seus companheiros — Se tem algo a dizer para eles ainda, agora é a hora.
— O que quer dizer? — Aether foi o primeiro a responder — Eu preciso falar com Happo ainda.
— Sem o catalizador para a imortalidade deles, eles logo não estarão mais aqui — o comandante coloca a mão no ombro do elfo —Seja rápido.
A cabeça de Aether estava cheia, mas ciente do que vai acontecer agora, ele entendeu qual a prioridade do momento.
Ele correu na direção de Happo que como a maioria dos residentes de Luvelin, encarava confuso o grande véu que atraia tudo com uma ventania fora de controle.
— Happo! Nós conseguimos! — o arqueiro gritou em direção ao esqueleto — Claus caiu e vocês não vão mais ficar apodrecendo aqui!
A luz nos olhos de Happo oscilaram ao encontrarem Aether.
— Eu queria conversar mais com você…! — o elfo fez o melhor que pode para colocar um sorriso no rosto — Mas… A única coisa que posso dizer é que cumprimos o que foi prometido…!
A luz nos olhos das criaturas começou a apagar, e delas a aura vermelha se liberta rumando ao véu acima do reino.
Uma por uma.
Caindo, despencando e virando apenas pó sobre o chão de Luvelin.
— Espero que todos vocês… — a voz do elfo oscilou ao perceber os olhos do esqueleto se apagando lentamente — Possam descansar em paz…
O esqueleto estendeu a mão em direção ao elfo uma última vez, e moveu as mandíbulas.
Nenhuma voz saiu de lá, mas Aether tem certeza de ter ouvido algo.
‘’Obrigado.’’
E a luz nos olhos de Happo se apagaram também.
Seu corpo foi ao chão e como o dos outros, virou apenas pó.
Théo e Lena não entenderam bem o que aconteceu, afinal, não tiveram acesso às memórias envolvendo Happo.
Talin por outro lado teve, e por esse motivo entendeu às lágrimas no rosto do elfo.
O mago da vida e da morte junto da maga de terra, se sentiam perdidos em meio aquela ventania, compreendendo apenas que Claus foi derrotado e que os esqueletos e os monstros estavam caindo e virando pó.
Talin fechou os olhos e respirou fundo.
Ainda não acabou.
Os olhos de jade se abrem novamente, voltando-se para Lena.
Ela praticamente acabou de voltar da morte e está exausta… E ainda assim, ele fez a pergunta.
— Lena, você consegue vir comigo?
— Sim.
E apesar de tudo isso, não houve hesitação alguma.
Em meio aos escombros do que antes foi a sala do trono de Claus, Talin e Lena acabam de cessar sua corrida em direção ao lago de sangue. O comandante tem certeza, é dele que vem aquela mana distorcida, capaz de atrair os monstros que vão em direção de Drakroth.
Talin e Lena não se afastaram muito de Théo e Aether, pois a percepção de noús do comandante o levou até o que sobrou do lago de sangue alimentado por incontáveis anos por Claus e pela serpente.
O cheiro de sangue e podridão fez os dois sentirem nojo.
O estômago de Lena até mesmo embrulhou.
Com um olhar sério e cansado, o comandante encara a maga.
— O que nos trouxe aqui… Está aí dentro.
Normalmente é difícil ler Talin, mas neste momento ele parecia um livro para a maga de terra.
Ele está desesperado para acabar logo com isso.
Todos estão.
Lena tocou a ponta do cajado no chão, e precisou de longos segundos para fazer uma magia que normalmente faria em um instante.
Ela moveu o solo no fundo do lago, jogando para fora todo o sangue e tudo que estava lá dentro.
Isso fez piorar o cheiro desagradável, e ela tossiu desviando o olhar daquele lago macabro.
Talin também não gostou nada do que estava vendo.
Restos de ossos e músculos, além de ferramentas apodrecidas pelo tempo.
Mas o que se destacou foi o estranho casulo escuro, pulsando como um coração, tendo em si também uma quantidade incrível de noús nele.
Talin não pensou duas vezes e sacou dispersa, sua espada.
Atacou com um corte de cima para baixo, mas foi surpreendido quando nenhum arranhão foi causado.
— Mas… O que? — ele bufou.
— É isso…? — a maga juntou coragem pra encarar aquela coisa bizarra — Vou esmagá-lo.
Lena novamente iniciou um esforço além do que deveria, erguendo uma roxa grande o suficiente para esmagar uma pessoa.
Ela colocou essa rocha sobre o casulo e a desceu com tudo, mas foi em vão.
Aquela coisa não poderia ser destruída por eles no estado em que estão.
Após um breve silêncio, Talin olhou para Lena.
— Vamos levá-lo.
— Você só pode estar brincando — Lena colocou a mão no ombro dele — Isso é muito perigoso.
— É melhor o levarmos daqui — Talin persistiu, ainda que desagradado — Não podemos correr o risco de alguém acabar o levando.
— Eu entendo… Mas… Isso parece perigoso demais para levarmos para Drakroth — o olhar preocupado da maga de terra fez o comandante hesitar.
Ele olhou para o casulo pulsando novamente.
Fechou os olhos e recordou-se de cada vida perdida para chegar até ali.
Procurou em sua mente algo que pudesse convencer Lena, e por mais que não quisesse ser alguém manipulador, ele sempre foi muito bom em encontrar essas soluções.
— Raelynn… — escapou de sua boca.
A maga elemental o encara.
— Ela é a melhor maga que temos, então deve saber o que fazer com isso.
Lena fica em silêncio, desconfortável.
Se houvesse alguém no mundo capaz de entender o casulo, esse alguém é Raelynn.
Após todos os esqueletos e monstros perderem o brilho vermelho de seus olhos e virarem pó, restou apenas o de Claus seguir o de seus súditos.
Mas… Algo diferente aconteceu com ele.
A aura vermelha que surgiu em todos desapareceu lentamente com o véu que cobria o topo da gruta onde o reino decadente escondeu-se por tanto tempo, mas a aura do rei teve um comportamento diferente.
Adotou a forma de uma borboleta de sangue, sendo percebida apenas pelo espectro ao lado de Aether.
A borboleta então desaparece tornando-se partículas de luz, seguindo por um caminho diferente dos outros.
Elhad, o espectro estreitou os olhos.
Um céu vermelho sobre rochas secas, fervendo como se estivessem dentro de um caldeirão, e ao observar o mar de magma ao redor daquele pequeno bloco de terra, podia-se dizer que aquela ilha realmente estava dentro de um caldeirão.
Pensar que a vida poderia existir em tal lugar, certamente é um absurdo, e por mais que realmente fosse, lá estavam duas figuras.
Portando uma armadura completa preta, com espinhos pontiagudos na ombreira, um tecido da mesma cor circunda sua cintura, estendendo-se até o chão.
Seu elmo também carrega alguns espinhos, principalmente o central que lembra uma barbatana de tubarão mais comprida.
Seu elmo esconde completamente seu rosto, o tornando desconhecido, mítico.
Na palma esquerda de sua mão, a energia queima em vermelho. E na mão direita a enorme lança que aparenta ser feita puramente daquela mesma energia, uma aura avermelhada que poderia confundir exatamente o que é aquela arma.
A aura na palma de sua mão começou a escapar entre os dedos como gotas de sangue, rumando para o solo de cor semelhante.
Esse ser está regando o solo.
O ar no local é sufocante, e o único som possível de se ouvir é o do magma batendo nas bordas da ilha que resistem de forma incrível.
Talvez o ponto mais destoante é que esse local hostil, não incomoda nenhum pouco as duas pessoas presentes na ilha.
O portador da arma cumprida só muda a direção de seu olhar quando um pequeno portal esverdeado se abre no chão ao seu lado, e o motivo disso chamar sua atenção, é que o surgimento deste portal não foi planejado.
— Hã? — o som de curiosidade não veio do portador da lança, mas da figura mais atrás dele.
Sentado sobre uma enorme pedra avermelhada, a exata mesma figura que se encontrou com Claus a cinco mil anos atrás.
Do portal a pequena borboleta de partículas vermelhas surge, batendo asas em direção ao portador da lança.
Quando ela toca em seu ombro, após alguns segundos em silêncio, ele se pronuncia pela primeira vez.
— Entendo… — uma voz vazia e sem qualquer emoção.
Sem intensidade, sem fraqueza, sem nada.
Ele observou a borboleta uma última vez, e então voltou a focar-se no que estava fazendo.
— Você vai gostar disso… Sangre.
O avatar vermelho se levantou, e a borboleta vai em sua direção.
Ela pousou em seu ombro e as imagens de tudo que Claus em seus últimos momentos foram compartilhadas com o decida.
Ele simplesmente fechou os olhos com um estranho pesar, e então respondeu ao ser.
— A eternidade que ele buscou durou 5 mil anos… E estou feliz que apesar de tudo, ele teve um fim em combate, lutando pelo que acredita até o final — seus olhos se abrem lentamente, fitando a borboleta — Claus foi honrado e merece ser exaltado após o ciclo.
Sangre abre sua mão e a borboleta voa até ela.
— O que achou daqueles que deram fim a um de seus escolhidos? — o ser adiante ignorou qualquer citação a Claus.
Ele não se importava nenhum pouco com o destino do Rei Esqueleto.
Sangre sorriu ao ver um rosto conhecido nas memórias de Claus.
Um caiu, mas um potencial capaz de estraçalhar as leis deste mundo finalmente foi colocado em jogo.
Talvez… Dessa vez… Tudo pudesse dar certo.
Ele sorriu.
Um sorriso sútil e até debochado, mas sincero.
— Eles são… Interessantes.
Fale com o autor