Horizonte Eterno

5 Capítulo 5 - Luvelin


Notas iniciais
Capítulo novo saindo!

Os esqueletos e outras criaturas não podiam ver além da camuflagem, e por isso a equipe composta pela Drakrothiana e dois elfos não teviveram dificuldades em chegar à torre. O poder de ocultação é tão grande que nem mesmo o minotauro guardião dela conseguiu percebê-los. Diferente da outra torre, uma batalha poderia ser evitada aqui e foi esse o caminho que eles optaram por seguir.

Mesmo protegidos pelo manto de Elmond, o trio constantemente levou os olhos ao minotauro portador de labris em prontidão no topo da torre. Por mais que quisessem acreditar naquele poder, é inconsciente esse receio de acabarem sendo vistos e atacados. O receio da magia acabar ou daquele monstro ter alguma capacidade de ver através deles deixa todos nervosos.

Aether percebe os olhos carregados de loucura do minotauro sobre eles, prendendo a respiração no mesmo instante e já segurando seu arco. Porém, ele foi contido por Elmond que gesticulou para que ficasse quieto. O par de olhos vermelhos lentamente vaga para outro canto do cenário, permitindo que o coração do arqueiro se apaziguasse novamente.

O portão da torre está enferrujado, amassado, sujo e semiaberto. Eles passaram um de cada vez para chegar ao interior da estrutura que é um completo breu. A combatente sentiu um receio em vagar na escuridão desconhecida, mas o enfrentou para se afastar do portão e finalmente mostrar-se útil naquele local. Distante o bastante do portão para não ser identificada ao fazer uso de sua magia.

Nem de longe Elise tem capacidades mágicas comparadas a de Elmond ou Lena, mas desde o fatídico dia que culminou no fim de sua família, ela despertou com um símbolo de poder em seu braço direito. Um brasão que funciona como o catalisador mágico de seu corpo. Sendo obrigada a praticar sozinha, ela teve pouco progresso, entretanto, foi o suficiente para que pudesse ser útil agora.

Ao concentrar a mana em seu braço marcado, o brasão de sua família — Um cajado e uma lança cruzando um escudo — brilha como chamas violentas. Esse poder aqueceu um pouco o ambiente, assim como também rompeu a camuflagem criada por Elmond, mas a recompensa por isso foi uma iluminação suficientemente adequada daquele local. Ao ser iluminado, o interior da torre finalmente foi revelado para que todos pudessem ver.

Paredes grossas cheias de rachaduras, corredores diversos e confusos como um labirinto e algumas portas quebradas. Até mesmo o teto sobre eles carregam cicatrizes profundas. Teias de aranhas espalhadas e insetos nos cantos dos corredores completam o cenário.

— Isso é até um pouco esperado — Aether se aproxima de uma das paredes, dando uns soquinhos nela como se medisse a resistência — Acho que não vai cair.

— E é assim que você testa? — Elise repreendeu-o com um olhar.

— Elise, você sabe onde devemos investigar primeiro? — Elmond se aproxima dela.

— Tem um lugar específico para irmos, onde geralmente fica escondido o que há de mais importante nessas torres. Mas para garantir que nada passe, vamos investigar algumas dessas salas primeiro — ela mal termina de falar e se dirige a porta mais próxima.

— É disso que estou falando — Animado ao fundo, Aether segue Elmond que vai logo atrás da Altair.

E ao entrar na primeira sala, eles já tem uma surpresa. Em meio a sujeira e teias de aranhas nas paredes, um quadro resistiu de forma impecável ao tempo. Aether com sua curiosidade gritante, foi o mais rápido para chegar até lá e pegá-lo. Seus companheiros ficam ao seu lado e o olhar dos três compartilham uma expressão de surpresa com a arte representada nele.

Frente a um trono vermelho, há um rei de cabelos pretos e olhos castanhos escuros. Suas vestes reais são de um azul índigo com detalhes em vermelho. Em sua cabeça, há uma coroa prateada com diversos detalhes em sua estrutura que continha um par de chifres, uma moldura em triângulo na frente e um uma espécie de véu atrás. Algo que atiçou ainda mais a curiosidade do trio foi ver o velho homem ao lado do rei. Um idoso com vestes nobres com os mesmos olhos ametistas de Elise.

— Então esse foi o rei desse lugar? Quer dizer, pelo menos um deles… E esse velho ao lado dele, quem será? — o elfo arqueiro olhou para Elise.

Quando Elmond levou sua atenção para ela também, ela revirou os olhos e respondeu de forma óbvia.

— Como eu saberia? Eu nunca vi nenhum deles.

— Nem em quadros das gigantescas e grandiosas mansões dos Altairs? — o tom de Aether carregava surpresa e sarcasmo, se divertindo.

— Nem nas grandiosas mansões dos Altairs — ela jogou as mãos de lado em resposta ao sarcasmo do elfo — Mas o que me impressiona é que esse quadro está preservado, quero dizer… As portas de madeiras estão todas corroídas.

— Aether, peça para que o usuário das estruturas de mana procure magia no quadro — a voz na mente do arqueiro retorna.

O Elrohir suspende o quadro na frente do elfo mago que fica confuso.

— Será que não tem magia nele?

Elmond fica intrigado com o companheiro, não esperando tal sugestão. Leva a mão ao quadro e ao utilizar das estruturas de mana, sente a magia. Esse reconhecimento percebe um feitiço refinado que aparece em sua mente como uma rede de códigos mágicos. Códigos mágicos complexos em uma magia tão simples mostram que a pessoa que encantou aquele quadro, tinha um conhecimento muito profundo.

O sentimento de absorver um conhecimento completamente novo tomou as emoções do elfo mago. Um frio na barriga misturou-se com suas emoções de admiração pela pessoa que encantou o quadro e mostrou uma nova faceta da magia das estruturas para ele.

— Você está certo… — Elmond se encontra perplexo — É impressionante que alguém tenha usado estruturas de mana para preservar algo… Eu nunca ouvi falar disso.

— Te falar que quanto mais vejo essa magia em ação, mais acho ela útil — na mente de Aether, as estruturas de mana parecem o tipo de magia mais versátil que há — Mas usar magia num quadro… Deve ter sido uma recordação importante.

Esse comentário fez com que olhassem com atenção novamente para arte em suas mãos, como se procurassem mais alguma coisa escondida nele. E por estarem tão imersos naquele objeto em mãos, seus sentidos falharam não uma, mas duas vezes. Primeiro quando uma sombra se mostrou atrás da porta, e posteriormente o som dos passos causados por essa sombra.

Uma mão esquelética perfura o corpo de Elmond pelas costas, saindo pelo peito que é aberto violentamente de dentro para fora. O som bizarro daquela mão destruindo aquele corpo agonizou os ouvidos de Aether testemunhando o amigo sangrar pela boca, aquela expressão de dor lhe causou uma aflição indescritível.

Essa imagem bizarra em sua mente foi criada como um reflexo da guarda baixa que foi não só dele, mas de seus companheiros também. Algo que facilmente poderia ter acontecido caso aquele esqueleto não estivesse simplesmente estático frente a porta, os observando. A quanto tempo? A quanto tempo ele ficou só os assistindo?

— Desgraçado… — a Altair range os dentes ao percebê-lo.

Ela vira-se na direção do esqueleto com o brasão ainda brilhando, pela velocidade de seu avanço seria extremamente fácil esmagar aquele alvo, mas o gesto dele de colocar os braços frente ao corpo assustado a fez parar um segundo antes de qualquer impacto. O que significa isso? Ele não nos atacou… E está com medo?

— O que você é? — A aflição de Elise é compartilhada com o brilho hesitante em seus olhos.

O esqueleto baixou as mãos com receio, e ele mexeu o maxilar numa tentativa falha de se comunicar. A dificuldade de mexer aqueles ossos é tremenda, é como se fosse uma porta de metal emperrada a muito tempo pela falta de uso, e mesmo que ele tenha conseguido mover a boca, nenhum som é audível.

Ainda assim, o trio fica intrigado ao perceber a intenção de comunicação daquele monstro. Se pudessem quebrar a barreira da comunicação, poderiam entender perfeitamente o que é aquela cidade. Aether se aproxima, perguntando.

— Consegue nos entender?

A ausência de reação do esqueleto soou como se ele estivesse confuso, e isso dificulta ainda mais as coisas. O idioma que falam deve ser diferente também, e agora, um mago do núcleo da mente, um usuário de comunicação faz falta.

— Droga, vamos ter que ir atrás do comandante? — Aether parece relutante, coçando a cabeça. Elise compartilha dessa emoção estalando a língua.

O esqueleto faz um gesto para que eles o sigam, passando pela mesma porta que havia entrado. O trio troca olhares receosos de simplesmente seguir o esqueleto, mas esse já havia perdido uma oportunidade de ouro de surpreendê-los com um ataque. Atentos, eles tomam a decisão de acompanhar a estranha figura.

São levados até um cômodo extremamente conservado se comparado aos outros, pois mesmo que tenha rachaduras e teias de aranha em algumas partes das paredes, são mínimos. Os móveis lá são em sua maioria de pedra, principalmente uma mesa pesada no centro. Acima dessa mesa existe uma espécie de bacia dourada, colocada no teto como se fosse uma espécie de lâmpada. Elise conhece aquela estrutura, pois ainda hoje é usada para iluminar o castelo real de Drakroth durante a noite. Porém, ela estava apagada agora.

— Será que está funcionando? — Elise se perguntou, atraindo os olhares para si mesmo.

Não custava tentar.

A chama produzida por seu brasão se concentrou na palma de sua mão, e então ela a arremessou em direção a bacia dourada que a absorveu e passou a brilhar, assustando seus companheiros que não compreendiam o que havia acontecido. Aquelas bacias mágicas são um item comum na nobreza de Drakroth, mas pouco vistas para pessoas fora dela.

O esqueleto fitou a cena como se estivesse encantado em ver aquele objeto brilhar novamente naquela sala, sua boca se moveu com dificuldades, falando palavras que nunca saíram. Ele foi até uma espécie de cômoda no canto mais afastado da sala, pegou um lápis preto e um livro velho, o colocou sobre a mesa de pedra no centro. Após abrir o livro, ele selecionou alguns símbolos sobre palavras específicas. O trio encarou o livro em completa confusão.

Eles entenderam o que o esqueleto queria fazer, mas… Nenhum deles fazia a mínima ideia de que raios de idioma se encontrava naquele livro, assim como eles também não faziam ideia do que era aqueles símbolos que ele colocou sobre aquelas palavras. O sentimento de frustração tomou a todos imediatamente, afinal do que adianta terem se encontrado se não podem se entender?

— Vocês de fora, o que fazem aqui?

O arqueiro arregalou os olhos com a voz em sua mente. No momento seguinte, ele conteve um sorriso que se estendeu em sua face por um momento. Faz total sentido que o espectro ancestral em seu brinco soubesse sobre coisas antigas.

— Ele está perguntando o que fazemos aqui.

— Não… — o olhar de Elise para com Aether o fez se sentir mal — É impossível que você saiba o que está escrito aí…

— Aether, você realmente está entendendo ele? — Elmond, por outro lado, se mostrou feliz com a surpresa.

— Sim… Um pouco.

— Ele está numerando as palavras que quer dizer em ordem. Então faça o que eu disser, Aether.

Aether assentiu e sendo guiado pelo espectro, iniciou a comunicação com o esqueleto.

— Nosso reino está sendo afetado pela magia corrupta desse lugar. Estamos aqui para investigar. Nos diga o que está acontecendo.

— A magia que isola Luvelin deve estar no limite, e por isso vazou para além dos alcances da cidade. A quanto tempo o reino de vocês sofre?

Luvelin… Então, esse era o nome da cidade. Pensamento compartilhado pelos três.

— Fazem sete anos. Essa mana está atraindo uma quantidade massiva de monstros para nossos territórios.

O esqueleto levou uma mão ao queixo reflexivo antes de voltar a escrever no livro.

— A magia em Luvelin nunca teve efeito de atrair monstros.

Essa informação deixou o trio inquieto e o esqueleto percebeu, mas havia uma coisa que ele ainda não mencionou, fazendo-o agora.

— Entretanto, sete anos atrás surgiu algo no castelo de vossa majestade que tem me feito instintivamente querer ir para lá.

— Sete anos atrás um novo fator foi adicionado a essa cidade? Foi no mesmo período que a magia que isola essa cidade foi rompida?

— Não rompida, mas enfraquecida. Para mim está óbvio que há uma conexão.

Novamente, a mente do trio foi colocada para pensar. Finalmente estão encontrando o caminho, respostas. Imaginando que o véu de luz na área superior da gruta seja a barreira que isola Luvelin, alguém pode ter enfraquecido-a para utilizar esse lugar para proteger o ‘’atrator’’ de monstros. Mas a questão é: quem iria querer colocar Drakroth no chão? No continente mesmo, seus únicos inimigos, de fato, eram monstros e Alidomani, mas Alidomani teve um destino parecido, então a chance de ser eles é extremamente pequena.

— Não tem como isso ser coincidência, alguém enfraqueceu a barreira deste lugar… Qual é a chance do rei dele ter feito isso? — Elise pergunta, tensa.

Aether repassa a pergunta para o esqueleto.

— Rei Claus tem como desejo apenas preservar Luvelin, não consigo imaginar algo que o faça querer expandir sua influência para além daqui.

Rei Claus… Provavelmente o rei no quadro com o homem de olhos roxos. A citação dele fez o grupo querer compreender melhor o que são as figuras dessa cidade.

— Queremos entender o que você é também, um monstro? o que aconteceu com essa cidade?

Essa pergunta deixou o esqueleto em silêncio por um tempo, como se ele estivesse se esforçando para lembrar das coisas perfeitamente.

— Minhas memórias estão fragmentadas, mas lembro de ser chamado de Happo… Vou contar tudo que resta em minhas memórias.

Diferente de antes que ele pontuava apenas algumas palavras, dessa vez ele passou longos minutos, sendo obrigado a riscar diversas páginas para informar tudo que ele recordava.

Nesse momento, Elise se recordava do esqueleto informando que se sentiu atraído por algo no castelo. Isso significava que ele de fato é um monstro, não é? Mas ele mantém a racionalidade e está até mesmo ajudando-os voluntariamente. É claro que Happo é diferente dos monstros convencionais. Além desse pensamento, ela ficou mais motivada com a informação desse estranho atrator no castelo, pois de fato seus objetivos estão lá.

Elmond ficou intrigado com o fato de Aether ter conseguido interagir com aquele monstro, afinal, não fazia sentido o Elrohir entender aquela linguagem antiga. Ele conhece o amigo por tempo suficiente para saber que ele nunca foi de estudar. Mas… O que mais consome sua mente é saber que quando a barreira enfraqueceu lá embaixo, o fator que atrai as criaturas surgiu… Olhar para o esqueleto escrevendo o deixou ansioso, certamente muitas coisas serão reveladas agora.

Aquele esqueleto segurando uma lamparina, o casal na fonte… E agora, Happo. Não havia dúvidas para ele, todos esses monstros já foram humanos um dia e mesmo após se transformarem, mantiveram esses comportamentos… A consciência. Assim como seus companheiros, está ansioso para saber o que está acontecendo.

O som do lápis de Happo passando pelas folhas foi a única coisa que ecoou naquela sala por diversos minutos. A expectativa a respeito do que ele iria revelar era crescente na expressão do trio, e quando o som do lápis no papel parou, o esqueleto os fitou e abriu espaço para que Aether repassasse para os outros o que havia lá.




Além dos trios que rumaram para as torres, houve aquele responsável pela investigação do terceiro objetivo. Sendo o castelo o ponto mais longe do portão principal da cidade, pelo qual todos passaram, apenas agora estavam diante de seu objetivo.

Alex Feltz é o responsável em liderar a terceira e última equipe do esquadrão, um homem veterano na casa dos 40 anos, que se especializou em utilizar dois sabres como arma. Sua companheira é Julia Feltz, uma competente usuária de lança que superou missões de caça a monstros algumas vezes. Foi numa dessas missões que ela conheceu e se apaixonou por ele.

O terceiro membro da equipe não tem laços próximos ao casal, conhecendo-os apenas agora, nessa missão. Apesar de ser um mago inexperiente, mostrou grandes capacidades com magias de fogo. Ele se apresentou ao casal como Eddie Wilson, um mago que admira Johan e busca ser tão útil para Drakroth quanto o general, mas para isso precisa garantir que o reino chegue às próximas gerações.

— Em pensar que haveria tantos monstros aqui embaixo… — o veterano praticamente resmunga, descontente.

‘’Sabemos que não dá pra mandar uma grande tropa lá para baixo, e por isso escolhi aqueles que considerei mais capazes.’’

Essa fala de Johan ficou ecoando em sua mente desde o começo, pois havia muitas pessoas jovens no campo de batalha, e após Eddie revelar que não tem uma experiência vasta, só confirmou para Alex que o general havia mentido sobre ter selecionado os mais capazes para essa tarefa.

Provavelmente, o general não estava tão confiante de haver algo de fato lá embaixo, e apenas cedeu um pequeno reforço para Talin pelo histórico deles juntos. Tanto os cidadãos de Drakroth quanto aqueles que têm poder e influência devem achar que essa é apenas uma expedição inútil, assim como outras foram anteriormente.

Com as instruções de Alex, o trio conseguiu superar o caminho até o castelo com relativa facilidade, tendo de abater apenas uma criatura pelo caminho já que os esqueletos mesmos não pareciam querer batalhar. Apesar de toda tranquilidade para tudo até agora, a guarda do grupo se mantém de pé já que não sabem o que os aguarda. Os corredores do castelo são largos e escuros, inalcançados pela fraca luz do lado de fora, mas iluminados pelas chamas que o jovem mago elemental emitia com seu cajado.

As chamas revelam paredes desgastadas, tochas a muito tempo apagadas e uma história perdida em quadros cuja as pinturas perderam sua cor. O silêncio se quebra apenas pelos passos do trio ou falas sobre coisas curiosas que eles enxergam vez ou outra até o olhar inexperiente do mago encarar fixamente uma porta semi aberta no corredor à direita. Um estranho sentimento de que algo que está lá dentro está os observando.

— Senhor Alex… Ali dentro… — Eddie fala com a voz quase arranhando a garganta, receoso aproximou as chamas da porta.

O veterano se aproximou da porta com a guarda alta, a empurrou com uma força moderada visando surpreender o que quer que estivesse lá dentro, mas a porta fragilizada se quebrou como isopor trazendo um grande barulho à tona. Julia preocupada olhou ao redor vendo se algo reagia ao barulho, mas nada pareceu reagir.

Alex não encontra nada além de vários buracos na parede e uma sala empoeirada. A janela dá espaço a um grande buraco que leva para fora da estrutura central do castelo. Curioso, o veterano olhou por esse buraco para ver se havia algo fugindo, e ele percebeu apenas um vulto serpenteando para as sombras.

— Então tinha mesmo algo aqui…? — ele perguntou para si mesmo, mas o jovem mago que confirmou — Bom, seja o que for já não está mais aqui.

Passado o susto o grupo voltou a caminhar pelos corredores, rumando mais para o centro o olfato começa a se incomodar com o cheiro de mofo e podridão. O clima fica estranhamente mais pesado a cada passo. Nessa hora, Alex começa a imaginar o que está causando aquele mau odor, que fica cada vez pior.

Sem muitas pistas seguem esse cheiro incômodo até dar de cara com um grande salão obscurecido, mas intrigante. Uma escada central atravessa o salão até um grande portão de aço, se separando em duas menores que levam para os corredores laterais, sendo um desses por onde eles chegaram lá. O veterano é o primeiro a ir até esse portão e chega na mesma conclusão que os outros dois.

— A sala do trono… Deve ser aqui — Alex levou a mão até o portão em um misto de ansiedade e receio — Se preparem, não sabemos o que vamos encontrar.

Julia e Eddie engolem em seco, apertando suas armas tentam acalentar seus corações que batem mais rapidamente diante desse momento tão importante. A incerteza do que vão encontrar era incômoda, mas se for para restaurar Drakroth, enfrentar seus medos é o mínimo.

Alex empurra a grande porta que parecia estar emperrada, mas nada que um guerreiro treinado não pudesse abrir. No que fez força suficiente, a porta se abriu. Um vento gélido passou por eles quase os jogando longe. Um vento feroz que fez a espinha de todos congelarem por um momento. Esse vento atacou o espírito do mago que mesmo não desejando hesitar, o medo cresceu demais para que ele não falasse o que pareceu mais lógico naquele momento.

— Não seria melhor a gente esperar os outros? — perguntou com a voz baixa mostrando uma grande insegurança.

— Eddie… — o veterano encarou o jovem, refletiu por um segundo e então colocou a mão no ombro dele — Não podemos ficar dependendo dos outros, pois eles mesmo podem estar precisando da gente. Temos que investigar esse lugar e nos reunir com eles em seguida. Nesse tipo de missão… Não é seguro ficar esperando pelos outros.

— Mas…

— Vai ficar tudo bem. Eu estou aqui para proteger vocês — Alex olhou com firmeza para o novato — Fiquem atrás de mim.

Ele levou o olhar para sua esposa também, ela forçou um sorriso e assentiu com a cabeça. Pois por mais que estivesse assustada, tinha a experiência necessária para superar o medo e confiar em Alex, e principalmente, em si mesma. Já passaram por coisas difíceis. Com a decisão tomada, o veterano foi o primeiro a pisar dentro da sala do trono, seguido pela esposa e pelo jovem mago em sequência. Um silêncio absoluto fez uma pressão invisível agarrar a todos por um momento.

Com os braços temerosos, o jovem mago sentiu que seu cajado tinha uma tonelada até erguê-lo e direcionar o brilho das chamas ao redor. Lentamente sua chama começou a revelar o que se esconde naquele lugar. 4 metros a frente do portão uma plataforma circular de pedra fosca tendo por volta de 5 metros de circunferência, em seu centro o motivo do mal cheiro é revelado. Uma espécie de pequeno lago de sangue envelhecido com pedaços mortais.

Uma expressão de nojo ganhou a face do trio, mas a iluminação persistiu para as paredes e diversas velas inacabadas se encontram espalhadas por elas. Em passos lentos, eles avançam até a plataforma circular e ao chegar lá em cima, as chamas de Eddie revelam uma escadaria suspeita. A iluminação sobe lentamente até chegar a uma bela espada preta com um cristal vermelho no centro do protetor da empunhadura. Isso não os assusta, mas o que veio a seguir fez seus corações pararem, assim como cessou suas respirações.

Um trono que deveria estar vazio é ocupado por um esqueleto, mas… Um esqueleto completamente diferente daqueles acovardados e fracos que encontraram durante o caminho. Imediatamente ao olhar para esse, você consegue sentir a imponência natural de um rei.

Uma coroa com duas pontas e uma elevação na área frontal com claros detalhes de uma nobreza ancestral. Chifres de um elmo fundindo ao crânio e toda a arcada dentária exposta pela falta de pele. Ombreiras de um couro metálico com diversas pontas abertas. Costelas e coluna vertebral expostas, calças e luvas no mesmo estilo predominante na cor preta e cinza. Uma figura amedrontadora, parecendo possuir quase 2 metros de altura, repousa naquele lugar. Seus olhos fechados a denunciam.

Durante o caminho, muitos dos esqueletos estavam caídos em algum canto da cidade e não se moviam, mortos-vivos ‘’mortos’’. Alex ao encarar essa figura desacordada, implorou em seu âmago que ela estivesse morta. Caso aquilo despertasse, poderia ser o fim de todos eles.

A chama da magia parecia fazer um som seco enquanto o trio olhava congelado para o rei. Era algo arrepiante que parecia simplesmente estar à espera de algo mais, ou de alguém, e apenas com muita sorte, não seria eles. Alex fez um gesto para que eles se afastassem do esqueleto e fossem até a porta novamente. Os outros precisavam saber disso.

Julia foi quem liderou o retorno até a porta, olhou uma última vez para trás, temerosa com a criatura, apenas para que no momento que levasse seu olhos para a abertura da porta, visse a boca de uma serpente ir em sua direção. Enorme, dentes desnivelados e uma língua que só não encostou em sua face pois em um reflexo recuou dois passos para trás emitindo um grito de medo e caindo de bunda no chão. Seus dois companheiros assustados se aproximam e olham para a porta, observando aquela grande criatura horripilante adentrando o ambiente e fechando a porta logo atrás.

— O medo em vocês… Invasores… — uma voz rouca veio da figura de uma serpente de rosto desproporcional e olhos vermelhos. Ela devia ter cerca de seis metros de comprimento.

— Isso fala…! Se afastem dela! — ordenou Alex ouvindo seus dois aliados correrem como foi sugerido, todos os três subiram na plataforma pegando uma distância daquela criatura bizarra iluminada pelas chamas.

Para piorar, aquela serpente estava voando. Alex rangeu os dentes tentando acalmar sua mente e pensar nas soluções que pareciam cada vez mais limitadas. Ele olhou para seus companheiros e começou a falar.

— Se acalmem também. Nós podemos vencer — ele fixou seu olhar no monstro que lentamente começou a voar em torno deles em uma curta distância — Vamos matá-la e descobrir o que é essa coisa.

— Você está certo, Alex — Julia levou seu olhar para o mago — Você também, se prepare para lutar!

O pânico ficou perto de tomar a mente do jovem mago, mas ver seus companheiros motivados a lutar trouxe um pouco de volta sua confiança. Segurou firme o cajado e o trio está pronto para a batalha. A criatura não partiu para a ofensiva, apenas deu uma risadinha que foi acompanhada com o incômodo som de ossos metálicos se movendo no trono.

— Eddie! — Alex gritou se virando em direção ao trono, o mago entendeu o recado e virou a iluminação das chamas para lá e então eles testemunham o rei de pé.

Seus olhos se abrem lentamente revelando um vermelho tão intenso que parecia ser capaz de queimar qualquer um que o fitasse por tempo demais. Eles tinham certeza, aqueles olhos são portais para o inferno. Em pé, ele ajeitou suas ombreiras, emitindo um som metálico que ecoou por todo o salão, destacando-se no silêncio gelado. Tirou um pouco de pó de suas vestes, mostrando que realmente fazia tempo que ele estava imóvel naquele trono, ele finalmente dá um passo à frente e pega a grande espada com uma mão.

— Hihihihi… Vocês são tão escandalosos. Ousam acordar o rei! — a serpente começou a se mover mais rápido, escapando do alcance da luz das chamas — Anseiam a morte!

— O que são vocês! O que está acontecendo aqui? — Alex vociferou com o que ainda lhe resta de coragem — Expliquem!

— Invasores de uma terra distante… Ainda ousam exigir respostas — uma voz rouca e gélida escapou da boca do esqueleto — Vocês invadem e profanam minha terra sagrada, são vocês quem me devem respostas.

Ele começou a descer as escadas. Um passo de cada vez, ecoando por toda a sala. Conforme se aproxima, é como se seus olhos ficassem maiores e se tornassem grandes abismos vermelhos absorvendo a coragem restante do trio.

— Estamos aqui para evitar a infestação de monstros em Drakroth! Acreditamos que a causa está nesse castelo. Nos permita investigar esse lugar e não tocaremos em nada desse reino! — Alex tenta de todas as formas criar um diálogo — Não precisamos entrar em conflito!

— Tolo! Você está falando com o Rei Claus. Acha que pode chegar até mim e fazer qualquer exigência? — o olhar fulminante do esqueleto congelou Alex . Nesse momento, entendeu que uma batalha é inevitável.

O veterano fixou seus olhos no esqueleto que avançou numa velocidade nunca antes vista por ele. Ergueu seus sabres para se defender, mas numa diferença de habilidades claras, a espada negra simplesmente ceifou um de seus braços que voou para dentro do lago de sangue com um dos sabres.

— AAAAHHH…! — Alex fechou os olhos, gritando, tentando apagar a imagem de seu braço voando para dentro do lago.

Independente do medo que estivesse sentindo, Julia partiu para cima do esqueleto tentando defender seu marido. Em um salto realizou um movimento de estocada alvejando a cabeça do rei que só fez balançar a lâmina da espada contra a lança, a redirecionando. Em um rápido movimento com a mão livre ele agarrou a cabeça da mulher com firmeza. Ela arregalou os olhos e balançou a lança contra o esqueleto que sequer reagiu. A lança bateu e não surtiu qualquer efeito sobre ele. Era como golpear uma rocha com um graveto.

— Solta ela, seu desgraçado…! — Alex está em choque pela ausência de seu braço, mas sua mente ainda se importa com Julia. Ele sabe o tamanho do perigo que ela está enfrentando agora, rangeu os dentes em fúria e gritou correndo contra o esqueleto — SOLTA ELA!

Tentou golpear com seu outro sabre, mas o esqueleto numa velocidade muito superior girou seu corpo levando a lâmina de sua espada ao braço restante do veterano, que assiste em desespero seu outro braço voar para dentro do lago vermelho.

— Me solta! — Júlia grita em desespero sendo suspensa sobre esse mesmo lago — Por favor… Me solta…!

Lágrimas tomam conta da face da mulher. O jovem mago tenta preparar sua magia de fogo contra o rei, mas da escuridão vem a serpente que surge por trás dele abocanhando sua perna. Uma boca grande o suficiente para a arrancá-la e o levar ao chão gritando de dor. A mulher e o jovem mago gritam desesperados enquanto Alex assiste sua companheira sem poder fazer nada. O tempo se distorce em sua mente de forma bizarra. Pois os gritos pareciam passar diversas vezes em alta velocidade em seus ouvidos, mas a imagem do que estava acontecendo era tão lenta em sua mente que o tempo parecia ter congelado.

— Invasores não merecem minha clemência… — o olhar sanguinário do esqueleto se intensifica conforme ele aumenta sua força. O som de alguns estalos são emitidos da cabeça da mulher.

Julia se debate de todas as formas possíveis. Fossem chutes ou socos o esqueleto simplesmente não sentia nada. Apenas a fita com aquele ódio incendiário que só não foi mais aterrorizante que a sensação daquela mão apertando sua cabeça. Lágrimas grossas desceram pela bochecha antes de um ‘’clack’’ ecoar pelo salão.

Após ele, ela não emitiu mais nenhum grito. Como se ela não fosse nada, o rei continua a segurando suspensa no ar.

— Você ainda está aí? — o rei perguntou, mas não foi para Júlia, e sim para Alex que caiu de joelhos no chão — Coração fraco! Indigno de qualquer honraria.

O esqueleto se preparou para mais um ataque, mas parou ao ouvir um grito de choro do jovem mago escorado na parede, esse sendo atormentado pela serpente. Olhou para aquela cena e a serpente como se sentisse isso, retribuiu o olhar.

— Rei, me deixe saciar minha fome! Por favor! Hihihihi! — os olhos da serpente começam a balançar em excitação — Eu preciso!

— Deixe a cabeça para servir de aviso para os próximos — Claus voltou sua atenção para o último golpe. Um corte limpo que separou a cabeça de Alex do corpo. A cabeça caiu no chão, mas o corpo pendeu para o lago de sangue.

— N… Não! — desesperado, o jovem mago conjurou uma parede de fogo que separa a serpente dele — Me deixe ir! Por favor!

A risada da serpente do outro lado da parede de fogo aumentou. Ela começou a puxar as chamas conjuradas pela magia do jovem mago para si, a devorando e deixando o garoto em choque ainda mais amedrontado. E pela primeira vez em incontáveis anos, o silêncio daquele castelo deu lugar às lágrimas e gritos de desespero. O cheiro de sangue foi renovado e o rei adormecido, despertado.

Notas finais
Mente O núcleo da Mente é muitas vezes subestimado, pois seus poderes não são visíveis a olho nu. Entretanto, ele oferece uma gama diversificada de habilidades complexas! Seja compartilhando pensamentos com habilidades psíquicas.