Horas Contadas
1 Capítulo Único
E se vocês soubessem o exato momento em que morreriam? O que fariam para aproveitar esses tais últimos momentos?
Estamos no dia 28 de dezembro de 2017. Agora, são 13:37. Sou Noah Carter, 17 anos, nove meses, três semanas, dois dias, 22 horas, 34 minutos e os segundos estão a correr. Daqui a três semanas, dois dias, 23 horas e 23 minutos eu já não mais estarei entre vocês.
Assim que nasci, fui direto para a incubadora, devido a uma complicação respiratória nos meus instantes iniciais de vida. E ali mesmo, após alguns exames, meticulosamente realizados, foi descoberto uma rara doença, que praticamente médico nenhum tivera que lidar. Mas meu caso foi divulgado para a comunidade médica do país – uma das vantagens de ser alguém abastado é o acesso às coisas – e a situação chegou aos ouvidos da minha salvadora.
Uma jovem médica, coincidentemente, trabalhava num projeto relacionado a esta doença, mas ainda sem nenhum resultado completamente satisfatório. Para combatê-la, produziu um dispositivo que, de algum modo, age inibindo seus sintomas, enquanto estiver operante, garantindo ao usuário uma vida normal e mais duradoura do que os poucos minutos de vida que um bebê teria sem os devidos tratamentos.
Mas a bateria do aparelho, que me concedeu a vida, se fundirá no dia 17 de janeiro, às 13:45 e todas as toxinas se espalharão pelo meu corpo. E no exato momento em que alcançarem meu sistema nervoso central, invadirão meu cérebro rapidamente, definindo meu derradeiro suspiro.
Enquanto isso meus pais bancam todos os mimos deste adolescente que literalmente não está nem aí para seu próprio futuro. Viagens para os mais diversos cantos do mundo, me concedem as festas mais badaladas da cidade, uma vez por ano, para comemorarem um ano a menos do meu prazo de validade, bancam todo e qualquer desejo que tenha. E assim vivi por todos esses anos, que eram contados regressivamente
Mas, de uns dias para cá, eu fiz algo que deveria ter feito antes e que em hipótese alguma poderia ter feito agora. Dia Evans. Baixinha, linda, cabelos longos multicoloridos, contrastando totalmente com sua pele alva e seus olhos de Alexandria e que simplesmente com um sorriso que deu para mim, fez com que todas as defesas levantadas para evitar qualquer aproximação de alguém, caíssem, como um castelo de cartas numa tormenta.
E daquele sorriso, algo que nunca esperei sentir, surgiu para mim. E naquele sorriso que ela deu, a amei.
— Por que esse relógio nunca mostra a hora certa? – Ela me perguntava com a maior inocência do mundo, me tirando um breve sorriso.
— É uma contagem regressiva. Estou esperando chegar no 00:00:00. Eu sempre sei exatamente que horas são, pois me acostumei a contar o tempo usando isso aqui como referência. – bato com a unha no mostrador do relógio.
Ela simplesmente sorria, sempre me perguntando o que era tão importante para cronometrar o momento em que tal coisa ocorreria por tanto tempo e por que tamanha precisão para esperá-lo. Nessas horas, meus sorrisos se tornavam mais cerrados, inexistentes, e eu dizia, quase sempre, a mesma coisa para essa pergunta: que era algo que ela não gostaria de saber ou dava alguma resposta para desviar do assunto, o que só atiçava sua curiosidade. Mas ela via o ar que aquela pergunta carregava, para mim, e deixava de lado a questão.
Uma semana, um dia, 53 minutos se passaram e lá estava eu num alegre dia propiciado pela presença de minha amada. Ela não era tão abastada como eu, tinha problemas de família, uma vida não tão fácil. Mas o jeito que ela sorria perante tudo o que passava era o que me cativava e me fazia amá-la mais e mais. Então dava a ela, mesmo que ela não gostasse disso, as mais caras regalias: belas joias, passeios e jantares em restaurantes luxuosos e até uma viagem de alguns poucos dias para uma pequena ilha que meus pais compraram mas sequer a visitavam. E o melhor de tudo era saber que mesmo se não desse nada disso, ela me amava, apenas por quem eu era, não por tudo que tinha.
Sexto dia do último mês que presenciaria. Faltava exatos 11 dias para o começo do fim da minha vida. Nossa relação já havia se tornado um namoro sério, mesmo eu sabendo do inevitável dia 21 de janeiro chegaria, que a inevitável 13:00:00 chegaria e que eu, inevitavelmente, a magoaria.
As minhas falas de “Quando eu morrer, espero que…” já se tornavam mais frequentes que de costume. Ela sempre respondia, dizendo que ainda tínhamos um longo futuro pela frente, juntos. Poderia morrer mais cedo do que o esperado sempre que via cada um daqueles sorrisos e cada olhar brilhante quando ela dizia essas palavras, alimentando ainda mais meu medo de contar a triste verdade e substituir aquele meigo e doce sorriso por um choro inconsolável por perder um ente amado.
Eu não sabia como diria a ela que todos os planos idealizados por ela para nós, seriam vividos solitariamente. Que cada passo que ela esperava que déssemos juntos em nossas vidas, nunca seriam trilhados. Que o máximo de presença que eu poderia dar a ela seria as lembranças fixadas em suas memórias.
Nesse dia descubro que a menina dos meus olhos ainda era intocada e que via em mim o homem que ela queria que tirasse isso dela. Totalmente eufórico, a tomava pela mão, já levando para o carro. Sr. Thomas já nos esperava de costume.
Pedi que nos levasse para o meu lugar. Ele, já sabendo de cor onde era, corre, com o carro, como sempre faz na minha presença, até a casa no topo do monte nos limites da cidade. Uma cabana que raramente visitávamos em família, mas por mim, muitas vezes, sempre que me dava vontade de sumir por algumas horas para meu mundo particular.
Da porta para fora ainda éramos os mesmos garotos gentis e carinhosos de sempre. Mas assim que fechamos a porta, a libido subiu à cabeça e nós dois esquecemos o pudor e tudo o que existia, focando somente em nosso prazer e desejos pelos corpos um do outro.
Dois amantes fogosos e vorazes entregando-se à luxuria na melhor das noites que tivemos. E ali, junto a ela, comecei a pensar na pior coisa que poderia. O acomodado garoto que esperava, calma e conformadamente sua, morte, desejava mais dias, meses, anos de vida. Pretensões que nunca passaram pela minha cabeça mas nos meus últimos dias assolaram minha consciência e invadiram meus pensamentos. Pretensões que só tornariam meu fim mais doloroso.
E na tarde do dia 17 de janeiro, caminhávamos pela orla da cidade. Quando, exatamente, às 13:45 sinto uma pontada exatamente no lugar onde o aparelho fora implantado sobre minha pele. A bateria finalmente se fundira, fazendo com que vazasse dentro de meu corpo, todos os metais pesados e toxinas que a constituíam. A pontada, gradualmente se tornava mais forte, até uma dor intensa e descomunal. Tão forte que me fazia desejar que a morte que estava por vir, viesse ainda mais rápido. E eu no chão caído, me contorcendo e revolvendo de dor, como se lacerassem meu corpo de dentro para fora. Dia, visivelmente desesperada, e alguns que passavam tentavam me acudir, sem sucesso, enquanto lágrimas rolavam incessavelmente por meu rosto.
Eu tentava ao máximo fixar meu olhar em seu rosto, num ar de dor, tanto a física quanto pela dor de saber que meu fim se findaria em exatos três dias, 23 horas e 15 minutos.
23 horas e 17 minutos se passaram. Minha aparência já estava notavelmente alterada. O tom de pele normal de uma pessoa saudável, aos poucos se convertia numa coloração mórbida e esquisita. As olheiras eram aparentes, bem como as marcas de expressão de dor e cansaço. Os músculos das pernas se tornavam rijos e elas começavam a falhar me obrigando a usar uma muleta para qualquer passo que quisesse dar. Enquanto isso uma mancha verde-musgo, quase marrom se fazia na pele sobre o aparelho, com filamentos que lentamente percorriam o corpo e invadiam os outros sistemas, como que numa metástase de toxinas.
Mais 18 horas e 32 minutos e eu já não conseguia dormir. A dor era tamanha que eu permanecia acordado direto. As toxinas haviam acabado de tomar os órgãos do sistema digestivo e eu já não comia. Tudo o que descia à garganta, voltava em questão de poucos minutos. Passava as horas recurvado sobre o vaso, vomitando o que comia, ou tentava comer e o que ainda restava no estômago. As pernas já não eram suficientes para me suportar. Agora me sustentava com duas muletas ou carregado por algum dos meus empregados que vinham e me concediam seus ombros para que me apoiasse. E a mancha que outrora cobria uma pequena região do abdômen, agora já se estendia por quase todo o tórax.
Outras 18 horas e eu já estava praticamente em estado de definhação. Não comendo mais nada e vomitando até o que não tinha para se vomitar, lentamente assumia uma feição horrenda. Naquelas poucas horas havia perdido alguns quilos com o vômito, bem como pela evacuação. Me encontrava com uma constante febre, que me fazia soar horrores e lentamente me encaminhavam à desidratação. Já não conseguia sair da cama para nada, tamanha era a dor que me assolava. Tanta dor que, chegava ao ponto de sofrer alucinações e até lacerar minha própria pele tentando, sem sucesso, sanar tal sofrer. Tal toxina já havia chegado ao sistema nervoso, causando espasmos e tremedeiras constantes. A supressão de sono só piorava a situação. A falta de Dia só proporcionava mais dor a este errante em seu leito de morte. Havia pedido para que ela se afastasse de mim. Queria privá-la do sofrimento que seria me ver naquele estado e não poder fazer nada. Ninguém no mundo podia fazer nada. O aparelho havia sido implantado provisoriamente a pedido de meus pais. Pais esses que haviam abdicado de suas vidas particulares nos meus últimos instantes para acompanhar minha falência. Choravam feito condenados ao saber que não havia mais nada que conseguisse me prender àquele mundo. Nenhum outro aparelho ou aparato tecnológico me concederia mais anos. Nenhum procedimento conseguiria tirar toda a toxina, que se espalhava cada vez mais rápido. Nenhuma cirurgia conseguiria substituir o aparelho. O que foi em mim implantado, se retirado, colapsaria mais rapidamente todos os sistemas do meu corpo do que qualquer toxina.
29 horas e 26 minutos se passaram. E este era meu último dia de vida. De acordo com o relatado, já deve se ter uma noção de qual deplorável era minha aparência. Exatos 360 minutos de vida. Como soavam estranhas tais palavras. Meu desejo inútil por vida, só havia dificultado o processo. 17 minutos haviam se passado ao telefone com a Dra. Rose. A mulher que havia me propiciado todos os dias que havia vivido. A mulher com o dom da vida em mãos. Ligava justamente para agradecer por tal feito. Para tentar amenizar sua sensação de inutilidade, que sentia diante de mim. De não poder fazer absolutamente nada para cessar, interromper, retardar o processo que já chegava aos últimos estágios. Mas mesmo com a segurança que tentava transmitir, sabia que minhas palavras, para ela, seriam tão inúteis quanto qualquer desejo de impedir minha morte.
Duas horas e 12 minutos, passados no banheiro na tentativa de melhorar minha aparência. Um belo e merecido banho, tirando toda a sujeira que se agregara em minha pele durante os longos últimos dias da minha vida. A barba que sempre crescia lentamente fora aparada. Minha irmã veio a mim, a pedido meu, para me maquiar. Pedido aceito sem a mínima relutância. Esboçava um sorriso para mim, que se desfazia a cada lágrima que caía de seus olhos. Escolhia para mim, a roupa que usaria hoje.
Os próximos 77 minutos, passei com meus pais, chorando ao meu lado, inconsolavelmente pela predestinada perda de um filho. Se eu tentava, sem sucesso, acalmar a doutora, não conseguia proferir uma palavra sequer vendo a cena que eles atuavam. Um casal, com uma certa idade, que sempre foram os meus pilares durante anos, ruíam e tombavam como a mais frágil das estruturas.
Os minutos finais da décima hora do dia, gastei agradecendo e me despedindo, eternamente, daqueles que haviam demostrado ser reais amigos e companheiros, os poucos funcionários da minha casa que acompanharam toda a minha jornada, sendo as mais gentis e próximas pessoas que jamais conheceria – até por que, né?
Exatamente às 11:00:0, minha irmã e o motorista, Sr. Thomas Dunn, o mais real, fiel e qualquer adjetivo que tentasse definir aquele amigo, me levam para o carro. Tinha duas horas para meu último encontro com Dia. Gastaria somente meia hora no percurso de carro, como de costume. E aproveitaria para ver mais uma vez, aquele sorriso que fizera este quem vos fala cair em amor.
E a meia hora havia se passado. Mas nada de eu chegar ao meu destino. Todos os dias, desde que a conheci, foram de correria. Hoje, de espera. Esperando o tráfego colaborar comigo e meu desejo. Todos os dias desde que a conheci tiveram um sol intenso, iluminando nossos passos. Hoje uma imensa e densa nuvem cinza cobria a luz do sol. Como se o universo conspirasse para tornar mais dramático aquele momento tão melancólico. E a meia hora estipulada para a viagem, se torna uma hora, 56 minutos e os segundos ainda a correr. Exatos dois minutos, desde que saíra do carro, e havia cruzado um trecho suficiente para vislumbrá-la. Lá nas grades da doca, onde há exatas quatro semanas, dois dias, cinco horas e 37 minutos, havia conhecido a mulher que faria dos meus últimos dias, mais coloridos, assim como sua juba multicolorida. Os dias que foram os mais belos, assim como seus olhos de Alexandria. Os dias que foram os mais calorosos, doces e felizes, assim como os sorrisos daquela inocente garota de 16 anos, sete meses, três semanas, quatro dias e algumas horas. Horas que eu sempre pedi para saber, para o prazer de realizar mais outro cálculo, mas que ela nunca o fizera por capricho e por deboche ao meu hobbie. E um sorriso se fez em meus lábios em meio à tanta dor e sofrimento. Ela ainda de costas, não havia reparado minha presença. E eu caminhava mais um pouco, chegando ao quinquagésimo nono minuto daquela décima segunda hora do vigésimo primeiro dia do primeiro mês do dois milésimos décimo oitavo ano. E então ela, como sempre impaciente, se vira em direção ao local de onde eu viria. Reconheceu Emma e Thomas, e por consequência o corpo quase morto que os dois carregavam. Chorando rios de lágrimas como de costume de sua personalidade infantil e meiga. E ela corria todos aqueles metros que nos separavam.
57, 58, 59…
As toxinas haviam chegado ao sistema nervoso central e foram direto para o cérebro me tirando meu último suspiro. Gesticulava um obrigado, inaudível, em meus últimos instantes de consciência.
Ela havia cruzado todo, ou quase todo o espaço que nos separava. Se fossem por mais alguns segundos, ainda poderia ter recebido um último beijo de despedida dela, como sempre fazia no final de um dia a dois. Via seu olhar de medo ao me ver de perto e fitar cada centímetro do meu corpo destruído. Uma lágrima rola em meu rosto e meu sorriso não se desfaz.
“E se vocês soubessem o exato momento em que morreriam? O que fariam para aproveitar tais últimos momentos?” Eu havia descoberto naquele sorriso a resposta para essa pergunta. Eu amaria incansavelmente. Amaria incontrolavelmente. Amaria com todas as forças que restavam em um homem com seus dias contados.
Bip-Bip. O alarme toca.
E os segundos pararam de correr.
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