Notas iniciais
Mais uma pro desafio da im_Lovage, e se ninguém me segurar eu completo o álbum 21 da Adele todinho hehehe. Dessa vez foi inspirado em "Turning tables", e fiz mais pelo pedido da Lovage, ja que não lembrava da música. Acho que gostei do resultado, espero que gostem também.

Aliás, não usei todos os trechos da música do algumas estrofes não estão na ordem. Quem quiser ver a tradução, é só ir pro vídeo do YouTube aí em cima.

AVISOS:

Essa história contém cenas de violência doméstica, abuso psicológico, agressão (ou quase agressão) e todos as problemáticas que envolvem a relação dos Todoroki. Se for algum gatilho seu, não leia, existem flufflys maravilhosos por aí.

Avisos dados, então aos que ficam: boa leitura.

Perto o suficiente para começar uma guerra
Tudo o que eu tenho está no chão
Só Deus sabe o porquê de estarmos lutando
Tudo o que eu digo, você sempre diz mais

Rei Todoroki chorava, desesperada. Shouto Todoroki — o caçula — dormia no quarto, após mais um dos treinos abusivos de Enji, aquele que se intitulava seu marido e pai do seu filho.

Pratos e talheres jogados ao chão num acesso de fúria dele, porque ela pedira que ele deixasse Shouto em paz. Mas ela não podia pedir, ela não era ninguém e não ia atrapalhar o futuro de seu filho prodígio. Era o que ele pensava, e Rei estava tão cansada…

— Deixei-o em paz… É só uma criança — pediu pela milésima vez, esgotada, a voz por um fio. No fogão, perto da mesa onde a mulher estava apoiada, a água fervia na chaleira, que chiava alto.

— É um futuro herói e não permitirei que estrague o futuro brilhante dele mimando-o. Heróis não são mimados, não diamantes brutos a serem lapidados — resmungou o homem enorme, em autoridade. Agia como se não tivesse acabado de varrer a mesa com a mão em um de seus acessos de loucura — sim, loucura, aquele homem desgraçado só podia ser louco.

— Ele é meu filho, Enji, meu filho! Eu deveria te denunciar, seu desgraçado — gritou, batendo as mãos na mesa com força, incapaz de se conter. Iam começar tudo de novo. As lágrimas já lhe jorravam dos olhos mais uma vez. Era uma rotina.

— Seu filho, Rei? E o que você faz por ele? Que moral tem de para falar de mim, quando não está nem aí para o garoto? Vai me denunciar, e pretende contar sobre o que você fez? — gritou de volta, ameaçador, com o dedo indicador em riste.

E novamente, a culpa daquele fatídico dia, do acidente. Aquela chaleira, maldita chaleira, a água fervendo no rosto de seu filho... Quase o deixara cego, numa tentativa de acertar o marido desgraçado, tentativa de proteger a criança de mais um treino. E então, acabara sendo ela a machucar o filho, numa ferida que estaria ali para sempre, numa cicatriz. A culpa era dela, ela merecia.

Jogou-se na cadeira, o rosto enfiado entre as próprias mãos enquanto chorava. Enji saiu batendo os pés e porta da frente ao deixar a casa.

Ele havia ganhado, mais uma vez, naquele jogo sujo, naquela guerra diária que travavam. Ela sempre perdia. Rei Todoroki estava tão cansada…

—_________

Eu não posso continuar com essas reviravoltas
Controlada por você, mal consigo respirar

Entrevistas, sorrisos. Tudo em troca de uma tarde de paz para ela e seu filho. Tinha que forçar o riso e fingir estar feliz ao lado do homem que abominava, tudo por uma tarde de paz.

Sufocada pelos repórteres e câmeras ao seu redor, Rei Todoroki falava coisas falsas sobre o marido, enchendo-o de glória. Mal podia respirar com o braço de seu homem em volta de sua cintura, sufocava-a tanto quanto o círculo de pessoas ali formado.

Por dentro, se perguntava se ninguém percebia. Ninguém percebia o quão cansado estava seu olhar, seu semblante? O quão magra estava, pálida e com aspecto doentio? E se ela contasse, eles realmente se importariam, ou seria apenas mais uma matéria para o lucro de seus jornais de merda? Provavelmente e infelizmente, sim. Eram só abutres. Ninguém se importava, ninguém iria ajudá-la.

E amanhã seria outro dia… Mais gritos e treinos, lágrimas suas e de seu pequeno. Rei não aguentava mais aquelas reviravoltas, onde um dia sorria para as câmeras o no resto da semana, chorava nos bastidores.

Rei queria fazer algo, mas não sabia como poderia fazer. Rei estava tão, tão cansada…

—______

Então eu não irei deixá—lo perto o bastante para me machucar
Não, eu não vou te perguntar
Você só me abandona e eu não posso te dar tudo o que você pensa que me deu

Por um dia inteiro, eles estariam livres. Sorriu para o pequeno ao seu lado, apertando sua mão de forma reconfortante.

— Mamãe, ele não vai vir atrás de nós? — perguntou o jovenzinho, assustado.

— Não, querido. Ele não virá, não se preocupe — acalmou a criança, acariciando seus fios macios.

Aquele não era dia para sair, ele não havia permitido. Mas Rei havia cansado de obedecer ordens. Era um dia lindo de outono, com folhas coloridas forrando um tapete lindo no chão, que estalava sob os passos de ambos. O que diabos tinha de errado em passear com seu filho no parque da cidade? Ela só queria um dia de paz com seu pequeno Shouto.

Por um dia, ele não iria machucá-los. Estava longe em missões heróicas, porque ele era um herói. Então, estavam livres, ao menos por aquele dia. Era sempre assim, Enji ia, deixava- a sozinha e abandonava-a, levando o filho para qualquer que fosse o lugar abominável para que treinassem-o com mercenários tão cruéis quanto ele próprio o era.

Ela nunca o havia seguido antes, nunca ousara arrancar o filho do local aos berros, ameaçando denunciar os desgraçados capangas do marido à polícia. Mas para tudo havia a primeira vez, como naquele dia.

Não sabia o que Enji achava que havia dado a ela, mas fosse lá o que fosse, ela não poderia dar de volta. A menos que lhe desse dor e sofrimento, a menos que o matasse. Mas ela não faria aquilo, ela apenas tentaria dar algo ao seu filho, que merecia o mundo, mas não tinha nem uma família decente.

Rei estava tão, tão cansada…

—____

Sob o seu pior disfarce eu te vejo
Onde todo meu amor já está perdido e seu fantasma é encontrado
Eu enfrentei um monte de tempestades para deixá—lo

— Você não é um herói! — gritou, farta daquela desgraça de vida, daquela merda de homem que a ameaçava depois de descobrir seu ato de rebeldia. — Você é um monstro. Eu, Shouto, Touya, Fuyumi, Natsuo… Nós sabemos! Que tipo de herói você é, que não ama a própria família? O que aconteceu com meu Touya, o que fez com ele?

— Cale a boca, sua maluca. Não sei porque ainda não te abandonei num hospício. Está delirando. Não importa o que pensa de mim, eu sou o herói número dois e logo, estarei no lugar número um, o melhor herói. Sua opinião não vale de nada — trovejou, ameaçando-a com suas mãos em chamas. Não parecia em nada com o jovem homem que conhecera anos atrás. Sempre fora um fingimento? Rei não sabia, mas o que quer sentisse naquela época, estava morto.

Do corredor, o caçula assistia, assustado. A porta encostada com uma leve brecha lhe permitia espiar o espetáculo que desenrolava-se na cozinha.

— Maluca…— repetiu ela, incrédula, meneando a cabeça. — Você que é um maluco, não sabe qual o requisito principal para ser um herói. Você é uma farsa, para si próprio. Shouto não vai te superar sendo o melhor, Shouto vai te superar sendo verdadeiro, um herói que preza vidas, não números — gritava, jogando panelas para o alto, quebrando pratos, empurrando a mesa. Precisava descontar, estava farta. — Estou de saco cheio de você, se quiser me bater, bata. Ainda vou tirar você de seu quase topo. Sabe o que dizem, Endeavor? Quanto mais alto, maior o tombo.

Com isso, virou as costas e saiu, abrindo a porta da cozinha com força para batê-la em seguida. Shouto não estava mais lá.

Shouto também estava cansado. Tão, tão cansado…

—______

E da próxima vez eu serei mais corajosa
Eu salvarei a mim mesma, quando as trovoadas chamarem por mim
E da próxima vez eu serei mais corajosa e salvarei a mim mesma
De pé
Sobre meus próprios pés

Eram duas da manhã, fazia horas que procurava, e Shouto ainda não havia sido encontrado. Rei Todoroki andava sozinha nas ruas, chamando-o, desesperada. Enji não estava ali, porque era um trabalhador e precisava dormir. Ela que arrumasse a bagunça dela, já que era culpa dela.

A que ponto as coisas tinham chegado? Quantas tempestades haviam caído naquela casa, com aquele homem, e Rei não tinha feito nada… Ela era a culpada. Se algo acontecesse ao seu pequeno, ela não se perdoaria, já tinha machucado-o demais.

No silêncio da noite, onde os vilões agiam e roubavam vidas que não seriam recuperadas, Rei ouviu um choro baixo, vindo detrás de uma caçamba de lixo, na boca de um beco. Ela reconhecia aquele choro, aquela voz, aquele brilho gelado no chão que aparecia sempre que Shouto estava descontrolado demais para se conter.

Correu até lá, abaixando-se no chão imundo, abraçando seu pequeno e o acolhendo em seus braços. Ele se aninhou como poucas vezes fazia. Céus, era só uma criança, e ainda assim, já tinha tantas más experiências para contar, tantos traumas para superar.

De repente, Rei Todoroki percebeu, num estalo, que ela não poderia mais se submeter aquilo, e nem seu filho. Daquela vez, Shouto a havia salvado, sem querer: salvara-a de mais uma noite com aquele monstro, de mais uma noite naquela casa.

Mas da próxima vez, ela se salvaria por sua própria atitude. Ela sairia por aquela porta para nunca mais voltar, e Shouto nunca mais precisaria fugir para fazê-la tomar uma atitude.

Porque Rei Todoroki estava cansada, muito cansada; sobretudo de ficar vendo a vida passar sem fazer nada. Rei estava cansada, mas daquela vez, ia reagir a isso.

—_________

Por mais que você tente, não, eu nunca serei derrubada

...

É hora de dizer adeus.

— Eu quero o divórcio — anunciou Rei Todoroki, decidida, sete dias após a fuga de Shouto.

Era manhã de domingo, última semana de dezembro, e o inverno já dava indícios de sua chegada silenciosa. Estava frio, mas ela não se incomodava.

— O quê? — perguntou Enji, com expressão em puro deboche.

— Não se faça de surdo, Endeavor, ouviu muito bem — resmungou a mulher, arrumando as tigelas na mesa para o café da manhã.

— Faça como quiser — o homem deu de ombros, como quem não se importava. — Mas saiba que Shouto ficará comigo.

— Não — ela disse com tanta convicção que Enji piscou, aturdido. — Ele irá comigo. Você me concederá a guarda do meu filho e o divórcio de forma amigável, eu não estou disposta a abrir mão dos meu direitos como mãe. Fique com sua fortuna e o que mais for seu, mas Shouto irá comigo.

— Claro que justiça irá permitir algo assim depois que eu te denunciar por maus tratos, e contar sobre como ele conseguiu a cicatriz — ameaçou, de forma intimidadora. Para sua surpresa, Rei não se abalou.

— Você vai me denunciar, Enji? Tem certeza? — ela se aproximou, encarando com olhos vorazes, confiantes. — Saiba que eu posso destruir sua carreira quando bem entender, e agora tenho provas. Mamãe sabe o que acontece aqui, não é a toa que levou Natsuo e Fuyumi para longe dessa bagunça depois do sumiço de Touya. Eu devia ter ido com eles, levado meu Shouto e nos protegido disso, mas preferi ficar e tentar mudar a merda que você se tornou — lágrimas rolavam pela sua face, mas ela não abaixou a cabeça. Enji iria ouvir tudo o que ela tinha para falar, pelo menos uma vez. — Mas você não se tornou nada, você sempre foi isso, só estava esperando para se mostrar. Eu já me conformei com a impossibilidade de mudar você, mas ainda posso mudar a mim e sair daqui um pouco menos quebrada do que já estou…

— Escuta aqui, sua… — tentou interromper, mas foi silenciado por um empurrão. Não fez nem cócegas, mas o surpreendeu pela ousadia o suficiente para calá-lo.

— Escuta aqui você, já escutei demais por todos esses anos. Na verdade, eu não devia nem estar falando tudo isso, você não merece. Eu não estou te perguntando se posso, se você vai deixar. Eu vou embora e só estou avisando porque quero encerrar isso dentro da lei. Nessa última semana, eu gravei todos os treinos, eu gravei as brigas, eu coletei provas, porque eu estou cansada de você, dos seus abusos, da sua maldade, da sua obsessão com números de rankings estúpidos que lhe valem mais do que sua família! — gritou a última frase, tomada pela raiva que a situação lhe causava.

Enji estava de olhos arregalados, estupefato. Não esperava por aquela reviravolta enorme, por aquela repentina mudança da esposa. Achava-a fraca e patética, incapaz de agir ou mesmo pensar, e tinha leves impressões de que poderia interná-la num hospício em breve, em qualquer um dos surtos de desespero que ela tinha de vez em quando. Fora pego de surpresa e não tinha palavras. Pela primeira vez, estava sentindo que perdia o controle da situação.

— E como bom número dois que é, sabe que não vai ser bom se essas informações vazarem, não é? Seu lugar no ranking despencaria ou se tornaria inexistente, porque você teria tantos processos nas costas… E sua popularidade que já é quase nula passaria e inexistir — ela falava, agora calma, com as lágrimas secas e tom de voz em uma falsa inocência. — Não pensarei duas vezes antes de te destruir como fez comigo e com minha família, então não se atreva a me atrapalhar. E se algo acontecer comigo, as provas de tudo estarão com minha mãe, é bom não tentar nada. Partirei hoje após o café, minhas coisas e as de Shouto já estão arrumadas. Depois do fim de ano, poderemos tratar sobre isso de forma judicial.

Dito isso, virou às costas e saiu, sem dar chance de resposta, de falsas promessas ou juras de amor, como sempre acontecia quando ela o ameaçava daquele jeito. Daquela vez, ela não cairia. Estava com os pés no chão, de pé, e Enji não a derrubaria. Era, enfim, hora de dizer adeus.

—_____

— Para onde vamos, mamãe? — indagou Shouto, curioso, sentado ao seu lado no táxi que acabava de sair da porta de sua antiga casa.

— Para a casa da vovó. Depois, daqui alguns meses, teremos uma nova casa e você vai poder viver com seus irmãos — explicou docemente, acariciando os cabelos bicolores da criança.

— Papai não vai brigar? Ele não vai ter bater por isso? — o caçula se aproximou mais da mãe, agarrando sua blusa em desespero.

O motorista observava a cena pelo retrovisor, penalizado pela situação. Sabia quem estava ali, sabia se tratar da família Todoroki. Ele nunca gostara muito do herói, para ser sincero. Apesar disso, não se pronunciou.

— Não, querido, seu pai nunca mais vai nos incomodar, vamos ser felizes agora — sussurrou, apertando Shouto contra seu corpo. O silêncio reinou a partir de então.

Pela janela do automóvel, era possível ver a neve se preparando para tomar conta do mundo lá fora. Rei estava mentindo sobre serem felizes. Haviam traumas que levariam anos para serem curados, isso se fossem. Terapias, lágrimas, ataques de pânico, problemas de sociabilidade… A mulher estava ciente de tudo aquilo viria para o caçula como tinha vindo para os seus irmãos.

Eles estavam quebrados, e um vaso quebrado podia ser consertado, mas nunca mais voltaria a ser o mesmo. Ia ser um caminho doloroso, longe de ser feliz. Mas apesar disso, eles iriam recomeçar, tentar se recuperar, todos juntos, como uma família.

Ia ser doloroso, mas por ora, Shouto não precisava saber. Já tinha conhecimento sobre verdades cruéis demais para uma criança tão nova, descobriria o resto com o tempo.

Rei Todoroki suspirou, encarando a neve que caía suave na janela. O frio, que era tão terrível para tantos, era o conforto da família Todoroki. Era o símbolo de esperança, de alvoradas, de recomeços. Ela estava cansada, mas pela primeira vez em muito tempo, sentia que poderia sobreviver e ter um futuro mais ou menos feliz com suas crianças.

Rei Todoroki estava cansada, mas estava aliviada e tinha esperanças, pela primeira vez desde que conhecera Enji. Aquilo por si só já dizia muito. Acariciou os fios de seu querido filho, que já dormia, embalado pela suave velocidade que o bom taxista mantinha.

— Vai ficar tudo bem, querido, nós vamos superar — sussurrou para um Shouto adormecido. E pela primeira vez em muito tempo, sentiu que estava sendo verdadeira. Deixou a cabeça descansar encostada no vidro da janela.

A neve sorria para ela, e Rei sorriu de volta. Era bom estar longe do poder destrutivo do fogo. Era bom estar longe de Endeavor.

Às vezes, era bom dizer adeus.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!