Hora de Recomeçar!

17 Chamas da paixão


Em seu quarto, Saori deixava que as lágrimas escorressem pelo rosto delicado. Shunrei ouviu calada todo o drama da amiga. Sabia que nada podia fazer para mudar a opinião de Saori sobre seu amor por Seiya. A amiga estava certa de que aquele era o melhor caminho.

– Saori, o amor não é um sentimento que possa ser desperdiçado. Entre você e Seiya existe algo muito forte e lutar contra isso é lutar contra a própria natureza.

– Eu amo o Seiya, mas tenho que assumir minha responsabilidade como reencarnação de Atena. Entenda Shunrei, se eu me permitir viver esse amor, colocarei uma única pessoa acima de todas as outras. Vou deixar de cuidar da humanidade para me concentrar em meu amor! É egoísmo... e não posso me descuidar da minha missão!

– Isso não é um jogo, Saori. Você não precisa escolher entre o Seiya e a humanidade. Você é a reencarnação da Deusa Atena, mas é também a jovem Saori, uma pessoa comum que deve ter a oportunidade de viver plenamente. O mundo está em paz. Você e seus cavaleiros estarão sempre vigiando a Terra, prontos para lutar novamente quando for necessário. Mas até lá, todos devem viver. Viver plenamente é a melhor forma de agradecer a Zeus pelo dom da vida.

– Infelizmente pra mim isso não é possível... — Saori enxugou as lágrimas e levantou — se imediatamente.

– Vamos, Shunrei. Precisamos servir o jantar.

Shunrei assentiu e apenas seguiu a amiga, sem contudo evitar que um sentimento de pena a invadisse. Estava tão feliz por ter seu amado Shiryu ao seu lado, que desejava de todo o coração que Saori tivesse a oportunidade de se sentir assim também.

Já reunidos na mesa de jantar, todos perceberam que o clima de tristeza estava presente. Jantaram quase em silêncio, salvo alguns comentários esporádicos.

Após o jantar, Seiya foi o primeiro a ir embora, arrastando Seika consigo. Ele nem ao menos se despediu de Saori, para a tristeza de Atena.

Shiryu saiu logo em seguida, acompanhado de Shunrei e da triste Eire.

Ikki estava mais incomodado que nunca. Não sabia como se comportar diante da melancolia de Saori, não levava jeito para sentimentalismo. E ainda por cima estava nervoso com a presença de Ágata. Os acontecimentos da noite fizeram com que os dois quase não tivessem a oportunidade de conversarem. Estava preocupado com o que a garota havia achado do jantar e de seus amigos. Certamente estaria desconfortável com todo aquele clima pesado.

– Shun, vamos indo? — Ikki falou quase com desespero — Já está ficando tarde...

– Vamos então. Você nos dá uma carona?

– É claro!

Despediram-se de Saori e saíram da mansão Kido muito preocupados com a amiga.

– Muitos corações partidos esta noite... — Shun falou quase que para si mesmo, já dentro do carro de Ikki.

– O clima ficou bastante pesado hoje, mas não foi sempre assim... — Ikki tentava se desculpar com Ágata, sentada muito calada no banco do carona — Sinto muito ter trazido você para o jantar hoje, não imaginava que seria tão... melancólico!

– Ah, não se preocupe Ikki. Está tudo bem! — disse Ágata timidamente.

– Bom, a noite começou ruim mas não precisa terminar assim. O que acham de darmos um passeio pela praia, caminharmos um pouco? A noite está muito agradável! O que me dizem, Shun? June?

– Eu acho ótimo! Tudo bem pra você, meu amor? — Shun perguntou carinhosamente para June.

– Claro, não posso recusar mais umas horinhas com você! — June acariciou o rosto delicado do namorado.

– E você, Ágata, quer ir? — Ikki parecia esperançoso.

– Eu adoraria, Ikki... — Ágata esperava conseguir alguns minutos a sós com aquele rapaz tão belo e misterioso.

A noite estava com um clima realmente muito agradável. Por causa disso, a praia estava cheia de casais apaixonados. Muitas pessoas caminhavam e conversavam alegremente.

Shun deixou que Ikki e Ágata se afastassem.

– Vamos nos sentar aqui, June? Quero dar um pouco de privacidade para meu irmão. — Shun sorriu com a idéia de ver seu irmão finalmente se acertando com alguém que valesse a pena.

Ikki olhou para trás e viu que seu irmão não os acompanhava. Soube imediatamente quais eram as intenções de Shun.

Sorriu ao perceber que gostou da idéia de ficar a sós com Ágata.

– Acho que te devo um pedido de desculpas... — Ikki foi o primeiro a quebrar o silêncio — O jantar foi ruim. Não foi muito interessante para um primeiro encontro.

– Não se preocupe, Ikki. — Ágata corou ao ouvir a palavra “encontro”. — Mas afinal, o que estava acontecendo?

– Bom, muitas coisas ainda são um mistério pra mim também. O Hyoga ir embora daquela forma, de maneira tão repentina… Não entendi o motivo. Assim como todos nós, ele tem uma história de vida muito difícil, sofreu muito com a morte da mãe, acredito que nunca tenha superado a perda. Ele conheceu a Eire recentemente, e todos nós apostávamos que finalmente ele iria se apaixonar, se deixar envolver de verdade por alguém. Eles estavam se dando bem, ainda estavam se conhecendo, mas parecia que daria certo… mas aí de repente essa mudança! A pobre Eire ficou arrasada.

– Sim, conversei alguns minutos com ela. Estava mesmo muito triste. A senhorita Saori também não parecia nada feliz.

– Saori e Seiya nutriam uma paixão secreta um pelo outro. Quer dizer, secreta apenas para os dois, porque todos nós já havíamos percebido! — Ikki riu – Mas parece que quando Seiya tomou a iniciativa, a reação de Saori não foi a que ele esperava. Não sei exatamente porque – mentiu Ikki – mas sei que não estão juntos como Seiya planejava.

– Que pena! Que motivo pode ser grande o suficiente para separar dois corações que se amam verdadeiramente? — Ágata disse, pensativa.

– Bom, eu não faço ideia. Acho que nem todos tem a chance de encontrar o amor. — Fênix pensou em seu próprio destino, trágico, ao perder um amor verdadeiro ainda tão jovem.

Ágata percebeu a tristeza que passou pelos olhos de Ikki.

– O seu irmão parece feliz. Da família de vocês, ele e aquele rapaz, Shiryu, parecem ser os únicos que conseguiram se acertar, por enquanto. — Esperava que o “por enquanto” fosse percebido por Ikki como uma indireta dela de que ele ainda podia ser feliz como os outros, se assim desejasse.

– Sim, meu irmão está radiante – Ikki abriu um sorriso ao lembrar do irmão – Ele já era apaixonado por June na infância, foi realmente lá que tudo começou. Parece um romance tirado de algum livro piegas. Foi amor à primeira vista. E desde então ele nunca se interessou por nenhuma outra mulher. Fico feliz que agora estejam se acertando. Meu irmão sofreu muito, quero que ele seja muito feliz. Só a felicidade dele já me deixa satisfeito. E fico feliz por Shiryu também, ele é um cara muito bacana. Merece a felicidade como poucos.

– Seus olhos brilham quando você fala do seu irmão. Dá pra ver que vocês tem uma relação muito íntima, de cumplicidade e muito afeto.

– Sim! Shun é tudo o que tenho. Meu único vínculo com os meus falecidos pais, minha única família. A existência dele é o que me manteve são nos anos de sofrimento que vivemos – secretamente Ikki se lembrou dos dias sombrios de treinamento na Ilha da Rainha da Morte e como sobreviveu a tudo com o único propósito de voltar a rever Shun.

– É um laço muito bonito, Ikki. Fico feliz que você tenha seu irmão. Assim nunca estará sozinho.

– É verdade.

Ficaram em silêncio por alguns minutos, ambos pensando no que conversaram até aquele momento. Ikki sabia que queria se aproximar mais de Ágata, sentia um desejo louco de beijá-la. Mas como chegar até esse ponto? Como tocá-la sem parecer evasivo? Ágata ansiava também por aquele contato, mas não tinha certeza se Ikki sentia o mesmo. De repente um vento inesperado balançou perigosamente o vestido de Ágatha. Assustada, ela tentou conter a travessura do vento ao tentar levantar seu vestido, arrancando risos de Ikki. O cavaleiro de Fênix então, em um gesto automático, retirou do rosto da bela moça os cabelos que o vento traiçoeiro também havia bagunçado. O leve toque em seu rosto foi o suficiente para fazer Ágatha corar, e Ikki viu ali o clima perfeito para beijá-la. Clichê, é verdade, mas ainda assim perfeito.

– Você está especialmente bela hoje, Ágatha… — Ikki disse, olhando em seus olhos e acariciando sua face. — Quando vi você na faculdade a primeira vez senti uma sensação estranha, como se algo me atraísse até você. Foi irresistível. Sua beleza, sua inteligência, sua doçura. Tudo em você me atrai muito.

– Não sabe como fico feliz em ouvir suas palavras. Você também me atrai, e muito – Ágatha tomou coragem para dizer.

Ikki não teve dúvidas. Aproximou-se lentamente dos lábios de Ágatha e depositou ali um beijo carinhoso, casto. Sentindo que a garota o correspondia, envolveu-a em seus braços e intensificou aquele primeiro beijo. Sentiu um arrepio percorrer todo seu corpo, um desejo de não encerrar aquele beijo, de ir mais além. Nunca teve um sentimento tão intenso assim por outra mulher. Em seus devaneios era sempre Esmeralda que aparecia sorridente, ela sempre foi a única mulher em que se permitiu pensar. De repente ali, envolvido naquele beijo, experimentou algo que jamais havia sentido: uma paixão crescia dentro de seu corpo, uma vontade que ele ainda não conseguia se identificar. Já havia se envolvido com muitas garotas sem compromisso algum, apenas para satisfazer seus desejos carnais, logo depois as descartava. Não suportava olhá-las por muito tempo. Lembrou-se de Pandora e de como foi difícil se livrar dela. Escreveu um e-mail curto e objetivo terminando tudo com a patricinha, o que a deixou cega de fúria. Foi a discussão com Pandora aquele dia que fez Ikki perder o controle e quase derrubar Ágatha no corredor da faculdade. E quem diria que aquele encontro desastroso terminaria por trazê-los ali, sob o brilho da lua, completamente envolvidos um nos braços do outro.

Em silêncio se beijaram mais algumas vezes, conhecendo e reconhecendo aquela sensação estranha e ao mesmo tempo gostosa que emanava dos dois a cada beijo, a cada novo toque. Separaram-se e sorriram. Sabiam que algo estava acontecendo.

Ikki falou primeiro, quebrando o silêncio entre os dois.

– Isso foi realmente muito bom… — disse Ikki depositando pequenos beijos pela face de Ágatha.

– Foi sim Ikki, foi muito especial pra mim. Eu me senti estranha, como se flutuasse – sorriu, correspondendo a cada beijo de Fênix.

– Eu ficaria aqui a noite toda, mas acho que é melhor levá-la para casa. Já está ficando muito tarde.

– É verdade! Tenho aula amanhã, já havia me esquecido.

– Isso é bom, porque significa que vou vê-la logo cedo. — Ikki sorriu satisfeito.

– Mal posso esperar por isso… — Ágatha disse, laçando o pescoço de Ikki e beijando-o novamente, um beijos de despedida.

Ao longe, Shun viu a cena e sorriu: Ikki finalmente ficaria bem.

Dentro do carro, os casais pouco se falaram. Imersos em pensamentos. Deixaram June em casa e depois Ágatha, de quem Ikki se despediu timidamente com um singelo beijo nos lábios. Shun observou tudo em silêncio e esperou Ágatha entrar em casa para provocar o irmão.

– O que é esse sorriso bobo no rosto, niisan? — Shun sorria do irmão.

– Shun, não enche tá legal. Foi apenas um beijo inocente. — Ikki estava com vergonha da cena.

– Inocente? Não pareceu tão inocente assim visto lá da praia – Shun estava se divertindo.

– Você estava me espionando, Shun? Uma pessoa não pode mais ter privacidade? — Ikki fingiu estar ofendido.

– Se queria privacidade deveria ter ido para um lugar mais intimo, meu irmão! — disse Shun gargalhando da reação tímida de Ikki.

– Ora, deixe de besteira e vamos pra casa. Temos aula amanhã logo cedo – Ikki não pode deixar de sorrir.

Aquela noite não dormiria apenas com a triste lembrança de Esmeralda. Tinha em seus lábios o sabor doce de Ágatha. Seu beijo, seu perfume, seu toque… Ela o envolveu completamente. E pela primeira vez, o rosto de Esmeralda não foi o último que viu antes de adormecer…

(continua...)

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.