Hora de Recomeçar!
13 A triste escolha de Hyoga
13. A triste escolha de Hyoga.
Dormiu exatamente como uma criança. Teve doces e belos sonhos, como a muito não havia tido. Sentia a alma leve e o coração transbordava uma paz tão pura e cristalina que jamais conhecera. Não conhecia o motivo exato daquela maravilhosa sensação, tão pouco entendia o que estava acontecendo, mas isso não tinha importância alguma. Era como se todo o gelo que habitava em seu coração houvesse derretido. Sentia que a chama da vida havia voltado a habitar em seu corpo. Acordou com os raios de sol brilhando sobre sua face e o azul do céu indicou que um novo dia já estava começando. Hyoga se levantou e tomou um longo banho. Sobre a mesa da cozinha encontrou o café da manhã e um Shiryu muito alegre.– Bom dia, Dragão.– Bom dia, meu amigo. Como passou a noite?– Bem, e você?– Dormi feito um anjo!– E como foi a noite ontem depois que saímos?– Maravilhosa! Esse seu amigo agora é um homem seriamente comprometido.– Verdade? Então você e Shunrei finalmente confessaram o que sentem?– Sim. Creio que não havia mais razão para ocultar esse sentimento. Além disso, já esperamos tempo demais, afinal de contas, só quem já esteve à beira da morte, como nós, sabe que a vida não dura pra sempre... Cada segundo é muito precioso.– Estou realmente contente por você, Shiryu. Desejo sinceramente que vocês sejam muito felizes juntos. A sensação de ter alguém ao nosso lado deve ser muito especial...– Especial é estar junto à mulher que se ama.–Talvez um dia eu possa entender essa maravilhosa sensação... – Cisne dizia enquanto pensava no doce sorriso de Eire.– Mas e quanto a você? Não vi a hora em que você chegou em casa ontem! Por acaso foi a algum lugar depois que levou Eire em casa? – Shiryu perguntava em um imenso tom de curiosidade.– Na verdade, Eire não precisava ir para casa, como nos havia dito. Aquilo tudo foi apenas uma desculpa para que deixássemos você e Shunrei a sós... E pelo que posso ver, o plano dela teve excelentes resultados! – Cisne sorria ao ver a grande alegria presente nos olhos do amigo.– Mas para onde vocês foram então? Porque imagino que, se demorou tanto a chegar em casa, foi devido ao fato de estar com ela!– Quando Eire me disse o porquê de ter saído tão cedo do apartamento, perguntei se ela não gostaria de conhecer a pequena torre que fica em frente ao mar, onde gosto de ir sempre. Ela aceitou o convite e lá ficamos conversando por algum tempo.– E então? – Shiryu fazia uma expressão de curiosidade.– E então o quê? – Hyoga tentava fingir não saber o que o amigo estava insinuando.– Ah, fala logo vai Hyoga! Rolou alguma coisa entre vocês? – Dragão dizia com um tom de impaciência.– Bem... – Cisne sentiu que sua face havia corado completamente, lembrando da cena no alto da pequena torre – Nós não nos beijamos, não exatamente...– O que você quer dizer com "não exatamente"?– Começamos a falar sobre as tristezas que nos afligiam. Falei sobre minha mãe e ela me contou a respeito de seus pais. Acabamos ambos mergulhando em lágrimas. Abraçamos-nos, como uma forma de nos consolarmos. Sentindo-a tão próxima a mim não pude resistir à sensação magnífica que tomava conta de meu corpo. Então segurei seu rosto e o aproximei ao meu. Quando nossos lábios estavam prestes a se tocar, um barulho inoportuno fez com que, subitamente, ela se assustasse e se livrasse de meus braços.– E por que você não a tomou em seus braços novamente? – dizia Shiryu, muito incrédulo pela descrição do amigo.– Porque não era conveniente, Shiryu. Ainda não nos conhecemos o suficiente para que eu tenha esse tipo de liberdade, afinal, tudo tem seu tempo. Além disso, acredito que me falta muita coragem para me aproximar tão seriamente de uma mulher.– Sim, você tem razão. Mas em todo caso, esse foi um bom começo, não acha?– Talvez...– Você sente algo por Eire? Quero dizer, sei que ainda é muito cedo para perguntar se está apaixonado, mas será que você sente algo diferente quando está junto a ela, quando fala sobre ela ou mesmo quando pensa nela?– Eu não sei bem como devo responder, Shiryu. Não conheço meus sentimentos, eles são tão obscuros, não entendo o que sinto. Mas, o que posso dizer é que tenho uma sensação muito agradável quando estou com ela. No momento em que estávamos abraçados, senti meu corpo inteiro ser envolvido por um sentimento de paz. Senti que o peso da solidão que sempre carreguei em meu coração e em minha alma, por um momento, foram amenizados pela sua presença. – dizia Cisne enchendo seus olhos de um brilho vivo.– Será que você permite que esse seu amigo aqui faça um diagnóstico do que você está sentido? – Dragão questionou.– Claro, já que entende disso mais do que eu. – afirmou Cisne aguardando o julgamento do amigo.– Sinceramente, Hyoga, creio que você está começando a abrir seu coração para uma paixão. As coisas que me disse são relatos verdadeiros de alguém que está sendo envolvido por um sentimento muito especial. Além disso, já que você jamais se sentiu assim por outra garota, posso dizer que Eire é alguém muito especial em sua vida.
– Você pode ter razão... Mas não vamos apressar as coisas, certo? – disse Hyoga tocando o ombro do amigo.– Tudo bem, as coisas seguirão em seu ritmo, quanto a isso não precisa se preocupar. – respondeu Dragão procurando transparecer o máximo de segurança possível – Ah, essa carta é sua, o porteiro a entregou para mim, já que você ainda estava dormindo.– Obrigado. – Hyoga sentiu a expressão de sua face mudar ao ver do que se tratava a correspondência que havia recebido.– O que houve? Parece preocupado... Essa carta trás alguma notícia ruim? – disse Shiryu notando a mudança repentina do amigo.– Não, não é nada. – tentava disfarçar Hyoga.– Bom, então eu já vou.– Para onde vai assim tão cedo?– Vou ver a Shunrei. Já que hoje é sábado e tenho o dia livre resolvi ficar com ela. Não sei a hora que vou voltar, mas se precisar de mim é só me ligar, certo?– Claro, vá despreocupado. Vejo você mais tarde.– Até logo.Hyoga esperou a confirmação de que o amigo realmente havia saído do apartamento. Levantou-se e foi direto a seu quarto. Sentou-se em sua cama e abriu com muita ansiedade a correspondência que estava em suas mãos. Leu-a atenciosamente e após alguns minutos pode constatar que a carta tratava justamente do que imaginava. Fitou os papéis em suas mãos por algum momento, pensativo. Em seguida, guardou-a bem ao fundo da última gaveta, em uma tentativa inconsciente de escondê-la. Pegou as chaves do apartamento e saiu, sem saber ao certo que rumo tomaria.Próximo ao centro da cidade, uma bela garota olhava incansavelmente o horizonte através da janela de seu quarto. Atrás dela, outra garota, sentada em uma poltrona, a fitava muito curiosa.– E então, o que aconteceu depois? – perguntou Shunrei.– Depois? Nada. Ele me trouxe para casa. – respondeu Eire desanimadamente.– Ele não voltou a repetir a cena?– Não, Shunrei. E como poderia?– Ah, ele poderia ter puxado você novamente para junto dele. Isso não incomodaria você, não é?– Não, é claro que não me incomodaria. Mas acredito que ele tenha sido muito respeitoso. Acho que ele não o fez para não parecer insistência.– E o que você está sentido? – disse Shunrei se levantando e pousando os braços sobre os ombros da amiga.– Hyoga é um homem encantador e um ser humano maravilhoso. Sua sensibilidade me tocou profundamente e seu jeito amável, mas ao mesmo tempo reservado, me conquistou. Estou me apaixonando por ele, Shunrei. – Eire corou levemente o rosto.– Isso é tão lindo, minha amiga. O amor é um sentimento muito nobre e estou feliz que você o esteja conhecendo. O Hyoga é uma boa pessoa e tenho certeza que ele pode te proporcionar muitas alegrias.– Será que esse sentimento é recíproco? – questionou Eire entristecendo um pouco o olhar.– Eu acredito que sim. Mas se você quer mesmo ter certeza então aguarde e observe. Somente as atitudes de Hyoga podem afirmar se ele sente algo por você ou não. Mas não desanime. – Shunrei abraçava carinhosamente a amiga quando a campanhía tocou.– Ah, deve ser o Shiryu – disse Shunrei com brilho nos olhos – Ele disse que viria cedo.– Vá atendê-lo, não o deixe esperando. Eu vou ficar aqui no quarto estudando.– Certo. Até logo.– Tchau. – Eire voltou a observar o horizonte por mais alguns minutos, a cor dos olhos de Hyoga eram exatamente como o azul do céu e ela não poderia deixar de sentir-se envolvida por suas lembranças.Em seu apartamento, Shun permanecia sentado próximo à varanda, com seu olhar perdido em algum ponto sem importância. Devido a sua distração nem pode perceber o momento em que o irmão sentou-se a seu lado.– Em que tanto você pensa irmãozinho? – perguntou Ikki assuntado o caçula.– Nossa Ikki, nem percebi sua presença! – disse Shun ainda se recuperando do susto – Não é nada de importante...– Se não é nada de especial então por que seu olhar estava tão concentrado?– Estava? Nem percebi. – disse Andrômeda tentando disfarçar.– Por que você anda tão triste ultimamente, Shun? – disse Ikki muito sério, segurando o rosto do irmão e forçando-o a olhar em seus olhos.– Você está com síndrome de irmão mais velho de novo, Niisan! Por que me faz tantas perguntas?– Porque me preocupo com você.– Não há nada de errado comigo, Ikki. Juro que você não precisa se preocupar.– Você sabe que pode contar comigo em qualquer situação, não sabe meu irmãozinho?– Sim, eu sei. – respondeu Shun bagunçando carinhosamente os cabelos do irmão. – O dia está lindo hoje, não! Por que você não convida Ágata para dar um passeio? Seria uma boa oportunidade para vocês ficarem um pouco sozinhos.– E por que você não para de cuidar da minha vida amorosa e vai cuidar da sua? Ao que me parece, você e June ainda não se acertaram e já se completou um mês desde que ela voltou.– A sua felicidade é mais importante que a minha.– Por quê? – perguntou Ikki sem entender a resposta do irmão.– Porque você deixou de ser feliz por minha causa. Sacrificou sua própria felicidade em troca da minha. Eu sou o culpado de todo o seu sofrimento. Se eu não fosse tão fraco, poderia ter ido para a Ilha da Rainha da Morte como era o meu destino, ao invés de permitir que você fosse em meu lugar e sofresse tanto, principalmente por Esmeralda.– Shun, nunca mais repita isso. – disse Ikki brandamente, segurando firme os ombros do irmão – Você não tem culpa alguma de meu sofrimento. Nunca cometi sacrifício nenhum em seu nome. Tudo que fiz foi para te proteger, não por que você era fraco, mas simplesmente porque eu daria a minha vida para não ver você sofrer. Não foi um sacrifício meu irmão, pois fiz de muita boa vontade. E faria quantas vezes fossem necessárias porque nada nesse mundo é mais importante pra mim do que você. Por te amar tanto é que posso afirmar que só vou ser completamente feliz quando você também tiver alcançado a sua felicidade.– Obrigado, Niisan. – disse Shun permitindo que um par de lágrimas escorresse livremente por seu rosto – Eu também te amo muito e me preocupo com você. Não vou deixar de correr atrás de minha felicidade, mas gostaria de te ajudar a encontrar a sua. Você passou a vida toda me protegendo, agora quero que passe a pensar mais em você. Prometa que vai fazer isso!– Certo, eu prometo. Mas siga o meu conselho: vá atrás de June e diga a ela o que sente.– Ah, Ikki, você não tem jeito mesmo. – sorriu Shun beijando o rosto do irmão e voltando a fitar um ponto distante no horizonte.– Você a ama, não é?– Mais do que você possa imaginar Niisan.– Então não perca mais tempo Shun. A vida é muito curta para que a gente fique esperando "o momento certo". Se vocês se amam devem ficar juntos. Sei que sente um pouco de receio em se declarar, mas confie em você mesmo e siga a sua intuição. Não deixe a felicidade escapar de suas mãos.– Tudo bem, vou pensar no que me disse.– Seu problema irmãozinho... – disse Ikki com um olhar malicioso – É que você pensa demais! – brincou o mais velho, pegando o telefone e discando para um número que achou na agenda, sendo acompanhado pelo olhar curioso e intrigante de Shun.– Alô! Oi June, é o Ikki, tudo bem? – dizia Fênix ao telefone para a pessoa do outro lado da linha, fazendo o irmão caçula perder o fôlego e corar instantaneamente.– Espere só um instante porque meu irmão precisa falar com você – disse Ikki novamente ao telefone, após escutar a resposta da garota do outro lado da linha.– É pra você Shun! – o cavaleiro disse sorrindo.– Você ficou maluco, Niisan? O que vou dizer a ela? – Andrômeda respondeu muito nervoso devido à situação.– Não se preocupe meu irmão. Simplesmente fale com ela. – Ikki tentava incentivar o caçula, permanecendo ao lado dele.– Oi... Oi June! Eu... Só liguei para saber... Saber como você está! – enquanto ouvia a resposta da garota ao telefone, Shun levou um leve soco do irmão, indicando que ele deveria convidá-la para ir a algum lugar.– Bom, na verdade, pensei que... Que como o dia está maravilhoso, talvez você... Se não estiver fazendo nada de especial, talvez... Talvez você queira passear comigo no parque! – Shun juntou toda a coragem que tinha e Ikki ainda pode ver o brilho em seus olhos quando June disse que aceitava o convite – Sério? Ótimo, então passo para pegar você em meia hora. Até logo.– Nossa, achei que você iria ficar só enrolando! – disse Ikki se divertindo com a cara fechada do irmão.– Como pode fazer isso? Eu disse que precisava pensar! – Shun respondeu um pouco irritado.
– E pretendia ficar pensando até quando? Olha, a verdade é que você e June precisavam de um empurrãozinho!– E então você resolveu dar esse "empurrãozinho"?– Claro, afinal, é pra isso que servem os irmãos mais velhos, não é?– Ah, Ikki... – Shun ainda tentou esboçar que estava com raiva, mas não pode conter um largo sorriso ao ver o olhar satisfeito do irmão – Valeu pela força!– Não precisa me agradecer. Agora vai, porque ela está te esperando.– Certo. Caso eu demore, deixei comida na...– Deixou comida na geladeira, é só colocar no micro ondas e esquentar. – disse Ikki interrompendo a costumeira fala do irmão caçula – Se eu precisar de alguma coisa é só te ligar. Não devo ficar trancado neste apartamento o dia todo, é melhor eu sair e relaxar um pouco e bla bla bla... Não precisa proferir o seu discurso, pois já o conheço de cor. Não se preocupe comigo, vou ficar bem. Agora vai logo.Algum tempo depois da saída de Shun, a campanhia do apartamento soou. Ikki estava deitado no sofá, assistindo televisão. Ainda reclamou um pouco por ter que atender a porta, afinal, detestava ser incomodado em seus momentos de descanso. Abriu a porta e surpreendeu-se ao ver um Hyoga tão abatido.– Olá Hyoga, como você está? – disse Ikki ao amigo que estava ainda parado junto à entrada da porta.– Oi Ikki, eu estou bem. E por aqui, como andam as coisas? – respondeu Cisne num tom de voz bastante desanimado.– Tudo está muito tranqüilo.– Que ótimo. – Hyoga fazia força para esboçar um falso sorriso – Seu irmão está?– Não, ele acabou de sair com a June.– Com a June é? Humm... Bom, neste caso, volto a procurá-lo depois. – disse já se virando para sair.– Hei Hyoga! – expressou Ikki fazendo Hyoga olhar para trás – Eu não sou o meu irmão e sei que não sou muito sociável, mas estou sozinho aqui e não tenho nada de interessante pra fazer, então... Então talvez você queira entrar e conversar um pouco!– Bem, você não é muito sociável... Acho que temos algo em comum! – Cisne respondeu, arrancando uma gargalhada de Ikki enquanto entrava no apartamento.– Bebe alguma coisa?– Não, obrigada. Quer dizer que Shun resolveu desencalhar, foi!– Ele precisou de um empurrãozinho do irmão mais velho... Mas acho que agora ele consegue dar conta do recado sozinho. – Fênix brincou, fazendo Cisne rir junto com ele – O que queria falar com meu irmão era muito importante?– Não, nem tanto...– Tem alguma coisa haver com essa sua cara de preocupação e esse seu espírito desanimado?– Você usou seu "Golpe Fantasma" em mim, Fênix?– Ah, não. Nem precisaria! Sei que Shun é seu melhor amigo e por isso deposita toda a sua confiança nele. Mas se estiver precisando desabafar, saiba que sou um bom ouvinte.– Eu acho que não vale a pena te encher com os meus dilemas, pois não é algo de muita importância. – respondeu Hyoga desviando o olhar.– Bom você quem sabe. Mas sou do tipo que acredita que tudo na vida tem sua importância, por menor que seja ela.– Certo você me convenceu. Meu problema é que preciso decidir entre ficar aqui com meus amigos ou mudar-me para o outro lado do mundo. Eu esperava que seu irmão me ajudasse a decidir.– Está pensando em ir embora Hyoga? – disse Ikki se surpreendendo com a revelação do amigo.– Sim. Recebi um convite para participar de uma pesquisa ecológica na Amazônia e aceitei. Hoje eles me enviaram uma passagem de avião com destino ao Brasil. A passagem é só de ida...– E quando seria essa viagem?– Segunda feira, ás 14 horas exatamente.– Segunda? Mas é daqui a dois dias Hyoga!– Pois é...– E você quer realmente ir?– Isso é o que eu ainda não sei. É uma boa oportunidade e não há nada que me prenda aqui. – respondeu Hyoga com o olhar muito triste.– Nem os seus amigos?– Bom claro que vocês são importantes pra mim e pesam muito na minha decisão. Mas é que em breve todos já estarão com as vidas resolvidas e o que vou fazer aqui?– Você também não pode resolver sua vida aqui, como todos os outros?– Quando olho em volto não sinto nenhuma inspiração para viver. A minha vida está vazia Ikki, e o meu coração está mais congelado do que nunca. Talvez me mudando daqui e conhecendo novos horizontes eu possa encontrar a felicidade que tanto busco.– Diga-me Hyoga, a garota que mora com Shunrei, a Eire, achei que você havia se interessado por ela... Não sentiu nada ao conhecê-la?– Você tocou em um ponto delicado. Não posso negar que sinto algo por ela. Falando a verdade, acho que estou me apaixonando por Eire. Ela é bonita, inteligente, sensível e encantadora...– Então está aí a sua inspiração para viver, não é! – Ikki exclamou, bagunçando os cabelos de Hyoga.– Não é tão fácil assim... Não posso depositar minhas esperanças neste relacionamento porque se trata de um futuro incerto. E se não der certo? Vou ficar preso a esse sentimento para sempre?– Hyoga, não existe um futuro previsível ou premeditado. Tudo que fizer em sua vida terá 50 de chances de dar certo e 50 de chances de dar errado. Se não aceitar correr riscos, vai perder as oportunidades que a vida te der. Principalmente quando o assunto é felicidade.– Mas, eu repito, e se esse relacionamento não tiver sucesso algum?– Aí então você muda seu rumo e busca outras formas de ser feliz. O que você não pode fazer é desistir da felicidade por medo ou por receio, ou simplesmente porque algo não saiu como o planejado.– Medo ou receio... – Hyoga repetiu para si mesmo, pensando em tudo o que Ikki havia dito – Há tempos que espero pela oportunidade de participar desta pesquisa, seria muito bom para o meu futuro profissional. O que vai acontecer se eu perder esta chance?– As oportunidades são criadas por você mesmo. Como disse, existem chances de você ser feliz tanto aqui como em outro lugar. A diferença é que aqui você terá sempre o apoio de seus amigos. Mas independente de sua escolha, é bom que você tenha certeza do que está fazendo.– Ikki, sabe de uma coisa? – perguntou Hyoga com um olhar sarcástico – O "lobo solitário" não é tão anti-social quanto eu imaginava.– Se quiser eu posso te mostrar a verdadeira ira da Fênix. – respondeu Ikki entrando na brincadeira.– Não, obrigado. Eu prefiro você assim, pacífico. – Cisne deu um leve soco no amigo – Agora preciso ir. Vou pensar um pouco nas coisas que me disse, antes de tomar minha decisão. Gostaria de agradecer pelos conselhos, acredite, eles serão muito úteis.– Hei Pato! Seja qual for a sua decisão, desejo de verdade que seja feliz e tenha muito sucesso.– Valeu Ikki! Até logo... – se despediu Hyoga, deixando o apartamento do amigo.Ao lado da mansão Kido, Minu corria atrás das crianças tentando inutilmente colocar ordem no Orfanato. Em seus finais de semana, visitar o Orfanato era o passatempo favorito de Seiya que, por ser tão moleque, sempre se misturava em meio à bagunça das crianças e deixava Minu com uma dor de cabeça ainda maior. Mas o tão brincalhão e divertido Seiya havia mudado muito nos últimos dias. Sentado ao pé de uma grande árvore próxima ao Orfanato, Pégasus mantinha o olhar fixo na grande mansão Kido. De onde estava, podia ver nitidamente a janela do quarto de Saori. Recusara todas as brincadeiras das crianças e se refugiara ali naquela árvore, com o intuito de se sentir um pouco mais próximo da mulher que tanto amava. Desde o dia em que Saori disse que o amor dos dois era impossível, eles não mais se encontraram. Seiya sentia uma dor imensa por tudo o que havia acontecido e sentia como se o fogo de sua vida houvesse se apagado.– Seiya... Irmão? O que faz aqui? – perguntou Seika se aproximando do cavaleiro.– Oi Seika... – respondeu um Seiya muito desanimado – Só estou pensando um pouco...– Pensando em Saori? – perguntou a garota se sentando ao lado do irmão – O que está acontecendo Seiya? Por favor, confie em mim e me conte seus problemas... Sou sua irmã mais velha e me preocupo muito com você! Por que anda tão triste?– Não é que não confie em você, minha irmã. Pelo contrário, você é a pessoa em quem mais deposito minha confiança...– Então me conte Seiya!– O problema sou eu... Criei uma ilusão e agora que descobri que tudo não passou de enganos não consigo me recompor!– Do que está falando?– Acreditei no amor de Saori e tudo o que recebi foi uma resposta negativa. Depois daquele beijo em meu apartamento, resolvi ligar para ela e dizer o que sentia. Mas então ela me disse que se tratava de um amor impossível e que um relacionamento entre nós jamais poderia acontecer, devido ao fato dela ser a reencarnação da Deusa Atena e eu um simples cavaleiro.– Mas Seiya, eu não entendo. Você fala como se ela não amasse você!– E não ama! – respondeu quase gritando.– Está enganado, pois ela te ama mais do que você imagina... Isso está explícito nos olhos dela, meu irmão. Além disso, ela confessou seus sentimentos a mim.– Então, o que explica a atitude dela?– Talvez o que ela disse sobre ser a reencarnação de Atena seja realmente uma barreira entre vocês.– O mundo está em paz há dois anos, Seika.– Mas isso não muda a posição de cavaleiros que vocês ocupam, nem mesmo o papel que Saori exerce no mundo. Você precisa entendê-la, Seiya.– Isso quer dizer que devo aceitar tudo e esquecê-la? Esquecer o motivo pelo qual lutei tantas vezes? Esquecer a razão pela qual venci a morte inúmeras vezes? Eu não posso simplesmente ignorar meus sentimentos. Saori é a minha vida e se não puder estar com ela, então prefiro a morte. – Seiya disse em tom de desespero.– Não estou dizendo que deve esquecê-la. Mas você deve dar a Saori o tempo que ela precisa para resolver essa situação. Não pense que é fácil escolher entre o mundo e a pessoa a quem se ama, Seiya.– Tempo? Eu não tenho tempo a perder, Seika. Acho que Saori já teve muito tempo para se decidir. Se o que ela me disse foi sua resposta final, então não há razão para ter esperança. – disse Seiya se levantando e dando as costas para a irmã.– Aonde vai, meu irmão?– O motivo de ter estado aqui até hoje era o amor que eu sentia por Saori. Mas como ela se recusou a me amar, então não há necessidade de permanecer ao lado dela. Se sou um mero cavaleiro e se essa é a posição que ocupo em sua vida, então decido por abandonar meu posto e ir embora. Atena tem outros cavaleiros, portanto, deixe que Shiryu e os outros cuidem da segurança dela.– Seiya, você não pode ir embora desse jeito! Irmão...– Não se preocupe minha amada irmã. Quando eu decidir para onde devo ir, você será a primeira a saber, mesmo porque pretendo levar você comigo. – disse Seiya se despedindo e se retirando, apesar dos apelos de Seika.Hyoga encontrava-se sentado em sua cama. A carta na mão indicava que ele havia lido e relido todo o seu conteúdo. Com o olhar triste e melancólico fixo na foto ao lado que continha a imagem sorridente de Seiya, Shiryu, Shun e Ikki, Cisne permitiu que suas lágrimas corressem livremente. De repente o som das chaves na porta do apartamento, indicando que Shiryu estava chegando, o fez enxugar as lágrimas rapidamente. Esperou um pouco até que o amigo fosse até o quarto e logo se dirigiu a seu encontro. Juntou o pouco de disposição que tinha para encarar o amigo de frente.– Shiryu... Posso falar com você?– Oi Hyoga. Não sabia que estava aí, pois tudo estava tão silencioso. Que cara é essa? Aconteceu alguma coisa? – Dragão se preocupou ao ver a tristeza nos olhos do amigo.– Lembra da carta que me entregou hoje de manhã?– Sim, o que havia de tão grave nela? Percebi que sua expressão mudou ao vê-la!– A carta veio do instituto que coordena a pesquisa da qual já havia lhe falado. O projeto foi aceito e eu fui convidado a me juntar a equipe. Junto à carta recebi uma passagem para a Amazônia, no Brasil. A passagem é só de ida, o que significa que se trata de uma mudança definitiva. O que queria dizer é que... Eu aceitei o convite e... Vou embora em dois dias... – Cisne disse ao amigo, evitando olhar em seus olhos.– Mas, Hyoga... – Shiryu estava impressionado com a atitude do amigo e ainda mais chocado pela frieza com que Hyoga revelara sua decisão.(continua...)
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