5. Boas notícias.

No apartamento dos irmãos Amamyia, Shun preparava o jantar enquanto seu irmão assistia ao jornal na TV. A vida dos dois havia se transformado em uma verdadeira rotina de família: trabalhar, estudar e arrumar a casa. Eles sempre se revezavam nas “atividades do lar”, porém quando se tratava de cozinhar não havia dúvidas, era o caçula quem sempre ia para as panelas. Ikki assistia atentamente ao noticiário, quando o telefone tocou...

- Alo – disse o mais velho sem tirar os olhos da televisão – Sim, é aqui mesmo. Espera só um instante...

- Shun, é pra você – e com um sorriso largo no rosto anunciou ao irmão – é uma garota...

- Pronto – disse ele ao telefone resmungando por ter que abandonar a panela ao fogo alto, afinal se demorasse muito a comida queimaria.

- Oi Shun, senti saudades – dizia aquela bela voz ao telefone que o cavaleiro tanto conhecia...

- Ju...June – Shun ficara vermelho e Ikki, que ouviu o irmão dizer o nome da garota, se aproximou para ouvir a conversa atentamente, com um sorriso tão maldoso que fez o caçula fechar a cara – Eu não esperava que me ligasse, afinal você não me dá notícias suas a meses...

- Me desculpe, é que estava um pouco ocupada...

- Tudo bem, eu entendo. Mas me diz: como está você?

- Estou muito bem. Na verdade te liguei justamente por isso: as coisas aqui melhoraram muito, portanto agora tenho a possibilidade de ir morar aí, pertinho de você... Mas antes de tomar essa decisão, gostaria de saber qual é sua opinião. Você quer que eu vá?

- Claro, ter você aqui é o que mais quero – Shun precisou fazer muita força para dizer isso, pois a coragem sempre lhe faltava nesse tipo de ocasião – Quando você está pensando em vir?

- Estou pensando em me mudar na semana que vem. Mas para isso preciso de sua ajuda. Gostaria que procurasse um apartamento pra mim enquanto resolvo as coisas por aqui.

- Pois farei o necessário para adiantar essa sua mudança, que espero a tanto tempo...

June e Shun passaram um bom tempo discutindo o que precisava ser feito para a mudança definitiva da garota. Após resolverem o que cada um deveria fazer e das recomendações de June para o cavaleiro a respeito do apartamento ( uma das exigências é que fosse perto do apartamento de Shun...) ela desligou o telefone depois de dizer uma frase que fez Shun perder a noite de sono: “Espero que essa mudança sirva para que nós dois possamos resolver nossa situação, afinal, não estou me mudando para sua cidade pra ficar perto de ‘um amigo’, quero mais que isso...” E aquilo ficou em sua cabeça, já que Shun também desejava que June fosse para ele mais que uma amiga.

Em um outro apartamento perto dali, Hyoga estudava para uma importante prova que teria no dia seguinte. Sua mente não se desviava para nada, tudo perdia a importância quando o assunto era seus estudos. Cisne era o homem dos sonhos de qualquer mulher: alto, loiro, olhos azuis, simpático, doce, sensível, bem-humorado, trabalhador e muito estudioso. Mas o que então impedia Hyoga de achar uma boa namorada? Shun achava que o coração do rapaz era feito de gelo, pois na sua concepção era o cavaleiro quem não abria seu coração para deixar o amor entrar. Mas Hyoga não concordava com o amigo, só ele sabia o quanto desejava se apaixonar, apesar das tentativas frustradas: “Não me escondo das garotas, o que acontece é que elas nunca conseguem tocar meus sentimentos, elas não conseguem despertar em mim uma paixão, entende? Preciso de alguém que me faça sentir saudades, sentir falta dos beijos e abraços, alguém que me conquiste profundamente...” disse certa vez.

Aquela noite Hyoga não pensava em garotas, sua única preocupação era estudar. Escutou a campainha tocar e Shiryu agradecer ao porteiro por ter trago as cartas que ele novamente esqueceu de pegar. Depois de alguns instantes, viu seu amigo entrar em seu quarto com um daqueles enormes sanduíches que o “loirinho” adorava, mais um grande copo de suco natural de laranja e as cartas recém entregues.

- Você está estudando além do recomendável Hyoga, não para nem para comer, desse jeito vai acabar ficando doente. Por acaso não sente fome? – perguntou Shiryu com um tom de reprovação.

- Obrigado, amigo. Estou tão envolvido com esses livros que nem ao menos percebo que estou com fome. Tem alguma carta pra mim? – ele perguntou já engolindo o lanche.

- Sim, essas são do Instituto Internacional do Meio Ambiente e da ONG das Espécies em Extinção. Será que eles aprovaram seus projetos?

- Espero que sim...

- Vai mesmo ter coragem de ir embora e nos deixar? Afinal, para concluir esses seus projetos do meio ambiente você precisa ir exatamente para a cede da instituição, não é?

- Sim Shiryu, é verdade. Mas você sabe que não há nada que me prende aqui e trabalhar com esses projetos é o meu objetivo profissional. Vou sentir saudades de você e dos outros, mas preciso ir.

- Entendo... – disse o Dragão se entristecendo.

- Olha, essa carta é pra você, é da Shunrei. – Cisne arrumou um pretexto para não continuar aquela conversa.

- É verdade, a tempos ela não escreve...

Shiryu pegou a carta e começou a ler, com uma ansiedade visível na expressão do rosto. A medida que lia cada uma das linhas um sorriso ainda maior ia se formando em seu rosto. Hyoga sentiu um pouco de inveja, como gostaria de estar no lugar do amigo para receber uma carta de alguém que se ama. Na verdade, no que se refere a amor, Ikki e Hyoga eram bem parecidos: ambos não sabiam o que era ter o amor de uma mulher especial.

Quando terminou de ler a carta, Shiryu estava perplexo. O sorriso largo em seu rosto revelava uma grande satisfação. Algo muito bom deveria estar escrito lá...

- E então Shiryu, quais são as novidades?

- Shunrei está vindo pra cá!!!

- Ela vai se mudar de uma vez por todas?

- Sim. Na carta ela anuncia que virá em breve. Disse para não se preocupar pois ela já tem onde ficar. Pelo o que disse, ela virá com uma amiga que ficou órfão a pouco tempo e ganhou um apartamento de herança, portanto, vão morar juntas.

- Uma nova garota? — Hyoga parecia interessado... – Como ela se chama?

- Seu nome é Eire. Na carta Shunrei diz que ela é uma pessoa muito legal. Além do mais, é muito bonita.

- Como você sabe se nem a conhece?!

- Porque a Shunrei mandou uma foto das duas juntas... Você quer ver?

- Claro!!! – Hyoga analisava a foto, realmente Eire era muito bonita: tinha longos cabelos loiros e encaracolados, uma pele clara e olhos azuis bem claros – Sim, na verdade ela é realmente muito bonita...

- E então, preparado para investir em um grande amor? Afinal, ela está vindo morar aqui... Talvez isso prenda você e impeça que você vá embora!

- Não invente história Shiryu, eu apenas disse que ela é lin... quer dizer, bonita. Não que eu esteja...é... interessado. E também já conversamos sobre minha viagem, por favor não insista... Ah, quer saber? Vai arrumar algo pra fazer que eu preciso pensar, quer dizer, estudar... – Hyoga empurrou Shiryu para fora do quarto, ele parecia estar muito impaciente.

- Tudo bem, mais pense a respeito... – disse Shiryu com um sorriso manhoso no rosto – Você merece alguém especial Amigo!

- Tudo bem, vou pensar. Agora boa noite...

Naquela noite Hyoga não conseguiu dormir. Tentou estudar mais não conseguiu. Alguma coisa prendia sua atenção... Na verdade, o cavaleiro não tirava Eire da cabeça, não só por ela ser tão linda, mas porque pela primeira vez sentiu seu coração bater mais forte por alguém. O estranho era que ele nem a conhecia. Mas as palavras de Shiryu ficaram em sua cabeça: “Preparado para investir em um grande amor?”...

- Será que Shiryu tem razão? – o loirinho pensou, se enrolando ainda mais a sua coberta e se sentindo novamente carente – Não, não devo pensar nessa garota, nem a menos a conheço... Droga, ela não sai de meus pensamentos, e eu me sinto tão só...

Assim ele pegou no sono, mau sabendo o que o esperava...

(continua...)