Hora Insone

1 Capítulo Único


Notas iniciais
O desafio era fazer uma história com menos de mil palavras no tema (lugar) sorteado. O meu foi “a casa do caralho” hahaha simplesmente amei Pesquisando descobri que a casa do caralho era um apelido que os marinheiros portugueses davam ao Cesto da Gávea; por ser um lugar instável, era para lá que o Capitão mandava os marujos como forma de punição. Isso é especulação, no entanto. Mas a palavra caralho significa um caralho mesmo haha então pela alusão do mastro com o membro fálico mantive a ideia no meu texto. Boa leitura, nos vemos lá embaixo! (no inferno, quero dizer kkkkk brinks)

Era a hora insone. O vento gelado da madrugada batia no navio o fazendo balançar cruel e preguiçosamente, a madeira gasta rangia com sons fantasmagóricos. A luz da lua era quase nula sob o céu avermelhado da noite invernal e as ondas pareciam negras na escuridão, ganhando formas e vultos que não deviam estar lá. Parecia uma boa hora para rezar.

Mas nem rezar Cristóvão conseguia. O sono pesava seus olhos e parecia puxar a cabeça para o peito querendo o merecido descanso, mas de certa forma dormir era pior, sempre que cochilava acordava de um terrível pressentimento de que estava caindo. E as pernas doíam por não poder esticá-las… Estava sendo castigado. Nenhum navegante deveria passar por aquela terrível experiência, mas confessava (mesmo que apenas para si mesmo) que tinha seus efeitos; ficaria quieto e alerta quando descesse dali.

E onde estava? A muitos metros da base do navio, onde o balançar das ondas repercutia de forma intensa no seu posto, dentro do Cesto da Gávea ou, apelidado carinhosamente pelos marinheiros, na Casa do Caralho. E Cristóvão não tinha problema algum com caralhos, era um dos poucos marinheiros que assumia sua orientação sexual em pleno século XVII! E nem era um poeta boêmio e melancólico como tantos outros do seu gênero em sua época, mas um trabalhador braçal como fora o seu pai.

E pensar que estava ali justamente por isso! Mas não pense errado, ninguém ali implicava com ele. Era um marujo maduro, respeitado por seus vinte anos de experiência em alto mar. O problema (e que maravilhoso problema) tinha nome e patente: Alberto Henrique Camponês, o Capitão. Tiveram um breve romance há pelo menos cinco anos quando estiveram atracados na Grécia, trabalhando para diferentes companhias. Naquela época, Cris vivia lhe dizendo que se Al fosse um deus grego seria Dionísio, beberrão e rechonchudo. O outro retrucava dizendo que nunca seria um deus grego, porque as proporções da parte inferior do seu corpo não conferiam com o padrão de beleza da Grécia Antiga… Ah, bons tempos, bons tempos!

Era bom lembrar da Grécia e do vinho e do corpo do seu antigo amante naquela noite digna de uma aparição dos monstros da Odisseia de Homero. Nunca cogitou que os seus destinos voltariam a se cruzar e muito menos que seu querido Al fosse um carrasco como Capitão. Sabia que ele tinha um gênio delicado, mas não imaginou que fosse levar tão a sério algumas palavras enviesadas de um qualquer como ele. Agora estava naquela situação estressante, enjoativa e morrendo de frio.

Cris se assustou ao perceber alguém subindo o mastro àquela hora da madrugada. Era o jovem Robério, um adolescente esperto e sério que estava naquela lida há uns dois anos.

— O que está fazendo, pestinha? A essa hora da matina!

— Não vou ficar choramingando. Foram ordens do capitão — resmungou apático, fungando e tendendo para o mau humor — Ele pediu que lhe entregasse essa cesta.

O marujo recolheu a encomenda. O garoto tomou uma grande inspiração.

— É realmente frio aqui... e meio perigoso — comentou olhando o horizonte enegrecido agarrado às cordas do velame.

— Sim, você deve imaginar o desconforto para um homem do meu tamanho...

Robério assentiu, observando o corpo parrudo do marinheiro, as pernas grossas comprimidas no espaço restrito.

— Vou-me — avisou em meio a um bocejo enquanto já descia — Boa noite, senhor.

— Hum, quem dera eu pudesse ter uma boa mesmo... Bom descanso, rapaz.

Assim que o garoto estava longe, o marinheiro abriu sua cesta encontrando uma manta (Graças a Nossa Senhora dos Portos!) um saco com pães e um vidro de geléia, uma garrafa pequena de vinho e um bilhete. Sob a luz da lamparina, o marujo conseguiu ler o que a nota dizia:

Caro Cristóvão, espero que esse castigo o faça entender o quão severo são os meus ciúmes e que, se os sinto tão intensos, é porque também são intensos os meus sentimentos. Dentre muitos dos meus pecados, você é com certeza o pior deles e já não posso perdê-lo de novo. Agora que a minha fúria abrandou e minha cama fria me impede de dormir, eu percebo a falta que me faz ter você esquentando meu corpo e alma, por isso também me compadeço da situação em que o coloquei. Embora, deixo claro, não quero que outros homens tenham a liberdade de tocar-te com palmadas e risadas escandalosas tão próximas ao seu rosto, não aceito que dê liberdades a outros canalhas.

Hmph! Ao menos ele admitia que era um canalha também...

Respirou fundo, revirando os olhos divertido. Deus do Céu! Eram palmadas nas costas! Gustav era cheio disso, de tocar nas pessoas enquanto falava. E sempre falava tão alto e agitado que ficava meio desnorteado perto do amigo de longa data.

Seu coração batia forte e sentia a cabeça ferver, devia estar rubro de alegria e revolta, um tanto emocionado e ansioso por ele ter se comunicado por mais que também estivesse com raiva de estar sendo vítima dos ciúmes daquele louco!

Sinto por tê-lo mandado para a Casa do Caralho, porém ao mesmo tempo espero que desça no meu caralho ao voltar para casa. Minha cama sente saudades,

Do seu duro e apaixonado, Capitão

Robério arrepiou até a nuca de cabelos pretos ao ouvir a gargalhada fantasmagórica recortar a noite. Em sua cabine, Alberto apenas sorriu satisfeito e aliviado, fechando a janela de seu escritório e guardado o cachimbo para ir dormir, agora com a consciência limpa e o coração mais leve.

Notas finais
http://aculpaedalingua.blogspot.com.br/2013/03/a-origem-da-expressao-casa-do-caralho.html https://pt.wikipedia.org/wiki/Caralho Obrigada a todos que lerem, grande abraço, até
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!