Hopeless
1 O Primeiro e o Ultimo
A primeira badalada do relógio a deixava tonta.
A garota que se olhava no espelho do banheiro com grades na janela, pensava em sua vida miserável. Ela já estava naquela casa, presa, longe do resto do mundo há anos e precisava, necessitava sair. Sentia falta de seus pais verdadeiros, daqueles quais foi tirada quando tinha poucos anos e levada para aquele lugar horrível, escuro e fúnebre. Sentia falta do ar puro, das árvores e do parquinho em que costumava brincar todos os dias. Sentia falta das crianças e de rir toda hora, sem se importar com nada, apenas sua felicidade.
As pessoas que a levaram para lá, para aquela mansão fúnebre e estrategicamente colocada longe de tudo, eram seus “pais”, como gostavam de ser chamados. Eles falavam para ela do mundo e diziam o porquê de não deixarem ela sair. “Lá fora é um lugar perigoso”.
“Algum dia poderei sair, mamãe?” perguntou uma vez, quando era pequena ainda, ao que a mulher respondeu com um risinho falso “Nunca, querida, nem depois que nós morrermos” a esse ponto, ela saiu da cozinha e foi para o andar superior, com lágrimas nos olhos doces e claros. Sua cabeça girava e girava à medida que chegava perto do quarto onde estava o relógio da família. Era uma coisa enorme, negra e entalhada com corvos, que tinha um quarto apenas para ser postado lá e tocar. Era um quarto negro, negro como a própria escuridão que a dominava.
A segunda badalada do relógio a fazia pensar.
Olhava-se ainda, lembrando-se de sua vida, pensando no que faria, mesmo que nada do que pensasse, tivesse coragem de executar.
A garota sabia que seus pais verdadeiros estavam mortos, disso ela não tinha duvidas. Eles provavelmente os mataram, caso contrário eles viriam atrás dela...
Viriam, não viriam? Lógico que viriam, não sabia por que estava sendo tão boba.
Saindo do banheiro, olhou para o seu quarto. Era rosa, cheio de bichinhos de pelúcia e brinquedos medonhos, mais antigos que ela, dados por eles, na tentativa de que ela ficasse melhor.
O que funcionava, na mente bizarra e doentia deles.
Olhou pela sacada. Ela nunca podia sair, pois as grades não permitiam. Eram suas maiores inimigas. Haviam grades em tudo, nas janelas do quarto, da cozinha, do banheiro, do quarto do relógio, da sala de visitas e da sala do chá também.
Ela não sabia por que as duas ultimas salas existiam, sendo que eles não recebiam visitas e não gostavam de chá.
Voltou para a cama e ali ficou por um tempo, olhando o teto e as coisas que tinha, pensando no que levava duas pessoas a serem tão más com quem nunca lhes fez nada...
A terceira badalada do relógio a irritava.
Estava farta. Estava irritada e sua raiva estava borbulhando, isso já há bastante tempo. Eles guardavam as chaves para sua liberdade nos pescoços e saiam muito pouco, voltando apenas com suprimentos para o ano e mais livros escolares, usados para lhe ensinar algumas coisas sobre o que ela deveria estar aprendendo na escola.
Ela preferia fazer isso por si própria, ir à escola, ser avaliada e odiar aquilo tudo, como nos poucos filmes que ela já assistira. Ela gostaria de sair e ver o mundo mais uma vez, apenas por cinco minutos que fossem... Só para guardar em sua mente, a felicidade que ela não pode alcançar...
Ela não pode cozinhar. Está terminantemente proibida de tocar em objetos cortantes, além das facas que usa para comer, pois está sobre a supervisão deles. É como se ela fosse um bebê, uma criança de três anos, como aquela de muitos anos atrás, que não pode se defender e nem defender seus pais.
A quarta badalada do relógio a desesperava.
Começara a gritar agora. Seu aniversário de dezoito anos era no dia seguinte, e significava que ela estava naquele lugar já há quinze anos. Gritaria até sua garganta sangrar. Não se importava com isso, contanto que alguém a escutasse, como sabia que não iam. Sua casa era longe demais de qualquer civilização ou casa de campo. Era inútil, como toda sua vida fora.
Seus pais abriram a porta do quarto, assustados. A mãe ainda segurava a faca que usava para cortar os legumes da janta. Ficaram aliviados de verem que ela estava bem e a abraçaram.
Obviamente, a mãe largou a faca antes disso, sendo que ela ficou um pouco embaixo da cama.
— Meu bem, meu bem, ficamos preocupados, o que aconteceu? – perguntou a voz enjoada dos dois. Vozes falsas, vozes doentias. Vozes do tipo que entram na sua cabeça e não saem nunca mais.
— Nada aconteceu – ela respondeu áspera – Nada aconteceu, NADA! – berrou a ultima palavra, a qual eles se afastaram, sérios – SAIAM DO MEU QUARTO!
— Já chega! – falou a mãe sorrindo – Você não terá jantar hoje, nem amanhã e nem até quando você não aguentar mais, mocinha! – saiu do quarto, assim como o pai e bateu a porta atrás de si, trancando-a.
Berrou mais e mais e mais. Não conseguia parar de fazer isso. Berrou até os pulmões doerem e o ar lhe faltar. Berrou o máximo que podia aguentar e depois caiu no chão, sem forças. Dormiu ali mesmo.
A quinta badalada do relógio a acordou.
De súbito, ela se levantou e olhou para a janela. Chovia. Era uma noite tempestuosa e fria. Sentou-se e viu a água de longe, água esta que nunca tocaria. Olhou para o vidro brilhando e chorou, chorou tudo para fora, chorou até que seu corpo secasse, chorou o sangue que precisava chorar.
Chorou até cair de novo no chão, onde era seu lugar.
Estava inconformada com aquilo. Com a falsidade de seus pais, com aquela casa e com o relógio que, quisesse ou não, era seu único amigo, por mais estranho que parecesse. Sentia que os bichos de pelúcia a observavam de longe e se sentia zonza, mais do que deveria. A sede se apossava de seu corpo e a fome também, mas não iria recuar. Sabia que bastava bater na porta e pedir desculpas pelo que fizera que eles lhe trariam comida e água, porém das piores possíveis.
Não recuaria, por mais que sofresse. Era muita dor para se aguentar. Parecia que seu estomago ia morrer. Ela queria morrer.
“Deixe-me morrer” pedia a Deus, fechando os olhos “Ou me tire daqui, por favor, me tire daqui”.
Sua cabeça estava vazia e a casa estava silenciosa, senão pelo relógio.
— PARA DE TOCAR! – berrou com as forças que ainda tinha – PARA! – depois disso, olhou mais uma vez a chuva que caia. Era bela e a emocionava. A garota chorou de novo.
A sexta badalada do relógio a observava.
Foi para o banheiro e bebeu a água da pia. Era gelada e boa, apesar de tudo. Tentou encher a banheira, mas não tinha água. Nunca tinha ali. Ela tomava banho supervisionada, pois eles tinham medo de que se matasse. Ela só queria uma chance, uma misera chance, para sair dali. Suplicou e suplicou, ficou de joelhos e berrou, só que nada.
Deus simplesmente não a ajudava.
Ouviu seus pais lá embaixo rindo e ouvindo musica, como se nada acontecesse e sentiu nojo. Sentia nojo deles e um desprezo maior que qualquer coisa.
Para que estragar a vida dela? Para que a dela? Porque não a de outra pessoa?
Em que ano estavam? Nem isso ela sabia. Não queria saber também. Não necessitava disso para a vida que estava levando e evidentemente levaria toda sua vida.
A sétima badalada do relógio foi curta.
Ela olhou para debaixo da cama e ali vira. A faca.
A oitava badalada do relógio lhe deu uma chance de viver mais uma vez.
Levantou-se lentamente, colocando os pés sobre o chão frio e caminhando pausadamente até ali. Pegara a faca na mão.
Era linda e reluzente, parecendo bem afiada. Quando pegou-a na mão, deixou cair de novo e correu para o banheiro, vomitando a água que tinha bebido.
Parecia que aquilo tinha tido um efeito negativo sobre ela. Chega de coisas negativas. Ela mataria todas as coisas negativas.
Pegou a faca mais uma vez e se viu refletida nela.
Olhos azuis, cabelos louros trançados, como obrigação, e pele cadavérica. Não podia dizer se era bonita ou não, pois não tinha como saber o que era bonito e o que era feio naqueles dias.
Se achava normal e achava que seus olhos refletiam tudo que ela já havia visto. A imensa escuridão dentro dela, que arranhava para tentar sair já há muito tempo.
“Não se preocupe” falava, olhando a faca “Eu vou te deixar sair”
A nona badalada do relógio lhe deu uma ideia.
A décima badalada do relógio veio e se foi.
A décima primeira badalada do relógio fez tudo ficar melhor.
Bateu na porta do quarto e berrou por eles. Ela ouviu suas vozes e estremeceu de raiva.
“Está pronta para de desculpaaaar?” perguntou sua mãe, cantando a ultima palavra. Teve que controlar o seu nojo e responder “Estou sim, mamãe! Posso falar com você um instantinho apenas?” “Claro, querida, já vou subir ai”. A medida em que os passos se aproximavam, ela ia se afastando, sempre com a faca nas costas. Quando a porta se abriu e a mãe entrou, trazia um sorriso horrível e doentio em seu rosto. “Sim, querida, o que foi?” a menina sorriu “Katherine? O que foi?” “É estranho não é?” perguntou ela e a mãe a olhou com duvida “Me ver sorrindo.” “É sim, eu admito” falou a mais velha, aproximando-se “Mas você tem o sorriso mais bonito do mundo” colocou uma mão no rosto dela. A garota sorriu mais e, com um impulso, jogou a mulher no chão e começou a esfaquear ela, rindo como se nunca tivesse rido na vida. Seu rosto, manchado de sangue, expressava sua alegria ao ouvir os berros de dor de sua querida mamãe.
O pai até que chegou, para ver o que havia, mas chegara tarde demais. Viu sua filha, olhando para ele, seus olhos faiscando de loucura e sua boca suja de sangue, sangue que ela lambia de seus dedos. Estava louca, extremamente louca. Tentou correr, mas ela foi mais rápida e se jogou em cima dele, cortando sua garganta e caindo no chão, com ele embaixo.
Ao se levantar, foi até o banheiro e lavou seu rosto. Depois trocou de roupa e foi para o quarto de seus falecidos pais, pegar uma mala que ela sabia que tinham. Voltou depois e colocou todas as roupas que possuía lá dentro. Saiu para o quarto do relógio. Foi despedir-se dele.
Seu único amigo. O único que a consolava em seus momentos firmes de desespero e escuridão, dor, nojo e repulsa.
Passou a mão pelos corvos e observou seus magníficos detalhes.
Observou por tempo demais.
Todas as janelas da casa se abriram subitamente e ela se assustou. Por entre as grades, um vento cortante adentrou o lugar e fechou a porta do quarto onde ela estava. Um barulho de tranca foi escutado.
“Mas, o que...?” ela perguntou-se e correu para ver o que acontecera. Sacudia e sacudia a porta, sem nenhum efeito aparente “Como assim?” uma voz enjoada adentrou o ambiente.
“VOCÊ ACHA QUE ERA SÓ ISSO?” ela berrava, com uma alegria demoníaca “ERA SÓ NOS MATAR E PRONTO? JÁ ERA? ORA, QUERIDA, VOCÊ ESTÁ MUITO ENGANADA!” ela colocou as mãos sobre os olhos e começou a chorar “SIM, ESTÁ!” a voz do pai concordou e ela caiu de joelhos.
“VAMOS FICAR COM VOCÊ PARA SEMPRE” falaram os dois em uníssono. “SEMPRE, SEMPRE, SEMPRE, SEMPRE, SEMPRE, SEMPRE...”
A décima segunda badalada do relógio a enlouquecera.
Fale com o autor