Hopeless
27 Epílogo - Luke e Lylian
Notas iniciais
POV Lylian
Anos haviam se passado, não muitos devo confessar, eu apenas tinha vinte e um anos e todos devem pensar que sou nova demais para levar a vida que tenho. Mas se enganam, talvez dentre todos aqui eu sou uma das mais experientes. Tive uma filha com dezesseis para dezessete anos, quase pratiquei um aborto, conheci o homem da minha vida , casei-me com ele, e então tive uma menina com ele.
E estou nesse congestionamento horrível no meio de uma chuva enquanto tento ir buscar minhas pequenas na escola. Quando elas completaram cinco e três anos, Luke e eu decidimos colocá-las em uma escolinha trouxa para que eu pudesse voltar a trabalhar como eu tanto queria e para que elas aprendessem um pouco da vida.
O trânsito parou completamente, eu bufei impaciente e peguei o celular. Talvez ouvir a voz dele me acalmasse.
- Oi Ly, tudo bem? – ele atendeu prontamente, quase mecanicamente
- Tem alguém aí? – perguntei de forma lacônica, era sempre assim, eu tinha a mania de ligar nas horas impróprias
- Sim. Como estão nossas meninas? – ele pediu de forma manipulada, normal demais
- Não consegui pegá-las ainda, estou presa em um congestionamento. – eu reclamei, mas já havia dado por encerrado o assunto
- Não conseguiu pegá-las? Como assim? – ele se exasperou de repente – Liguei para a escola há uma meia hora tentando avisar que pela chuva talvez nos atrasássemos, eu ou você, mas eles me disseram que você já passara pegá-las.
- Eu o quê? – deixei o carro apagar no meio da rua, o que não fez diferença para os outros carros – Luke, tem certeza disso?
- Claro que sim. Estacione o carro e aparate para cá. Agora. – ele soou autoritário, mas tinha razão
Desliguei o telefone e joguei o carro para o acostamento largando-o ali. E então sumi completamente sem me preocupar com quem veria ou deixaria de ver. Minhas meninas eram mais importantes naquele momento.
- Ly. – ele me abraçou assim que apareci na sala dele
Josh estava ali, era seu sócio no mundo dos negócios de vassouras que Luke assumiu quando seu pai decidiu viajar pelo mundo. Os dois se davam bem.
- Tem certeza que falou com a escola? Eles não podem ter se enganado? – eu peguei o telefone, mas ele retirou da minha mão
- Acabei de confirmar, Ly. Elas não estão na escola. – ele pareceu calmo demais – Falei com Al também, não foram eles.
- E como consegue ficar tão calmo? – eu me exasperei
- Lyah está aqui. Está na sala ao lado com a Blair. – ele falava com cuidado – Ela apareceu aqui na porta, chorava e a única coisa que dizia é que levaram a Lana.
Eu parei, estática. Então não era um simples engano, uma amiga que convidara minhas filhas para passearem na casa delas. Não. Eles sequestraram minha pequena, levaram-na embora e eu talvez nunca mais a visse.
- Lylian... – Luke me chamou, suas duas mãos moldando meu rosto
- Eu tenho de ir procurá-la. — eu me desvencilhei dele, mas seus dedos se enrolaram em meu braço de maneira forte
- Ficou louca? – ele arregalou os olhos
- Ela não é sua filha, então não deve se preocupar como eu. Agora me solte e me deixe encontrá-la. – eu deixei as lágrimas escapar enquanto praticamente gritava com ele.
E no mesmo instante que aquelas palavras saíram da minha boca eu sabia que jamais deveria ter proferido elas.
- Nunca. Mais. Diga. Que. Lana. Não. É. Minha. Filha. Entendeu? – ele vociferou
Para quem sempre viu o lado bom de Luke, não tinha ideia de quanto ele podia ser assustador quando queria. Ele nunca me bateu como Taylor fez, mas quando perdia a paciência comigo eu me encolhia, amedrontada como uma criança.
- Luke, largue ela. – Josh se interpôs entre nós e suas mãos separaram meu braço dos dedos de dele
- É claro que estou preocupado com ela, mas também estou preocupado com você. Nesse momento temos de ficar calmos, ou não conseguiremos nada. – ele se exasperou e passou a mão nos cabelos desalinhando-os
- Desculpe. – eu abaixei a cabeça
- Não é querer me intrometer, mas você sabe quem está com ela. – Josh se voltou para Luke, os dois trocaram um olhar significativo
- Você contou para ele? – eu arregalei os olhos para Luke e avancei, brava demais até para ele me colocar na linha – Contou quem é o pai de Lana? Nós prometemos segredo!
- Só o Josh sabe! Pelo amor de Merlin, Lylian, ele é meu sócio e um bom amigo. – Luke se escorou na mesa e cruzou os braços como se fosse uma discussão sem importância
Eu tremi de raiva. Ele iria me pagar.
- Eu vou pegar a Lyah, vamos sair daqui, e provavelmente você não nos encontrará nem depois que eu ache a Lana. – eu voltei às costas e toquei a maçaneta da porta, mas assim que abri a porta ela se fechou com um baque quando uma mão se escorou nela ao lado da minha cabeça
- Você ficou louca? – ele parecia mais calmo, quase desesperado – Nunca vou deixar você sair daqui sob essas ameaças.
- Vai poder ver suas filhas, agora me deixe em paz. – eu tentei abrir a porta novamente, mas ele continuou impedindo
- E você? – ele perguntou baixinho – Vou poder ver você?
E eu desabei, mesmo sem querer. Foi o primeiro momento que eu me senti realmente mãe. E isso me levou de volta aquele momento na ilha quando eu peguei aquela garrafa de bebida e iria tirar minha pequena. Como eu pude pensar uma coisa dessas? Só agora eu havia percebido o quanto aquela pequenina tinha se tornado importante na minha vida, o quanto eu a amava.
- Ah Luke, e eu iria tirar ela. – eu me voltei para ele e me encolhi contra seu peito enquanto deixava as lágrimas fluírem
- Está tudo bem meu amor. – ele me abraçou com carinho, protetor – Vamos encontrá-la e Lana estará bem.
- Você promete? – ergui os olhos molhados para ele
- Claro que prometo. Confie em mim. – ele sorriu e me beijou a testa, então se virou para Josh – Pode ver como estão Blair e Liah? Leve um lanche para elas.
Josh acenou com a cabeça e nos deixou sozinhos. Ele me puxou para a mesa dele então e me fez sentar em seu colo enquanto discava um número que sabia de cor e esperava alguém atender.
- Machuquei você. – ele disse com a voz estranha e então beijou meu braço com carinho
- Eu estou bem. – beijei seus lábios, mas ele se afastou rapidamente
- Olá, gostaria de falar com o dono da empresa, Taylor Westwood.
Eu arregalei os olhos para ele. Luke deu de ombros em um sinal de que não importava e mais tarde ele contaria. E então vi ele se tornar focado de novo. Ele estendeu a mão para o telefone e colocou no viva voz.
- Lana desapareceu da escola hoje. – Luke disse de forma simples
- E o que eu tenho haver com isso? – Taylor respondeu de forma rude do outro lado da linha, mas havia algo estranho em sua voz
- Recebi sua mensagem ontem. Você dizia que seu pai havia descoberto toda essa história. – Luke respondeu novamente, sério demais, sombrio
Taylor ficou em silêncio por tempo demais, quase achei que ele tinha desligado o telefone, mas então ouvi um suspiro.
- É bem a cara do meu pai. Eu vou até a casa dele, mas, por favor, não façam nada. Ele está muito doente. – agora ele parecia mais natural, mais desesperado com a situação
- Taylor? – chamei de repente
- Lylian? – ele se assustou, pude perceber
- Por que avisou o Luke sobre seu pai? – franzi o cenho, Luke apertou as mãos em minha cintura
Taylor não respondeu. Luke respirou fundo, incomodado, mas então acabou cedendo.
- Porque ele nos observa há anos. Ele se sente culpado por ter rejeitado a Lana e agora a quer como filha. Ele quer conhecê-la. – Luke me encarou – E acho que quer você também.
- Não. – Taylor finalmente respondeu – Eu quis você Lylian, por muito tempo. Mas eu conheci outra pessoa, alguém capaz de me mudar completamente. E de alguma forma, eu lamentei pelos meus erros cometidos durante todo esse tempo e ela me faz querer repará-los. Só isso.
- Você realmente quer conhecer a Lana? – pedi com pena eu acho
Afinal, todo mundo podia errar e todos tinham uma segunda chance.
- Se vocês permitirem. – ele suspirou – Por muito tempo pensei que o Zabine amaria mais a filha dele do que a Lana, mas mudei minha opinião enquanto observava vocês. Sei que formam uma família e sei que isso desestruturaria tudo, mas eu realmente gostaria de ter minha filha.
- Traga a de volta e nós vamos conversar. – eu prendi a respiração
- Eu a levarei para a empresa, e não critiquem meu pai. Provavelmente ele só queria alegrar seu dia conhecendo a neta. Os medibruxos não deram muito tempo de vida a ele. – a voz dele estava amargurada agora
- Só traga Lana de volta, Taylor. – Luke respondeu e desligou o telefone – Você está com pena dele.
- Sim. – eu confirmei – Eu quase abortei a Lana, Luke. Quase a perdi. E ele a perdeu. Rejeitou-a antes mesmo que nascesse. Éramos crianças. Eu reparei meu erro por você, porque você me tornou alguém melhor. Taylor merece a chance de reparar o erro dela.
- E eu Ly? Como vou ficar nessa história? – Luke baixou o olhar, sua mão levemente passeando pela minha coxa
- Lana te ama tanto. Acha mesmo que algum dia ela vai pensar que você não é o pai dela? – eu sorri e ergui seu rosto – Você a criou como uma perfeita Zabine e sabe disso. Só precisa confiar na sua filha.
Ele sorriu levemente e me beijou os lábios. A porta se abriu devagar e Lyah correu ao nosso encontro, Josh estava com Blair na porta. Ela era secretária da empresa e há alguns meses começara a sair com Josh, mesmo contra todas as regras, mas era visível que se amavam. Os dois sorriram para nós, apoiando-nos e então nos deixaram sozinhos.
- Mamãe. – ela pediu colo, em seus três anos já parecia uma pequena adulta
- Oi minha linda. – eu beijei seu rosto enquanto Luke envolvia a nós duas com os braços
- A Lana já ta chegano? – ele pediu em sua ingenuidade de criança
- Já sim minha pequena. Sua irmãzinha logo estará em casa. – Luke sorriu e apertou a ponta do nariz dela
- Ela chorou. – Lyah disse simplesmente fungando e então escondeu o rosto em meu pescoço
- Eu vou acabar com aquele desgraçado. – Luke falou baixinho para que só eu ouvisse
Porém no mesmo instante a porta se abriu mais uma vez. Taylor estava muito diferente do que fora quando eu o namorei. Agora ele estava mais alto e mais encorpado, os cabelos que tanto gostavam agora eram raspados e os olhos estavam mais profundos e envelhecidos demais para a idade.
- Papai. – Lana soltou da mão dele e correu para nós
Eu me levantei ainda com Lyah nos braços, meus olhos marejando. Luke se abaixou até a altura da filha e a abraçou apertado colocando-a logo em seguida em pé sobre a mesa. Então começou a vasculhar todo o seu pequeno corpinho em busca de alguma marca, alguma coisa.
- Eles machucaram você minha linda? – Luke perguntou segurando o rostinho dela entre as mãos
- Não. – ela choramingou – Eles me disseram que você não é meu pai e que não me ama.
- E você acreditou neles? – Luke sorriu de lado enquanto a filha negava – Eu te amo.
- Eu também te amo papai. – ela se dependurou no pescoço de Luke e pareceu que não iria largar nunca mais
- Mas o papai precisa te contar uma coisa. – ele a afastou apenas para olhá-la nos olhos – Aquele moço ali foi bonzinho com você?
Ele apontou Taylor, Lana em seus ingênuos cinco anos onde só sabia diferencia o mau do bem por um grande abismo, confirmou com um aceno.
- Então o papai vai te contar uma coisa. Agora, você já é bem grande para entender. – ele suspirou e beijou o rosto da filha – Você é uma menina muito sortuda, porque tem dois papais.
- Eu tenho dois papais? – ela olhou de Luke para Taylor – Eu posso ter dois papais.
- Só você pode pequena e quando crescer vou te contar por quê. – Luke a colocou no chão – Agora vá até ele e diga obrigada, depois o convide para sua apresentação no domingo.
Lana beijou o rosto do pai e então andou meio receosa até Taylor, ele nos encarou sem saber o que fazer. Luke apenas sinalizou que se abaixasse. Nossa pequena parou em frente a ele e balançou nos pés por uns segundos, então o abraçou e beijou seu rosto. Os olhos de Taylor marejaram.
- Domingo tenho uma apresentação de balé, você quer ir? – ela pediu sorrindo abertamente
- Eu quero sim. – Taylor respondeu com a voz embargada
- Vou pedir a mamãe que te mande um convite. – ela sorriu e voltou correndo para Luke
Taylor se levantou e encarou a nós dois. Sussurrou um obrigado e voltou às costas. Pude vê-lo enxugar uma lágrima quando saía.
- Fizemos a coisa certa. – Luke se voltou para mim com Lana no colo
- Claro que sim. – eu sorri para ele e o senti me beijar nos lábios
- Jinho. – Lyah bateu palmas e riu
- Eu te amo, para sempre. – ele sorriu – As três mulheres da minha vida.
- Nós também te amamos papai. – Lana sorriu e se aconchegou em seu ombro adormecendo em seguida
Lyah seguiu os modos da irmã logo depois e Luke me conduziu para o carro dele na garagem, colocamos nas cadeiras adequadas e nos dirigimos para casa.
- Desculpe por hoje. – ele sorriu para mim enquanto apertava levemente minha perna
- Eu estava fora de mim, desculpe pelo que disse. – eu sorri e apertei sua mão – Jamais iria destruir nossa família, ela é a melhor coisa que existe.
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