Hope

1 Só mais um coração partido


Atravessei a rua movimentada sem perceber as pessoas à minha volta. O cigarro queimando em meus dedos, sem nunca ter sido levado à boca. Meus pensamentos estavam acelerados e meu rosto doía com o vento gelado que o açoitava. Lembro que o inverno estava mais rígido naquele ano, porque minhas mãos, mesmo com luvas, estavam doloridas e as articulações rangiam ao mínimo esforço.

Quando levei o cigarro à boca, já estava no final. Uma última tragada e então o soltei. A neve espessa daria conta de apagar o que havia sobrado. Lembro de as pessoas me olharem com desconfiança, talvez meus olhos injetados de dor e minha postura defensiva as assustassem.

Quando cheguei ao apartamento, lutei com as chaves e minhas mãos rígidas. Agradeci quando um vizinho saiu porta a fora para encarar o frio e pude entrar sem me humilhar mais.

O apartamento era como um estado físico de como eu me sentia por dentro. Frio, escuro e vazio. Acendi uma luz e a primeira coisa que vi, foi o retrato com a foto dela.

A dor irradiou por todo meu corpo, subindo pelos meus dedos, chegando até a espinha. Era sufocante, como se eu tivesse mergulhado nas águas geladas de um rio e tivesse esquecido de como retornar.

Peguei o porta retrato e o coloquei junto ao corpo, como se aquele ato fosse o suficiente para me aquecer. Para trazer a luz novamente para dentro da minha vida.

“Não posso mais fazer isso”, ela havia dito em tom de súplica.

“Fazer o que?”, respondi como uma criança. Eu já sabia que ela não me amava mais, mas me agarrava ao último fio de esperança, como uma criança se agarra à sua mãe quando está com medo.

“Nós, eu sinto muito”, foram suas últimas palavras.

Isso já fazia um ano e todas as vezes que eu retornava ao meu apartamento era a mesma coisa. A dor, o vazio, o escuro.

Uma garrafa de rum pela metade já me espera ao lado do sofá. É meu ritual noturno. Depois disso, eu vou tirar minhas roupas e dormir ali mesmo. O frio ajuda a me anestesiar. É como se eu não pudesse sentir enquanto meu corpo clama por calor. Como se o externo ganhasse e fosse mais intenso do que a queimação no meu peito.

Eu ansiava por esses momentos o dia todo. Quando finalmente tudo era arrancado de mim e só a entorpecência fosse minha amiga.

Eu compreendo que deveria parar de ser um bebê chorão e tocar minha vida. Mas não havia mais uma vida, quando a melhor parte de mim foi embora.

O rum começou a fazer o efeito desejado. O calor começava nas minhas partes íntimas e subia gentilmente pela minha barriga e então pelo meu peito. E um sorriso brotava dos meus lábios. Era uma rotina desesperadora, mas reconfortante. Eu já sabia o que esperar. Nada de surpresas.

Deixei o porta retrato apoiado no sofá ao meu lado e o encarei. Aqueles olhos sorrindo de volta para mim eram como brasas. Eu daria qualquer coisa para sentir aquele fogo novamente, mesmo que me queimasse ou me consumisse por completo.

Toquei seu cabelo escuro, sua bochecha, seus lábios… E tudo que recebi em troca foi o toque do vidro frio em meus dedos.

Será que eu já estava enlouquecendo?

Levantei-me depressa demais, pois meus joelhos vacilaram e meus pés não sustentaram os quase noventa quilos. Consegui me recompor e fui até a porta de vidro da varanda. Eu não ia lá com frequência. É constrangedor admitir que eu tinha medo. Medo do que aquela escuridão convidativa poderia fazer.

Enquanto eu abria a porta, ouvia o chiado do vento e o ricochetear dos cristais de gelo vindo na direção do meu peito nu.

Olhei para baixo, onde dez metros me separavam da calçada. Uma excitação tomou conta de mim e um pensamento de que tudo seria melhor se eu simplesmente me jogasse e acabasse com aquele drama.

Respirei fundo, enchendo meus pulmões. Agradeci pelo rum não me permitir tremer como um galho velho sob o vento.

Observei as cores da cidade, agora em tons de vermelho, azul, verde e amarelo. Era natal e para onde eu olhasse, aquelas luzinhas piscavam de volta para mim.

Nesses momentos, e apenas nesses momentos, eu valorizava a vida. Eu sabia que tinha muito mais lá fora do que a dor que me incapacitava. Eu sabia que era alguém com qualidades, que merecia muito mais do que me anestesiar todas as noites e viver no piloto automático de dia.

Pela primeira vez, caminhei de volta ao sofá, peguei o porta retrato e o levei comigo de volta à sacada. Olhei novamente aquele rosto lindo, os olhos azuis e intensos, as bochechas coradas. E apesar do amor que sentia, aquele rosto não valia mais a dor. Eu estava cansado de depender da minha própria comiseração.

Deixei o porta retrato cair e senti como se eu mesmo tivesse pulado lá de cima. O vi girar e sumir nas sombras. Pude ouvir um leve estalo quando chegou ao chão.

Eu não senti nada. Sabia que não era isso que ia me salvar de mim mesmo. Mas não seria mais meu ritual diário beber com ela e me afundar na angústia.

Quando retornei ao apartamento, pareceu um pouco mais convidativo e menos vazio. Era meu lar e estaria ali para mim independente do que eu fizesse.

Meu peito se encheu de um fogo diferente naquela noite.

O fogo da esperança.

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