Hope

12 Capítulo 12 - Hora de descansar


Capítulo 12 — Hora de descansar

– Você acredita em amor à primeira vista? Sei o que está pensando. O mundo é um lugar cínico e eu devo ser um homem cínico achando que uma mulher linda como você cairia numa cantada dessas. O que acontece é que não é uma cantada. Então, por favor, preste atenção quando digo isto. Nunca amei ninguém como amo você agora.

Joan sorriu e riu baixinho com o sussurro da voz aveludada de Sherlock em seu ouvido. Ela estava desperta, sem abrir os olhos, há alguns minutos, e sabia que ele a estava observando. O aperto firme dele em sua cintura e o calor dele em suas costas lhe davam uma das melhores sensações que já sentira e não queria desfazer aquele contato tão cedo.

– Já caí há muito tempo — ela sussurrou de volta sem desfazer o sorriso.

Joan virou-se para encará-lo e Sherlock a beijou. Ficaram uma eternidade mergulhados naquele beijo, separando-se ofegantes. A chinesa afagou o rosto do inglês com uma das mãos.

– Amo você.

– Bom dia, querida — ele disse ao beijar sua testa.

– Não levanta ainda, fica aqui comigo mais um pouco.

– Seu desejo é uma ordem, minha rainha — respondeu, fazendo uma alusão às abelhas.

Joan olhou para o berço do filho quando Sherlock a abraçou novamente e ela puxou as cobertas sobre eles para evitar que o marido fizesse qualquer esforço com o braço ferido.

– Não o ouvi chorar essa noite. Sherlock...

– Está tudo bem, amor. Ele acordou duas vezes. Na primeira, senhora Hudson veio aqui. Na segunda foi Kitty. Não quisemos acordar você.

– Você tá me abraçando com o braço ferido, Sherlock... Onde tá o imobilizador?

– Eu o tirei um pouco. Sinto apenas dor leve no momento.

Ela se tranquilizou e passou a observar o bebê adormecido.

– Que horas encontraremos Moriarty?

– Durante a tarde.

– Que horas são?

– Oito e meia da manhã. Ainda temos tempo.

******

– Por onde querem que eu comece? — A loura perguntou com um sorriso debochado.

Ela tinha o braço direito imobilizado, como o esquerdo de Sherlock.

– Que tal pelo começo? — Gregson respondeu friamente — Como e onde conheceu Oliver e Jane Burnier?

A morena estava sentada em uma das cadeiras do quarto do hospital, sem algemas, mas altamente vigiada como Moriarty. Havia guardas do lado de fora da porta e nas saídas do hospital.

– Quando eu estava grávida de Kayden acabei conhecendo Jane. Nunca pensei em cometer um aborto. Considero uma atitude repugnante se querem saber e se há alguém que amo de verdade é minha filha. Mas eu não tinha muita ideia do que fazer depois que ela nascesse. Uma criança não se encaixaria na minha carreira. Então Jane descobriu por acaso que a família adotiva que Kayden tem hoje estava com problemas pra ter filhos. Alguns meses depois que Kayden nasceu nós fechamos o acordo e eles a adotaram. E tiveram a bondade de manter o nome que eu escolhi. Jane me ajudou durante a gravidez e enquanto Kayden estava comigo. Quando Kayden se foi, um tempo depois eu parei de ver Dale. A essa altura Jane já conhecia Oliver e nós acabamos o conhecendo também. Passamos a nos ver pouco desde então.

– Dale? — Joan perguntou — Seria o pai de Kayden?

Jamie sorriu.

– Você é sempre mais rápida que os outros, apesar dessa informação ter ficado óbvia da maneira como eu disse. Dale também amava Kayden. Ele esteve comigo e com ela até ela ir embora, embora fosse um lerdo em se manter de boca fechada e ser discreto sobre o paradeiro dela. Depois passamos a nos ver raramente até hoje.

– Você disse "amava" e "fosse"... — Sherlock começou — Devo deduzir que Oliver Burnier tirou a vida de Dale Moriarty?

Os olhos azuis da criminosa foram tomados pela tristeza. Ela podia dizer que a gravidez fora um descuido no começo de sua carreira, e apesar disso ser verdade, ainda que não demonstrasse, bem no fundo em algum lugar, ela devia amar Dale, embora não mais que sua carreira como criminosa.

– Não, Sherlock, querido, o sobrenome dele era Murray. Decidimos manter nosso nomes, até porque nunca chegamos tão longe ao ponto de estabelecermos tal aliança. E agora chegamos ao tópico mais interessante de tudo isso — ela lhe disse — O motivo que levou a tudo que aconteceu com vocês. E antes de eu contar qualquer coisa, deixo claro que não me sinto culpada, mas tudo que eu disse desde o começo é verdade.

– Oliver queria usar Kayden — Jane disse de repente — Queria usar a garota pra chantagear Jamie. Ele descobriu na mesma época em que a menina foi sequestrada e vocês dois ajudaram, mas ficou calado sobre isso e não me deixou dizer. Dale descobriu e não deixou. Eles lutaram e... Oliver foi mais rápido com aquela arma modificada. Ele pretendia arrancar de Dale as informações sobre a localização da criança. Só sabia que estava por perto, mas não onde. Então o atraiu pra um dos lugares onde nós trabalhamos. Ele percebeu que estava sendo observado pelos informantes de Jamie e os despistou por tempo suficiente pra confundí-los. Eu estive ocupada com nossa filha, então perdi muito do que aconteceu. Eu fiquei em choque quando ele mesmo me contou, afinal conhecíamos Dale há muito tempo, mas não me permitia discordar do que fez ou do que pretendia.

O quarto caiu em um silêncio incômodo por algum tempo. Era evidente que as duas criminosas, uma delas a mais fria e perspicaz que haviam conhecido, estavam ambas abaladas e ao mesmo tempo em fúria silenciosa com o relato.

– Espera aí... — Bell pareceu lembrar-se de algo — O homem que você fala é o mesmo Dale que foi encontrado morto com três disparos de uma arma não identificada perto da praia?

– Oliver mandou que Jack, Ryan e Roy o levassem pra lá. Usando luvas e perto da água, o suficiente pras ondas que chegam na praia molharem o corpo, então seria difícil encontrar qualquer evidência. Ele estava louco ao saber que Jamie continuava presa e ao invés de mudar de estratégia, mudou de alvo. No dia seguinte, nossos informantes chegaram com dados sobre Sherlock Holmes. Algo sobre ele ter uma ligação muito forte com Jamie e que ele tinha um filho e esposa. Oliver queria você, Holmes — Jane falou olhando diretamente para ele — Eu fiz tudo pra que deixasse o menino em paz, mas ele o queria pra controlar você. E disse que eu cuidaria dele. Alguns de nossos homens, devo admitir, são muito desorganizados, e nos informaram apenas que havia uma criança. E só depois Oliver descobriu a importância de Joan Watson pra Jamie. Nós não sabíamos que era um bebê até vocês serem atacados, nem que sua esposa deu a luz há apenas um mês, Holmes. Eu peço perdão por você passar por isso e espero que não tenha sofrido nenhuma lesão grave no meio disso tudo — ela falou com sinceridade ao encarar Joan.

– Estou bem — a asiática lhe respondeu com um leve sorriso.

– E quanto aos homens que desapareceram misteriosamente depois do confronto? — Gregson perguntou — As contagens dos criminosos mortos não batem.

– Contagens...? — Jamie disse vagamente e Joan e Sherlock sabiam que ela estava debochando disfarçadamente mais uma vez.

– Contamos mais de vinte homens mortos, mas de repente só tinham dez corpos — Kitty falou, encarando a loura com um olhar penetrante.

Moriarty sorriu discretamente, a jovem era tão eficiente e esperta quanto Sherlock e Joan. Apesar daquela frase nada dizer sobre suas habilidades, Jamie conhecia aquele olhar.

– Alguns podem ter escapado, mas realmente não tenho ideia de onde podem ter ido — Jane falou — Apesar de acompanhar meu marido em sua vida de crimes, ele comandava tudo. Eu só estava lá. Recebia informações e cuidava de pessoas e crianças que ele levava. Somente isso.

– E quanto a você? — Gregson perguntou a Moriarty, que lhe deu outro sorriso cínico.

– Homens mortos não contam histórias, capitão. Como vou saber? Podem ter virado zumbis e estão por aí, mas como saberíamos? E afinal todos nós sabemos que zumbis não existem — ela concluiu com a expressão mais cínica que Sherlock e Joan já haviam visto em seu rosto.

Gregson respirou fundo para controlar sua raiva e não demonstrar irritação com a resposta vaga e sem sentido da criminosa loura. Sabia que ela tinha plena consciência de tudo que havia acontecido ali, só não iria contar a eles, nem mesmo a Sherlock e Joan.

– Tudo bem. Vai ter muito tempo pra pensar sobre os seus zumbis quando voltar ao seu cárcere. O que tem a dizer sobre a morto de Oliver Burnier?

– Foi simples. Eu invadi o local e combati os homens dele. Ele chegou algum tempo depois, entrou por outro lugar, e quando me percebeu começamos a discutir sobre uma série de questões. Oliver se irritou e disparou contra mim com um revólver e com aquela maldita arma modificada. Me acertou da primeira vez, mas quase o peguei depois do segundo tiro. Isso tudo acabou me atrasando e ele foi procurar outros invasores. No tempo que levei pra chegar até lá, ele atirou em Sherlock, e Joan levou o segundo disparo pra que atingisse o colete. Quando ele pretendia atirar de novo, eu acabei com ele antes que ele acabasse com os dois.

– Isso é verdade — Sherlock disse quando Gregson os encarou.

– E o que estava discutindo com Burnier?

– Não importa mais. Ele está morto. Quaisquer problemas que tivéssemos estão resolvidos e ele não vai causar mais caos em Nova Iorque nem em outros lugares.

Gregson e Bell se entreolharam irritados. Aquela mulher era mais difícil de dobrar do que qualquer outro criminoso que haviam detido em suas vidas. Após algum tempo, Jane era levada de volta por alguns policiais. Antes de seguir para fora do quarto, ela e Moriarty se encararam.

– Eu sinto muito por Dale, Jamie.

– Me desculpe por Oliver.

– Espero que se recupere rápido.

– Eu vou — ela sorriu para a colega antes que essa se fosse — Como vocês estão? — Perguntou a Sherlock e Joan.

– Estamos bem e vamos seguir com nossas vidas. Em paz eu espero — Sherlock respondeu simplesmente.

– Pode ficar tranquilo, meu caro Sherlock, ninguém mais vai atrapalhar. Alistair deve ter uma infância feliz e o menos conturbada possível. Eu prometo isso a você também, Joan. Como está o bebê?

– Bem. E é assim que deve ser.

– E será. Eu prometo.

Os dois consultores deixaram o quarto para encontrar Gregson e Bell e outros policiais, ainda com Jane sob vigilância enquanto a encaminhavam para uma viatura no estacionamento.

– Sinceramente falando, o seu bebê é muito lindo e no primeiro instante em que pus os olhos nele eu percebi o quanto era amado — ela disse quando Joan se aproximou — E jamais desejei envolver aquele pequeno nisso, me doeu Oliver não me permitir devolvê-lo. Acredite, estar longe de seu bebê... Eu conheço a dor que você sentiu.

– Eu perdoo você. Afinal, meu filho está bem, Jane. E meu marido está vivo. Mas isso não muda você ter que pagar por ter participado disso tudo em qualquer coisa que seja, ainda que estivesse só observando.

– Eu entendo. Tudo que quero quando isso acabar é ficar ao lado da minha pequena Alice. E dar a ela a mãe que ela merece e precisa. Há uma foto dela no meu bolso. Vejam — Jane lhes disse, uma vez que estava novamente algemada.

Joan puxou a foto do bolso da calça e observou junto com Sherlock um dos bebês mais lindos que já havia visto. A menina parecia ter cerca de oito meses e dormia aconchegada em seus cobertores e roupinhas rosa e lilás. Tinha pele clara e cabelos negros como a mãe.

– Ela é linda — Joan sorriu.

– Tem olhos verdes como Oliver. Tirei essa foto há uma semana, ela está com meus pais. Sinto faltava dela.

– Cumpra sua pena, conserte sua vida e volte pra sua filha, volte pra sempre — Joan lhe disse.

– Tem algo a dizer — Gregson perguntou ao se aproximar do grupo.

– Só... Não tirem essa foto dela. Por favor — Joan pediu ao capitão, que pareceu pensar um instante e depois assentiu.

– Obrigada — Jane falou quando Joan devolveu a foto ao seu bolso, e os policiais a levaram.

– Creio que querem algumas atualizações — Bell falou — Não encontramos absolutamente nenhuma acusação grave contra Jane Burnier. Parece que ela só estava lá mesmo como falou, inclusive ajudou a manter reféns vivos e nos deu a localização de outras crianças das quais o marido dela se livrou. Com os atenuantes e como ela nunca matou ninguém ou fez nada grave, a pena não deve ser tão grande, ela deve estar com a filha o mais rápido possível. Moriarty foi excepcionalmente cuidadosa. Não temos ideia de onde estão os homens dela que sumiram e como foi ela que se ofereceu pra ajudar, não devia ganhar nenhum privilégio, até porque cometeu mais assassinatos, ainda que tenha sido de criminosos. Mas ela salvou dois consultores da polícia e um bebê, então vai acabar ganhando algum agradecimento ainda assim. Agora vão pra casa ficar com seu filho, nós levamos vocês e Kitty — o detetive disse com um sorriso.

Horas mais tarde senhora Hudson e Kitty brincavam com Alistair na sala, enquanto Clyde caminhava pelo chão e os dois consultores cochilavam no quarto ao lado da cozinha.

– Seus pais merecem esse descanso, meu amor — a loura disse para o bebê deitado no sofá entre ela e Kitty.

– E muito. Por tudo que já fizeram por Nova Iorque e tanta gente, merecem todo o descanso que puderem ter.