Hope

2 Mudança 02 – Confiar?


Notas iniciais
Música do fanfics – You Found Me (Kelly Clarkson)

Música do capítulo – Tired of Being Alone (Tarja Turunen)

\"Um garoto que não sabia sorrir e uma garota que não sabia chorar...\"


Mudança 02 – Confiar?

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Um quarto pode ser prisão perpétua? É possível sentir a eternidade passar?

Agora, sentada em seu quarto enquanto via a chuva cair, apenas deixava seus pensamentos vagarem...Sentada naquela janela, naquele dia frio, sentia a eternidade passar...

Seria a chuva... Lágrimas derramadas pelos céus?

Gostaria de ser uma borboleta azul, com liberdade, que voa pelo gigantesco céu azul...

Lembra-se...Naquela época também chovia. Era a única coisa que se recordava. Chovia muito mesmo, o céu estava escuro. Depois disso, tudo ficava branco e se lembrava de andar nos corredores de uma escola.

Nunca se lembrava de ter chorado, passando por todas as lembranças de sua vida... Não havia chorado nem uma vez. Sempre foi forte, sofreu sozinha e escondeu seus sentimentos no fundo de seu coração.

Isso fez com que tivesse a ilusão de força, de uma quase independência. A criação de uma máscara, fria como mármore, quando na verdade, seu coração sangrava e implorava por socorro. Não saberia dizer se ainda sentia dor.

Todos os seus sentimentos eram um só, uma coisa ruim impregnada em si como uma praga! Sentia-se culpada, e escondia tudo o que sentia de todos, sabia que ninguém poderia ajudá-la...

Ninguém até ele aparecer... Aparecer e virar seu mundo do avesso, a fazer se sentir viva novamente, mesmo que ainda maculada, a fazer sentir algo diferente de tudo o que havia sentido até agora, como uma luz cálida que iluminava seu quarto escuro.

Deu um leve sorriso sozinha ao pensar nisso, finalmente uma luz, uma escapatória! A esconderia e protegeria de toda as formas que pudesse! Nem que para isso tivesse de entrar em perigo!

Ouve o barulho da porta distante, já sabia o que esperar, e, pela primeira vez teve a coragem de fazer algo que jamais tinha feito até então! Levantou-se sem nenhum ruído e cuidadosamente saiu pela porta do doujo, fugindo como um peixe foge da rede em uma pescaria.

Andava meio perdida pelas luzes acesas da pequena cidade. Casais de namorados se encontravam em bancos de praças, abraçados. Há um tempo atrás, jamais notaria aquelas pessoas ali, passaria por elas sem não ao menos se dar conta de sua existência.

Seria estranho se comparasse a si mesma com um animal, que só vê um mundo em tons de cinza? E que agora, nem que fosse apenas por um breve momento de vislumbre, estava vendo o mundo pelas cores que ele realmente tem?

Pára em frente a uma doçaria olhando as pessoas trabalhando lá dentro, ocupadas demais para repararem uns nos outros.

Olha para o céu vendo que a fina chuva já havia cessado e que agora já era possível contemplar as estrelas, cintilantes, reluzindo para quem parasse para vê-las.

Por um momento se perguntou por que nunca parara para fazê-lo... Tão imersa estava em seus pensamentos que não percebeu quando uma mão se aproximou delicadamente de seu ombro para chamá-la. Leva um susto se virando rapidamente, retraída.

-Desculpe-me, não queria assustá-la, apenas não sabia que você parava essa hora da noite para olhar as estrelas.

Novamente sente seu coração se aquecer, a fazendo sorrir de leve...

-Heero... – Antes que percebesse seu nome havia escapado de seus lábios. Foi então que percebeu uma coisa que nunca antes havia reparado, os olhos dele eram brilhantes, tinham a cor do céu à noite, um azul profundo e apesar de tomados por uma profunda e conhecida tristeza que até agora só ela reconhecera, brilhavam com algo diferente, algo que no momento ela não soube o que era, algo que não existia quando se encontraram pela primeira vez, o que seria aquilo?

-Gostaria de um acompanhante minha dama? – Ele tinha um sorriso carinhoso no rosto, do tipo que ela não via há muito tempo. Apenas assentiu, se deixando conduzir – Quer um pedaço de bolo? – Olha a vitrine, mas apenas lhe sorri, declinando a proposta.

Passearam um longo tempo em silêncio, apenas a aproveitar um a companhia do outro, se entendiam sem a necessidade de palavras.

Quando o relógio da praça central já quase batia dez horas, acabaram por ficar com fome e foram a um pequeno restaurante.

O lugar era iluminado por velas, tendo apenas uma luminária no centro, o que criava um ambiente aconchegante. No exterior havia um jardim que ficava ao lado de um pequeno lago, onde mesas também eram postas para quem quisesse comer ao ar livre.

Havia também um palco perto do lago onde era tocada música ao vivo, e perto de tal, o chão era feito de madeira para que as pessoas pudessem dançar se assim desejassem.

Jantaram em silêncio, apenas aproveitando do ambiente acolhedor que era oferecido.

Tão distraída estava pela música e pelas pessoas em volta que não repara Heero se levantando, só o vendo quando pára a sua frente, levando um pequeno susto.

-Desculpe-me, não queria assustá-la novamente – Seu olhar era tão intenso que era possível mergulhar nele e se perder por longos instantes – Gostaria de dançar? – Ele parecia sem jeito assim como ela, que corou um pouco e depois apenas lhe sorriu, aceitando o seu convite e sendo levada pela mão para o centro do local de danças, onde agora, apenas dois casais dançavam.

-Entre todos, por que me viu? – Era algo que tinha que saber, mesmo sem saber por que necessitava daquela resposta. Ele pareceu pensar sobre a sua pergunta por um instante para depois voltar a encará-la com seus olhos profundos.

-Porque você tinha as mesmas cores que eu... O seu mundo era igual ao meu... – Sentiu uma vontade imensa de chorar, não sabia por que, mas sentia, o segurou por sua manga com força, tentando prender as lágrimas dentro de si, eles então param de dançar e ele simplesmente a abraça com força, como se entendesse pelo que passava, como se visse através dela pelo que ela realmente era e não aquilo que se deixava mostrar, uma casca vazia.

Foi então que sentiu uma coisa nunca sentida antes, um sentimento de proteção, enquanto ele a embalava cuidadosamente entre seus braços. E aquilo passava confiança e força para que seguisse em frente.

O seu rosto estava afundado em sua camisa preta, escondido por medo de que viesse a cair em lágrimas. Ficaram assim por algum tempo, não saberiam dizer exatamente quanto, mas foi uma das melhores sensações de sua vida.

Sentiu-se mais calma e a vontade de chorar aos poucos passava naquele toque quente e carinhoso, podendo corresponder o abraço por alguns instantes antes de o mesmo ser cessado.

Sentiu-o levantar seu rosto com cuidado e acariciá-lo com as pontas dos dedos, como se ela fosse uma boneca de porcelana, delicada e que precisa de cuidados porque a qualquer instante pudesse ser quebrada. E por um minuto, sentiu-se importante para alguém.

Ele a encarava, parecia que via no fundo de sua alma, despindo-a da sua máscara, a tanto tempo colocada, a sufocava com aquela sensação de ser descarada daquela forma que nunca antes havia sido. Será que ele conseguia ler o que pensava naquele momento? Se não, seus olhos mentiam muito bem.

Seus rostos se aproximaram até seus narizes se encontrarem.

Ele beijou sua bochecha direita e depois sua testa em uma espécie de ritual que se faz a algo sagrado e respeitável. Ela fechou os olhos apenas sentindo aquele turbilhão de emoções que ele passava, aquela sinfonia de cores que sentia.

Sente-o beijar seus olhos e por fim, sua boca.

Suas bocas se encontravam em um toque cálido e quente, a boca dele tinha um gosto amargo que contrastava com a sua em um sabor agridoce.

Ele coloca a mão em sua nuca enroscando seus dedos aos seus cabelos e ela sorri durante o beijo, fazendo o mesmo.

Separam-se voltando a se encarar carinhosamente.

Perguntava-se por que ele seria o único a fazê-la sentir-se daquele jeito...Como se pudesse ser compreendida e como se merecesse estar viva, será que ele sentia o mesmo? Pensou que realmente gostaria que ele se sentisse.

Puxa-a pela mão para que voltassem para a mesa, a noite parecia voar, não porque conversavam muito, mas pelo simples prazer de estarem juntos, se perguntava quanto tempo aquele conto de fadas duraria? Pegou-se desejando que pudesse durar para sempre...

Ele a acompanhou até sua casa e se despediram com a promessa de se veriam no dia seguinte, na aula de dança dada por ela, para que ele a assistisse, enquanto com seus suaves e pequenos pés de dançarina, ensinava seus alunos, as danças de origem oriental.

Entrou em casa com passos leves de bailarina, não queria em hipótese alguma ser descoberta. O seu quarto estava escuro como quando o deixara antes de sair.

Sentia-se feliz, como se nada pudesse estragar seu momento de contentamento... Doce e gostosa ilusão que ama de nos pregar peças.

Os olhos que a encaravam, brilhantes na escuridão trataram de revelar seu dono sem delongas.

-Posso saber onde estava? – A voz era fria e rígida e estremece só de ouvi-la.

-Eu estava... – Não consegue terminar a sentença, encarando o chão, sabia que aquilo aconteceria, nada do que é bom dura para sempre, havia aprendido aquilo nos poucos anos de vida que tinha.

-Pequena vagabunda! Desonrando o nome de nossa família assim como a desgraçada da sua mãe! – Em poucos instantes sente-se ir de encontro ao chão e o gosto de sangue na sua boca.

Sente um chute atingindo seu estômago. O gosto de metal misturado ao salgado de lágrimas, um gosto que, para a pequena dama era tão tradicional que estaria acostumada se pudesse.

Suas costelas estalam quando alguém pisa nelas sem piedade alguma, seu cabelo é puxado e ouve sua própria voz gritando contra sua vontade. Era como se sua mente estivesse em outro lugar, se fechando em uma concha, se protegendo da dor pela qual seu corpo passava, como se fosse alguém assistindo a dolorosa cena de longe...

Agora a parede estava atrás da moça, gelando seu corpo, se misturando ao seu sangue... Não havia tido tempo de perceber quando ele a chutara com tanta força a ponto de a fazer ir tão longe...

-Por favor... – A voz implorativa saía tão fraca, não passando de um sussurro – Pare...

Não sabia o quanto já havia apanhado ou quanto tempo havia se passado desde que começara, sempre perdia a noção do tempo nesses momentos.

Sabia que ele gritava alguma coisa, mas já não tinha a capacidade de assimilar o que ele pudesse estar dizendo.

Seu quimono estava rasgado, podia sentir...E caía dos seus ombros, a deixando exposta.

E então finalmente alcança a paz, a luz pequena que seu coração sempre trancafiava a sete chaves bem lá no fundo para que ninguém descobrisse e a roubasse...

Um instante antes de desfalecer deixando-se ser carregada para a escuridão, pensa em Heero, seu sorriso e seus olhos tristes...

Ao abrir os olhos novamente, se encontrava perdida, onde estava mesmo, o que fazia?

Senta-se no chão de madeira olhando para sua roupa de seda, rasgada e cheia de sangue... Agora se lembrava do que ocorrera.

Levanta-se com dificuldade, sentido seus pulmões reclamarem para respirar. Caminha pesadamente para o banheiro, logo entrando no chuveiro vendo o sangue escorrer pelo ralo.

Enquanto se banhava pensava sobre traumas...Pensava no por que de depois de um grande trauma, as pessoas esquecerem-se de tudo o que aconteceu naquela época? E se isso seria uma benção ou uma maldição... Um tempo de sua vida, perdido para sempre. A vida já é curta demais para ser perdida...Mas, será que valeria a pena se lembrar?

Pensava que gostaria de esquecer tudo o que sofria sempre...Particularmente não gostaria de se lembrar, mas esquecendo...Esqueceria também Heero, isso seria um preço alto demais a se pagar, será que valeria a pena? E se o esquecesse, por que continuaria a viver?

Andava arrastando-se para fora do banheiro, vestindo-se com uma roupa simples, um vestido preto que alcançava seus joelhos e era sem manga. Olhava para suas roupas ensangüentadas, o que faria com elas?

Ouve o barulho da porta de seu quarto sendo arrastada, abrindo-se e ela se assusta, levantando os olhos com velocidade, mas quando vê quem se encontrava a sua frente, seu terror aumenta. O que ele fazia ali?

-Heero? O que faz aqui? – Sua voz tremia sem que pudesse controlá-la, não queria que ele a visse naquele estado.

-Eu vim como prometido, mas sua aula foi cancelada! – Seus olhos eram penetrantes, mas duros e insensíveis, diferentes do que eram no dia anterior.

As defesas da dama eram nulas contra seu olhar gélido e sua frieza, aquilo doeu, doeu mais do que a dor que sentia em seu corpo, pôde senti-la em seu âmago.

-O que aconteceu com você? – A indiferença dele que a matava. Olha para seu corpo e sente vergonha do que vê, logo tentando alcançar a toalha para se esconder, mas ele é mais rápido e segura seu pulso.

Tremia tanto que não conseguia se manter em pé. O olhava com terror nos olhos, o que pensaria dela agora? A garota fraca que não passa de uma vagabunda e que não consegue fazer nada direito?... Parece que ele nota seu olhar e pela primeira vez assusta-se. A abraça e a garota de cabelos dourados começa a chorar, desesperada, sentia tanta vergonha de si mesma, que tudo o que queria era sumir dali, para qualquer lugar, Heero não podia vê-la daquele jeito! Fraca e desprotegida, em uma verdade nua e cruel.

Ele a abraça com mais força segurando sua cintura. A dama soluçava, desesperançada.

-Relena, o que ele fez com você? – Sua voz era preocupada, grave, e a voz era do Heero que ela conhecia e havia se apegado.

Dois desconhecidos, unidos pela tênue linha do destino, vidas delicadas, tão facilmente estraçalhadas pelas crueldades do mundo, aprendendo a viver cada dia através das mentiras e maldades do mundo.

Por que estavam ali? Nenhum dos dois sabia, estavam apenas aproveitando aquilo que lhes era dado.

E então por fim, Relena, aos poucos se entregou aquele pequeno refúgio que encontrara, relaxando e se deixando ser abraçada, naquele solene momento, guardado pela eternidade, fechou os olhos e ali ficou, permitindo o tempo passar, sem ao menos se mexer.

-Heero... – Levantou seus braços com dificuldade alcançando sua nuca, correspondendo seu abraço e mexendo de leve em seus cabelos rebeldes, em um real ato de confiança, nunca antes sentida por ela...

Notas finais
Olá, desculpem-me a demora, mas quando tive o tempo de publicar, acabei esquecendo!
Memória de girico é uma coisa!
De qualquer forma, aí está o capítulo da Lena, espero que gostem...