Hop On

1 Dia perfeito de verão


Notas iniciais
Surprise, bitch.
I bet you tought you'd seen the last of me.

A luz alaranjada do pôr-do-sol entra pela grande janela de vidro, refletindo nas taças de cristal perfeitamente postas nas mesas. O ar cheira a flores. O murmurinho impaciente das pessoas faz as mãos de Suga suarem descontroladamente.


Deus, ele ainda não tinha certeza se deveria ter vindo. Suga aperta os lábios. Precisava deitar a cabeça no travesseiro e finalmente dormir em paz, sem nenhum pingo de preocupação.


Suga levanta, abrindo os botões de seu terno, e sai de fininho pela lateral. O ar lá fora está abafado e úmido, e a grama está levemente molhada pelos regadores que giram. Honestamente, era o dia perfeito. Um dia perfeito de verão.


Suga contorna o prédio e caminha para a parte de trás, perto do estacionamento. Algumas pessoas ainda chegavam. Respira. Inspira. O ar está pegajoso. Suga vira-se quando ouve uma porta ser aberta.


Daichi está lá, impecável em seu smoking, barba feita, cabelo bem penteado, sapatos brilhantes. Pego de surpresa, Suga arregala os olhos e aperta as mãos.


Senhor, eles não se viam desde... O colegial? Desde o fim do terceiro ano, certamente. E agora eles estavam tão mais velhos, beirando os trinta anos! Óbvio que ainda se reconheciam: Daichi ainda tinha o mesmo cabelo preto e a cara séria, ainda alto, ainda caloroso; Suga, apesar de ter os cabelos um pouco mais compridos, também tinha permanecido mais ou menos igual. Aquele silêncio pesado entre os dois paira no ar.


Daichi aproxima-se, tentando não demonstrar nenhuma surpresa fora do comum. Mas, cara, como estava nervoso. Ele chega perto de Suga e os dois se olham. Eles se olham como se tivessem 17 anos novamente. As mãos de Suga ainda pigam de suor do mesmo jeito, e Daichi ainda sente as orelhas pegando fogo.


Quase vinte anos e eles ainda estavam nervosos. Suga afrouxa a gravata sem pensar muito. Não deveria ter vindo, agora tinha certeza. Tinha certeza absoluta, porque simplesmente não podia aparecer do nada e esperar que as coisas ficassem normais.


Daichi estende a mão e segura os dedos de Suga. Estão gelados. Continuam se olhando. Todo o ensino médio passa em volta: os treinos, o vestiário, lições de casa, vestibular, jogos incríveis e talvez algumas derrotas.


"A pele dele ainda é quente."


A emoção de ir pro campeonato nacional juntos, pela primeira vez.


Eles dão as mãos sem pensar demais no caso. Era familiar mesmo. Chegava a ser natural. Suga quase se derrete. Daichi treme de nervoso.


As broncas nos novatos, aquela derrota amarga para o time de Seijou.


Quando eles choraram de raiva em cima da comida pela derrota.


Suga espreme a mão de Daichi na sua. Deus, ele sentira tanta falta. Daichi não passava um dia sem pensar naquelas piadinhas idiotas contadas nos intervalos dos treinos. Suga sempre contou ótimas piadinhas.


Foi um jato de adrenalina — o melhor jato de adrenalina da vida dele — que fez com que Daichi envolvesse os dedos de Suga nos seus e o puxasse na direção do estacionamento. Suga foi tomado de surpresa e nem teve como reagir. Daichi o puxou até o carro preto parado no fim da segunda fileira e abriu as portas.


— O que exatamente você está fazendo?


— Entra.


Sem saber muito bem o que fazer, Suga abre a porta e senta no banco do passageiro. Daichi dá a volta no carro e abre a porta do motorista. Ele dá partida no carro, faz a manobra e deixa o pequeno jardim para trás, avançando na estreita estradinha de pedras.


— Você não pode fazer isso, você sabe, né?


— Mas... Mas...


O coração de Suga batuca no peito descontroladamente. Daichi sua dentro de sua roupa. Ele pisa fundo no pedal, e arranca a gravata, lançando-a pela janela.


Suga olha para ele com a boca aberta. Daichi vira o rosto e dá um sorriso totalmente forçado. Suga olha para ele por alguns segundos, tira a gravata e a joga pela janela também. Eles soltam uma risadinha tímida e gostosa. O clima no carro não era mais pesado; tinha ficado incrivelmente leve e feliz. Um grande sorriso se abriu nos lábios deles, e eles se olharam como se nada mais importasse.


Por algum feitio do destino, as ruas estavam vazias e não havia sinal de trânsito. Daichi acelera ainda mais, passando por uma rua cheia de prédios, e para o carro no número 233. Ele sai do carro e entra no prédio. Suga pula para o banco do motorista e dirige até sua casa, não tão longe assim dali.


Daichi larga tudo na cama e abre o armário. Enfia tudo o que consegue em uma mochila. Seu celular começa a apitar entre as cobertas; 5 chamadas perdidas. Tem vontade de jogá-lo no lixo, e é isso o que faz.


Seu peito explode de felicidade. O soriso idiota não deixa seus lábios em nenhum momento, mesmo quando ele se olha no espelho e vê que está cometendo a maior loucura de todos os tempos.


Pegando tudo o que consegue carregar, Daichi larga a porta aberta e corre escada abaixo na direção da rua. O carro preto já está lá, e Suga parece radiante no volante. Daichi lança as coisas para o banco de trás, bate a porta do passageiro e o carro dispara pela rua.


O rádio toca alto. Suga pega a primeira saída que encontra e dá de cara na estrada. Não sabia exatamente aonde estava indo, mas sentia que era o caminho certo. Ele pega o celular escandaloso do bolso e o arremessa pela janela, jogando-o no meio do mato. O celular bate numa árvore e se desfaz em pedaços. Suga e Daichi se olham e caem na risada, gostosa e simples.


Daichi afasta o vidro do teto-solar, levanta-se no banco e fica de pé para fora do carro, os braços bem erguidos, um grande sorriso na boca. Ele grita com todas as forças e ri mais alto ainda. Suga coloca a cabeça pra fora da janela e grita também. Os carros ao redor buzinam, mas eles nem ligam. Estavam se divertindo demais. Não tinha muita coisa que importasse no momento.


Eles ligam o rádio no volume máximo e cantam loucamente enquanto dirigem pela estrada deserta que leva a lugar nenhum. O sol se põe, deixando o céu rosado. Era o dia de verão perfeito.


— Suga.


— Oi.


— Eu não acredito que fiz isso. — Daichi esconde o sorriso nas mãos — Não acredito que fugi no dia do meu casamento.


— E você não parece nem um pouco arrependido.


— É porque não estou, de jeito nenhum.


Os dois riem da tragédia.


— Esse é o dia mais louco da minha vida — Suga comenta, olhando apaixonadamente para o céu à sua frente, estendendo-se pela estrada — Mas ao mesmo tempo...


Suga vira para olhar e encontra Daichi encarando-o completamente embasbacado.


— Ao mesmo tempo eu não me arrependo de nada também.


— Parece que a gente tem 17 anos de novo.


Eles riem, apaixonados.


Daichi encontra um CD com músicas antigas e o coloca para tocar no rádio; ele e Suga cantam, felizes, as músicas da adolescência. Tinha aquela do campeonato de dança, e quando eles foram ao karaokê...


Suga sente-se leve como uma pena — poderia facilmente sair voando por aí de pura felicidade. Daichi, ao seu lado, olha-o com ternura e pega em sua mão livre, entrelaçando os dedos. Sente que está a desmanchar ali no banco do passageiro. A descarga de adrenalina permanece firme e forte, o coração batendo rápido, o sorriso besta ainda no rosto. Era a maior loucura da vida: simplesmente fugir de seu próprio casamento... Mas nada disso parece errado. Estar com Suga, ele sente, é a coisa certa a se fazer.


Não deveria ter deixado passar tantos anos assim.


— Entra na direita, Suga. Na direita.
— Onde vai dar?


— Nem sei.


Suga sorri e pisa fundo no pedal, pegando a saída da direita. O Sol se põe atrás da montanha. Pequenas casas começam a surgir na beira da estrada, e eles podem avistar algumas luzes de uma cidadezinha mais à frente.


— Suga, para o carro. Para o carro.


— Que foi?


— Quero ir nadar no oceano.


— No oceano? — Suga ergue as sobrancelhas rapidamente, mas logo se perde na risada — Eu topo! Está tão calor!


Suga vai diminuindo a velocidade e sobe parcialmente na calçada. Os dois saltam do carro e largam as portas abertas mesmo. A areia fina sobre seus pés ainda é morna por conta do Sol da tarde, e a brisa salgada é quente e gostosa.


Daichi tira o paletó e o larga na areia mesmo, a caminho do mar. Desfaz-se também de seus sapatos e meias, e abre alguns botões da camisa. Suga joga o cinto para o lado, também largando as coisas na areia, arregaçando as mangas da camisa branca.


Daichi olha para o mar. O céu tem tons alaranjados e rosados muito bonitos, que enaltecem ainda mais a água ao tocá-la no horizonte.


Suga segura na mão de Daichi, e eles cambaleiam pela areia fofa. Suga puxa-o, e beija sua boca.


A serotonina domina o corpo deles; estremecem, como se fosse a primeira vez. Os lábios continuavam macios, os toques ainda eram os mesmos. Daichi segura o rosto de Suga como se fosse uma boia salva-vidas, juntando-se ainda mais a ele. Deus, é uma sensação tão boa. Daichi estava ali de novo, com Suga, aos beijos em uma praia qualquer, foragido de parentes e amigos. E Suga sente que poderia explodir de alegria.


Eles retomam de onde tinham parado quando tinham 17 anos.


— Eu amo você. — Suga segura as bochechas de Daichi, olhando fundo em seus olhos, o coração disparado — Desde o segundo ano.


— Eu amo você. Nunca deixei de amar. Mesmo quando você terminou comigo no terceiro ano. Suga, eu...


— Eu sabia que tinha sido uma ideia estúpida. — Suga sorri, arrancando um sorriso de Daichi também.


— A gente era meio estúpido.


Suga ri, dá um empurrão em Daichi, e corre na direção da água. Daichi recupera-se rapidamente e corre atrás. De roupa e tudo, eles mergulham na água quente, aproveitando as poucas ondas e a luminosidade do céu. Eles se divertem como não faziam em anos, parecendo realmente dois adolescentes, aqueles mesmos do time de vôlei do colégio.


Os dois se abraçam apertado. Os mesmos braços, o mesmo cheiro, a mesma sensação de estar um com o outro. Naquele momento, eram plenos. Nada faltava, nada faltaria — pelo menos, se tivessem um ao outro, tudo ficaria perfeitamente bem.


Eles poderiam começar de novo, e essa é a melhor sensação que alguém pode sentir.

Notas finais
Chorar? Chorei.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!