Honey, go home
2 01 - Único
Notas iniciais
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Amélia sentia os pés doerem enquanto corria e corria mais, o vento açoitando os cabelos castanhos como se tentassem jogá-la para trás. O caminho entre seu frágil corpo e o precipício se estreitava cada vez mais e tudo o que conseguia fazer era impulsionar ainda mais os braços e pernas para a frente.
Para o fim.
Os cascalhos da trilha afundando sobre a pele e deixando um rastro de sangue por onde passava. Amélia permitiu que o corpo freasse a poucos centímetros da beira tangível, do pequeno espaço que a mantinha viva. O peito subindo e descendo com velocidade, os cabelos embolados nas costas e o uivo dos ventos nos ouvidos.
A trilha de galhos quebrados e sangue que deixou para trás era visível ainda pela mata adentro.
O coração pulsava enquanto o celular vibrava no bolso na calça jeans. O som incessante a fazendo cogitar... pensar naquilo que estava fazendo.
As mãos de Amélia tatearam o bolso traseiro em busca do aparelho, um nome piscava na tela com urgência. Steven. Amélia encarou o nome e a foto do melhor amigo que ainda piscava e ainda fazia o aparelho tremer.
Uma lágrima molhou a tela fazendo a sensibilidade do touch identificar o toque e atender a ligação.
Mesmo sem por o aparelho nos ouvidos ela pode ouvir o grito.
— Amélia! Pelo amor de tudo... não faça nada de que vá se arrepender — os olhos desviaram do nome que agora apenas brilhava para encarar a paisagem de fim de tarde.
— Não vou me arrepender — Amélia encarou o precipício que parecia gritar o seu nome.
O desfiladeiro com pedra pontiagudos reverberava a palavra "arrepender" como o eco de um coral infeliz. As nuvens no horizonte começavam a serem manchadas pelo azul escuro da noite que chegava.
— Elie... — Steven suplicou.
Com o celular colado ao ouvido Amélia suspirou. Steven respirou aliviado, por saber que ainda estava sendo ouvido. O rapaz sentiu uma pontada de esperança o preencher quando a voz vazia da amiga soou pelos alto falantes.
— Ele sabia... ele sempre soube... — Amélia se agarrou ao cascalho debaixo dos pés com os dedos, cada centímetro doendo pelos cortes da trilha.
— Ele é um babaca, por que você dá ouvidos àquele merda? — Steven gritou, exaltado.
Amélia sentiu o peito doer, como se todo o ar estivesse sendo sugado de si. A boca aberta, arfando por qualquer migalha que conseguisse absorver enquanto os olhos começavam a embaçar pelas lágrimas.
— Volta pra casa — Steven pediu, a voz suplicante enquanto caçava as chaves do próprio carro no monte de chaves enfiadas na lama pela garota. — Eu... — Steven se deteve.
— Acabou, acabou tudo Steve — Amélia limpou as lágrimas clareado a visão para o precipício que se estendia há dois passos pequenos de distância.
— Não! Não acabou... eu... eu ainda estou aqui — Steven abriu a porta do carro e um baque surdo e alto se ouviu pela ligação quando fechou a porta do carro.
— Eu não posso — Amélia sentiu os joelhos cederem e o cascalho lhe perfurou a pele fina da perna. — Eu não consigo!
Amélia gritou.
A dor vibrando em cada pedra, cada árvore, cada pequeno pedaço de terra e nuvem que se estendia para além daquilo que os olhos conseguiam ver. Amélia gritou para as almas que a esperavam e para seu próprio corpo que lutava contra aquilo que sua mente decidirá naquela manhã.
Steven colocou o celular em modo viva-voz enquanto engatava a marcha do carro e saia em disparada pela estrada que levava até a montanha.
— Eu estou indo, me espere, por favor — suplicou.
— Não — o engasgar na voz de Amélia começou a se tornar ainda mais visível, a torrencial chuva de lágrimas lhe escorria pelo pescoço. — Não quero que você me veja lá embaixo.
— Eu proíbo você de fazer essa merda — Steven bateu com as mãos no volante, a raiva e a frustração lhe dominando por completo. — Fica comigo Elie, comigo não com ele, comigo!
Amélia se levantou. A roupa levemente rasgada e suja de terra enquanto uma corrente morna lhe levava para trás, os pés, firmes e anestesiados, se fincavam ao cascalho.
Steven ouviu o primeiro passo em direção ao fundo. Ouviu o cascalho mexer e o farfalhar do casaco de time que Amélia usava. O pé da morena se movendo milésimos por segundo, ainda lutando. O corpo ainda lutava para ficar imóvel enquanto as ordens eram dadas.
— Não faz isso comigo Elie... querida Elie, venha para casa comigo — Steven suplicou, a voz embargada pelo choro que começava a descer.
Amélia recuou um pouco assustada com o tom de voz do melhor amigo. Em todos os dezenove anos em que esteve com Steven ela nunca o viu chorar, nem na pior das dores ou das alegrias. O corpo recuou mais alguns passos enquanto Amélia se envolvia em um abraço. O celular ainda preso ao ouvido enquanto ela soluçava.
— Eu não consigo voltar, não sei como fazer isso, não mais — Amélia sentiu o ar lhe escapar novamente. — Eu não sei mais quem eu sou Steve, não me conheço.
— Você é minha melhor amiga — Steven engoliu o choro. — Minha confidente. Meu porto seguro... Você e a quem eu vou quando o mundo me assusta. É com você que eu falo quando quero jogar tudo para os ares. Foi você quem lutou por mim e quebrou o nariz de um garoto maior que você. Você me salvou quando eu não consegui me salvar...
— Eu não sou o suficiente — Amélia mordeu o próprio lábio tentando conter um segundo grito que pareciam cortar tudo dentro dela. — Duncan levou algo que eu nunca vou poder recuperar... nem se você socasse a cidade inteira... isso sempre vai estar aí.
— Ainda dá tempo Elie — Steven fez uma curva acentuada no dobro da velocidade permitida, o radar fixo com certeza deixaria uma multa daquelas gigantes em sua caixa de correio.
No momento ele não se importava. A multa que fosse se foder, ele precisava salvar a melhor amiga.
— Podemos nos mudar para longe, Chicago é linda essa época do ano e você se daria tão bem como fotografa — Steven encarou a estrada que se erguia ainda asfaltada. Teria de pôr em prática tudo o que havia aprendido nas corridas da escola. Sem querer se pegou rezando para que conseguisse correr mais rápido do que Amélia pudesse dar um passo.
— Eu... eu não consigo viver assim, todos vão saber! — Amélia encarou o abismo. — Em algum momento, todo mundo vai saber!
— Idaí? Todo mundo transa nesse inferno de mundo — Steven gritou, as palavras saltando com raiva e aspereza sem querer.
Amélia deu outro passo em direção a queda que a esperava. Os pés acariciando os cascalhos e a terra perto da borda. O limo crescia sempre mais escorregadio ali. Ela encarou o fundo e viu as pedras afiadas que a esperavam embaixo.
— Eu sei — Amélia encarou o abismo.
— Elie... não foi o que eu quis dizer... sinto muito — a ligação ficou muda por alguns segundos.
— Tá tudo bem Steven — Amélia sorriu com melancolia. — Não é sua culpa e você fez tudo o que pode... eu te amo por isso.
O vento recomeçou, naquela inútil tentativa de afastá-la da borda, o casaco farfalhando atrás de si e os pés pisando com delicadeza o cascalho que a separava da borda. Pé depois de pé enquanto lutava contra tudo o que a compunha para que a deixassem, lutando contra todas as memórias que a invadia e que insistiam em tomar sua visão. Uma brisa fresca como cheiro de maresia a fez sorrir. Era como estar em casa e ser feliz novamente.
Um segundo estava de pé e no outro não sentia o próprio corpo, o vento da queda a tomando e tornando aquele segundo muito mais largo do que era de verdade. O frio que a invadia foi tomado por um calor que emanava em ondas, um batimento preencheu seu ouvido e então outro em ritmos diferentes, mas quase sintonizados.
Amélia abriu os olhos e encarou um outro par de olhos. O ocre inundando tudo o que ela conhecia e derretendo todas as suas convicções. Amélia encarou novamente e seus dedos, sem sua permissão, traçaram as linhas do rosto do melhor amigo. Era um sonho.
Amélia sorriu.
— Eu estou em casa, finalmente!
Seu coração acelerou em seu peito e dor a preencheu. Era doloroso estar em casa, mas se pudesse ficar daquela forma para sempre ela não se importava nenhum pouco com a dor nas costelas e no quadril.
— Você está comigo — Steven falou e ela sorriu mais uma vez.
— Eu posso ouvir você aqui? É mesmo o paraíso... não mereço — lágrimas tomaram sua visão.
— Não Elie — Steven a abraçou enterrando a cabeça na curva do pescoço de Amélia e aspirando ao cheiro de folhas e terra que ela exalava naquele momento. — Olha pra mim... toca em mim Elie, sou eu!
— É tão real — Amélia acariciou os cabelos castanhos e macios do melhor amigo sentindo-se abençoada por estar presa naquele momento.
— Eu sou real — Steven puxou o rosto da melhor amiga para si. — Abra os olhos Amélia, veja!
Amélia encarou os olhos cor de ocre mais uma vez, a textura da pele tão real e quente contra sua mão.
Steven a beijou. Lábios grossos e nada sutis preenchendo os seus lábios finos e frios. Amélia arregalou os olhos de surpresa e se viu cedendo ao beijo que recebia com tanta paixão, os ossos derretendo, os músculos virando pó e a cabeça perdendo completamente o controle.
Seu corpo se impulsionou para cima até estar sentada sob o colo de Steven enquanto ainda mantinham as bocas unidas em um beijo que tentava restaurar tudo. Ela o encarou, o azul gélido de suas íris encontrando o ocre quente das íris de Steven. O mundo ainda ruía debaixo de seus pés, mas apoiada ali, talvez ela fosse sobreviver a queda.
— Eu amo você Amélia — Steve a deteve antes de mergulhar em um outro beijo que prometia o mundo. — Eu sempre amei... e sempre vou amar, não suportaria te...
Amélia o beijou novamente, impedindo que ele continuasse o que quer que fosse continuar. Ela o beijou como se o amanhã nunca fosse existir e como se tudo dentro dela fosse se concertar com o toque. Seus dedos dançavam na nuca de Steven enquanto as mãos do rapaz a seguravam pela cintura.
O calor a fez se sentir viva outra vez. Não bem. Apenas viva o suficiente para sentir e sofrer.
— Me lava para longe — Amélia pediu enquanto segurava o rosto de Steven com as duas mãos em concha.
— Longe?
— O mais longe que você possa ir comigo — ela encarou as montanhas atrás do melhor amigo e encarou a queda distante, olhou as nuvens completamente escuras e tentou bisbilhotar a própria alma.
— Você vem?
— Com você eu sempre vou — ela aceitou a mão que Steven lhe estendia e voltou com ele, segurando firme o tempo todo.
Os dedos entrelaçados como se fossem unidos desde o nascimento. Amélia tinha medo de que se o soltasse seu corpo a traísse e ela fosse correndo se jogar daquele precipício que ainda a chamava ao longe.
As folhas e os cascalhos se tornaram menos denso à medida que o asfalto foi surgindo e o carro de Steven apareceu.
Em segundos estavam dentro do veículo com lufadas de vento morno lhe saudando os rostos. Amélia encarou Steven mais uma vez e apertou a mão do rapaz que estava sobre a marcha do carro. Steven lhe sorriu quando passaram pela placa da cidade que abandonavam.
Amélia envolveu o corpo em uma manta peluda que encontrou no banco de trás e encostou a cabeça na lateria, o sono a reivindicando e o dia finalmente acabando. Seus olhos encontraram os de Steven uma última vez antes de mergulhar no vazio.
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