Honey
31 Honey
Notas iniciais
Semanas depois, o inverno já tinha se despedido. Levando consigo a neve gelada e o vento cortante, agora havia espaço para a primavera reinar outra vez.
Depois de meses com um inverno rigoroso e tempo fechado, o clima finalmente pareceu mais claro e leve. O sol nascia todos os dias com raios confortáveis que prometiam um bom dia, sem dramas e sem discussões. Os brotos de flores das árvores apenas aguardavam a temperatura certa para desabrocharem e colorirem as ruas de Paris.
Era o fim de um ciclo, início de uma nova estação. Todos pareciam com os ânimos renovados, como se a vinda da primavera fosse ainda mais renovadora que o fim do ano, marcado pelo ano novo.
Allen saiu da sala de aula faltando cinco minutos para o encerramento da prova final. Breeze saiu alguns segundos depois e ambos deram de cara com Lavi sentado no chão, Lena em pé ao lado dele reclamando do chão sujo, Alma encostado na parede lendo alguns papéis e Kanda debruçado na janela, alheio ao que acontecia no corredor.
—Finalmente! — Lavi sorriu, levantando-se enérgico e começando a limpar as roupas. Lenalee bufou ao ser interrompida em seu monólogo, mas logo relevou quando o ruivo colocou o braço por cima de seus ombros. Ela voltou o olhar para Breeze e Allen e sorriu gentil.
—Como foi o teste?
Como se em consenso, Breeze apenas sorriu um pouco envergonhada e Allen disse que foi tudo bem. Já não havia ninguém além deles no corredor. A maioria dos alunos tinha feito a prova sem levar a sério e os únicos que ainda estavam na sala eram aqueles que precisavam de nota. Tanto o albino como a loira eram exceção por serem tão empenhados na escola.
Mas não era como se nenhum deles precisasse de nota.
Allen poderia muito bem ter deixado de fazer o teste e simplesmente aparecer apenas para a cerimônia de encerramento. No entanto, se ele fosse ser sincero consigo mesmo, fazer aquela última prova foi muito mais que só um teste.
Foi basicamente um adeus.
Enquanto escrevia na folha, respondendo quase que automaticamente as questões de gestão empresarial – uma matéria exclusiva do Kugeka – , ele deu-se conta que sua jornada ali tinha acabado. Então, no meio do teste, ergueu a cabeça e olhou para trás, para as cadeiras enfileiradas e formando uma escada.
Quando viu que apenas Breeze permanecia ali – Kanda tinha sido o primeiro a sair – um pensamento melancólico e ao mesmo tempo libertador se apossou de si:
Ele estava livre. Jamais voltaria àquele lugar.
E, quando voltou a responder as questões, Allen sentiu como se estivesse assinando o posfácio de um livro que, assim que saísse pelos portões do colégio, seria fechado e guardado em alguma estante dentro de sua mente.
Era um sentimento estranho dar-se conta que um ano que mais pareceu uma vida estava no fim, marcando o fim de um inverno e a retomada de uma nova primavera.
Uma primavera com flores diferentes e inesperadas, como fora a primavera passada, onde conheceu uma flor de lótus em um certo bar.
De alguma forma, o florescimento daquelas novas flores parecia trazer uma nova vida consigo.
—Ainda bem que eles colocaram a cerimônia de encerramento para depois da prova final. — Lavi disse, começando a andar pelo corredor com os braços esticados atrás do pescoço. — Iria ser um saco ter que vir aqui depois de finalmente sair dessa escola. — Apontou, parecendo excepcionalmente alegre por estar terminando o colegial.
Lenalee começou acompanhá-lo e, assim como Breeze, ela vestia um uniforme diferente do usual. Tal como as outras garotas da classe especial, ambas vestiam uma saia preta, blusa social, gravata borboleta vermelha e um blazer também preto com o símbolo do Kugeka bordado em vermelho, amarelo e branco. Já Allen, Kanda, Lavi e Alma vestiam ternos pretos feitos sob medida também com o bordado do Kugeka, gravatas vermelhas e sapatos sociais.
Todos estavam impecáveis, ainda que Kanda tivesse desabotoado o terno para descasar alguns botões e afrouxar a gravata.
—Por que você fez isso? — Allen perguntou com falsa decepção na voz, sobrancelhas franzidas quando se aproximou de Kanda e ele o olhou por cima do ombro. — Você não dá valor ao trabalho que eu tive para fazer a sua gravata? — Reclamou, cruzando os braços quando Kanda se virou com um sorriso sacana nos lábios.
Ultimamente, o moreno tinha ficado mais silencioso e sorria mais frequentemente. Alma, certa vez disse, que Kanda estava finalmente respirando, por isso parecia como se, cada dia que passasse, estivesse mais rejuvenescido. Não era como se ele tivesse virado um anjo, não, Allen ainda queria socá-lo muitas vezes por dia, porém, nos momentos em que Yuu parava e ficava a reparar na janela, algo no olhar dele estava diferente da visão vazia que antes tinha.
Nesses momentos, Allen escorregava a mão pela mesa e entrelaçava seus dedos com o dele. E, mesmo que Kanda não tirasse seu olhar da paisagem e mesmo que Allen não deixasse de copiar o que o professor falava, os dedos ficavam entrelaçados firmemente por doces e intermináveis minutos.
—Como você vai para o encerramento todo bagunçado desse jeito? — Murmurou com um bico, chegando perto de Kanda, que continuava encostado na parede, para arrumar a vestimenta dele.
—Nessas horas eu agradeço pelo Kanda ter negado fazer o discurso de encerramento, ainda que a responsabilidade tenha recaído sobre mim. — Alma disse calmamente, enquanto passava com Breeze ao lado do casal. — Ahh, estou nervoso... — Murmurou e, como de praxe, Breeze começou a falar baixinho com ele enquanto andavam pelo corredor até a saída do prédio.
No último mês, Alphonse Alphocryphos havia se desligado do Sistema Honey do Kugeka. O incidente na mansão Kanda não fora levado ao público, portanto, à exceção de Road – por motivos de Road sempre sabia de tudo, todos da sala ficaram pasmos com o afastamento repentino do garoto.
E para maior surpresa, uma regra foi rompida no sistema Kugeka.
Ainda que seu Mestre tivesse pedido transferência do colégio, Breeze, ao invés de ser expulsa como previam as regras, continuou na escola e, além de continuar recebendo o pagamento de Honey, teve seus estudos e taxas de vestibulares pagos pela família Alphocryphos.
Para aqueles que não estavam a par da situação, aquele foi um gesto de muita bondade – e influência — da família do Mestre, todavia para aqueles que sabia da verdade, aquela foi apenas uma manobra para evitar que o escândalo de um surto psicótico manchasse a imagem da imaculada família Alphocryphos, uma referência de moral e ética cristã.
Após muita conversa e influência na cúpula do colégio Ordem Negra, Breeze foi admitida no sistema Honey como Honey representativa, pois representaria a família Alphocryphos na ausência do Mestre. Isso garantiria o diploma para Alphonse e a não expulsão da garota.
Porém, apesar de tudo ter se resolvido, as coisas não voltaram ao normal para a loira. Ela havia se tornado mais calada, retraída e, diferente de antes, falava baixo e acanhada.
Eram as consequências de ter sido humilhada e subjugada, e nenhum motivo que justificasse o comportamento de Alphonse poderia diminuir o mal que o abuso psicológico havia causado a ela.
Allen imediatamente se preocupou com o estado na amiga e perdeu a conta de quantas vezes disse que não havia necessidade para desculpas pelo incidente na mansão. Lena e Lavi também tentavam se aproximar e até mesmo Kanda pensava duas antes de falar de forma rude com ela. Mesmo assim, Breeze continuava com o olhar cabisbaixo e a única pessoa que conseguia tirar dela mais emoções era Alma.
Assim, Alma, que antes estava o tempo todo a disposição de Kanda e Lavi, começou a ter com quem conversar sobre assuntos diferenciados e, quando menos esperavam, Alma e Breeze começaram a desenvolver uma forte amizade que acarretou em uma loira que, aos pouquinhos, passou a buscar mais resiliência e superação.
—Eles formam um belo casal. — O albino comentou baixinho, terminando de ajeitar a roupa de Kanda e deixando-o apresentável. Durante todo o tempo, tentou manter-se alheio ao olhar intenso que ele lhe dava, mas ainda assim havia um rubor em suas bochechas.
—Alma não deve nem saber o significado de casal. — Yuu finalmente falou, a voz profunda devido ao desuso. Allen revirou os olhos e começou a andar pelo mesmo caminho que os amigos tinham feito.
—Só porque eles não ficam se pegando igual o casal de coelhos e nem brigando como cão e gato como nós dois, não quer dizer que não saibam o que é ser um casal. — Allen argumentou, inconsciente de como estava pegando as manias de fala de Kanda. Yuu sorriu contido ao ouvi-lo falar daquele jeito e começou a segui-lo, ambas mãos no bolso da calça.
—São um casal frio então.
—Desde quando você fica reparando em que tipo de casal os outros são? Bakanda, você não era de prestar atenção na vida alheia! — Alfinetou, arqueando uma sobrancelha para implicar com o mais alto.
O moreno revirou os olhos.
—É o Alma, Moyashi.
E, ainda que ele tivesse dito apenas uma sentença solta, Allen não pôde deixar de concordar. Era o Alma que estava, finalmente, seguindo com a própria vida e aquilo era algo que Kanda não podia ignorar.
—Eles não são frios, só são discretos. — Disse, mas em um tom muito mais brando como se tivesse contemplando o fato de que o amigo estava liberto.
Parando para pensar, Alma era exatamente o tipo de pessoa que sentaria com o seu amor em uma grama e ficaria em silêncio olhando para o quão belo é o céu, ou até mesmo contemplando a beleza das flores que sobrevivem à lama.
O pensamento fez o albino se perguntar como estaria o casal de amigos dali alguns anos e, enlaçando um dos braços com o de Kanda, saíram do prédio em direção ao ginásio do Kugeka.
Naquele dia, também estava havendo a cerimônia de encerramento da Classe Normal no ginásio público do outro lado do terreno.
Enquanto andavam, Allen podia ver as grades e o portão com o grande K ornamentado separando as duas classes. Também podia ver alguns alunos andando do outro lado, uns rindo, outros olhando as figuras da classe especial que raramente apareciam.
O albino poderia ser um deles.
Se aquele dia no bar não tivesse acontecido, ele estaria do outro lado das grades, olhando para os alunos da classe especial e pensando o quão arrogantes e mimados eles eram. Se tivesse continuado com os planos que tinha no início daquele ano letivo, ele jamais teria um vislumbre da visão de mundo que os membros do Kugeka tinham; jamais teria reconhecido que, não importa a classe social, todos os humanos carregam suas dores.
Caminhando ao lado de Kanda, ele sabia que alguns alunos do lado de lá cochichavam e provavelmente riam de sua posição. Alguns desses poderia simplesmente ser um dos colegas de classe que tivera durante os dois primeiros anos do colegial, pessoas que o conheciam e que agora poderiam muito bem destratá-lo simplesmente por ter se tornado um Honey.
Mas Allen entendia. Ele faria o mesmo se estivesse do outro lado – na verdade, ele havia feito.
É difícil para as pessoas ter empatia e se colocar no lugar do outro, principalmente quando as realidades são tão distantes. Cada um sempre se julga como o mais correto, o mais esperto, o mais justo. Ninguém tenta realmente entender a situação do outro porque é mais fácil julgar do que ouvir.
Dessa forma, o albino tinha certeza que muitos reprovaram a sua decisão de permanecer um Honey. A probabilidade de ter rumores ruins sobre a sua pessoa era grande. Muitos podem ter dito que ele havia estragado o próprio futuro – tanto sendo Honey, como mudando de carreira.
Porém ser feliz e ter convicção de que buscava a própria realização era o motivo do porquê Allen não se incomodou com os olhados julgadores do outro lado da grade. Saber que o caminho que tinha escolhido estava lhe fazendo feliz era a força da qual precisava para olhar para frente e continuar andando, independente do que pensavam de si ou de Kanda ou de qualquer escolha que tivesse feito.
Quando chegaram à porta do ginásio, Allen se soltou do moreno e tentou se manter dois passos atrás, o que era um sinal de respeito do Honey para com o seu Mestre, no entanto, assim que percebeu a intenção dele, Kanda agarrou sua mão com naturalidade e entraram de mãos dadas, lado a lado.
Alguns professores e alguns alunos olharam para o de rabo de cavalo com a expressão estupefata, não acreditando no que os próprios olhos viam, mas Kanda permanecia altivo e com a expressão neutra. Já Allen, apesar de ligeiramente acanhado, mantinha os olhos atentos à toda a decoração do local, o que deixava muito claro o tratamento especial que os Herdeiros recebiam.
O chão de madeira do ginásio estava tão polido que chegava a brilhar e havia duas fileiras de cadeiras separadas por um tapete vermelho, o qual levava até um púlpito de vidro com um K ornamentado. Havia uma estrutura com cortinas vermelhas estendidas e uma faixa parabenizando os formandos daquele ano. Duas fileiras de cadeiras estavam atrás do púlpito, de frente para onde os alunos se sentariam, e nelas estavam sentados os professores.
O diferencial, no entanto, era a climatização do ambiente, as roupas formais que todos usavam e a mesa com quitutes e bebidas, onde boa parte dos alunos estava bebendo e conversando.
Isso até que Alma subisse no pequeno palco e pigarreasse ao microfone. Lentamente, os Mestres e Honeys procuraram um lugar para se sentar, cada um deles obrigatoriamente com o Honey ao seu lado direito, o que significava lealdade, confiança e fidelidade.
Enquanto Kanda fazia tudo no automático, como se já tivesse muito acostumado com aquele ritual, o albino parecia um pouco admirado com aquela cerimônia. Isso, no entanto, não impediu que ouvisse alguns cochichos sobre a raridade que era ver a cadeira ao lado de Kanda ser ocupada. Quando olhou para o moreno, esperava ver algum rancor estampado no rosto dele, mas, para sua surpresa, ele permanecia neutro, os ombros relaxados como se há muito esperasse por aquele momento.
Allen não soube dizer se o momento que ele esperava era o dia em que se veria livre daquele sistema ou o dia em que teria alguém como seu braço direito e, incapaz de continuar com teorias que não alteravam a realidade, entrelaçou seus dedos aos dele e prestou atenção à Alma.
Lavi, Lenalee e Breeze estavam ao seu lado na mesma fileira e aos poucos, os burburinhos cessaram.
—Agora que estão todos presentes... — Alma passou o olhar pelo ginásio e viu que todos os Mestres estavam presentes, raros os que tinham uma cadeira vazia ao lado. — Vamos dar início à sessão de encerramento.
Houve todo um discurso de agradecimento ao auxílio dos professores, agradecimentos aos ensinamentos que os guiariam dali para frente. Alma relembrou que ainda que todos seguissem caminhos distintos e tivessem visões de mundo diferentes, todos ainda estariam ligados pelo Sistema, pelos negócios, pelas famílias. A tradição era que o Kugeka auxiliasse na formação de aliados comerciais e por isso aqueles formandos se conheciam desde pequenos, quando tinham sido matriculados no colégio.
E quando Alma – provavelmente contra a sua vontade – começou a exaltar o Sistema Honey, Kanda estalou a língua e cruzou os braços, muito insatisfeito com a quantidade de merda que a Ordem Negra era capaz de fazer.
Com sinceridade, o moreno jamais imaginara que a história de seu pai com a sua mãe se repetisse com ele, julgando os desastres do passado. Era raro um Honey continuar com seu Mestre após o colegial. No entanto, ali estava o corpo de Allen gentilmente emanando calor ao seu lado, dando-lhe a sensação de que, depois de muito tempo, não estava sozinho e o pensamento de ter alguém que se importasse com ele – e com quem ele se importava – fazia o seu peito palpitar em ansiedade com os próximos acontecimentos.
Ao seu lado, Allen tentava ao máximo manter sua atenção no discurso de Alma, que logo depois de algumas frases motivadoras, se encaminhava para o seu final. Ele, na verdade, estava se sentindo tenso porque sempre era estranho por um ponto final em um projeto que parece muito grande – o projeto no caso era o "Ser Honey de Kanda Yuu".
O albino não fazia ideia do que aconteceria dali em diante, apesar de ter discutido superficialmente sobre Moscou com o moreno. Apesar dos ligeiros planos e de Mana sendo cada vez mais conivente, muitas coisas ainda eram desconhecidas e o desconhecido e incontrolável sempre é amedrontador.
—Como tradição, a retirada dos brincos. — Alma disse calmamente à medida que dois homens com máquinas se aproximavam de cada uma das filas de cadeira.
A frase foi tão chocante que Allen não soube reagir.
Como assim retirar os brincos? Eles não ficavam com os donos?
Olhando os pares de Mestre e Honey se alinharem em frente aos "retiradores", o albino notou que todos pareciam acostumados com a situação e continuavam conversando tranquilamente.
Quando Kanda se levantou do seu lado, Allen segurou a manga do terno dele de forma instintiva, olhando para cima de forma desesperada.
Como assim retirar os brincos, a única coisa sólida que memorava o relacionamento dos dois? E como ele não sabia que isso iria acontecer? Por que ninguém o avisou?
—Moyashi, precisamos retirar os brincos. — O moreno disse olhando para baixo com a expressão lívida, como se a cena do garoto desorientado não o afetasse.
Ele não se importava que a simbologia estava sendo desfeita?
—Vamos, Moyashi. — Parecendo alheio às perguntas mudas do pequeno, Yuu o puxou de forma gentil, enlaçando um braço pela cintura ligeiramente afinada e conduzindo o garoto para a fila.
Allen se sentiu como se fosse para um abatedouro. Até mesmo o barulho era igualmente assustador.
O processo de retirada de brincos era insensivelmente rápido. A quebra de contrato era imediata assim que o "bip" soava após o Mestre digitar a senha das travas dos brincos.
Era assim que era feito o Drop? Um segundo e toda uma ligação desfeita?
A cada passo que dava, Allen sentia o coração batendo cada vez mais rápido. Seu impulso dizia para não deixá-los tomarem aquele acessório que evoluiu de alvo de seu ódio para um símbolo de seu amor. Não deixarem tomar um brinco que mudou toda a sua vida.
—K-Kanda, você não acha muito radical tirar os brincos? — Perguntou, tentando parecer inabalado quando se via cada vez mais perto daquele homem assustador com a máquina que mais parecia um grampeador na mão.
—É tradição manter os brincos guardados no museu deles. — Kanda disse, a voz monótona e parecendo levemente irritada. — É algo como manter os brincos para depois mostrar que tiveram parte na vida de empresários importantes. — Ele estalou a língua, Allen engolindo em seco quando apenas duas pessoas estavam na frente deles.
Dali ele conseguia ver como o homem engravatado oferecia a máquina para o Mestre digitar a senha e depois colocava o lóbulo direito entre um espaço do aparelho-grampeador que emitia uma luz vermelha e, depois de um "bip", o brinco caia direto na mão do profissional.
—S-sim mas é o último ano, eles poderiam pelo menos-
—A senha, senhor. — A voz do homem desconhecido soou como um tambor pelo corpo do albino. O sangue correu tão rápido pelo seu corpo que, momentaneamente, sentiu o mundo apagar e uma vertigem se apossar de seus membros.
Ainda segurava a manga do terno de Kanda, mas ele não demonstrava perceber como o garoto estava tremendo com aquela demanda que, para ele, era desnecessária.
Por que tirar o brinco? E porque Allen, que tanto odiou e quis tirar aquele brinco, estava à beira do colapso só de pensar em não tê-lo mais?
Enquanto a cabeça do albino rodava, ele sentiu a urgência de sair correndo dali, a visão fechada permitindo que ele visse e demorasse para raciocinar os dedos longos do namorado digitando uma senha na máquina.
O "bip" que se seguiu foi o de Kanda e a sensação de quando sentiu seu lóbulo sendo posicionado foi semelhante à um martelo enrolado em pano sendo socado na boca de seu estômago.
Allen realmente quis vomitar, o suor frio escorrendo pela mão livre enquanto a outra agarrava com força no braço de Yuu, silenciosamente rogando para que ele não deixasse outros separá-los daquela forma fria e impessoal.
Se a vida quis ser filha da puta, tinha conseguido. Forçadamente, lhe obrigaram a carregar o peso de um brinco e suas responsabilidade que abalaram a sua vida. Forçadamente, lhe arrancaram um brinco que deixou um vazio tanto em sua orelha quanto em seu coração, e agora Allen sentia-se sem direção.
—Não doeu, huh, Moyashi? — Kanda provocou, abaixando para dar um beijinho na bochecha do garoto, o sorriso satisfeito passando despercebido pelo albino desnorteado.
Mas doeu. Doeu realmente. Ele se sentia, sem exageros, com uma parte faltando.
Com a cabeça pulsando, Allen precisou se esforçar para ver que Kanda tinha voltado a enlaçar suas costas com um braço e o estava levando para fora do ginásio, que, diante do olhar desfocado do pequeno, parecia uma pintura à pinceladas rápidas e sem contornos.
Era provável que só se manteve andando e sustentando o próprio peso porque Yuu estava guiando.
Allen sinceramente não esperava ter uma crise de ansiedade só porque retiraram um brinco de sua orelha, mas a agonia era tão real que tudo o que podia sentir era vontade de chorar pela incapacidade de ver a flor de lótus talhada sempre que se olhasse no espelho.
Não era como se estivesse reduzindo o que sentia por Kanda apenas em afeição pelo brinco. É claro que haviam todas as conversas, todos os momentos compartilhados, todas as risadas, todos os singelos momentos que Kanda mostrava se importar. E havia o juramento que fizeram no carro, no dia dos namorados, antes da primeira – e não única – vez deles.
O "eu prometo de amar".
Só que era inegável o fato de que, ainda que tivesse certeza que nunca esqueceria aquelas memórias, o brinco ajudava a relembrar a sensação esquisita na barriga toda vez que estava longe do namorado.
Mas agora, o acessório não estava mais lá. Tinha ido embora. E, enquanto Kanda dirigia habitualmente até a casa do albino, uma sensação amarga foi se formando no estômago do pequeno.
Agora, quando estivesse sozinho, em que iria se agarrar? Quando sentisse vontade de nunca mais falar com Kanda – geralmente após o moreno ser estúpido – o que iria usar para lembrar o quanto o amava? Na verdade, e se Kanda não lembrasse que o amava de volta?
—Moyashi, eu te vejo hoje à noite? — Ele perguntou, automaticamente puxando Allen do espiral de pensamentos negativos em que ficara focado durante toda a viagem. Eles poderiam ter usado aquele tempo para discutir tanta coisa! Allen poderia ter falado sobre Mana estar jogando indiretas sobre Megan conhecer Allen em troca de ele conhecer Kanda! Ele poderia ter falado que queria ir para a casa do moreno depois de hoje à noite – dormir lá também! Ele poderia ter dito que nada mudaria entre eles mesmo que o brinco ainda não estivesse lá, mesmo que ele já não fosse mais um Honey.
Todavia, quando se deu conta, já estavam em frente à sua casa e o tempo tinha acabado.
—S-sim... — Murmurou sob o olhar expectante do moreno, que o encarava profundamente como se fosse capaz de lê-lo por inteiro.
Destravando o cinto de segurança, o albino abriu a porta do carro, esperando sair sem que Kanda pudesse notar seus olhos chorosos e expressão magoada.
Se ele visse o seu rosto agora, saberia o que estava de errado? Kanda, que tinha se tornado tão cuidadoso e observador com ele, saberia e daria um jeito? Ou ele simplesmente não tinha percebido o estado atormentado em que estava?
Sobressaltando-se quando sentiu os dedos fortes se fecharem em torno de seu pulso, Allen sentiu a outra mão dele encaixar em seu rosto, guiando-o para cima de encontro ao do moreno.
Em um segundo, os lábios estavam esmagados um contra o outro como se não houvesse separação entre os corpos. E, ah, como Allen queria que fosse assim.
Deixando o moreno conduzir o beijo enquanto decaía em pensamentos negativos, ele sentiu a língua quente e molhada adentrar a sua boca, roubando um suspiro surpreso quando a mão, que estava originalmente em sua bochecha, caiu para apertar a cintura com moderada força.
Como se estivesse dado um tranco no corpo do albino, Kanda puxou o rosto para trás, roubando toda a respiração do Moyashi, que agora o olhava como se perguntasse de onde vinha aquela necessidade de abalar o mundo dele.
Allen já não estava abalado demais? Por que Kanda fazia questão de chacoalhá-lo ainda mais e relembrá-lo de como não queria ficar um segundo sequer separado dele?
—Hoje. De noite. Te vejo lá. — Foi a única resposta que Yuu deu, os olhos em chamas enquanto encarava as bochechas rosadas e o olhar confuso e desorientado do garoto. Allen parecia magoado, mas Yuu, apesar de querer beijar a tristeza fora do pequeno, não podia fazer nada.
Ainda.
Com um aceno tímido e mordendo o lábio inferior, Allen claramente voltou a dar atenção aos próprios pensamentos enquanto saia do carro e fechava a porta com cuidado.
Em uma partida silenciosa, Kanda pôs o veículo em movimento e seguiu em velocidade devagar até o fim da rua, quando dobrou em uma rua desaparecendo da visão do albino.
Com a visão do carro preto desaparecendo, Allen se perguntou quando voltaria a vê-lo e, sentindo-se emocional e estúpido porque havia o "hoje à noite", virou-se para entrar em casa e chorar uma perda que nem tinha acontecido, os dedos procurando tolamente um símbolo que não estava mais lá.
—---AW&YK-----
Quando Allen parou em frente à enorme parede preta decorada com um toldo e um tapete vermelho, uma sensação forte de nostalgia se apoderou dele.
Depois de ficar encolhido na cama a tarde inteira, ele tinha se posto de pé e empurrado a sensação estranha da falta do brinco para um canto esquecido, disposto a não estragar a noite de ninguém por causa de uma besteira daquelas.
E ali estava ele.
Com tudo o que tinha acontecido nos últimos meses, o albino nem se lembrava com precisão de quando fora a última vez que estivera naquele lugar.
Skinn Bolic, como sempre, guardava a porta do Noah´s com uma expressão brava, torcendo o nariz para cada pessoa que atravessasse a porta que levava para dentro do bar. Ele parecia exatamente o mesmo, vestindo um terno preto e agindo como sempre agiu.
Olhando assim, as coisas pareciam congeladas no tempo, como se nada tivesse mudado, quando inclusive ele mesmo havia passado por uma grande mudança.
Respirando fundo e mantendo o ar preso nos pulmões por uns segundos, Allen considerou o que encontraria lá dentro. Sabendo que estava ali porque a Classe Especial estava se despedindo daquele lugar que, há muito, foi um ponto de encontro, Allen viu-se preso na mesma cena que havia se desenrolado quase um ano atrás.
—Allen Walker. — A voz do segurança estrondou como um trovão por cima de sua cabeça e ele deu um sorriso envergonhado para o olhar severo do homem.
—Bolic, há quanto tempo!! — Tratou de dizer, aproximando-se mais do outro e sorrindo um sorriso forçadamente simpático. Era absurdamente estranho voltar a um lugar que já não fazia parte da sua rotina. Não que ele não considerasse, ou amasse mais o Noah's ou a própria Ark. É só que, aos poucos alguns fios vão se desfazendo, algumas gavetas de memórias vão sendo fechadas e outros sentimentos vêm para nos tornar outras pessoas.
Quando isso acontece, até mesma a nossa percepção da realidade muda. E, para Allen, aquele lugar não mais se encaixava em sua rotina.
—Traidor. — A palavra veio ofensiva, o homem ainda olhando para frente como se não se desse ao trabalho de olhar a figura albina bem mais baixa que ele.
Para qualquer pessoa de fora, aquilo teria soado extremamente assustador, mas para Allen havia mais que uma ofensa.
Agora com um sorriso verdadeiro e triste, Allen encostou uma mão enluvada nos braços cruzados do segurança, que permaneceu impassível diante do ato. Algumas pessoas que entravam no recinto olhavam com curiosidade para o garoto com aparência angelical falando com um armário.
—Acho que nós somente seguimos caminhos diferentes, huh grandão? — Disse, a voz macia e apaziguadora. — Isso não quer dizer que eu não posso te trazer doces escondido ainda, sabe? — Allen acrescentou, uma pitada de diversão quando o homem finalmente desviou o olhar para ele por alguns segundos.
Com um bufo e voltando à postura intimidante, Skinn Bolic deu um passo para o lado e soou novamente.
—Entre, Allen Walker. O samurai já está lá dentro. — Disse, os olhos novamente grudados em algum ponto adiante.
O Walker deu outro sorriso, agora para agradecê-lo, e retirou a mão dos braços dele para entrar no local. Assim que passou pela porta, no entanto, a voz do homem soou baixa, como um aviso.
—Tiky Mikk está de volta.
E, com isso, um arrepio tomou o corpo do albino, que não esperava um encontro com o moreno de olhos amarelados naquela noite. Allen acreditava que Tiky ainda estaria fora do país, pois lembra-se vagamente de Road dizer algo sobre ele ter ido ajudar na formação de filiais da Noah's Ark.
Então ele estava de volta.
Respirando fundo, começou a andar para dentro do bar, a postura perfeitamente ereta simulando segurança e os sapatos batendo contra o piso de madeira polido, que lembrava casca de árvore.
Apesar do tempo que passara afastado daquele lugar, Allen usaria as mesmas palavras para descrevê-lo.
A atmosfera britânica preenchia o salão em formato de cúpula. O majestoso lustre de velas falsas suspenso por tiras de aço emitia luz contra os vitrais coloridos, que refletiam feixes luminosos capazes de sustentar uma aura divina.
Havia mesinhas de madeira escura, dessa vez sem toalhas brancas, decoradas apenas com uma única rosa vermelha em um copo vazio em cada mesa. Em frente a elas, um palco exibia um piano negro que tinha como plano de fundo uma pesada cortina escarlate. E, para completar, o bar.
O extenso balcão que fazia uma meia circunferência ao redor da cúpula, o que dava uma visão perfeita para o palco onde havia as apresentações pelas quais o Noah's era conhecido. Uma olhada para o local e Allen viu Jasdero e Devit ocupados demais para notá-lo enquanto deslizavam copos de bebidas e drinks para a massa de Herdeiros recém formados.
O lugar estava cheio. Não ao ponto de ser sufocante, mas todas as mesas estavam ocupadas e havia aqueles que ainda estavam em pé e estacionados perto do bar. Todos muito bem vestidos no traje padrão escolhido, se servindo de bebidas caras e exalando luxo e arrogância.
Não havia mudado muita coisa, para ser sincero.
Allen ainda se lembrava de como detestava a futilidade que aquelas pessoas passavam, a frieza e a solidão transmitidas em seus olhos. Agora, todavia, estando incluído na Classe Especial, sentia-se verdadeiramente triste por saber que muitas daquelas pessoas eram além daquela imagem egocêntrica que passavam e, em silêncio, torceu para que, algum dia, elas alcançassem a paz.
Ajustando o blazer que vestia e checando o cabelo arrumado para trás com gel, Allen ignorou os fios platinados que caiam em seu rosto e procurou com o olhar a mesa onde um determinado grupo de pessoas se reunia.
Ele riu porque Lavi não deixava nunca de ser um ponto de referência eficaz.
Caminhando rapidamente enquanto se esgueirava entre os corpos de ex-Mestres e ex-Honeys, Allen abriu um sorriso brilhante para os amigos assim que se aproximou da mesa. Lena e Breeze estavam com vestidos vermelhos com babados pretos e os garotos, inclusive ele, estavam com calça social e blazer preto e vermelho, uma clara simbologia ao uniforme da Ordem.
Kanda não deixou de beber o copo com whiskey que tinha na mão quando o avistou, apenas levando os lábios à bebida e olhando o sorriso do garoto com olhos avaliadores.
Havia uma cadeira vazia especialmente ao lado do moreno, que mantinha um braço apoiado em seu encosto, e Allen sentou-se nela enquanto cumprimentava os amigos.
—Boa noite. — O albino disse assim que se ajeitou e, em retaliação por mais cedo, se inclinou para deixar um beijo na bochecha de Kanda, que arregalou minimamente os olhos. Allen o olhou com um sorriso provocador, o que contrastava com a sombra que estava escondida por trás das orbes peroladas.
Yuu sabia o motivo daquela melancolia, mas deixaria Allen mentir mais um pouco antes de fazer algo. Assim, ele apenas tomou mais um gole generoso da bebida, fazendo questão de manter o gosto na boca, e enlaçou o pescoço do albino com o braço, trazendo-o para si.
Quando sentiu os lábios serem tomados pela maciez da boca de Kanda, suas bochechas coraram ao ter a noção de que estavam sendo observados. Mas como não tinha escapatória – e nem queria escapar –, fechou os olhos e apoiou uma das mãos na coxa dele, sustentando o peso do corpo quando tremeu involuntariamente ao ter a língua dele contornando seus lábios em um pedido óbvio.
Allen sentiu o gosto forte de whiskey invadir sua mucosa bucal e estremeceu quando a língua de Kanda se enlaçou com a sua, convidando-o para participar. Como o corpo do albino sempre o traia quando o moreno estava envolvido, ele retribuiu o beijo de bom grado e só se separaram quando Lavi começou a gritar comemorando que, wow, eles tinham passado dos 20 segundos!
Encarando o ruivo com uma carranca, Yuu estalou a língua, voltando os lábios inchados pelo beijo ao vidro do copo e sorvendo mais da bebida. Allen se perguntou quanto ele já tinha bebido, mas ficou mais preocupado quando Lena o lançou um olhar insinuante do outro lado da mesa, piorando as bochechas coradas que já ostentava.
Quando um garçom passou pela mesa, Allen pediu um drink de vodka com morango e Kanda pediu outra dose da própria bebida, que não demoraram muito para chegar.
—Quanto você já bebeu, Bakanda? — Perguntou, aproximando-se mais do ouvido dele para que ele pudesse ouvir. Yuu pareceu gostar daquilo e puxou Allen de encontro a seu corpo, claramente mais aberto à contato físico agora que já tinha tido uns goles.
—Insuficiente para me deixar bêbado. — Ele respondeu, mas o olhava com o olhar lânguido, quase como se o adorasse. Allen arqueou uma sobrancelha, o corpo encostado no peitoral de Kanda e tentando não dar atenção a urgência de beijar os lábios inchados de novo. — Que droga é essa, Moyashi? — Perguntou, pegando a taça de Allen entre os dedos adornados por anéis pratas e torcendo o nariz para o cheiro doce.
—Vodka com morango. — Disse, palavras saindo baixas e lentas quando assistiu bem de perto ele levar à taça aos lábios e provar. De onde sua cabeça estava encostada no ombro, Allen tinha visão privilegiada dos lábios inchados, queixo anguloso, nariz afinado e cílios cheios e negros de Kanda. E, mesmo que odiasse dividir comida, aquela era uma visão que ele não se importaria de observar, ainda que Yuu tomasse toda a sua bebida.
Mas, bem, não foi o caso. Em segundos, o moreno afastou o líquido com uma expressão desgostosa e Allen riu quando ele o entregou a taça.
—Nojento. — Foi a única palavra que disse, pegando o próprio pedido para retirar o gosto doce da boca. O garoto soltou pequenas risadinhas e não se importou em sair do meio abraço enquanto ambos começavam a prestar atenção no que Lavi falava e gesticulava.
Bem, não era como estivessem realmente prestando atenção. Kanda parecia mais focado em circular as pontas dos dedos no braço coberto de Allen e esse se questionava se o moreno era um bêbado carinhoso.
—Como você está? — A voz soou baixa e inesperada, cortando o fluxo de pensamentos de Allen, que o olhou confuso.
—Bakanda?? — Talvez Yuu tivesse bebido demais e já era hora de tirar o whiskey da mão dele. O garoto estava pronto para tomar a decisão quando focou seus olhos nos dele e viu a serenidade e calma combinarem de forma única com o tom profundo das pupilas dilatadas.
Allen sentiu-se como se Kanda pudesse lê-lo como um livro e, de repente, não estavam num bar. Estavam presos no olhar um do outro.
—Recuperado? — E os dedos longos e gélidos tomaram seu lóbulo direito, sinalizando sobre o que estava falando.
Então Kanda tinha percebido!
O albino franziu as sobrancelhas rapidamente e fez um biquinho descontente enquanto voltou a se esconder contra o ombro dele, balançando ligeiramente a taça nos dedos.
—Você está vendo demais, Bakanda... — Murmurou, mas não havia confiança nenhuma no que dizia, apenas uma provocação manhosa e teimosa, típica de Allen.
Yuu riu como se tivesse ouvido uma piada inacreditável, lábios selados, mas peito chacoalhando. Allen o olhou para saber sua expressão, porém os olhos negros estavam satisfeitos enquanto olhavam para a frente, lábios puxados ligeiramente em um sorriso irônico.
Bem, isso até ele ver algo que o fez empurrar os cantos da boca para baixo e franzir as sobrancelhas com desprazer.
Percebendo o corpo dele enrijecer, o albino seguiu o olhar até encontrar aquele que não via há muito tempo.
Allen imediatamente se empertigou na cadeira, sentado reto, enquanto Tiky Mikk vinha ao encontro deles, cabelos também arrumados para trás, olhos dourados cintilando em divertimento e um sorriso colado nos lábios. Kanda também se endireitou, olhos deixando de aparentar aéreos para ostentar impetuosidade. Ele deixou o braço cair dos ombros do albino e, ao invés, repousou a mão no topo da coxa dele, dedos pressionando levemente.
Allen não soube se estremeceu pelo toque íntimo ou pela voz rouca aveludada e sedutora que conhecia.
—Shounen, há quanto tempo! – Tiky aproximou-se da mesa, chamando a atenção de todos que estavam ali. Instintivamente, Breeze se aproximou de Alma, encarando com olhos azuis cheios o desconhecido. Lenalee, que já sabia a história entre Allen e Tiky, se mexeu desconfortável e Alma reconheceu quase que imediatamente aquele homem, lembrando-se de fotos antigas que já tinha visto.
Se antes Allen teve que lidar com o passado de Kanda, agora Yuu se via cara a cara com o passado do albino.
—Tiky... – O garoto respondeu, o sorriso desconfortável enquanto era alvo das orbes douradas que cintilavam, parecendo cheias de críticas e perguntas não ditas. Ao seu lado, a aura de Kanda crescia, mas ele mantinha-se calado, apenas olhando em desafio para o dono do bar. – Eu tinha ouvido que você estava fora? – Tentou, mantendo o máximo possível de distância entre os assuntos e correndo o olhar prateado pela feição dos amigos, numa tentativa de escapar do olhar julgador do Noah.
Tiky permaneceu em silêncio, o sorriso provocador nos lábios, mas antes de responder, Allen notou que a confiança do homem foi abalada por algum motivo. Estranhando não ser mais capaz de afetar o albino como fazia antes, Tiky, pela primeira vez, vagou o olhar para Kanda, que o encarava impassível.
A tensão entre os dois foi inegável, ainda que o contato visual tivesse sido mantido por poucos segundos. Quando o de olhou dourados voltou o olhar para Allen, no entanto, era visível como a postura de Tiky havia mudado ligeiramente. Apesar de não perder o ar sedutor, agora Tiky o olhava não como desafio, mas como se realmente questionasse algo silenciosamente para o albino.
Ele falou depois do que pareceu horas de quebra temporal.
—Ah, a Road comentou? – A voz dele, no entanto, pareceu inabalada, o tom macio sendo acompanhado por uma risada social. – Estou de volta a pedido do Conde, mas devo retornar à Inglaterra em alguns dias. Ah, shounen! – Ele arregalou os olhos de maneira teatral e apontou para cima, onde ficava a cabine do Dj. – Adivinha quem está aqui hoje?
Allen inclinou a cabeça verdadeiramente curioso, afinal de contas, de quem Tiky poderia estar falando? Ele imediatamente associou a pergunta com Cross ou, quem sabe, Neah, mas antes que pudesse replicar, Tiky continuou, como se estivesse apresentando uma peça de circo.
—O Conde!
O albino estava ciente dos olhares confusos dos amigos da mesa. Muito provavelmente, não sabiam quem era o Conde do Milênio, já que não tinham nenhuma relação com a Ark. Kanda, no entanto, não pareceu estranhar o nome em si, mas sim o estado surpreso que se apossou do garoto. Ele sentiu os dedos firmes apertarem a carne de sua coxa, uma forma de reassegurar que estava ali.
—A-ah...Mas o Conde não está sempre muito ocupado? – Respondeu, tentando sondar por que Tiky lhe falaria algo assim, porém não foi preciso muito mais do que o olhar questionador que estava estampado em suas feições finas.
—Bem, você sabe, de vez em quando, o Conde gosta de supervisionar a família. – Dando de ombros, ele disse como se fosse algo normal, mas então passou da expressão lívida para uma teatralmente preocupada. – Ah, shounen, mas ele ainda estava chateado com você... Ainda se pergunta e se culpa por você ter saído da Ark.
Ali estava, a pontada de veneno e a decepção. Tiky estava claramente decepcionado por Allen ter decidido não mais ser o mascote dos Noah. Ele se sentiu traído porque, agora, Allen não era mais apenas o garotinho de bochechas coradas que o seguia e o admirava. Ele tinha escolhido o próprio caminho, um em que Tiky não tinha mais influência.
Se dando conta da tensão e da clara indireta que o moreno o deu, Allen engoliu em seco e abriu a boca para dar uma resposta vazia como aquela que deu à Bolic. Todavia com Tiky as coisas nem sempre eram simples assim e o tempo que ele perdeu tentando pensar em uma resposta para o homem, foi o tempo em que braços finos rodearam o seu pescoço por trás.
—A-lle-ennn! – A voz fina e infantil de Road soou alta em seu ouvido e ele se encolheu, fechando os olhos com o tom ecoando em sua cabeça. O bufo que Kanda deu foi audível e Allen sentiu três tapinhas em sua coxa, sinalizando que ele já estava começando a se irritar.
Para ser sincero, o albino estava até muito admirado que Kanda tinha se mantido calado até então, dando-lhe espaço para resolver os próprios problemas.
—R-road-chan... – O Walker manejou em dizer, a voz meio estrangulada por falta de ar e logo ela começou a falar animadamente.
—Alle-ennn!!! Você já ficou sabendo que o Conde está por aqui? Ele está com saudades!!
—S-sim, acabei de saber...
—Você devia tocar para a gente, Allen-chan!!! A música do décimo quarto!! Tenho certeza que o Conde vai a-do-rar!! – Ela se desvinculou de seu pescoço, dando a volta na mesa para ficar logo ao seu lado e ser capaz de olhá-lo no rosto. Road balançou o dedo em cada sílaba que falou, e Allen arregalou os olhos com a sugestão.
Tiky o observava minuciosamente e antes que o garoto tivesse tempo de negar veemente, ele voltou a sorrir sedutor, desafio transbordando a cada palavra que dizia.
—Eu acho uma boa ideia, shounen. Vai ser como nos velhos tempos... como uma despedida.
Allen abriu a boca para negar polidamente, mas assim que seus olhos se focaram nas orbes douradas, ele novamente perdeu a fala.
Perder uma relação com alguém que tanto estimou por anos era uma sensação estranha. Era um sentimento de não mais conhecer aquela pessoa do presente, apenas mantendo laços com a pessoa que ela foi no passado. Ele sentia como se aquela realmente fosse uma despedida definitiva.
Talvez fosse essa sensação de respeito aos velhos tempos ou talvez fosse porque, no fundo, o Allen do passado ainda continuaria amando o Tiky do passado e amando o tempo que eles passaram juntos; amando o que aquele homem que nunca o viu como além de um “shounen” o fez sentir, ainda que sem querer.
Ele podia já ter colocado uma pedra naquela história, e tinha certeza que não se arrependeria. Um olhar para o moreno sentado ao seu lado e Allen soube que estava do lado certo da mesa. Allen tinha que exorcizar os demônios de seu passado e, enquanto se levantava, sob o olhar dos amigos, ele teve uma certeza.
Allen Walker não era um Noah. Ele era um Honey da Ordem Negra, não importa se com ou sem brinco, se seguindo ou não as regras. Um Honey fora das convenções, com certeza, um que provavelmente tinha mais o Mestre aos seus pés do que o contrário. Um que ousou passar por cima dos ideais abusivos e que descobriu a mais bela flor, afundando sozinha na lama.
Ele olhou para trás enquanto seguia atrás de Road e Tiky, e Kanda, com seus longos cabelos negros soltos, o olhou no fundo dos olhos. Foi só o que foi preciso e, com um aceno de cabeça, Allen seguiu até o camarim.
Era a última vez que ele tocaria aquela música que sabia de cor as notas. Ali, ele abriria, definitivamente, os portões da Ark e iria embora.
—--AW&YK---
—Shounen, recebemos dois pedidos de músicas. – Tiky entrou pela lateral assim que a cortina desceu após dez minutos de uma versão estendida daquela que era a música tema do décimo quarto.
Allen, que ainda estava sentado no banquinho em frente ao piano, ergueu o olhar prateado para o mais velho e o viu colocar uma garrafa de água e um pedaço de papel no topo do piano. Dando uma olhadela rápida para os objetos, ele voltou a olhar a figura do Noah, que, até então, não o tinha olhado nos olhos.
—Você se importa de tocar? – A pergunta saiu em um tom amargo e Allen finalmente teve as orbes douradas para si. Tiky, agora, estava sem a máscara de Noah, sem o sorriso sedutor, sem o desafio brilhando através das íris.
Allen não foi capaz de sorrir. Ele observou a feição traída do moreno, mas ainda assim, apesar de se sentir mal, não se sentia arrependido.
—Como uma despedida... – Sussurrou, levantando-se do banco e pegando a garrafa de água e o pedaço de papel entre as mãos enluvadas. Eram duas músicas famosas que ele adorava.
Com um aceno duro de cabeça, o moreno virou-se e fez que ia sair, enquanto murmurava que Allen tinha dez minutos de pausa. Sem pensar muito, o albino apressou o passo até ele e o abraçou por trás, prendendo os braços de Tiky para baixo. Não se arrependia da escolha que tinha feito, mas aquilo era como uma despedida.
Presos naquele contato que, agora, parecia não pertencer aos dois corpos, o Walker ouviu Tiky perguntar em tom áspero.
— Mana já sabe?
Allen respondeu com um aceno de cabeça, que Tiky reconheceu pelo modo como a cabeça dele esfregou contra as suas costas.
—Você realmente gosta do samurai?
Outro aceno de cabeça, que instituiu um silêncio de alguns segundos.
Quando a voz do mais velho soou novamente, ela estava mais suave, ainda que ligeiramente contrariada. Ele soava como um desistente.
—Então eu não posso fazer nada. – Com isso, segurou nos pulsos de Allen e desfez o abraço, permanecendo de costas. – Agora você tem 8 minutos de intervalo.
Com isso, ele saiu pela lateral oposta àquela que levava aos banheiros. Os olhos prateados ainda fixaram nas costas que desapareciam na escuridão por alguns segundos antes dele fazer seu caminho até o banheiro.
Quando voltasse, Tiky estaria com a máscara impessoal de Noah e o trataria por Allen Walker. Ele provavelmente não perderia o sorriso malicioso, o olhar dourado brilhante e as ações provocativas, mas dali em diante, Allen e Tiky já não compartilhavam o mesmo caminho.
—--AW&YK---
—Eu sinto que já estive aqui.
Allen pulou com a voz profunda ecoando pelo banheiro e tirou os olhos do espelho, onde encarava o próprio reflexo apoiado na pia. Correndo o olhar até a figura encostada na parede que servia como coluna entre o banheiro e a porta de saída, o albino viu Kanda com as mãos no bolso, blazer bem ajustado no corpo e o cabelo caindo como duas cascatas sobre o peito.
Ele tentou esconder o olhar surpreso com o quão silencioso Yuu conseguia ser e se amaldiçoou por não conseguir colocar um sorriso muito convincente no rosto. Tentando empurrar para debaixo do tapete a cascata de sentimentos que vinha sentindo durante todo o dia, Allen optou por fazer piada.
—Bakanda, você quer me matar de susto?! O que você tem com banheiros, afinal? – Virando-se contra a pia, checou se o mármore estava molhado antes de sentar em cima, os pés balançando no ar.
Kanda vagou os olhos azuis quase negros pela feição mascarada do namorado, o sorriso de escárnio adornado nos lábios finos como se Yuu estivesse zombando da tentativa de Allen de se esconder.
Ele não poderia mais fugir de alguém que já estava infiltrado em sua alma.
—Eu vou repetir a pergunta de mais cedo. Como você está? – Enquanto saboreava as palavras na própria língua, Kanda se desencostou da parede e andou lentamente até a figura sentada no mármore. Allen acompanhou a movimentação calado, percebendo que Yuu parecia sério e totalmente sóbrio, como se não tivesse ingerido uma única gota de álcool.
O mais novo não teve tempo de prestar muita atenção nos primeiros botões do blazer desfeitos, mostrando uma parte da pele de porcelana escondida por trás daquela roupa social. Logo Yuu estava entre suas pernas, as mãos que antes estavam escondidas nos bolsos, apoiadas na pia bem ao lado das luvas descartadas do garoto.
Com a proximidade, Allen se sentiu ligeiramente tonto e uma sensação de deja vú tomou o seu corpo. Apesar disso, a pergunta soava em sua cabeça e o Walker se questionava desde quando as pessoas conseguiam ler suas expressões com tanta facilidade.
Ou talvez fosse só Kanda?
—Eu já disse que você está vendo coisas demais, Yuu... – Respondeu bem baixinho, mas a esse ponto, ele já havia deixado a feição cair e o moreno olhou com adoração para a vulnerabilidade que estava sendo exposta aos poucos.
Kanda às vezes sentia que havia muitas facetas de Allen que ele ainda não conhecia. Durante aquele ano inteiro, ele foi o alvo de toda a aprendizagem, ele que foi desconstruído e remodelado. O Walker sempre pareceu decidido do que fazer, ou do porquê ajudar. Mas então, de tempos para cá, quanto mais íntimos eles se tornavam, mais Kanda percebia que o garoto tinha mais sensibilidade do que demonstrava, mais força do que aparentava.
Forte ao ponto de não querer aflingir ninguém com as próprias preocupações, que, na cabeça dele, eram fúteis. Forte ao ponto de esconder as próprias emoções e colocar um sorriso no rosto pelo bem dos outros.
Kanda sinceramente não entendia como Allen era capaz de fazer aquilo, mas olhando a piscina prateada bem de frente para si, repleta de pensamentos turbulentos, Yuu soube que, ainda que não entendesse toda aquela gentileza, ele a amava.
E mesmo que quisesse empurrar Allen até o limite, naquele momento, Kanda já não aguentava mais ver aquele sorriso falso pretendendo que estava tudo bem. Ele sabia que o albino tinha ficado extremamente chateado com a retirada do brinco, ainda que não entendesse bem o motivo – para Yuu, era apenas um metal que podia ser substituído. Um brinco não mudaria o que ele sentia pelo garoto.
Mas se para o de fios platinados o objeto importava tanto, então Kanda faria de tudo para deixá-lo feliz.
Ele quis empurrar Allen até o limite, mas então quando focou o olhar nas feições delicadas, nos lábios comprimidos em uma linha chateada e nos olhos grandes e suplicantes...
Ele já havia perdido aquela batalha há muito tempo.
—Não minta, Allen. Você está chateado.
Como se os corpos fossem atraídos como ímãs, o moreno abaixou-se para esfregar o nariz pela extensão da bochecha macia do pequeno. Allen tremeu levemente pela ação repentina, fechando um olho enquanto tentava descobrir o motivo por trás do olhar cálido que recebia.
Tão cálido que fê-lo sentir confortado, em casa.
Continuou calado, incapaz de colocar em palavras o quão vulnerável se sentia.
Kanda roçou o nariz pelo queixo liso, aspirando o cheiro de morango que marcava a pele de Allen. Sentiu as mãos dele rodearem o seu pescoço quando levou os lábios até o lóbulo direito, agora vazio com a ausência do brinco. Chupando e mordendo de leve, sentiu os dedos se agarrarem nos fios negros e Allen buscar mais contado físico, mais abraço.
Foi Kanda quem continuou o monólogo, recitando no ouvido do Honey palavras que ele sinceramente não estava preparado para ouvir.
—A sorte é que vamos ter todo o tempo do mundo para trabalhar a sua sinceridade com seus sentimentos.
O estômago de Allen caiu antes mesmo do cérebro processar o real significado da frase. De forma involuntária, o albino apertou os dedos nos fios soltos, enrolando-os na mão e tentando manter Kanda próximo quando sentiu ele se afastar. Como se buscasse alguma explicação, os olhos prateados encararam arregalados a feição quase divertida de Yuu, que parecia satisfeito com a reação dele.
Como se lidando com um animal acuado, o moreno capturou a atenção dele e foi inclinando a cabeça até olhar para a própria mão direita, que estava curvada e servindo de apoio no mármore da pia. Allen acompanhou o olhar, lábios rosas separados por onde passava uma respiração que se tornou ainda mais escassa quando os dedos longos e cheios de anéis de Kanda descobriram uma caixinha preta.
A respiração que o Walker puxou foi quase dolorosa, queimando as vias nasais e trazendo lágrimas imediatas aos olhos incrédulos.
Olhando novamente para o namorado, Allen tentou dizer, percebendo o quão entupida a sua garganta havia ficado em um espaço de tempo de segundos.
—Y-yuu... – O nome saiu quase como um choro manhoso e o garoto enlaçou um dos braços no pescoço de Kanda enquanto o outro levava a mão trêmula até a caixinha deixada a seu alcance.
Abrir o presente foi como abrir uma barragem de lágrimas acumuladas ao decorrer de todo o dia e o pequeno se perguntou quando ele tinha se tornado tão suscetível à choros. Mas então ele lembrou que Kanda tinha aquele efeito nele, um efeito de deixá-lo uma bagunça.
Dentro do compartimento e encaixado entre uma almofadinha negra estava um anel de prata com o mesmo símbolo da flor de lótus talhado.
Allen não foi nem capaz de pegar o objeto na mão, levando-a imediatamente até a boca para sufocar um choro aliviado.
—Não é um pedido de casamento. – Kanda disse, a voz mansa enquanto retirava o braço enlaçado em seu pescoço para pegar a mão direita dele entre a sua esquerda. – É uma promessa que você está comigo como Honey, amigo, namorado e confidente. O resto nós pensamos depois.
Era o “eu prometo de amar”.
Levantando o olhar rapidamente, Yuu, que até então parecia confiante, vacilou ao pegar o anel entre os dedos. Como se procurando o consentimento, ele esperou até que Allen tentasse controlar as lágrimas e abrisse um sorriso lindo, verdadeiro, coberto de lágrimas e rosto inchado e avermelhado. Os olhos dele estavam de tamanhos de pérolas escorrendo como cachoeiras, cílios molhados e cintilantes e ele fungava o tempo inteiro.
Ainda assim, era uma visão que Kanda guardaria cuidadosamente na mente.
—Aceita?
No mesmo instante, ele começou a balançar a cabeça freneticamente, o sorriso ondulando em uma risadinha chorosa enquanto o anel deslizava pelo dedo anelar de sua mão. Assim que Kanda terminou de colocar, ele levantou a própria mão direita e Allen notou que havia um novo anel prateado em seu dedo anelar. Rapidamente, o moreno rodou o objeto e, o que antes era um simples anel de prata, mostrou também tem uma flor de lótus talhada.
O coração de Allen foi tomado por alívio e amor e carinho, ele nem mesmo pensou em todas as lágrimas quando puxou o rosto do namorado para um beijo desajeitado, que mais pareceu diversos selinhos salgados e molhados intercalados por soluços e risadinhas.
Aqueles azulejos de banheiros novamente estavam presenciando o começo de algo muito importante para duas pessoas e Allen até considerou aquele lugar sagrado. Ele e Kanda certamente tinham coisas com banheiros e interiores de carros, eram os locais em que tudo parecia se desenvolver.
E ainda que a situação tenha durado poucos minutos, para o albino pareceu ser uma cerimônia única e longa, que ultrapassava todos os encontros incríveis que tiveram em quesito “inesquecível”.
Após um abraço apertado, Kanda, por mais fora do caráter que soe, pegou as duas mãos de Allen e depositou dois beijos nela, um em cada.
—Obrigado, Allen Walker. – Sussurrou, enquanto depositava um último beijo em cima do anel que tinha acabado de colocar, erguendo os olhos para receber outro sorriso radiante e único que Yuu queria esconder do mundo apenas para que ele pudesse ver todas as manhãs.
Quando a voz de Tiky soou pela porta anunciando que Allen precisava estar de volta, ele nem mesmo prestou atenção. Kanda lhe disse que era melhor ele dar um jeito no rosto antes de aparecer no palco como um balão inchado e o albino realmente não quis olhar para ele com o olhar terno.
Só aconteceu.
Acompanhando-o com o olhar, ele viu Yuu sair pela porta, caminhando como se tivesse o mundo aos seus pés e o coração de Allen nas mãos.
O que, provavelmente, era verdade.
Como uma única pessoa conseguia manipular todas as suas emoções ruins e pensamentos negativos com um simples objeto, ele não sabia explicar. Nem mesmo conseguia entender o que tinha entre ele e acessórios. Mas a questão era que agora, toda a ansiedade e preocupação que sentia desde de manhã, todo o medo em relação ao futuro, tinham sido amenizados por uma promessa de que, não importa o que, Kanda estaria ao lado dele.
Assim, sentado em frente ao instrumento musical, Allen sentia o coração retumbar tão forte no peito, espalhando sangue por seus ouvidos, que nem ao menos conseguia ouvir o burburinho que tomava o local. Toda a sua atenção estava focada em suas duas mãos que repousavam sobre as teclas – uma delas adornada por um símbolo de seu amor – e no sentimento ardente que queimava seu corpo.
Ele sabia que, caso tentasse tocar qualquer nota naquele instante, iria errar. Seus dedos estavam trêmulos demais para se concentrarem normalmente. E, como se estivesse vivenciando toda uma situação pela segunda vez, Allen voltou o olhar para a plateia, ignorando os pares de olhos que o encararam, esperando que ele começasse o espetáculo.
Como se já soubesse onde ele estaria, os olhos prateados passearam rapidamente pela extensão do bar e logo o encontrou, sentado em uma banqueta, os olhos quase desafiadores em si, longos cabelos negros tampando as orelhas e escorrendo pelo blazer.
Mas não era como se o Walker precisasse procurar alguma coisa na orelha dele.
Bem ali, iluminado pela luz amarelada bem em cima da figura alta, havia um anel que estava visivelmente aparente enquanto Kanda levava mais uma dose de whiskey aos lábios. E se antes Allen não teve voz para responder ao “aceita?”, agora ele o fazia através da música.
As notas de “Can't Take My Eyes Of You” começavam a tocar e ressoaram por todo o bar, transbordando emoção que, todos poderiam dizer, tinha como objetivo tocar um coração em especial.
FIM
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