Notas iniciais
Muito boa noite, meus sweetests!!! Como vocês estão? Espero que muito bem! Eu já respondi a maioria dos comentários do Spirit e vou dar uma passadinha depois respondendo os que ficaram para trás para depois responder os daqui do Nyah! No mais, eu amei demais esse capítulo e espero que vocês amem também! Aqui Honey está extraoficialmente finalizada!!! Só não mudei o status para finalizada porque ainda vai ter uma notinha de autora logo mais! Aproveitem esse epílogo e vejo vocês lá embaixo!!

"But in thisinstant, when I laughedalongwithyou, I feltthatbreathingjustgotlittle more easier. — Kanda Yuu"

O quarto era preenchido pelos gemidos sôfregos e manhosos que Allen tentava conter. A cada espasmo que percorria seu corpo, a coluna se arqueava involuntariamente em resposta à habilidade que Kanda tinha – e aprimorava – com a língua.

Obviamente, Allen era o treino dele.

Uma olhada para baixo e Allen podia ver como ele mantinha suas pernas abertas com os dedos apertando suas coxas com força. Provavelmente os dígitos ficariam marcados na pele pálida por alguns dias, o que causaria mais burburinhos quando Allen fosse para os treinos de Ballet. Quando as marcas ameaçavam sumir, novamente Kanda se preocupava em deixá-las vívidas, como uma lembrança de que aquele corpo já estava destinado a alguém.

Movendo as mãos que apertavam o travesseiro sob sua cabeça, o albino agarrou os fios negros, sinalizando para Yuu ir mais rápido e parar de chupá-lo com lentidão, até porque, a parte consciente de Allen tentava alertar que ambos estavam atrasados.

"Y-Yuu...Nghh..."

Allen não queria ficar suado logo após sair do banho, porém antes que tivesse tempo de se vestir, Kanda o tinha jogado na cama e aproveitado de si como se fosse um banquete. As mãos dele vez ou outra deslizavam pelas coxas macias e torneadas, o metal do anel de compromisso contrastando com a pele quente do pequeno.

Era demais, cada vez que o moreno o levava até a garganta, Allen achava que estava em seu limite e logo explodiria de prazer, porém ele desacelerava apenas para ouvir as lamúrias e os choramingos desesperados.

"P-por f-AH-vor...Yuu!! M-mais rápido!!"

Depois de uns meses em que estavam juntos, Kanda tinha desenvolvido aquela baixaria – na visão do albino – de apenas deixá-lo gozar depois de tê-lo feito implorar. Então por mais que Allen provocasse e se recusasse a dar aquele gostinho de vitória – sem duplos sentidos – para o mais velho, aquele não era o momento para se perderem em brincadeiras.

Principalmente quando o banquete e a festa de aniversário de Allen estava sendo realizada no salão de festas da mansão.

"Moyashi..." — Kanda chamou, a voz rouca e desgastada. Allen seguiu o chamado com as orbes enevoadas e banhadas de luxúria até encontrar o moreno o olhando com olhos afiados e deleitosos enquanto mantinha o membro vermelho e que escorria pré-gozo perto do rosto.

Allen tinha o rosto completamente ruborizado, os lábios molhados e inchados de tanto serem mordidos para esconderem os gritos de prazer. Sua respiração estava descompassada e os fios platinados – que agora batiam abaixo do ombro – estavam espalhados pela cama.

Yuu sorriu de canto, como se tivesse zombando do quão entregue Allen estava. Cada vez que ele fazia isso, o albino tinha vontade de chutar a cara dele e fechar as pernas, pois sentia como se ele estivesse tomando posse de um pênis que não era dele.

"Cada vez que eu tenho vontade de socar a cara daquele filho da puta do seu amigo," — Começou, fazendo questão de frisar o quanto lhe desagradava a ideia do "amigo" que Allen tinha feito na Bolshoi. — "me lembro que isso aqui..." — uma lambida na glande, que fez Allen engasgar com um gemido. — "é meu."

Sem tirar os olhos do pequeno, voltou a engolir o seu membro com uma sucção forte, determinado a levá-lo ao ápice. Cada vez que Kanda se questionava por que gostava tanto de fazer um oral em um homem, lembrava da cena que se desenrolava a sua frente.

Allen, de pernas trêmulas, dedos contorcidos, arqueando as costas e jogando a cabeça para trás enquanto tinha os olhos revirados de prazer. Em seu desespero, arranhava os ombros alheios com as unhas finas, enquanto Yuu apertava mais os dedos para manter o quadril dele colado ao colchão e não acabar sufocando. E, por fim, o melhor som que poderia ouvir, um som que era a prova de como Kanda o tinha a seu bel prazer, completamente entregue.

Saber que era a causa de toda aquela reação e ouvir o seu nome ecoar alto e fino pelo quarto, seguido de vários gemidos manhosos e roucos, enquanto Allen se desfazia em prazer, o corpo mole e trêmulo completamente sem forças sobre a cama, era a causa do brilho de admiração nos olhos escuros.

Aquela era a razão para adorar tomar Allen na boca e, em seguida, levantar-se limpando a boca suja – suja pelo gosto do garoto e pelas palavras que sussurrava durante o ato. Olha-lo de cima, a respiração ofegante, as bochechas coradas e o corpo vulnerável, era sempre uma visão de ouro.

Em seguida, abaixou o tronco rapidamente para deixar um selinho calmo nos lábios entreabertos do garoto, que sussurrou sem fôlego como o odiava.

Rindo de forma cafajeste, Kanda saiu da cama, arrumando a roupa formal e se encaminhando para o banheiro. Allen o seguiu com os olhos enquanto tentava recuperar a respiração e o viu escovar os dentes enquanto arrumava o cabelo no típico rabo de cavalo.

Voltando a encarar o teto, satisfeito por conseguir manter o ar no pulmão, fechou os olhos por uns segundos, esperando passar os arrepios que tomavam seu corpo. Logo em seguida, com o rosto corado de vergonha, ergueu-se da cama e limpou-se com a toalha, tratando logo de vestir a roupa formal.

Enquanto Kanda estava com um terno preto e justo que moldava os músculos e ombros largos, Allen vestia um blazer creme com uma gravata borboleta vermelha. Quando prontos, Yuu, que esperou o pequeno se arrumar encostado à porta, abriu a porta para deixá-lo ir na frente – e observar a bunda dele. Allen passou com um bico no rosto, parecendo determinado a brigar com Kanda mais tarde acerca da "brincadeirinha" dele.

No entanto, foi logo chegarem próximo à escada que levava para o térreo que a feição emburrada transformou-se em surpresa.

Allen já estava naquela mansão há três anos, quase quatro, e nunca se acostumaria com toda a decoração nobre que ela exibia. Como se fosse uma lembrança da Era Romanov, a mansão na Rússia tinha corrimões brilhantes em cor de ouro, tetos adornados com pinturas clássicas e paredes cor creme decoradas com quadros renascentistas. Junto a isso, estavam garçons contratados passando com bandejas repletas de taças com bebidas. Algumas pessoas bem vestidas já se dirigiam para o salão onde haveria uma mesa repleta de comida e, ainda que Allen não conhecesse boa parte desses convidados, sentia-se em êxtase por tê-las ali.

Kanda seguiu o albino que descia animadamente as escadas e manteve um sorriso discreto ao ver a animação dele. Quando ambos estavam próximos do térreo, um homem de descendência japonesa surgiu pela porta lateral, movendo a cabeça para os lados como se procurasse alguém.

Assim que encontrou quem queria, a feição do homem pareceu reluzir e Yuu bufou já sabendo o que aconteceria.

"Filho!" — Yuji chamou, abrindo os braços em um convite de abraço. Sem pensar duas vezes, Allen desceu o restante dos degraus com um sorriso rasgado no rosto e jogou-se dentro do abraço do mais velho, que o envolveu com força enquanto retribuía o sorriso. "Feliz aniversário, querido!"

Kanda revirou os olhos para a cena que já vira muitas e muitas vezes. Desde a primeira vez que seu pai conheceu o Moyashi era daquele jeito. Como esperado, ele já sabia do Honey do filho – empregadas fofoqueiras – e assim que o viu, foi direto segurar o rosto fino entre as mãos e encarar os olhos prateados por um par de segundos.

Allen tinha ficado assustado, mas ao notar os olhos lacrimejando, deixou que o mais velho – quem tinha permitido que ele ficasse ali na Rússia – olhasse o tempo que precisasse. Em seguida, recebeu um sorriso que equilibrava nostalgia e felicidade e foi abraçado com ternura durante um bom tempo. Depois que Kanda recebeu um abraço rápido e com tapas nas costas, Yuji voltou a falar com Allen e, ordenando que os serviçais deixassem as malas no quarto que seria do albino, começou a apresentar toda a mansão para ele.

Desde então, Allen era como um filho para o japonês, principalmente porque foi ele que salvou o seu filho verdadeiro.

Esse encontro aconteceu alguns meses depois da formatura de ambos. Esse tempo foi necessário para que Mana conseguisse aceitar a ida do filho para outro país e, depois de uma conversa frontal e séria com Kanda e, posteriormente, com o pai de Kanda, o Walker admitiu que o filho se mudasse.

Houve choro no aeroporto e Megan teve que apaziguar os ânimos quando Mana começou a querer voltar atrás com a decisão quando viu Allen entrar no portão de embarque acompanhado de Kanda. Algumas semanas depois, Allen acordou para encontrar seu pai, Yuji e Megan no café da manhã, como se fosse fácil viajar para a Rússia.

Depois disso, Mana e Yuji tinham virado colegas. Não amigos de falar segredos, mas colegas de aceitar bebidas e conversar com tom sério assuntos banais. Na visão do Walker mais velho, o pai Kanda era muito mais sociável que o filho, portanto, se fosse para manter relações diplomáticas, seria com Yuji que manteria.

"Onde está Mana e Megan?" — Yuji perguntou assim que desfizeram o abraço. Ele pôs uma mão nas costas do garoto e começou a guiá-lo para o salão, Kanda seguindo logo atrás.

"Ligaram e disseram que passaram em algum lugar para comprar um presente." — Explicou para aquele que era um segundo pai para si.

Allen o adorava desde quando Yuji o acolheu com um sorriso e sem perguntas desnecessárias. Ele inclusive agradeceu por ter cuidado de Kanda enquanto mostrava a cozinha e dizia que Allen podia ficar à vontade para pedir os doces que gostaria de comer para as cozinheiras.

Sendo assim, para o albino, agora ele tinha dois pais e uma mãe que ainda o rejeitava.

Esse, no entanto, era um assunto delicado.

Após se resolver com o pai, Allen, poucos dias antes de embarcar para a Rússia, ligou para Christina para avisar que os planos para a Bolshoi estavam certos e que Mana já tinha apoiado a mudança. A loira vibrou de animação com ele, desejando todos os votos de bons acontecimentos e muita felicidade até perguntar como ele iria se manter lá.

Algumas horas depois, o albino se daria conta que não deveria ter falado tão normalmente que iria ficar na casa do namorado, o que, para Christina, foi um choque.

Ela lhe perguntou o que aquilo significava, mas antes que Allen pudesse explicar seu sentimento como havia feito com Mana, ouviu da boca de sua mãe que aquilo era um erro, que ele estava provavelmente confuso. Allen ficou sem reação durante os minutos em que ela pedia desculpas e dizia que se sentir atraído por homens foi consequência de só ter influências masculinas em casa, o que, na visão dela, teria sido impedido se Allen tivesse morado com ela.

Ainda que o menino tivesse negado e dito que sua orientação sexual nada tinha a ver com ter sido criado por um pai solteiro, Christina começou a dizer que aquilo tudo era devido à permissividade de Mana, que, além de aceitar o comportamento subversivo do filho, ainda apoiava a ideia absurda de deixá-lo morar com um homem! Ela lhe disse, entre sons ora raivosos e ora chorosos, que imaginava que Allen teria interesse na garota de nome Lenalee e que não lhe desse uma decepção ao seguir os caminhos de Cross – pelo qual ela deixou clara sua repulsa.

Apesar de ter tentado entender o ponto de vista dela, assim que a loira começou a colocar uma culpa inexistente em cima de Mana, Allen não foi capaz de manter-se calado.

Ele simplesmente disse-lhe que alguém que nunca esteve presente não tinha o direito de tirar conclusões erradas sobre a sua vida, deixou claro que o que tinha com Kanda não era influência nenhuma, mas sim amor e esclareceu que, caso fosse tanto motivo de vergonha, se manteria longe do meio-irmão, um garotinho que, na época, tinha pouco mais de 4 meses.

Nas semanas seguintes, notou que Christina provavelmente tinha ligado para Mana e depositado ideias preconceituosas que o acusavam de ser o culpado pelo comportamento do filho. Soube disso porque uns dias, Mana tinha olheiras profundas como quem não tinha dormido nada. No entanto, ainda assim, o pai lhe dava bom dia e não questionava e nem dizia nada, apenas ajudando nos preparativos para a mudança.

Surpreendentemente, quem ligou no dia de sua viagem foi Richard, marido de Christina, que lhe desejou boa viagem e disse-lhe que Christ ficaria chateada por um tempo, mas que ainda o amava. Apesar da boa intenção, Allen tinha a impressão que não era bem assim e só acreditaria naquela afirmação se viesse da boca da própria mulher. Por fim, Rich deixou que Allen falasse com o meio-irmão pelo telefone e, ainda que tenha ouvido só silabas de bebê, lágrimas vieram aos seus olhos.

Por fim, Richard ligava uma vez por mês para mantê-lo informado e deixar que ele ouvisse algumas coisas do irmão. A voz de Christina soava ao fundo em algumas ligações, mas ela parecia tão magoada quanto ele para abdicar de orgulhos e preconceitos em prol do próprio filho.

No entanto, ali estava Yuji, alguém que nem era de sua família – ainda – mostrando-lhe amor e só isso já acalentava o seu coração. Em um pequeno intervalo de tempo, acabou perdendo o pouco contato que tinha com a mãe, mas ganhou um segundo pai.

Isso sem falar de Megan que vinha sendo namorada de Mana nos últimos anos. Allen desconfiava que Mana a tinha pedido em casamento porque em uma ligação o pai tinha falado sobre uma surpresa, porém nada confirmado. Megan era uma mulher desastrada e gentil de cabelos castanhos curtos e enrolados. Tinha olhos verdes escuros, quase castanhos e, para ela, todo momento era momento para rir. Não se importava em conversar de casos policiais com Mana, não se importava de ouvi-lo lamentar sobre a ida do filho e tratava Allen como um amigo.

Para o albino, se o pai estivesse feliz e realizado era o que importava.

"O Lavi e o Alma chegaram com o restante." — Yuji disse um francês com sotaque russo encaminhando Allen até o grupo de amigos, enquanto pegava uma taça de bebida em uma bandeja servida por um garçom.

Assim que avistou os amigos, os olhos prateados brilharam e mal ouviu Yuji avisar que ia ter com uns assessores – a festa de aniversário estava sendo usada para firmar algumas relações – enquanto eles matavam a saudades.

Como que pressentindo a presença do melhor amigo, Lenalee olhou para trás e soltou um gritinho animado – Kanda fez uma careta por isso – ao vê-lo.

Ela estava deslumbrante, o cabelo ainda mantido curto e o corpo delineado por um vestido longo azul que deixava suas costas amostras. De braços dados a ela, estava Lavi com o cabelo mais curto e em um topete maduro. Alma, por sua vez, estava de frente para o casal, aparentando não ter mudado nada enquanto bebia uma taça de champanhe. Ao seu lado, Breeze tinha os cabelos loiros e longos presos em um coque trançado e vestia um vestido curto com estampa floral elegante e saltos nude. Breeze, que agora era uma amiga íntima de Lenalee, apesar de a morena não ter ido sido muito simpática no passado.

Todos se viraram para ver Allen chegar acompanhado de Kanda, que já tinha uma taça na mão e um olhar enfezado para os homens de negócios que discutiam bolsas de valores na festa de aniversário de seu namorado.

"Allen-chan!!" — Lavi acenou com um grande sorriso enquanto Lena e Breeze iam abraçá-lo e desejar os parabéns. Alma foi direto cumprimentar Kanda e Lavi sorriu para ele, fazendo piada sobre o seu já estampado mal humor.

Assim como Kanda, Lavi e Alma estavam sendo treinados para assumir os negócios da família. Alma tinha ido para os Estados Unidos após a formatura encontrar com a irmã e com a família. Por "coincidência", Breeze acabou conseguindo uma bolsa para estudar medicina em uma universidade em Nova York e logo também foi para a América. Já Lenalee continuou em Paris por decisão própria – e influência de Komui – para cursar faculdade de moda. Por causa disso, Lavi estava constantemente viajando entre Londres e Paris para vê-la e continuar com as obrigações na Bookman´s – o que, aos olhos de Allen, contava pontos para o ruivo e deixa Komui insano.

Entre os seis, Breeze e Alma eram os únicos que nunca assumiam uma relação. Allen e Kanda, por incrível que pareça, já moravam juntos e Lavi já sabia o nome dos três filhos que queria com Lenalee – a morena só sabia corar toda a vez que entravam no assunto, e Kanda bebia uma taça atrás da outra porque puta que pariu!!!.

Dos seis, Allen também era o que tinha a profissão mais impensada. Após se mudarem para a Rússia, precisou de dois anos de aulas particulares puxadas para conseguir entrar na Bolshoi, aulas que ele mesmo pagou com o pagamento de Honey que Yuu havia depositado em uma conta. Apesar de recusa do albino, Yuu explicou que se parasse de pagar, o contrato de Honey se encerraria e que aquela quantia nada mais era que um bônus por aturá-lo.

Quanto à demora para conseguir a tão sonhada vaga, sua sorte é que treinava a postura e os passos nas aulas e Kanda fazia questão de testar sua flexibilidade em casa. Portanto, já estava na Academia há mais de um ano e, entre todos os amigos que havia feito, Link era o que Kanda mais odiava porque o moreno insistia que não tinha necessidade de se alongarem tão próximos.

De qualquer forma, alguns meses atrás, o albino foi chamado para um teste para o Cirque du Soleil, o que ainda estava em pauta entre ele e Yuu, uma vez que a própria Bolshoi já tinha deixado claro a intenção de manter o albino em Moscou.

Enquanto conversavam sobre as novidades, Allen notou que, em algum momento, Kanda se afastou e quando moveu os olhos pelo salão, o encontrou conversando com uma garota loira ao longe. Franzindo as sobrancelhas, percebeu que quem mais falava era a menina, enquanto Kanda parecia desconcertado com a conversa. Ela também tinha alguns traços parecidos com Alma e quando voltou os olhos para o moreno a fim de perguntar sobre a convidada, viu nos olhos castanhos um brilho de contentamento que não foi capaz de interromper.

Sem pensar muito, descobriu que aquela garota loira de olhos castanhos, que agora abraçava Kanda como se tivesse esperado muito tempo por aquele contato, era Amelié Karma, a mesma que tinha jurado só aparecer quando Kanda voltasse a ser ele mesmo.

Ainda surpreso com a aparição dela, continuou a observando e não soube como reagir quando a loira acenou para ele assim que deixou o lado de Kanda, dirigindo-se até um grupo de homens mais velhos, onde Allen deduziu que estava o Karma pai.

Curioso sobre a conversa, manteve seus olhos perolados fixos em Kanda, que vinha até ele em passos lentos, já que era parado vez ou outra por algum investidor. Estando distraído, foi uma surpresa quando sentiu um corpo pequeno se jogar no seu e o abraçar pelo pescoço, quase derrubando sua taça no chão.

"A-lle-n-chan~~" — A voz infantil e conhecida soou bem próximo ao seu ouvido e bastou girar um pouco o corpo para encontrar todo o clã Noah ali.

O Conde estava na frente, com sua altura e largura peculiares, a barba por fazer e os olhos selvagens e cansados fixos na criatura albina.

Allen nunca teve muito contato com ele, mas aquele homem sempre teve uma afeição particular por ele. Do lado direito do homem estava Tiky, com seu sorriso pequeno e cabelos para trás. Do outro lado havia um homem que o olhava com uma cara feia, como se tivesse errado ao retribuir o abraço de Road, e do lado dele um baixinho com turbante. Uma mulher alta e loira conversava com aquele que Allen sabia que era o DJ do Noah´s. De canto de olho, viu que Bolic atacava a mesa de doces e o restante apenas permanecia alheios à situação. Jasdero e Devit não estavam presentes e Allen sentiu falta da loira.

Todavia, toda a sua atenção foi desviada quando, por trás daquela formação, saiu um rapaz de cabelos curtos castanhos e olhos escuros. Sem que ele precisasse se apresentar, Allen já sabia quem era.

"Neah..." — Disse, assim que Road desgrudou de si, mas continuou pendurada em seu ombro.

O moreno deu um sorriso e Allen olhou para a mesa de bebidas só para ter certeza que a figura ruiva que tinha visto de relance era mesmo Cross. Sendo assim, teve certeza que aqueles dois estavam juntos.

Como se fosse uma tradição daquela família, o verdadeiro 14º Noah o abraçou por alguns instantes, sem nunca perder o sorriso colado no rosto.

"Então esse é o garoto que me substituiu..." — Sibilou enquanto se afastava novamente, permanecendo com ambas as mãos nos ombros do albino e o analisando.

"Sim, e depois o Allen-kun nos abandonou sem pensar duas vezes!" — De repente, o Conde lamentou com a voz infantil, passando a retirar lenços de um pacote oferecido pelo Noah de turbante e os usar para secar lágrimas repentinas, uma cena que contrastava com a postura de líder de um clã de tamanha influência nos negócios.

Dando um sorriso amarelo, Allen olhou para Tiky, que suspirou e se aproximou para bagunçar o cabelo longo do albino, olhos denunciando que aquele era antes um ato provocativo que um ato íntimo. A essa altura, Neah já estava próximo do Conde, ambas as mãos na cintura enquanto dizia que um líder não podia chorar à toa.

Às vezes, alguns Noah´s acreditavam que Neah era mais capaz de liderar a Ark do que Adam.

"O Conde nunca vai superar a sua saída. Ainda temos aquela proposta, Allen Walker. Uma vaga especial para você." — Tiky disse, no seu usual tom sedutor enquanto batia o indicador na ponta do nariz de Allen.

Antes do albino sequer responder, no entanto, a voz profunda de Kanda soou e todos se viraram para encontrá-lo.

"E por que ele aceitaria?"

Num piscar de olhos, todos os Noah´s estavam sorrindo daquele jeito peculiar enquanto o analisavam de cima a baixo.

"Acho que agora o Conde vai testá-lo..." — Tiky sussurrou enquanto o Conde vestia uma postura séria e estendia a mão para Kanda.

Como esperado, Neah e sua manipulação foi capaz de ter Kanda, Yuji e alguns investidores para ele por alguns segundos e usando a proximidade que tinham com Allen, conseguiram uma parceria com a Lune e seus associados.

Surpreso mas não incrédulo, Allen assistiu o Conde vir até si e dar-lhe dois beijos, um em cada bochecha, enquanto dizia que apesar de estar fora da Ark, Allen e sua sociabilidade sempre traziam benefícios aos Noah´s. Mantendo a proposta de aceitá-lo como um "Noah Extra" – e tendo em vista a relação do albino com o herdeiro de uma das maiores corporações de cosméticos do mundo –, todos eles desapareceram tão rápido como chegaram, Neah arrastando um Cross bêbado com ele.

Allen até se sentiu mal porque Mana não teria a oportunidade de ver o irmão, mas logo o pensamento foi deixado de lado quando Kanda, ligeiramente bêbado, lhe deu dois beijos na bochecha, assim como fez o Conde, afirmando que aquele velho não tinha o direito de tocá-lo e que, por isso, ele tinha que apagar aquela marca.

Rindo da situação, Allen curtiu o restante da noite um pouco preocupado com o pai, que, no entanto apareceu antes da hora do jantar.

Os olhos prateados brilharam quando Mana entrou no salão acompanhado de Megan, a qual estava vestida com um vestido vermelho que atraia atenção dos convidados. Aos chegar perto dos dois, Allen riu com o embaraço dela e abraçou apertado o pai, que o congratulou e tirou um tempo para ver e conversar com o filho. O Walker e Kanda trocaram um aperto de mão, porque Mana sempre teria um pé atrás com o coisinha, mas foi só Yuji se juntar a eles – deixando para trás um grupo de associados – que a conversa fluiu mais facilmente.

Animado, o garoto recebeu dois presentes: um pacote de Mana e Megan e uma carta. Ao ver o remetente, o sorriso de Allen vacilou, porque ali, no seu aniversário de 22 anos, havia uma carta enviada por Christina. Ao ver a reação do filho, Mana deu um sorriso torto e disse-lhe para ler depois, quando se sentisse bem. Kanda, por sua vez, simplesmente pegou o papel e guardou por dentro do paletó, se recusando a deixar isso destruir a noite do Moyashi.

Allen até pensou em reclamar daquela falta de educação, mas acabou perdendo a fala ao perceber que Kanda tinha desabotoado alguns botões da camisa social e afrouxado a gravata, o que deixava aquela uma visão difícil de ignorar.

Ao ouvir um pigarreio do pai, o pequeno voltou a conversar, distraindo-se e esquecendo-se da carta.

Em algum momento da noite, entre risos e bebidas, acabou prendendo o cabelo em um rabo de cavalo mal feito que o deixava com feições angelicais demais para Yuu sequer desviar o olhar dele pelo resto da noite. Assim, se alguém naquele salão não soubesse do relacionamento dos dois – e não tivesse reparado nos anéis de compromisso que ambos levavam no dedo anelar – passariam a saber, na mesa de jantar, o quanto Yuu Kanda não parava de venerar Allen Walker com os olhos.

Em outro momento, após o jantar, alguns homens velhos se reuniram para jogar Poker e quando Allen ouviu, do outro lado do cômodo, alguém comentar sobre a partida, logo tratou de pegar um lugar e jogar também.

Lavi, Lena e Kanda ficaram próximos ao albino enquanto Alma e Breeze foram provavelmente procurar a família Karma.

"Vamos jogar Poker!!" — O albino disse animado, enquanto alguns homens mais velhos riam sem saber do perigo que era aquele jovem na mesa.

Lavi pareceu mais desesperado que eles.

"Yuu, você vai deixar o Allen-chan jogar Poker??" — Perguntou, gesticulando como se aquele fosse o maior erro do mundo. Lenalee riu do olhar desinteressado do moreno. "Não chamem esse garoto para jogar!!" — Gritou para um homem com um charuto que agiu como se tivesse ouvido uma piada. "É sério! Ele vai usar o corpo fofo e a carinha inocente dele para levar vocês à falência!!!"

No entanto, no meio da fumaça dos charutos caros e copos de Whiskey com gelo, Allen parecia se sentir em casa. Embaralhando as cartas e assumindo uma feição séria mas inocente, ele jogou e blefou até que um velho o acusou de não ter mais cartas.

"Acabou, garotinho! Vai ter que nos pagar!!" — E com a afirmação, várias vozes grossas soaram em risadas.

Allen fez um rostinho triste, com direito a biquinho quando um homem estendeu a mão para receber o dinheiro da partida.

"Hm...isso é ruim. Eu não tenho dinheiro para pagar isso..." — Ele disse ao checar o valor absurdo, fazendo alguns homens arregalarem os olhos com aquela audácia. No entanto, antes que qualquer um pudesse retrucar, continuou. "Acho que vou ter que pagar com o meu corpo..."

Naquele momento, Kanda se descolou da parede, voltando à realidade como se tivesse religado o sistema todo em um segundo. Se aproximou do cara que pediu o pagamento, colocando uma mão no ombro dele e o olhando com um olhar gélido.

"Eu, se fosse você, des-"

"...ou eu cubro a sua quantia e faço um Royal Straight Flush."

A sentença foi o suficiente para calar Kanda e fazer todos encararem o garotinho de olhos grandes e brilhantes que expunha uma sequência de cartas imbatíveis na mesa para, logo em seguida, pegar todo o dinheiro que estava em jogo.

Os senhores apenas encararam perplexos, o olhar alternando entre o albino e entre as cartas que tinham em mãos.

"Isso significa que eu ganhei, cavalheiros." — Uma piscada de olhos acompanhada de um sorriso inocente. "Porque eu nunca perco nas cartas."

Com razão, a festa acabou por volta das 4 horas da manhã, quando os senhores se levantaram da mesa cabisbaixos e indignados por perder dinheiro.

Enquanto Allen contava a quantia que tinha em mãos, ouviu alguns dos investidores comentando à medida que saíam do salão e iam cumprimentar o anfitrião, Yuji.

"O garoto é um monstro!"

"Agora eu entendo porque a Noah´s Ark gosta dele! O moleque sabe mentir! Ele conseguiria facilmente informação importante!"

"Nós deveríamos fazer um acordo com a Lune, porque se ela tem alguém assim..."

Satisfeito, Allen notou Lavi do seu lado com uma expressão chocada.

"Allen-chan, você trapaceou??"

Allen o olhou indignado enquanto Kanda dava um sorrisinho de canto e subia as escadas meio cambaleante.

"Oh, não diga algo assim, Lavi! É claro que eu trapaceei!"

—--AW&YK---

"Quantas taças de champanhe você bebeu, Bakanda??" — Allen perguntou, segurando firme no paletó de um moreno que nem equilíbrio tinha para se manter sentado. O albino tinha certeza que no dia seguinte ele acordaria com uma puta ressaca e com o humor incapaz de aguentar um café da manhã com Lavi porque, sim, após o término da festa, enquanto os convidados foram embora, Lavi, Lena, Alma, Breeze, Mana e Megan tinham ficado hospedados em alguns dos inúmeros quartos daquela mansão por pedido de Allen e insistência de Yuji.

Isso porque no dia seguinte, iriam todos passear pela Moscou com decoração natalina, uma vez que o albino não via a hora de mostrar os lugares que tinha conhecido naquela cidade que Kanda, anos atrás, tinha lhe convidado para visitar.

Por ironia do destino, agora eles moravam nela.

"Foi a Vodka." — Murmurou, inconscientemente tombando a cabeça em direção à mão de Allen em busca de carinho.

O garoto tinha descoberto, com o passar dos anos, que Yuu bêbado era sinônimo de Yuu carinhoso e aquilo fez Allen dar risadinhas, já que ele parecia um gatinho contra sua mão.

"Vá pelo menos escovar os dentes! Eu não vou dormir com você cheirando a álcool do meu lado." — Sussurrou, não querendo gritar e causar dor de cabeça ao moreno.

Após tirar a gravata com um pouco de dificuldade, já que tinha que segurar o tronco de Kanda, desabotoou a casaca e retirou o terno. No mesmo instante, um envelope branco escorregou e caiu no chão, atraindo a atenção do pequeno.

Ele instantaneamente soube o que era e com a feição mais séria, voltou-se para retirar a blusa social e o cinto do mais velho, que o olhou com olhos nublados e excitação de bêbado.

"Nem pensar! Vai lavar o rosto e dormir, Bakanda! Se você não tivesse bebido, eu ainda te recompensava." — Ditou, colocando as mãos na cintura e acompanhando a carranca que Yuu fez ao se levantar e ir, bufando, até o banheiro da suíte que dividiam.

Assim que ele entrou lá dentro, o Walker deu um sorrisinho meio triste e começou a tirar a própria gravata e blazer enquanto mantinha o olhar fixo na carta caída no chão. Assim que deixou ambos em uma cadeira, foi até a cômoda e abriu uma caixinha que continha um óculos de armação redonda. Aos 20 anos, Allen descobriu uma presbiopia fraca, consequência do albinismo, e teve que colocar óculos para perto.

Habilitado para a leitura, o cabelo ainda preso em um rabo de cavalo pequeno, voltou-se para recolher o papel do chão, tomando-o em mãos e lendo o nome de Christina nele.

Em tempo modernos, o albino se perguntou porque ela mandaria uma carta ao invés de um e-mail, mas deixou as perguntas infrutíferas de lado, pois não suportava aquela sensação enjoativa na boca do estômago.

Assim, aproveitando a luz baixa e amarelada do quarto, sentou-se na beira da cama e abriu o envelope com vários selos da Grã-Bretanha. Nele havia dois papéis, um com data e escrito a mão e o outro com o selo de um laboratório.

Mantendo-o ambos na mão direita, a mesma que continha o anel prata no dedo anelar – uma forma inconsciente de ganhar coragem, Allen pôs-se a ler o que sua mãe tinha guardado para lhe falar nos últimos anos.

Uma sensação de enjoo o fazia engolir em seco e antes de realmente começar a ler, olhou para a porta do banheiro, onde Yuu provavelmente estava tendo dificuldade para desenrolar a tampa da pasta de dente ou para conseguir mirar no vaso sanitário. Felizmente, Allen já tinha lhe dado aspirina e água, portanto logo ele estaria dormindo.

Por fim, respirou fundo, ajustando os óculos no nariz, e partiu para a leitura.

"Londres, 9 de dezembro.

Allen,

Meu filho, já faz muito tempo que não nos falamos. Mana e eu também não estamos com a melhor das relações, mas apesar disso ouvi de você pelo Richard. Ele acabou me dizendo que vocês se falam algumas vezes e que o Beau também tem falado. Ele é um garotinho bagunceiro, totalmente diferente de você. Ele ama calor e quando faz sol aqui, gosta de ficar deitado na grama brincando com seus carrinhos. Já você sempre foi mais de ficar em casa e tínhamos muitas preocupações por causa da sua condição de saúde. Mesmo assim, você sempre foi mais reservado com tudo.

Richard me disse que dessa vez você vai festejar o aniversário na Rússia. Imagino que Mana vá festejar com você. Ainda não visitei a Rússia, mas como Beau não gosta de frio e como eu estou assumindo algumas responsabilidades na igreja, duvido muito que consiga ir, principalmente nessa época do ano. Mas todos vão estar aí, certo? As pessoas que importam para você.

Vou começar a trabalhar em um restaurante de uma amiga. Deixei a companhia de dança para ficar mais em casa e curtir a infância do Beau, educá-lo de perto. Mas ouvi falar que o Cirque Du Solei está interessado em você, certo? Fiquei tão feliz por ouvir isso, filho! Aproveite que ainda não tem família e responsabilidades e vá curtir! Eu gostaria de ter tido algumas chances assim, mas a vida nos dá algumas surpresas. Espero que você tome as decisões certas para o seu futuro, escolha de forma que você não se arrependa e nem troque uma oportunidade de ouro por coisas passageiras.

Eu só quero o melhor para você, meu amado filho.

Por fim, toda vez que vejo Beau correndo pela casa, me lembro de você. Vocês são completamente diferentes e tem muitas coisas que não sei sobre ti, mas a sensação de ver uma criatura pequena correr e crescer é a mesma. É uma sensação de utilidade e importância indescritível. Ainda bem que tive outro filho, porque já estava passando do prazo de validade!

Isso, no entanto, me fez pensar um pouco sobre o estilo de vida que você escolheu. Como mãe, sinto medo de que você veja que é um caminho difícil que pode te trazer muita dor. O que você escolheu ser te impede de ter uma família normal e tenho medo que lá na frente você se arrependa e fique sozinho. Por isso, não consegui me conter, porque não quero que você sofra, meu filho. Junto com essa carta, há um testamento que te dá direito sobre óvulos congelados nessa clínica. Antes de fazer a laqueadura, pensei que talvez fosse útil para realizar um desejo de ser pai.

Espero que você tenha um aniversário maravilhoso e um abençoado Natal! Amo você!

Christina."

Da metade da carta para baixo, Allen tinha o rosto coberto de lágrimas. Ele não queria, de verdade, não queria estar chorando como uma criança. Não quando Kanda tinha saído do banheiro e se arrastado até a cama, deitando-se lá e observando de forma sonolenta como suas mãos tremiam ao segurar a carta. Não quando já se passaram quase quatro anos e ele já tinha o amor das pessoas que o apoiavam.

Mas doía. Doeu cada pequena palavra egoísta que ela escreveu e que não imaginou que seria uma apunhalada em seu coração. Machucou o jeito como ela, de forma tão simples e provavelmente sem saber, disse coisas cruéis.

Allen precisou ler a carta uma segunda vez, porque da primeira ficara muito confusa. Na segunda vez, porém, as lágrimas embaçavam sua visão e raiva começava a borbulhar em seu estômago. Assim, optou por respirar fundo e ler uma terceira vez, apenas para ter certeza se tudo aquilo estava mesmo ali.

Sim, fazia muito tempo que eles não se falavam, mas porque ela não quis. Christina o tinha julgado como errado e, a despeito das palavras aparentemente amorosas, ele sabia que tinha mágoa e decepção por trás de todas elas. Havia mágoa na sentença que ela falava sobre Mana, porque sim, Christina ainda culpava Mana pelo filho ter "virado" gay.

E o jeito que ela falava sobre Beau?

Allen não quis ficar com tanta raiva e rancor de uma criança inocente, portanto tentava reprimir toda aquela dor, aquela apunhalada que sofreu ao ler como ela o comparava com a criança, como se tivesse sido melhor ter sido como aquele menino não reservado, sem debilitações de saúde, que ama calor e gosta de carrinhos.

Pelo amor de Deus, Allen sempre tinha gostado dos tutus dela! Gostava das bailarinas de porcelana! Preferia ficar em casa a tocar piano que rolar na grama!

Christina até mesmo abriu mão de seu trabalho para ficar com Beau. Para "educá-lo". Allen se perguntou se aquilo era uma forma de garantir que o garoto não saísse dos padrões e não fosse uma desilusão, como ele fora.

Doeu. Doeu saber que agora ela tentaria ser mãe, que colocaria o filho como prioridade.

Allen realmente tentava parar aqueles pensamentos negativos sobre a nova família que Christina estava criando, a qual não o incluía. E tentava principalmente porque Beau parecia uma criança alegre e sempre contava coisas banais para ele quando se falavam por telefone. Também tentava porque muitas vezes quem tomava a iniciativa para ligar era Richard, que sempre desconfiou da orientação sexual do menino. Rich, que foi mais complacente que sua própria mãe, que provavelmente tentou fazê-la ver as coisas por outro ângulo.

Allen gostava de Richard e queria manter o contato com ele, ainda que sua mãe tenha feito-o se sentir como "uma das surpresas da vida" que atrapalham todo o restante.

A pior parte, no entanto, foi o que se seguiu ao egoísmo dela.

"Aproveite que ainda não tem família."

Allen tinha uma família. Isso ele não permitiria que alguém dissesse. Sua família era não-convencional, mas era a mais unida e a única que ele precisava. Ele amava cada um dos membros de sua família: Mana, Megan, Yuji, Lena, Lavi, Breeze, Alma e Kanda Yuu.

Sua imensa e amada família, a qual ele não trocaria por Cirque du Solei nenhum. Ele poderia duvidar de qualquer coisa – inclusive da própria capacidade – mas não duvidaria do amor que os unia. E se com "coisas passageiras" ela quis dizer o seu relacionamento com Kanda, não poderia estar mais errada.

Oportunidade nenhuma o faria tão completo como aquele homem fazia. E se alguma vez se arrependesse de alguma coisa, seria de não ter ficado o máximo de tempo possível com ele, não brigado mais, não agradecido ao isolamento das paredes, não dito "eu amo você" mais vezes.

Oportunidade nenhuma o faria duvidar de sua família.

Aquilo o tinha deixado com tanta raiva! Dizer que não poderia formar uma família, dizer que iria ficar sozinho, jogar todas aquelas acusações preconceituosas camufladas por preocupação era tão injusto!!

Se ela queria a sua felicidade, iria entender que sim, já estava com as pessoas importantes para ele e que seria feliz ao lado daqueles que o amavam e apoiavam. Se ela era incapaz de pôr a felicidade do filho acima de qualquer preconceito, não seriam suas intenções que Allen consideraria.

Ele não queria odiá-la, não queria ter ódio e rancor dentro de si – eram sentimentos muito pesados. Porém, não iria tolerar aquelas palavras tão duras e injustas.

Allen já se sentia importante e útil, também desejado e amado, a cada minuto que passava com Kanda. Apesar de nunca ter pensado em ser pai, ele não achava que apenas se sentiria realizado com uma criança. A realização pode vir de várias formas e, na sua cabeça, dar à luz e doutrinar outra pessoa não pode ser algo apenas em prol de satisfação própria.

Não teria um filho tendo em conta "prazo de validade", ou medo de ficar sozinho ou mesmo satisfação. Se algum dia ele e Kanda decidissem ter um filho seria porque gostariam de guiar alguém pelo mundo, auxiliando sempre e deixando que essa pessoa fizesse suas escolhas, suas crenças e engrandecesse sua alma sem medo de viver ou de ser rejeitada, porque sempre teria seus pais para apoiá-la.

Ele não queria um filho de um óvulo que foi concebido com o pensamento de que seu amor era errado, passageiro e que não lhe daria frutos nenhum. Que seu amor era um caminho de arrependimentos.

Allen se recusava a acreditar naquelas palavras, naquela "boa ação" que tanto o machucou.

"Já é a terceira rodada de choro que você começa, Moyashi."

O albino pulou minimamente com a voz às suas costas e tentou limpar as lágrimas antes de olhar para ele por cima dos ombros.

Yuu estava deitado de bruços sobre a cama, os braços esticados para o lado deixando seu corpo em um T gigante. Ainda assim, estava com o rosto meio corado virado para o lado de Allen, a bochecha prensada contra o travesseiro e os olhos ligeiramente nublados.

"E-estou bem..." — Mentiu com a voz totalmente quebrada e rouca, retirando os óculos embaçados e deixando-os junto com a carta em cima da cômoda, pondo-se a tirar o colete que vestia. Sua cabeça estava uma completa bagunça, o rosto vermelho pelas lágrimas, mas ele não tinha muita vontade de explicar tudo em detalhes no momento, ainda mais com Kanda bêbado.

"Fale o que 'tava lendo..."- O moreno tentou ordenar, mas sua voz saiu tão macia que era mais um pedido manhoso.

O Walker balançou a cabeça negativamente, suspirando enquanto tirava a roupa e ficava só de boxer.

"Mesmo que eu falasse, você está bêbado, seu babaca, não vai nem ouvir. "- Tentou brincar, olhando por cima do ombro e vendo o olhar de Kanda fixo em sua bunda. Allen quase riu da forma indiscreta que ele olhava. Enquanto abaixava para retirar as roupas do chão, viu que ele tentava processar a frase e formular uma resposta.

Com uma atividade cerebral lenta, Kanda respondeu: "Vou ouvir sim, você não sabe nada sobre mim, seu feijão."

Ignorando a garganta ainda meio fechada, Allen deixou escapar uma risadinha entupida enquanto voltava para a cama e subia de joelhos nela. Yuu apenas observou com reflexos lentos o namorado se aproximar. Era até uma situação engraçada o modo como ele estava vulnerável mas ainda tentava impor a voz.

"Ah não sei." — Sussurrou tentando ser brincalhão, enquanto deitava de lado e rastejava por sob o braço dele. Kanda nem ao menos se mexeu, mas na posição que estavam era como se estivesse abraçando Allen pelo pescoço.

"Pare de chorar, está molhando a cama."

"Para de babar, está molhando a cama." — Em uma situação normal, Kanda teria uma resposta, mas agora ele apenas olhava confuso para o garoto, tentando manter a consciência para retrucar com ele.

Allen viu quando Yuu tentou franzir as sobrancelhas, mas aparentemente precisava de muita força e controle para isso. A tentativa fez o albino imaginar que ele estava procurando alguma resposta, mas a cena durou apenas um segundo e logo a feição voltou a ser a de um bêbado em paz.

"O que foi?" — Kanda perguntou, a voz saindo estranha pela bochecha pressionada.

Como se não pudesse dizer "não" à comunicação entre eles, o menor tentou resumir o teor da carta e os sentimentos que despertaram em si. Ele tentava não pôr muita emoção para não chorar novamente e mantinha o olhar focado na dobra do pescoço com o ombro do moreno, como se ali fosse um ponto que lhe desse coragem.

Ao final da história, ambos ficaram em silêncio, apenas a respiração calma de Kanda soando acima de sua cabeça. Quando os olhos prateados se voltaram para ele, Allen franziu o cenho para os olhos fechados e expressão serena.

"Você dormiu, não dormiu?" — Perguntou numa mistura de indignação, mas meio que reconhecendo que ele estava cansado e bêbado, portanto aquilo não seria motivo para uma discussão futura. No entanto, a voz rouca e cada vez mais grogue de sono soou baixinha e arrastada.

"Eu ouvi."

Allen arqueou as sobrancelhas, olhando para ele como se esperasse que acrescentasse mais alguma coisa. Como se soubesse que estava sendo encarado por um par de olhos prateados, Yuu fez um movimento com os lábios que, caso ele estivesse sóbrio, seria um estalar de língua.

"Então porque não disse nada??" — Sussurrou de volta, um pouco incrédulo que Kanda realmente o ouviu.

Houve uma pausa de uns três segundos para o moreno raciocinar e então veio com uma conclusão que deixou Allen sem palavras.

"Não aceite. A criança ia ser seu irmão e eu estaria fecundando a sua mãe."

A sentença calou os dois e o albino arregalou os olhos para aquele raciocínio que mesmo ele havia deixado passar!! Sem querer, a imagem de Kanda na cama com Christina inundou sua cabeça e dessa vez ele teve vontade de chorar de desgosto.

Um gemido de frustração e nojo fez Yuu delinear um sorriso rápido no rosto, imerso na própria névoa embriagada, mas ainda satisfeito por tê-lo feito parar de chorar. Outros segundos se passaram antes de Kanda soar novamente.

"Tch, e se você quiser um bebê é só mandar fazer um." — Acrescentou, parecendo uma criança emburrada com o tópico. Allen teve que fazer um esforço para não ceder à fofura da sentença e outro bem maior para não engasgar de surpresa ao ouvir aquela sugestão.

"Bakanda, você tem noção do que está dizendo?" — Perguntou, questionando a sanidade do rapaz.

"É claro" – um soluço – "que eu tenho, Moyashi. Aquela loira cabeça de vento... "– Allen deduziu que fosse Breeze –"... comentou com o intrometido..." – esse com certeza era Alma –"... sobre juntar sangue para fazer bebê em labotorio." — Allen precisou morder os lábios para não rir daquele discurso, as lágrimas sendo esquecidas e substituídas pela curiosidade. Quando Yuu começava a chamar todos por apelidos era evidente o seu estado alterado. -" Sua amiga ouviu e o Usagi agora não para de encher a porra do meu saco." — Kanda tentou franzir as sobrancelhas e Allen fez uma expressão pensativa.

"Por que Lena estava sabendo dessa conversa e não me contou...?"

"Isso é com os estúpidos dos seus amigos e não comigo, Moyashi."- Ele ditou de forma enrolada, parecendo aborrecido. Allen riu enquanto se aconchegava mais nos braços do namorado.

"Eles também são seus amigos, Bakanda."

"Não me importo." — Declarou, o albino sabendo que aquilo era uma mentira descarada.

"Certo..."- Sussurrou, sentindo-se protegido entre os braços dele, a dor no peito sendo adormecida pelo aconchego que ele, inconscientemente, lhe propiciava. -"Ne, Bakanda..." — Chamou, depois de puxar o cobertor que estava ao pé da cama para cobri-los. — "Você tem essa pose, mas no fundo sei que é romântico." — Houve um chiado de língua, mas Yuu não disse nada. Allen deu uma risadinha, esfregando o rosto contra o braço dele. — "Você é o tipo de pessoa que faz uma promessa e a cumpre, não importa o tempo que passe. Principalmente se for pela pessoa que ama."

"Moyashi, eu que bebi e quem está alucinando é você." — Resmungou, parecendo não disponível para mais nenhuma ladainha. Allen soube que era hora de parar de provocá-lo.

O moreno arrumou a cabeça no travesseiro e apertou o corpo de Allen contra si por instinto, não consciente de como o ato foi importante para o albino, que ficou com o coração mais calmo e aquecido. Kanda ali era uma prova de que suas decisões estavam certas e que não havia nada para se arrepender.

Sem querer sair da posição, precisou se esticar, usando os pés para desligar o abajur ao lado da cama, até porque também era impossível se desvincular do abraço de um Yuu bêbado. Quando o quarto estava completamente na penumbra, voltou-se para aquele que o aconchegava o suficiente para dormir o restante da noite sem culpas desnecessárias.

"Feliz aniversário, Allen." — Ouviu quando estava já caindo no sono e adormeceu com o pensamento de que Kanda se forçou acordado até que ouvisse o ritmo de seu coração mais calmo e tivesse certeza que poderia dormir sem problemas. Aquela constatação foi o suficiente para deixá-lo com um meio sorriso no rosto.

A carta permaneceu sobre a cômoda esfriando com o frio da madrugada russa e, na manhã seguinte, quando Allen acordou sozinho, já não estava mais lá.

Todavia, mal lembrou de dar atenção ao destino dela, porque Kanda surgia do banheiro com uma expressão irritada e dolorida, que piorou ao ver o sorriso brilhante do Moyashi.

Com sua memória excepcional – e já treinada para ressacas de Vodka – lembrava-se vagamente o que tinha falado na madrugada, mas deixaria Allen tocar no assunto.

A verdade é que, se Allen quisesse mesmo e fosse fazer a sua felicidade, Kanda podia talvez pensar em aceitar uma criança. Talvez.

—--AW&YK---

Eventualmente, o anel talhado com a flor de lótus receberia uma inscrição de data e passaria para o dedo anelar da mão esquerda de ambos.

Apesar de terem sido os primeiros a se conhecerem, eles seriam os últimos a tomar aquela decisão e tudo seria feito de forma sigilosa.

Apesar disso, Mana finalmente cederia e diria a Kanda para cuidar bem do seu filho. Yuji choraria de orgulho e teria que ser consolado por Allen, que tentaria distraí-lo com umas comidas diferentes. Lena choraria e Lavi entregaria um afrodisíaco como presente na maior cara de pau. Breeze o abraçaria forte e Alma agradeceria várias vezes por Allen ter ficado, dando um sorriso leve e genuinamente feliz.

Tiky, Neah, Road e Cross ficariam até a metade da cerimônia, mas depois sairiam por conta de outros compromissos, não antes de congratular pela decisão.

Até mesmo Amelié apareceria e ficaria até o fim da festa reclamando da falta de buquê. Richard mandaria um presente de Londres, junto de uns desenhos feitos por Beau, desenhos de um palitinho de cabelos negros e compridos e de um palitinho de cabelos brancos de mãos dadas e envoltos por um coração grande e torto. Christina também assinaria a desenho e, anos depois, ambos marcariam um encontro em um café em Londres para que a mulher conhecesse a neta.

Sim, após alguns anos, quando Allen já tinha 27 e Kanda, 28, o moreno cederia à pressão de todo mundo.

Ele já estava de saco cheio das indiretas de Yuji sobre mini Yuu´s e de como em todo jantar o tópico recaia sobre as histórias de infância do herdeiro – Allen, diga-se de passagem, adorava e ria o tempo inteiro. Também havia a questão de que, depois de Breeze e Alma terem se oficializado e anunciado que não teriam filhos biológicos mas sim adotariam, Lavi estava se queixando de como a humanidade não queria dar continuidade à história dos genes. Ele insistia em dizer que as lembranças de todos eles seriam apagadas se não fizessem filhos.

E o que dizer do surto de histeria que Allen teve ao descobrir que Lenalee tinha caído naquela ladainha e já esperava o primeiro filho deles?

De toda forma, Breeze estava certa sobre o tratamento nos Estados Unidos que permitia que duas pessoas do mesmo sexo usassem material genético para fecundar um óvulo doador, o qual teria suas características genéticas reduzidas, a fim de ter a menor influência possível da doadora. Apesar do custo dispendioso, após alguns meses, Allen – que tinha ficado nos EUA em companhia de Breeze e Alma – ligou para Yuu com a voz embargada para anunciar que a implantação dera certo e que, após o período de possibilidade de rejeição do embrião, havia a confirmação de que eles estavam esperando um bebê.

Seis meses depois, a sala de espera de um hospital estava cheia.

Lavi andava de um lado para o outro embalando um garotinho ruivo de dois anos nos braços; Lenalee roía as unhas enquanto procurava espiar por uma porta o que acontecia no quarto onde era realizado o parto da garota que tinha se oferecido para ser barriga de aluguel dos dois. Breeze e Alma, como sempre, permaneciam calmos e falavam baixo enquanto conversavam entre si. Megan oferecia café para Yuji e Mana, que começavam a apostar com qual deles o bebê mais se parecia, ainda que a surpresa maior fosse o sexo do bebê: Allen, apesar de toda a curiosidade, insistiu que ninguém saberia o sexo da criança até o momento do parto.

Kanda até tentou discutir, dizendo que o quarto todo ia ficar numa cor neutra repugnante, mas logo recebeu um olhar de mãe furiosa de Allen, que se encarregou de arrumar o quarto sem deixar tudo amarelo. Era na verdade um quarto todo colorido, com bichinhos de pelúcia e poltronas para quando os dois precisassem sentar para dar mamadeira.

Quando, depois de horas de espera, o médico apareceu dizendo que poderiam receber visitas, todos entraram no quarto como um "bando de bois desgovernados", como Yuu carinhosamente descreveu. No entanto, a surpresa maior foi ouvi-lo dizer aquilo com uma expressão enfezada enquanto segurava uma garotinha recém-nascida nos braços. Os fios ralos e ainda sujos do bebê eram negros, mostrando que ela puxaria a mesma cor dos fios presos em um coque que o pai tinha naquele momento.

Allen estava alternando o olhar do marido com a filha para a mulher que tinha dado à luz, a qual ainda tinha a mão segurando a dele. Os dois estavam presentes no parto para dar todo o apoio e agora o albino agradecia em lágrimas.

Enquanto o médico cuidava da moça, Mana abraçou o filho apertado, deixando rolar algumas lágrimas enquanto Megan ia até Kanda observar as feições delicadas do bebê. Lenalee chorava mais que os próprios pais, tentando falar algo mas se enrolando nos soluços, enquanto Lavi já começava a irritar Kanda falando sobre como os filhos deles seriam bons amigos. Yuji, apesar da ansiedade na sala de espera, primeiro abraçaria Allen por um bom tempo e depois os dois avós se revezariam para pegar na neta.

Naquela primeira noite, Allen daria a mamadeira enquanto Kanda ficaria sentado no braço da poltrona e, enquanto ambos a encaravam encantados, ela abriria os olhos azuis tão claros que provavelmente mudariam para prateados.

Nesse momento, Kanda enfiaria o nariz no pescoço de Allen e entre beijos e lágrimas, agradeceria.

"Fleur Charpennet" — Allen sussurraria, o braço esquerdo embalando a garotinha e o direito se ocupando com a mamadeira, enquanto Yuu deixava o neném segurar seus dedos enquanto revezava os olhos grandes para os pais.

Aquela discussão de nome tinha sido complexa.

Ambos tiveram que procurar um nome feminino e um nome masculino para a criança e, depois de muita briga sobre o feminino, decidiram por Fleur. Allen ainda quis pôr Laurentine no meio, mas Kanda achou muito grande. Ambos concordaram que Charpennet seria uma boa homenagem para a mulher forte que Margot era.

Alguns meses depois do nascimento da pequena, a Lune lançaria uma linha chamada "Fleur", a qual teria todos os perfumes baseados em flores e estações de anos. A mais vendida, no entanto, seria a fragrância "Honey", baseada no aroma da flor de Lótus.

Anos depois, Lavi diria que Fleur seria uma flor perfeita se às vezes não desse umas patadas ao estilo de Kanda e, enquanto Lena revirava os olhos em seu mal humor de grávida e ia atrás dos filhos de oito e quatro anos, Allen pegaria a filha de seis anos nos braços, a qual estaria com um vestidinho vermelho e ambos dariam língua para o ruivo. Na festa de aniversário da garotinha, Kanda seria o pai autoritário que não deixaria Allen e Fleur afundarem nos doces, mas o albino daria um jeito de esconder alguns para comer escondido com a filha.

Quando a festa e a bagunça de crianças acabasse – junto com elas, acabasse também as reclamações de Yuu – ele voltaria a ser o pai babão escondido, do tipo que assistiria a criança dormir. Naquela idade, Allen e Kanda já haviam concordado em não colocar a filha na Ordem Negra, pois não a queriam no Sistema Honey. Yuu se recusava a mandá-la para Paris para ser rodeada de pessoas falsas e de dinheiro apenas em nome dos negócios.

Então ela ficaria em Moscou, estudaria em uma escola normal e seria considerada uma das garotas mais bonitas e inalcançáveis da escola. O rosto impassível, os longos cabelos negros e os olhos claros a fariam o centro das atenções — também o fato de ter dois pais colaborava. E poucos tinham coragem de se aproximar da filha do homem moreno com cara de Yakuza e que parecia tão mal quando ele. Apenas os poucos amigos próximos de Fleur saberiam dos sorriso e olhos brilhantes que ela dava para aqueles em quem confiava e da obsessão por doces que tinha herdado do "pai fofo", como eles apelidavam Allen.

Mas naquele momento, ambos não teriam nada daquilo em mente, o futuro estava longe demais da bolha de felicidade em que se situavam. Os pais estavam focados demais em observar a garotinha recém-nascida e intimamente esperavam que o tempo passasse com muita lentidão, pois já não se imaginavam sem a promessa de uma criança para encher e colorir a casa.

O quarto do bebê também estava igualmente cheio, repleto de caixas coloridas de presentes enviados pelos amigos e conhecidos da família que sabiam no nascimento do neném.

E, dentre todas elas, uma particularmente singela e pequena, de um preto fosco bonito, chamaria a atenção de Allen quando começassem a desembrulhar os presentes. A caixinha que cabia dentro da palma de sua mão era acolchoada de vermelho e antes de ver o artigo, havia um cartão cobrindo-o. Nele, duas palavras estavam escritas:

"Parabéns.

Alphocryphos."

E quando Allen, estupefato, retirasse-o da frente do presente, encontraria ali um par de brincos, ambos talhados com uma flor de lótus. Os mesmos brincos que lhe causaram tanto problema mas que deixaram de ser um peso, uma prisão, para ser um amor, uma liberdade. O mesmo brinco que o fez encontrar a pessoa com que viveria o resto de sua vida; o mesmo que fora recolhido pela escola, pois era regra manter aqueles brincos como tradição.

Agora, no entanto, ele estava ali, dentro de uma caixinha, sendo guardado como a preciosidade que era. Ficaria durante anos em cima da estante de lembranças que, com o tempo, seria preenchida com porta-retratos, lembranças de viagens, bailarinas de porcelanas, livros, artefatos japoneses e álbuns de fotos.

De vez em quando, Allen voltaria a pegar naquela caixinha, passaria um tempo a encarando e depois voltaria o olhar para um Kanda que dormia no sofá no meio de um filme.

Com um sorriso brincalhão, Allen iria até ele, o chutaria e o chamaria de "Bakanda estúpido que não sabe nem assistir filme!". Yuu iria franzir as sobrancelhas, segurar firme nos braços dele e o puxar para o sofá, mantendo-o num abraço apertado até que ele deixasse de rir e se aconchegasse ali, porque, afinal de contas, graças àquele brinco, Allen tinha encontrado seu lar.

Eu te amei pela tua língua atrevida,
Que me tira a sensatez.
Pelas tuas ações desmedidas,
Que me trazem a vida.

Ó, se fosse somente amor
Que me fizeram insistir
Quando todos me disseram para desistir
Foram tuas palavras agressivas,
Na horas feitas sob medida.

Eu te amei ainda mais,
Quando destes cores a minha vida.
Quando os teus tons de cinza,
Misturam-se aos meus dias em branco,
Fizeram o mais lindo quadro que nunca verão.

Fim

Notas finais
E, ownnn, Honey está oficialmente terminada!!!! Gente, estou em lágrimas, não vou mentir. Esse foi um dos melhores capítulos para se escrever e eu gostei tanto deles que vocês não têm noção!!! Como epílogo, eu quis dar uma pequena amostra do futuro deles e , ownn, filhos da Lena com o Lavi! Que bonitinho, gente, tô nas nuvens! Para quem queria casamento e filhos, voalá!!! Tanta coisa aconteceu nesse epílogo que nem sei, só sei que eu amo de coração a Fleur ♥ É a filha dos Yullen, minha gente nhonhonho Cena do Allen pegando ela no colo e dando língua para o Lavi foi a minha morte. E, bam, toma essa bomba com a Christina. Doeu super escrever isso, gente, de verdade. Mais uma vez eu quis deixar as coisas realistas e sinto muito se alguém sentiu essa dor de ouvir algo assim! Saiba que há pessoas que te amam e que te apoiam e não há nada para se envergonhar quando há amor saudável! Você vai ficar bem, tudo vai ficar bem! Até mesmo a Christina vai ver a Fleur algum dia, mas o Kanda mesmo vai se recusar a ir. Eu imagino que ele vai buscar o Allen e a Fleur de carro quando o encontro no café acabar, vestindo óculos escuros que impedem a Christina de ver os olhos julgadores dele ahahah No fim, nosso Allen foi pra Bolshoi, Link apareceu para encher a paciência do Kanda e o Alphonse ainda mandou um presente!!!! Só o choque, gente! Mas vejam, ele mandou parabéns, o que é um sinal de que, lentamente, após anos, ele está se recuperando! Fico feliz por ele! Kanda e Allen optando por não colocar a Fleur na Ordem é tão a cara deles! Kanda certamente odeia a Ordem Negra. Não vou falar nada sobre o Lavi insinuando coisas sobre os filhos deles ahahaha Yuu é o tipo de pai que vai assustar todos os pretendentes da princesa dele ahahaha Não que a Fleur seja acessível, mas né rsrsrs Meg e Mana juntinhos owwwnn Alma e Breeze mais juntinhos ainda nhonhonho Tudo deu tão certo que até o Neah apareceu aqui, minha gente! Carregando o Cross bêbado com ele!! Eu amei demais esse capítulo, amei demais como foi escrito e a sensação de nostalgia feliz que ele deixa. Amei demais esse poema lindo que a JahS fez para Honey e a última frase soou ambígua de uma forma tão doce: “Quando os teus tons de cinza, Misturam-se aos meus dias em branco, Fizeram o mais lindo quadro que nunca verão.” Claramente referência aos olhos prateados/cinzas de Allen pintando um quadro lindo (alguém lembra do capítulo do atelié) na vida do Kanda!! Com direito a ambiguidade com o verão, que além de vir do verbo “ver”, me lembra a estação verão, tão quentinha e aconchegante, como a amor deles! Além de que essa fanfic tem muita coisa com estação de tempo e tudo mais! Se vocês repararam, Fleur é flor em francês, que tem super a ver com essa fanfic ahahaha Cada pequena coisinha e sua referência. Tenho tanta coisa para falar sobre esse capítulo que nem sei mais o que falar. Só que eu amei demais ele! Eu não poderia amar mais esse último capítulo de Honey, que já me fez quase chorar e rir bastante! Eu espero que vocês tenham gostado desse capítulo tanto quanto eu, ou pelo menos que tenham um pouquinho do amor que já tenho por ele, porque, cara, é muita coisa. Sem palavras para descrever a saudade que vou sentir dessa fanfic, dos comentários tão lindos que já comecei a responder. Vou sentir falta demais disso, eu amo vocês demais. São os melhores leitores que eu poderia pedir. Mas, enfim, ainda vai vir uma nota de autora bem sentimental por aí, quando eu terminar de responder todos os comentários. E, após ela, eu finalmente vou mudar o status de Honey para “finalizada”. Ansiosos? Obrigada por me acompanharem até aqui, por serem tão pacientes e carinhosos. Eu amo todos vocês, cada um de vocês, intensamente. Adoraria ler os seus pensamentos sobre esse último capítulo. Um abraço forte em cada um, um adorável beijo na bochecha e até mais ♥