Honestly? I love you!
6 Longe de tudo
Notas iniciais
Era a primeira vez que Hanna pisava em um motel. Aliás, não duvidava nem um pouco que fosse a primeira que Mona pisava em um também.
Elas ainda tinham algumas semanas antes do último ano começar e, não podendo ir para longe demais, decidiram passar algum tempo em Nova Jersey, afinal, o estado vizinho ao norte – Nova York – trazia más lembranças a elas.
A ideia de estarem em Newark, uma cidade que nunca haviam visitado, sozinhas, reclusas e imperturbáveis, quase que em um mundo à parte, era tão... sexy. Mas por mais sexy que tudo aquilo pudesse parecer, Hanna rezara para que as paredes do quarto não fossem forradas por um papel de parede vermelho-broxante e para que o que houvesse no centro do quarto não fosse uma cama redonda e giratória. Os estereótipos que as pessoas tinham de motéis eram tão bregas!
Felizmente, o quarto era claro e espaçoso. Uma cama king size, com pelo menos uma dúzia de travesseiros brancos e de aparência fofa, roubava a cena ali. Uma enorme janela dava vista para os prédios altos e amontoados. O verão estava no fim e o dia estava fresco e cinza, combinando com a selva de concreto lá fora.
O som de Mona já tirando as sandálias rasteiras por trás de Hanna era aconchegante. A loira deitou-se primeiro na cama e puxou a garota para si, arrancando dela uma gostosa risada.
A morena encaixou as pernas ao redor dos quadris de Hanna, cujo ventre se contorceu com o súbito calor. Se encolheu e apertou a garota contra si, beijando os lábios ansiosos dela em seguida. Gestos esses tão suaves, tão espontâneos, tão sincronizados, tão certos.
Mona expirava gemidos inaudíveis por entre os beijos e Hanna parou por um momento. Fez questão de fitar aqueles grandes olhos castanho-claros. A doçura que ela vira naqueles mesmos olhos da primeira vez em que se beijaram estava ali mais uma vez. Deus, como Hanna amava aqueles olhos!
Segurou delicadamente o rostinho em formato de cereja da garota e fez as pontas de seus narizes se tocarem. O lábio inferior de Mona tremia; de olhos fechados, ela parecia estar a ponto de chorar, e alcançou os lábios de Hanna mais uma vez, selando-os repetidas vezes de um jeitinho atrapalhado.
— Preciso tanto de você – confessou ela em um sussurro, agarrando-se à loira em seguida.
Havia um inocente pavor na voz de Mona, era quase como se ela temesse que algo fosse separá-la de Hanna repentinamente.
— Meu anjo – sussurrou Hanna de volta, sentindo que nunca antes quisera dizer tais palavras com tamanha vontade – Eu não vou a lugar nenhum.
Hanna deitou Mona com um extremo cuidado à ponta inversa da cama, quase como se a garota fosse feita de cristal, e esta puxava delicadamente o tecido da camiseta da loira, como que pedindo a ela para que se livrasse de tal. Hanna obedeceu, logo depois sentindo as pontas dos dedos de Mona escorregando pela pele alva de sua barriga. Ela fechou os olhos e deixou-se deliciar com os leves calafrios que lhe percorriam o corpo.
E foi a vez de Mona deixar nua a pele da cintura para cima. Hanna observava, hipnotizada, as curvas dela, como se tais fossem genuínas pinturas à oleo. Mordeu o lábio antes de deslizar a ponta da língua pela linha acima do cós dos jeans da garota. Sentiu Mona estremecer e juntar os lábios, contendo um gemido, como se de alguma forma ela pensasse que deixar um escapar fosse algum tipo de pecado.
Hanna trilhou beijos dengosos por toda a extensão do abdome da garota. Mona tinha os dedos entre os cabelos da loira, como se quisesse que ela permanecesse fazendo o que estava fazendo. Encontraram os olhares e sorriram uma para a outra, levemente ofegantes.
Hanna encaixou os lábios entre o ombro e o pescoço de Mona e ouviu-a finalmente deixar escapar um gemido rouco dos lábios, o que a fez arrepiar-se por completo. Deixou a morena ficar com facilidade sobre si, suas pernas juntas entre as dela, e levou dois dedos de cada mão à abertura frontal do sutiã dela.
— Sem luzes apagadas desta vez – lembrou Hanna em um sussurro rente ao ouvido de Mona.
— Sem luzes apagadas – ela repetiu, baixinho, como se entendesse pela primeira vez que era de fato desejada, e desabotoou o sutiã de Hanna também.
A inocência de menina que, segundos antes, Mona tinha nos olhos havia desaparecido, Hanna notava; havia maturidade naqueles olhos agora; era o olhar de uma mulher segura.
Novamente, era como se a morena procurasse por algo nos olhos azuis dela, ou como se visse algo além deles – e Hanna sabia que ela via, afinal, conheciam uma a outra mais do que a elas mesmas.
— Tem noção do quanto é linda? – perguntou Mona em uma voz mais densa, como se quisesse mesmo saber a resposta.
Tal colocação acertou em cheio o ego de Hanna e ela se lembrou instantaneamente do que Mona respondera quando Hanna perguntara-a a mesma coisa, na primeira vez em que se beijaram, há quase quatro anos.
— Terei se me deixar ter – rebateu.
Mona percebeu o trocadilho e sorriu, os olhos brilhando. E foi sua vez de deixar uma trilha de beijos dengosos pelo pescoço de Hanna. Arrastou sutilmente os dentes da frente pelo ponto de pulso da loira, provando da pele agridoce dela.
Aquilo tudo ainda era muito surreal para Hanna. Nunca ela se atrevera a pensar que sua melhor amiga pudesse desejá-la daquele jeito. E o surrealismo, naquele caso, caminhava de mãos dadas com a excitação, e Hanna por pouco não se entregou de vez. Ela tinha os braços firmemente envoltos à cintura de Mona, mantendo seus corpos colados. Era possível sentir que a respiração das duas, embora descompensada, estava em perfeita sintonia.
Mona afastou os lábios do pescoço de Hanna e desceu-os vagarosamente pelo tórax dela. Novo território, pensou a loira, nervosamente feliz, ah, meu Deus!, porém tentou manter a voz ironicamente calma.
— Ei, pensei que eu fosse fazer isso – protestou infantilmente.
Mona encontrou o olhar de Hanna novamente, voltando a ficar no mesmo nível que ela.
— Shhh – sussurrou rente aos lábios da loira, colocando um indicador entre eles – Quietinha.
Parte de Hanna achou graça daquilo. A maior parte, porém, deixou-se deliciar pelo tom sexy da voz de Mona. Aquilo era novidade também. Outro lado da morena que Hanna nunca havia experimentado e que estava fazendo-a perder lentamente as estribeiras.
— Está querendo brincar de dominadora e submissa comigo? – desafiou.
— Você gosta? – rebateu Mona, no mesmo tom de desafio.
Hanna assentiu, mordendo o lábio, e Mona se afastou novamente; desta vez, para desprender os jeans da cintura de Hanna e puxá-los pelas barras tão rapidamente quanto um piscar de olhos. A morena também mordia o próprio lábio ao fazer isso, numa expressão maliciosa que Hanna também nunca havia visto.
Com os jeans da loira no chão, Mona alcançou a calcinha dela, escorregando a peça delicada pelas coxas de Hanna num movimento igualmente rápido. Desabotoou os próprios jeans em seguida e foi a vez de Hanna ajudá-la a se livrar de tal pelas barras.
— Uau – foi tudo o que ela conseguiu dizer assim que Mona voltou a deitar rente a ela.
A morena tinha um sorriso travesso nos lábios e uma expressão, agora, pacífica.
— Ora, querida, você me conhece há tempos. Deve saber que eu sou eficiente.
E mais uma vez, Hanna apenas deixou-se derreter por aquela voz sexy. Apoiou-se sobre seu lado esquerdo e deixou que a morena flexionasse sua perna direita e deixasse-a rente aos próprios quadris.
— Muito eficiente – Hanna concordou, avançando um pouco mais sobre a garota para cortar a distância entre os dois pares de lábios.
Mona deslizava a mão esquerda desde a coxa até a panturrilha de Hanna; a palma dela ia e vinha em carinhos descompromissados, que se intensificaram, assim como os beijos, que iam ganhando mais voracidade gradualmente, até que Hanna sentiu que a ponta dos dedos da garota alcançavam seu centro.
A loira obrigou-se a separar seus lábios dos de Mona e indicar que aquilo havia surtido um efeito positivo sobre si. Os movimentos eram circulares e precisos, como se ela soubesse exatamente onde devia tocar, como se não fosse a primeira vez que estivesse fazendo aquilo.
Um sorriso quase descrente escapou dos lábios de Hanna enquanto ela, de olhos fechados, tentava administrar aquelas ondas de o que diabos é isso? que percorriam-lhe o corpo por inteiro.
— Tem certeza de que sou mesmo sua primeira? – ela conseguiu murmurar, não se sentindo em condições de mover qualquer outro músculo. Estava eletrizada.
— Tenho – rebateu Mona em uma voz contida, parecendo também saber exatamente o que aquilo tudo provocava em Hanna – Existe razão mais justa para eu querer buscar minha excelência com você?
Você ainda vai acabar comigo, Hanna queria desesperadamente dizer, e de fato era verdade. Ela não aguentaria muito mais daquilo. Colou seus lábios aos de Mona mais uma vez numa tentativa frustrada de aliviar a carga. Por mais inebriante que fosse o gosto da morena em sua língua, Hanna não conseguia se concentrar. Por favor, ela clamava mentalmente. E o orgasmo a atingiu em meio ao beijo molhado.
Mona soube exatamente quando cessar os movimentos com a mão esquerda e agarrar-se a Hanna novamente, acariciando suas costas sutilmente suadas na tentativa de acalmá-la. Hanna, por sua vez, apenas deixou que o aroma de cacau do shampoo que Mona usava a invadisse, assim como toda e qualquer essência que compunha ela.
Ainda enganchada em Mona pela perna direita, Hanna deixou que sua própria respiração se normalizasse sentindo a dela em seu pescoço.
— Tudo bem? – perguntou Mona finalmente, com uma doce preocupação nos olhos.
— Está brincando? – retrucou Hanna, em uma risada. Eu estou basicamente fora de mim!, ela queria acrescentar.
— Sempre é bom checar – Mona acariciava os cabelos de Hanna, parecendo apreensiva quanto a possibilidade de não ter conseguido levar a loira ao ápice.
Hanna entrelaçou sua mão direita à esquerda da morena.
— Queria ter descoberto antes o quanto poderia ser bom ficar assim com você.
Mona baixou o olhar e sorriu, parecendo encabulada de repente, porém Hanna trouxe o rosto dela de volta para si.
— Mas de agora em diante sei que terei tempo suficiente para fazer isso – concluiu e guiou Mona novamente para a cabeceira da cama.
A garota recuperou o brilho nos olhos e pareceu aliviada ao ver que Hanna avançava sobre ela com a mesma voracidade de instantes atrás. Ambas sabiam que os beijos eram apenas um “aquecimento” e portanto Hanna não estendeu muito tal contato. Encaixou o tronco entre as pernas da morena e, sem rodeios, desceu seus próprios lábios até o seio direito dela.
À princípio estava apreensiva também, não sabia se estava fazendo aquilo do jeito certo, mas relaxou ao sentir Mona encolher as pernas ao redor dela, gemendo baixinho, de um jeito que Hanna pensava que a faria enlouquecer. E deixou que a ponta da língua passeasse por aquela pele de textura macia, mordendo tal leve e instintivamente, ao que Mona respondeu com um som mais articulado.
A morena puxava delicadamente os cabelos de Hanna, o que a deu confiança suficiente para se erguer ao nível dela mais uma vez e sussurrar pausadamente:
— Mantenha as pernas separadas.
Notou o sorriso malicioso que brotava dos próprios lábios ao ver que também fizera-a se arrepiar.
— Veja só quem quer brincar de ser dominadora agora – Mona também mantinha a malícia na voz.
— Quietinha – Hanna mordiscou a orelha da morena, constatando que a vingança era de fato doce.
A garota pareceu achar graça também, e deixou que Hanna a puxasse mais para perto com as duas mãos por trás dos joelhos flexionados dela. Traçou beijos demorados pelo lado de dentro das coxas de Mona, que tremiam sutilmente em excitação – assim como o corpo inteiro dela –, e alcançou o centro dela mais uma vez, só que desta, com os lábios.
Era como se Hanna soubesse o que estava fazendo, e não soubesse ao mesmo tempo. O que era engraçado pois, das poucas vezes em que pensara em algo relativo a sexo entre mulheres, sempre imaginara que seria preciso um curso preparatório para realizar certas façanhas. E não. Bem, ela devia estar fazendo algo do jeito certo, ou Mona não estaria apertando as duas mãos de Hanna com tanta força; os gemidos arrastados foram se transformando em gritos desprovidos de receio, o que era extremamente lisonjeiro para a loira. Hanna não poderia estar mais feliz por Mona não ter mais vergonha daquilo, vergonha dos laços novos que elas estavam estreitando aos poucos.
O sangue de Hanna ainda fervia quando sentiu a morena relaxar o corpo finalmente, mas se acalmou ao vê-la aninhar-se em seus braços em seguida, como se estivesse agradecendo a Hanna pelo que ela acabara de fazer.
A garota estava ofegante e abraçava a loira firmemente pela cintura. Mesmo sem olhar para ela, Hanna sabia que o mesmo estranho pavor de instantes antes voltara a assombrá-la, ainda que em pequena escala. Sentia que aquele abraço queria dizer que Mona não iria deixá-la escapar mesmo assim.
Hanna sorriu, novamente apreciando o aroma inebriante de cacau que brotava daqueles cabelos escuros. Queria dizer a ela que nada mais de ruim aconteceria, mas se conteve. Desceu as carícias da mão esquerda até o braço direito dela e sentiu a cicatriz – os pontos já haviam caído e apenas uma marca levemente rosada restara, do tamanho de um polegar –, lembrando-se instantaneamente de Nova York.
Mona havia, direta e indiretamente, arriscado sua vida para salvar a de Hanna e a das outras quatro garotas. Hanna duvidava que um dia pudesse ser tão corajosa. Quer dizer, sim, ela havia matado Bethany Young com um impensável tiro nas costelas mas, de alguma forma, o que Mona fizera estava acima disso a vários níveis. Ela evoluíra de uma maneira inacreditável, e por isso Hanna morria de orgulho dela e daquela cicatriz que provavelmente nunca desapareceria – e era bom que não desaparecesse.
Agora Hanna acariciava o braço direito de Mona de cima a baixo, percebendo que apenas o fato de estar enganchada a ela já a emocionava.
— Eu amo tanto você – disse Hanna em um sussurro, sentindo que a veracidade nas palavras a abalava – Tanto.
A morena finalmente desgrudou-se de Hanna para fitá-la. Demorou para responder. Seus olhos estavam fixos ora nos azuis da loira ou nos lábios dela. Namorava-os em silêncio. Parecia vasculhar Hanna por dentro e refazer mentalmente a pergunta de antes – tem noção do quanto é linda?
— Também amo você – respondeu ela por fim, um tanto distante. Parecia perdida em observar a garota a sua frente. E voltou a aninhar-se nela.
— Posso dormir com você? – perguntou a loira depois de um tempo onde só se ouvia a respiração calma das duas uma na outra.
Mona voltou a olhar para Hanna com uma expressão confusa e divertida no rosto.
— Dormir? – repetiu, com certeza achando estranha a pergunta já que as duas estavam nuas e abraçadas uma a outra já fazia algum tempo, mas não o suficiente para que desse tempo de escurecer. Aliás, a paisagem lá fora indicava que a tarde estava em seu início, talvez duas ou três horas.
— É, dormir – confirmou Hanna, como se aquilo fosse óbvio – Apenas me dei conta agora de que a primeira e única vez que passei uma noite inteira com você foi há quatro anos atrás.
A loira desviou o olhar de Mona e sorriu antes de continuar.
— Naquela noite eu tive um sonho com... um pesadelo – corrigiu-se, não querendo dizer que havia previsto em tal sonho o momento em que Mona a atropelaria. O que era no mínimo irônico, pois Hanna teoricamente “dormira com o inimigo”. Mas em seguida disse um “que se dane” a si mesma, afinal, dormir rente a morena fora a única coisa que fizera as memórias do sonho ruim irem embora. – E eu me senti tão bem depois que acordei!
— Acho que eu me lembro disso – disse Mona com um sorriso nostálgico no rosto – Foi engraçado. Grande parte de mim dormia, mas uma menor parte sentiu quando você se aproximou. Como quando você me beijou no Radley. Eu queria retribuir mas sabia que não conseguiria – ela se encolheu, encabulada mais uma vez – Não disse nada a você sobre aquela noite porque eu não tinha certeza se havia sido real ou se eu havia sonhado. E francamente não sei o que me assustou mais na época, se foi o fato de ter provavelmente sonhado com aquilo ou se foi o fato de ter gostado tanto de sonhar com aquilo.
Hanna sorriu derretida, o interior quente mais uma vez. Então a morena havia gostado dela de um jeito especial desde o início.
— Bem, foi muito real – garantiu a loira – Assim como isto aqui está sendo.
— É bom que seja – disse Mona de um jeito que fez a frase parecer um ultimato antes de alcançar os lábios de Hanna novamente.
E, pelos segundos que tal beijo durou, Hanna se entregou de alma a ele, antes que Mona desse as costas a ela, guiando sua mão esquerda até o centro do abdome dela e, exatamente como da última vez, Hanna deixou que os pés descalços das duas se tocassem e fechou os olhos. Se dormisse em seguida, ótimo. Se não, tudo bem também. Com certeza ela não se importaria em respirar o aroma de cacau dos cabelos de Mona por mais algum tempo.
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