Honestly? I love you!
8 Lar, doce lar
Newark não era exatamente um lugar para se passar as férias. Era uma cidade atarefada, cinzenta e, durante pelo menos vinte e três horas e meia de seus dias, barulhenta. Homens e mulheres de negócios caminhavam para todo o lado com copos térmicos da Starbucks na mão.
O Branch Brook Park era o único lugar à parte disso tudo, que quebrava esse estereótipo de região metropolitana de Nova York. Superpovoado com lindas cerejeiras – as florzinhas cor-de-rosa, que paravam de florescer unicamente no inverno, formavam tapetes na grama e nas trilhas asfaltadas em meio às árvores –, fazia com que todo o dia parecesse ser Dia dos Namorados. Jovens casais estendiam toalhas de mesa ao pé dos laguinhos e ficavam ali, observando o sol que tentava brilhar por entre as nuvens grossas.
Tais cenas faziam Hanna esquecer completamente da existência de Rosewood, que, aliás, não tinha parques, apenas praças sem graça e um bom pedaço de mata fechada em seus arredores. Mas ali, de frente para Mona à margem de um dos laguinhos, Hanna fechou os olhos por um segundo e, sentindo o cheiro que vinha dos carrinhos de pipoca doce, pensou em como o último ano parecia estar distante de começar, em como se sentia livre. Era como se sua vida estivesse finalmente começando. Era o melhor sentimento do mundo! E ela teve que ter um ótimo autocontrole para não propor a Mona que esquecessem a formatura e ficassem morando juntas permanentemente em Newark.
Seu coração acelerou e encheu-se de uma felicidade suprema ao pensar em tal possibilidade. Por que ela tinha que se autocontrolar, afinal? Tudo parecia tão certo! No caminho até o parque, Hanna não soltara da mão de Mona um segundo sequer, estavam firmemente entrelaçadas uma na outra. E era tudo o que Hanna sempre desejara. Andar de mãos dadas com ela sem se importar com olhares alheios julgando-as. Nada mais importava agora porque, pela primeira vez, Hanna se sentia cem por cento confortável atribuindo Mona ao puro e simples termo namorada. Era libertador deixar-se pensar na morena daquela forma, aliás.
Mas se por um lado elas beijavam-se sob as cerejeiras cujas flores caíam descompromissadamente sobre suas cabeças, como qualquer casal legalmente assumido, por outro elas iam, em certos dias, à uma das filiais da Bloomingdale’s e passavam um longo tempo rindo e experimentando roupas, como se voltassem ao estágio primordial, de melhores amigas. Isto é, não havia um interruptor, vinha a elas de forma natural. E era tão bom! Fazia da relação delas algo leve, desprovido da pressão e dos padrões que diziam que elas tinham que cobrir-se de mimos e fazer tudo o que um “casal de verdade” fazia, o tempo inteiro.
Ainda assim, durante a semana que passara em Nova Jersey com Mona, Hanna entendera finalmente o que Emily quisera dizer ao falar sobre si e Alison quando estiveram na Geórgia. Isto é, Hanna dormia colada a Mona todas as noites e, nos dias mais frios, ao enfiarem-se sob as cobertas... era simplesmente impossível para ela explicar o quão bem se sentia! Ao abraçar a garota por trás e adormecer com ela em posição de conchinha, um calor lhe subia pelo corpo e Hanna se sentia tão feliz, tão protegida e tão no lugar certo, que chegava a doer. Sim, doía pensar que teriam que se separar quando o sol resolvesse despontar na manhã seguinte, mas principalmente, doía saber que ela não iria mais acordar junto de Mona uma vez que estivessem de volta a Rosewood.
A semana que passaram juntas longe da Pensilvânia e da – agora – mesmice da cidadezinha onde moravam fora sabe-se lá quantas vezes mais intensa justamente por conta disso. Hanna não poupava esforços para fazer com que cada “eu te amo” fosse sussurrado rente ao ouvido de Mona com uma veracidade descomunal, e permitia derreter-se sem medo ao ouvir a mesma frase dos lábios dela.
O dia estava igualmente cinzento quando elas resolveram pegar o metrô de volta para Rosewood. Era sábado, três ou quatro da tarde, e a sensação de nostalgia já crescia em grande escala dentro de Hanna, o que fora apenas abrandado com um ultimato de Leona Vanderwaal, que exigia, via mensagem de texto, que Hanna passasse lá para jantar assim que as duas pisassem novamente na cidade.
Hanna não sabia ao certo porque a mãe de Mona havia pedido isso diretamente a ela, e não falado com a própria filha, mas sorriu mesmo assim. Não era como se pudesse contar imediatamente a novidade para Mona, pois assim que sentou-se ao lado de Hanna, a garota recostou a cabeça no ombro dela e, agora, cochilava pacificamente.
Mona parecera estar cansada nos primeiros minutos da viagem de volta, como se realmente Nova Jersey tivesse um fuso-horário distinto do da Pensilvânia. A garota fechara os olhos e caíra num sono leve sem prévio aviso depois de um tempo em silêncio. As pessoas que passavam por elas poderiam achar algo tão banal, mas para Hanna aquilo entrava para o grupo das coisas mais fofas que lhe haviam acontecido nos últimos tempos. Passou o braço ao redor dela, pensando que seria de partir o coração ter que acordá-la.
E realmente foi. Hanna permanecera acordada pelas quase duas horas que se seguiram dentro daquele trem. Com a testa colada na janela, olhando distraidamente para as árvores que passavam por ela como nada além de borrões verdes, ela acariciava Mona sutilmente, tomando cuidado para não mover o braço. Cutucou-a levemente na cintura assim que o trem parou e uma grande massa começou a se deslocar vagarosamente para fora.
Mona sorriu devido a proximidade que seus rostos estavam um do outro e assentiu antes de levantar para preguiçosamente sair dali também. Insistiu em acompanhar Hanna até sua casa, que era a mais próxima da estação.
— Então, como se sente de volta à cidade? – suspirou Hanna, como se a viagem não tivesse sido aproveitada por ela também. Odiou o jeito como a pergunta soara impessoal e odiou também o fato de estarem afastadas o suficiente para não estarem de mãos dadas.
— Parece que passei um verão inteiro fora, mas também parece que nunca saí daqui – respondeu Mona, um tanto evasiva, sem olhar diretamente para Hanna.
Mais alguns passos foram dados num silêncio um tanto inusual até que alcançaram o quintal de Hanna. Mona estava retraída e não havia feito nada além de sorrir e assentir quando a loira contara a ela sobre o convite para jantar feito por Leona. Ficaram frente a frente e Mona continuava cabisbaixa. Hanna estava genuinamente nervosa e a ponto de perguntar se estava tudo bem quando a garota largou a mochila pesada que trazia nos ombros e envolveu Hanna num terno e apertado abraço.
A mochila de Hanna escorregou por seu braço direito e ela agradeceu mentalmente pelo gesto, que fez seu interior aquecer repentinamente, e pelo friozinho de outono que começava a se manifestar, o que dava maior sensação de aconchego.
Eu precisava tanto disso, Hanna queria murmurar, porém seu corpo ainda formigava de cima a baixo, deixando-a incapaz de formar palavras.
— Vejo você depois, não é? – sussurrou Mona, ainda enganchada a ela, parecendo ter medo de que a resposta pudesse ser não.
Hanna não soube dizer se suas pernas haviam falhado por uma fração de segundo por causa da inocência que havia naquelas palavras ou se por causa do perfume que estava impregnado na pele do pescoço de Mona e que, agora, preenchia suas narinas como o aroma mais gostoso do mundo. Provavelmente por causa das duas coisas.
— É claro que sim – garantiu, aliviada, mantendo os braços firmes ao redor da cintura da morena por mais alguns segundos, o suficiente para fazê-la ficar na ponta dos pés.
Desengancharam-se e, com apenas as mãos ainda unidas, pareceram ponderar se se beijavam ou não. Hanna acabou por beijá-la na testa e soltar as mãos quentes da garota devagar, sem dizer mais nada, apenas apreciando o jeito doce e encabulado como agora ela sorria.
Hanna subiu as escadas que davam para seu quarto depressa e atirou-se em sua cama como se não a visse há anos. Agarrou-se a um travessereiro e começou a pensar em nada e em tudo ao mesmo tempo. Talvez fosse dormir um pouco, sentia os olhos um tanto pesados, porém notou a mãe parada ao vão da porta.
— Olá, forasteira – cumprimentou Ashley.
— Oi, mãe – balbuciou Hanna, achando graça do sorriso travesso que a mulher tinha no rosto.
— Se eu já não soubesse, iria perguntar porque essa felicidade toda – disse, se aproximando para sentar na cama da filha.
Hanna não replicou, apenas arrastou-se para deitar a cabeça no colo da mãe. Ah, sim, ela sentira falta daquilo. E de repente caiu em si.
— Espere, o quê? – se virou e olhou para cima, para encarar os olhos da mãe.
Assim como Ashley – juntamente com os pais das outras garotas – nunca soube sobre –A, ela também não sabia o que havia realmente acontecido em Nova York; não sabia o que Hanna sentia em relação a Mona, ao menos nunca ficou sabendo pelos lábios de Hanna.
— Eu conheço você tanto pelo seu lado de fora como pelo seu avesso. E você realmente acha que eu não sei o que anda acontecendo entre você e Mona? Acha que eu não notei o quão diferente você voltou de Nova York? Ou o quanto seus olhinhos estão brilhando desde que colocou os pés em casa?
A mulher de cabelos castanho-avermelhados falava com tanta doçura e convicção que fez Hanna sentir-se imensamente envergonhada de não tê-la contado nada daquilo antes.
— Então você também sabe que eu terminei com o Caleb? – perguntou, exitante.
Ashley acariciava os cabelos da filha.
— Bem, eu já imaginava isso — fez uma pausa e sorriu — Você é adoravelmente tontinha, às vezes, mas eu sei que você é coberta de sensatez. Seu caráter é bom demais para permitir que você magoe alguém de propósito – tocou a ponta do nariz de Hanna.
Caleb também costumava dizer isso, Hanna pensou e sorriu também, mas a culpa não deixava de martelar contra seu peito. Ela poderia não ser vadia o suficiente para viver uma vida dupla, mas ela com certeza errara feio ao esconder aquele segredo da mãe por tanto tempo.
Lembrava-se que, quando voltara para casa depois de ter esclarecido as coisas com o rapaz, optara por não dizer nada a Ashley ainda. Ela se sentia triste, é claro, mas não estava desesperada para conversar com alguém sobre aquilo, fosse com quem fosse. Apenas quisera ajustar-se à ideia sozinha. Os dias foram passando e Hanna simplesmente não sentia necessidade de contar aquilo à mãe, simplesmente porque ela estava conseguindo lidar com o fato sem ajuda. E não contara nada sobre Mona porque a relação delas, por aquele momento, era algo estritamente pessoal. Algo tão íntimo que ela achava que os outros não teriam capacidade para compreender. Era um sentimento que ela precisaria de tempo para explorar, longe dos pré-julgamentos, que mesmo que fossem bons, ainda seriam pré-julgamentos.
Mas agora, sentido-se terrivelmente culpada, Hanna ansiava por pedir desculpas. Ela amava a mãe e não devia ter-se reservado tanto. Já fora um tremendo pesadelo ter que também esconder dela os rastros de –A, reprimir todos os pedidos de colo no meio da noite, quando ela acordava de um pesadelo entre lágrimas. –A havia morrido, por uma bala que Hanna enterrara em suas costas, e, como dissera Mona no hospital naquela noite, o jogo de mentiras também morrera.
— Não está decepcionada comigo? – perguntou, já sentindo os olhos úmidos.
— Decepcionada? – Ashley repetiu, como se a filha tivesse dito a coisa mais imbecil do mundo – Hanna, por favor. Você sabe muito bem que eu proíbo você unicamente de não se sentir bem para ser quem você é aqui nesta casa. Eu disse isso à Emily quando ela viera passar uns tempos conosco, lembra-se? Como pode achar que essa regra não se aplica à minha própria filha?
Hanna deixou uma lágrima escorrer de seu olho esquedo e Ashley enxugou-a.
— Eu amo você – continuou –, de um jeito que ninguém mais é capaz de amar, e o suficiente para perceber que durante muito tempo você e Mona procuraram por alento uma na outra, e conseguiram encontrar. Na verdade, qualquer um consegue ver que a relação de vocês é genuína, e seja esta qual for, se ela te faz feliz, acredite, meu bem, é só o que interessa.
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