Honestly? I love you!
10 Felicidade tem nome
Notas iniciais
Hanna foi acordada de seu sono leve pelo som de travessas sendo colocadas na mesa da sala de jantar, mais ao fundo. Por uma fração de segundo, ela abriu os olhos pensando que estava em sua própria casa, e seu coração disparou devido a um sutil pavor, mas em seguida baixou os olhos para a menina encolhida ainda em seu colo, que começava a se remexer também, e sorriu, inacreditavelmente aliviada.
Mona sorriu também, ao olhar novamente para cima, e sentou ereta no sofá, não tendo como disfarçar a mais adorável carinha de sono. Hanna ajeitou os cabelos da morena com os dedos, a fim de não deixar os pais dela suspeitarem que ela esteve todo aquele tempo deitada em seu colo.
— Vamos? – a loira puxou Mona delicadamente pela mão, mas não entendeu o motivo de ela a segurar levemente pelo braço – O que foi? – perguntou Hanna, apreensiva com a possibilidade de Mona não querer ser vista pelos pais de mãos dadas com ela.
Mona apenas pregou seus olhos castanhos nos azuis de Hanna, que tentou decifrar aquela expressão e o sorriso tênue que repousava em seus lábios. Sem prévio aviso, Mona acariciou brevemente o rosto da loira e deu-a um selinho demorado.
Aquele gesto foi mais um que comoveu muito Hanna. Demonstrava que Mona também não se importava se seus pais vissem aquilo.
— Por que isso? – indagou, sorrindo em seguida que os lábios se separaram.
— Por nada, eu acho – Mona deu de ombros, aquela mesma expressão doce e adoravelmente distante ainda continuava ali. A garota parecia namorar silenciosamente os olhos de Hanna – Só fiquei com vontade.
Hanna colocou uma mecha do cabelo de Mona para trás da orelha, ainda meio que sem acreditar na naturalidade e na inocência com as quais a garota dizia tais palavras.
— Senti falta dessas suas vontades – sorriu abertamente, inclinando-se para um beijo mais profundo.
O jantar transcorreu como o início daquela noite havia transcorrido: de um jeito natural e acolhedor. Na mesa de mógno, que não era nem pequena nem comprida demais, Hanna e Mona sentaram lado a lado, enquanto Leona ocupava a cabeceira direita e Ned um lugar de frente para elas. As garotas relataram a respeito de Newark, isto é, falaram sobre tudo menos sobre o mais importante, e eles não demonstraram querer saber mais além do que era contado por elas.
Se a cena fosse ser assistida, qualquer um diria que os adultos ali não tinham a mínima noção do que estava acontecendo, embora Hanna estivesse notando que eles faziam de tudo para integrá-la nas demais conversas familiares, e isso incluía fazê-la entender as piadas de tio-e-sobrinha-traço-pai-e-filha que Ned e Mona compartilhavam.
Eles também pareciam não ver (ou fingir que não viam) quando Hanna e Mona escorregavam seus braços por debaixo da mesa e se davam as mãos. Na verdade, era um movimento tão clichê que elas nem se preocupavam em ser sutis demais quanto àquilo. Era simplesmente impossível eles não notarem, e se notavam e não falavam nada, era porque tinham em mente que não era necessário falar nada.
Depois do jantar – e depois que todos (inclusive Hanna, por sua própria insistência) se dividiram entre secar e lavar a louça –, enquanto Hanna descia as escadas calmamente depois de ter ido ao banheiro, viu Ned passar por Mona na sala de estar para sentar-se em uma poltrona na outra ponta do cômodo, enquanto a garota estava encolhida no sofá mais comprido, rente à parede. Ouviu-o murmurar um “Ei, coelhinha” enquanto passava pela garota e batia de leve no topo de sua cabeça com uma revistinha de palavras cruzadas. Mona murmurou um “Oi, pai” de volta e sorriu.
Hanna prendeu um “aaw” em sua garganta quando viu aquilo. Ela sabia que o pai biológico de Mona, James Vanderwaal, morrera quando ela ainda era bebê e que a garota tinha o tio como seu verdadeiro pai, mas ela nunca de fato ouvira-a chamá-lo assim, o que era algo mais para Hanna sentir vontade de correr até ela e abraçá-la, sabe-se lá por quê. Porém se conteve e apenas ocupou o lugar à esquerda da garota porque, por mais que o cômodo fosse grande, Ned estava na outra ponta dele – já havia deixado as palavras cruzadas de lado e agora deslizava um indicador por seu tablet –, e isso seria um tanto, bem, inapropriado.
O documentário sobre o Triângulo das Bermudas ainda passava no Geografic Channel e, mais uma vez, Mona parecia compenetrada nele. Sorriu para Hanna ao vê-la se aproximar e, sem cerimônias novamente, cruzou as pernas no sofá e entrelaçou sua mão à dela. O coração da loira disparou. Espiou Ned com o canto do olho e ele tinha uma mão no queixo, também parecendo compenetrado no que quer que estivesse lendo no aparelho, o que deu a Hanna certa sensação de isolamento, e consequentemente a coragem para responder firmemente ao toque de Mona.
Tentou se concertar nas palavras do narrador, mas mais uma vez era uma tarefa difícil, pois Mona resolveu recostar a cabeça em seu ombro, e Hanna fez o que pôde para controlar a vontade de passar o braço direito ao redor dela, sem sucesso, é claro.
O aroma suave do shampoo que ela usava invadia Hanna novamente e os cabelos dela roçavam contra sua bochecha, e Hanna não lutou contra a vontade de beijá-los desta vez. Em seguida, involuntariamente levantou o olhar e notou que Ned também fazia o mesmo naquele exato momento. O homem de meia-idade, quase que totalmente calvo, agora olhava para Hanna com um sorriso tênue nos lábios.
A loira desviou o olhar depressa em um primeiro momento mas, espere aí, de que diabos ela estava fugindo? Olhou de novo para ele, e um dos cantos de sua boca tinha se erguido mais ainda. Era quase como se ele dissesse algo entre “Está tudo bem. Não tenha medo. Eu sei que você cuidará bem dela”. Certo, talvez fosse pretensão de Hanna achar que ele quisesse dizer tudo isso mesmo, mas aquele sorriso definitivamente queria dizer que ele aprovava. Aprovava o que quer que sua filha de criação estivesse vivendo com ela.
Hanna sorriu de volta para Ned, encaixando os dedos entre a curva da cintura de Mona, orgulhosa de poder tocá-la daquela maneira sem que sua mente a reprimisse. Sentiu o ar entrar e sair de seus pulmões mais facilmente. Talvez aquilo fosse um belo exemplo de liberdade.
Aquele silêncio era quase tão bom quanto ouvir a voz de Mona. Sem ser na mesa de jantar, ela quase não havia falado e estava bem mais dengosa e retraída do que de costume. Mas o que “de costume” queria dizer? Porque a última vez que Hanna conseguira pensar em Mona como sendo alguém “estável” – ou seja, que possuía características precisas – fora em sua época de garota popular, no segundo ano, há eras atrás.
Decidiu afastar tais pensamentos da cabeça e se concentrar no som ritmado da respiração dela. Aquela “Nova Mona” de longe era algo ruim, Hanna agradecia aos céus por ela, aliás. A carência que Mona vinha demonstrando desde Nova Jersey — ou até mesmo desde antes da viagem – era comovente, mas por vezes Hanna se perguntara se havia algo errado.
Talvez não houvesse nada de errado, Hanna pensava agora consigo; a doçura, a fragilidade e a carência eram características da garota de quinze anos que, de fato, havia sido o primeiro beijo de Hanna também, em termos de verdadeiro carinho. Aquele jeitinho dengoso não era nada mais que o jeito genuíno dela que apenas ficara enterrado e esquecido durante muito tempo.
Tempo demais, Hanna concluía, levemente emocionada. Se apenas eu conseguisse achar palavras que expressem o quanto eu te amo, pensou, desesperada para sussurrar a frase no ouvido da garota.
Usou a mão livre para tocar o joelho de Mona. A garota virou o rosto e sorriu, passando o braço direito ao redor da cintura de Hanna, que sentiu-se instantaneamente livre de qualquer receio. Puxou o tronco da garota ainda mais para perto de si e beijou a testa dela. Perfeição era pouco para definir aquilo. Muito pouco.
Hanna poderia permanecer ali por horas sem cansar de sentir o calor daquele corpo que repousava sobre seu lado direito, porém um toque em seu ombro esquerdo a fez acordar do que parecia ser um leve e gostoso transe.
— Vocês podem subir se quiserem mais privacidade – sussurrou Leona apenas para Hanna, já que Mona voltara a não desgrudar os olhos da televisão.
A loira precisou de pelo menos dois segundos para avaliar se havia ouvido mesmo a palavra “privacidade” ao fim da proposta. Afinal, Leona as estava incentivando a irem para o quarto de Mona, onde ficariam sozinhas atrás de uma porta fechada? Quer dizer, não que Hanna estivesse “no clima” para fazer qualquer coisa que preocupasse algum adulto, mas não havia como a mãe da garota saber disso.
Hanna sentiu a boca ficar seca e o cérebro, sem possíveis respostas para aquilo. Mona se remexeu ao lado dela e, por um momento, pareceu estar tão confusa quanto Hanna, mas sorriu para a mãe.
— Tudo bem – disse ela simplesmente, puxando Hanna pela mão escada acima.
— Você... você ouviu o que ela acabou de nos dizer? – indagou Hanna, soando talvez indignada de um jeito cômico, pois Mona riu de leve em resposta.
— Ouvi – disse, depois de fechar a porta, mas sem trancá-la.
— E não achou meio, bem, estranho? – cruzou os braços, sentando-se na cama da garota.
— Por que eu acharia estranho? – ela deu de ombros, sentando de frente para Hanna – Você acha estranho que eles nos entendam?
— Talvez – disse, lembrando do colo confortável da própria mãe quando ela praticamente “se assumira”, horas antes – Quer dizer, sempre achei que antes do entendimento vinham por regra os choros, os tapas e os puxões de cabelo.
— E por que tem que ser assim? – Mona deu de ombros mais uma vez, numa expressão completamente solene.
Hanna suspirou e se aproximou, buscando pela mão dela.
— Me desculpe – disse, com o olhar baixo – Você está certa. Eu devia estar agradecendo por isso, e não reclamando por ter sido “fácil demais”.
Mona suspirou também, acariciando a mão da loira.
— Por que as coisas sempre têm que ser difíceis? – voltou a indagar, soando um tanto magoada – Como se tudo fosse uma armadilha de -A?
Hanna não respondeu. Um calafrio percorreu sua espinha ao ouvir aquele “nome” sendo pronunciado com tanta ênfase. Deus, há quanto tempo ela não ouvia alguém dizer em voz alta aquele nome? As memórias de -A pareciam mesmo muito distantes, como se as meninas não tivessem realmente vivido aquilo, como se tudo fizesse parte de uma ficção de Agatha Christie.
Lágrimas encheram os olhos de Hanna. Por mais que ela, de alguma forma estranha, “agradecesse” -A por trazer Mona de volta para ela definitivamente, doía voltar a pensar no medo que a dominara durante quase dois anos; era como a dor de tentar passar sabonete no joelho depois de tê-lo esfolado multiplicada por mais ou menos duzentas vezes, e ela nunca mais queria experimentar aquilo.
— Me desculpe também, meu amor – Mona acariciou um lado do rosto de Hanna, visivelmente arrependida de ter tocado em tal assunto – Foi a pior comparação do mundo, eu sei.
Hanna conteve um soluço, em grande parte pela extrema ternura presente nas palavras da morena. Era lisonjeiro e incrivelmente surreal que ela também pensasse em Hanna como seu amor, e era, também, se a memória de Hanna não falhava, a primeira vez que Mona a chamava daquele jeito. Constatou que era delicioso ouvir aquilo dos lábios dela. Puxou-a para um abraço apertado.
— Não, você está certa – repetiu, recompondo-se – Vamos apenas encarar os fatos e dizer que a sua família é demais! – tentou sorrir, enxugando com o polegar uma lágrima que pendia do olho esquerdo de Mona.
A garota concordou, respirando fundo e eliminando qualquer traço de tristeza de seu rosto. Hanna deixou que os sapatos caíssem ao pé da cama e arrastou-se para a cabeceira dela, puxando Mona para si, que ficou algum tempo apoiada em seus cotovelos antes de deitar sobre o peito da loira.
Hanna arrastava delicadamente as unhas pelas costas de Mona, por sobre sua fina blusa de lã, enquanto fitava o teto. Ela sempre adorara aquele quarto. Sempre achara que fazia jus à garota que dormia ali. Oscilava entre branco e suaves tons de verde e dourado. Mas agora ela se sentia um tanto estranha estando ali de novo e tendo em mente o que fizeram da última vez. Era um misto de culpa, orgulho e felicidade.
— Você contou a ela? – murmurou, não ousando parar com as carícias.
— Não com todas as palavras – devolveu Mona. Tinha uma orelha colada à altura do coração de Hanna e também não se atreveu a mexer-se dali.
— E quais palavras você usou? – quis saber, ainda no mesmo tom de voz delicado.
Mona inspirou e expirou profundamente duas vezes antes de responder.
— Eu tive muita vontade de dizer a ela que estivemos nos reconectando nos últimos tempos, mas aí me dei conta de que ela nem ao menos sabia que, em algum momento no passado, havíamos nos “desconectado”. Eu apenas menciono você para ela mais do que costumava. E ela nota que algo está diferente. Acho que ela sempre notou, na verdade. Que você era diferente para mim – ela concluiu desenhando círculos ao redor do umbigo de Hanna com um indicador, por sobre o tecido fino da blusa da garota.
— E ela não pergunta nada?
Mona olhou para ela finalmente, sua expressão suave e conformada.
— Ela sabe de tudo que tem que saber – deu de ombros – O suficiente para sentir que tem que me dar meu próprio espaço. E é isso o que ela faz.
— Me parece perfeito – Hanna tocou a ponta do nariz de Mona e sorriu.
— É perfeito – a garota confirmou, deixando um beijo no centro do abdome de Hanna, como se ela estivesse grávida, e ergueu-se ao nível dela.
Hanna riu devido ao gesto e abraçou a morena pela cintura.
— E você? Disse algo à sra. Marin? – Mona fazia a pergunta como se não esperasse que Hanna tivesse de fato contado algo à mãe.
— Eu meio que disse tudo à sra. Marin – confessou, em tom de brincadeira, ao qual Mona respondeu com uma expressão séria, que continha um sutil traço de pavor.
— E ela?
— Ela... fez cafuné em mim e disse que me proibia unicamente de não me sentir bem para ser quem eu realmente sou – contou Hanna, um tanto distante, lembrando-se do momento.
Mona relaxou e sorriu, parecendo por um momento não acreditar naquilo, e puxou o rosto de Hanna para si.
— Eu sabia – murmurou entre o selinho.
Hanna mordeu o próprio lábio pensando infantilmente que gostara do som de estalo que seus lábios deixaram no ar assim que se separaram. E se aconchegou em mais um abraço quente. Fechou os olhos e, sentindo que seus braços circundavam todo aquele corpo, deixou um beijo demorado no pescoço de Mona. A garota expirou algo entre um suspiro e um gemido.
Respirando calma e pesadamente ao mesmo tempo, Hanna sentia o perfume natural da pele da morena; e apenas ali, sentindo-a respirar igualmente, passo a passo, junto de si, teve coragem de colocar certas coisas à comparação. Desde que se entendia por mulher, isto é, desde que começara a namorar Caleb, ela nunca imaginara se sentir tão bem abraçando tão forte outro alguém que não fosse o rapaz (ele era dono de um abraço firme e gentil, que fazia Hanna se sentir protegida de tudo e de todos); mas cada vez que o ar morno que saía dos pulmões de Mona atingia a pele de Hanna, como numa carícia, era mais uma corrente que era quebrada, mais um obstaculo que era ultrapassado, mais uma confirmação de que aquilo poderia dar certo.
— Passe a noite aqui – pediu Mona, em um sussurro suplicante, ainda firmemente unida à loira.
A dor que atingiu Hanna foi quase física por ter que recusar o convite, e ela agradeceu por não estar olhando naqueles olhos castanhos na hora pois, se estivesse, teria aceitado sem pestanejar.
— Não sabe o quanto eu quero, meu amor – murmurou, pesarosa, se afastando minimamente para deslizar os dedos pelo rosto de Mona. Ela já estava se sentindo viciada no uso daquelas duas últimas palavras. Nada expressava aquele sentimento tão bem quanto elas – Mas não posso deixar minha mãe sozinha. Não hoje, não depois de tudo o que ela me disse assim que eu confessei isso a ela.
— Eu concordo – Mona assentiu – Mas não acha que, justamente por você ter confessado, ela entenderia perfeitamente se você pedisse para dormir aqui hoje?
— Sim, acho que ela entenderia – Hanna cismava em colocar dois fios curtos do cabelo de Mona para trás da orelha, sem sucesso – Mas ainda assim eu não me sentiria bem – suspirou – Ela já não tem muitas amigas, e todas as poucas que ela tem, são casadas ou têm um pretendente diferente a cada mês, se formos falar da mãe da Aria.
Mona riu, os antebraços apoiados ao redor do pescoço de Hanna.
— Está certo – rendeu-se – Mas eu juro que ainda vou organizar uma campanha chamada “Ajude-nos a arranjar um namorado para Ashley Marin”.
— Eu distribuo os panfletos com você – assegurou Hanna, inclinando-se para alcançar os lábios da garota mais uma vez.
Deixou que o beijo se aprofundasse calmamente e, de forma sorrateira, escorregou as mãos pela parte mais baixa costas de Mona, por baixo de sua blusa, vedando o corpo dela ao seu em seguida. Apreciava o movimento de sobe-e-desce da região lombar dela devido à respiração acelerada.
— Vá. – disse a morena com o olhar baixo e um meio sorriso nos lábios, uma vez que o beijo havia se partido – Vá antes que eu mude de ideia e resolva manter você refém aqui.
Hanna deu uma leve risada. Ela não queria ir, ter Mona nos braços era confortável e aquele corpo irradiava calor como uma lareira particular. Se sentia preguiçosa como se estivesse novamente no começo de sua adolescência e o despertador tivesse tocado para mandá-la à força para a escola.
— Desce comigo? – pediu, afrouxando os braços em torno da garota e alcançando a mão direita dela.
Mona assentiu e seguiu a loira escada abaixo. Não pareciam notar que ainda estavam com os dedos entrelaçados enquanto desciam.
Ned não estava mais em sua poltrona e Leona estava agora sozinha à ponta do sofá rente a parede com a revistinha de palavras cruzadas do irmão em mãos. Uma prévia de algum dos filmes da franquia Velozes e Furiosos passava na televisão. Hanna limpou a garganta para chamar a atenção da mulher.
— Acho que eu já vou – anunciou timidamente.
Leona se mostrou desapontada e abraçou Hanna acolhedoramente mais uma vez.
— Pois é, ela está com saudade da mãe – disse Mona em resposta à pergunta de Leona de por que Hanna ia tão cedo. Havia uma pontinha de um tipo de deboche em tal resposta que Hanna classificou como adorável, pois indicava que Mona estava com ciúmes.
— Pelo menos está indo pelos motivos certos – brincou Leona, soltando Hanna para que a filha a acompanhasse até a porta.
Ao sentir o vento – que agora parecia estar duplamente gelado – entrar em contato com a pele de seus braços descobertos mais uma vez, Hanna cerrou os olhos em uma careta. Cruzou os braços depois de sussurrar para si um “Ah, meu Deus” e olhou para Mona na esperança de que ela refizesse o convite para passar a noite ali (se ela refizesse, Hanna consideraria aceitar).
Recostada à soleira da porta, a garota apenas riu, observando Hanna bater os dentes.
— Não é engraçado! – Hanna fingiu indignação.
— É sim – Mona rebateu com uma expressão divertida no rosto e deu dois passos na direção de Hanna, livrando-se calmamente de sua blusa de lã e encaixando-a no pescoço da loira.
Ela vestia uma segunda pele branca por baixo e foi sua vez de se encolher devido ao frio. As mangas que ficavam um tanto compridas para Mona eram do comprimento exato dos braços de Hanna. O perfume da garota envolvia a peça e começou a envolver Hanna também, gradualmente.
— Obrigada – disse ela, derretida, buscando pelas mãos de Mona que ainda estavam deliciosamente quentes.
— Aham – murmurou, como se dissesse em tom de brincadeira “é bom que me agradeça mesmo”. Hanna sempre sentiu-se orgulhosa do jeito como ainda era capaz de ler as expressões da morena com uma precisão descomunal – Vejo você depois?
— Sim, você me verá depois – devolveu, numa voz zombeteira, beijando-a na testa, na ponta do nariz em seguida e nos lábios por por último, cautelosamente. E mais uma vez, o discreto som de estalo que seus lábios deixavam no ar era como música para os ouvidos de Hanna.
Abriu os olhos em tempo de ver a garota dar uma leve risada com os seus ainda fechados.
— O que foi? – perguntou, rindo também, balançando as mãos ainda ainda unidas às de Mona.
— Esse pequeno ritual... é algo exclusivo, não é?
Novamente, a insegurança na voz dela era cativante. A pergunta em si foi feita com o excesso de uma preocupação desnecessária, a de que talvez Caleb costumasse fazê-lo com Hanna, o que apenas fez a loira abrir um largo sorriso e beijar a bochecha de Mona.
— Como você consegue ser tão fofa?
— É ou não é? – Mona insistiu, dando uma maior importância para o assunto do que tal realmente merecia.
— É sim, sua boba. Tem sido já faz um bom tempo, aliás. E pode continuar sendo por muito mais.
Hanna sentiu a própria voz se suavizar ao murmurar a última frase. Seu coração disparou ao involuntariamente pensar no potencial futuro que as aguardava. Um futuro inteiro, intocado.
— Quero muito que continue – Mona grudou-se em Hanna mais uma vez para um último abraço, seus braços contornando o pescoço dela.
— Você sabe que está me deixando com mais e mais vontade de não sair daqui, não é? – perguntou, fazendo os pés da garota saírem do chão.
— Eu sei – respondeu castamente.
Um momento se passou com as duas daquele jeito, talvez curto, talvez não. Mona mantivera as pernas flexionadas para trás, os pés juntos como os de uma bailarina e os braços firmemente entornando os ombros de Hanna.
— Eu te amo – murmurou ela mais uma vez, fazendo o lado esquerdo de Hanna formigar de cima a baixo.
Geralmente era a loira quem dizia a frase primeiro, e Mona apenas rebatia, mas quando acontecia o contrário, Hanna sentia as pernas fraquejarem.
— Eu também te amo – sussurrou de volta, sentindo que cada vez que o fazia era como se fosse a primeira.
Assim que os pés da garota tocaram o piso da varanda novamente, Hanna deixou uma sucessão de selinhos apressados em seus lábios, como se quisesse compensar a si e a ela por ter passado tantos anos sem poder fazer tal coisa. Largou as mãos dela por último e deu as costas sem olhar para trás, relutante e com o coração parcialmente despedaçado por ter que deixá-la.
Seus saltos ecoavam na calçada da rua escura e grilhos cantavam; se não fosse por isso o silêncio seria ensurdecedor. O frio e a quietude davam a entender que era tarde da noite, mas Hanna sabia que aquilo era apenas consequencia do começo de outono.
Em circunstâncias normais, ela se sentiria receosa de andar calmamente por ali a uma hora daquelas, mas a essência de Mona ainda estava com ela, protegendo-a, de certa forma, ou mantando os pensamentos ruins, quaisquer que pudessem ser, de lado; Os braços de Hanna formigavam devido à abstinência de abracá-la, como se o vazio que sempre houvera entre eles fosse agora anormal.
A alguns passos de sua casa, ainda olhando para o chão com um sorriso bobo nos lábios, Hanna percebeu que um cachorro de pêlo tricolor preso a uma guia azul farejava os arredores de uma árvore. Ela já havia visto aquele cachorro antes. Ao erguer os olhos pensou que fosse ver Alison guiando-o, mas o que viu foram as costas largas de um rapaz. A luz de um poste do outro lado da rua revelava que seus cabelos curtos eram de um louro escuro.
— Jason? – Hanna arriscou, um tanto surpresa.
O rapaz virou-se e, depois de um segundo, juntou as sobrancelhas.
— Hanna? – ele também parecia estar genuinamente surpreso, quase como se não soubesse que Hanna ainda morava na cidade – Hanna Marin?
— Isso – a garota afirmou.
— Uau. Você mudou. Cresceu.
Era quase como se, com aquilo, Jason quisesse dizer que ela estava bonita. Hanna tentou recordar se, na época do memorial de Ali – quando tinha o visto pela última vez – ela ainda era a “Hanna Gordinha”. Mas não, sua fase “Diva” já havia começado.
— Você também – disse, analisando-o finalmente.
O cabelo estava um tanto desgranhado e a barba por fazer, loura também, dava-o um ar adulto, o que com certeza não tinha antes de Ali desaparecer, embora fosse sete anos mais velho que a irmã. Realmente não aparentava ter nem mais nem menos que vinte e cinco anos.
— Ali me disse que você voltou de Londres – Hanna tentou puxar conversa.
— Sim, Oxford. Direito. Voltei assim que me formei.
A garota assentiu.
— Bastante ambicioso.
Jason deu uma leve risada, olhando para baixo, para o cãozinho que ainda farejava a árvore.
— Eu tinha que ser, se quisesse seguir os negócios da família.
Algo na voz do rapaz indicava uma leve tristeza, como se ele não quisesse de fato seguir os negócios da família. Hanna havia visto poucas vezes o Sr. DiLaurentis depois que Ali desaparecera. Um homem alto, de cabelos grisalhos e semblante severo que sempre usava terno, gravata e um sobretudo preto, não importava a temperatura que estivesse fazendo do lado de fora. Parecia com o tipo de pai que seria capaz de fazer com que seu primogênito seguisse uma carreira da qual não gostasse apenas para preservar seu patrimônio.
Hanna baixou o olhar, sem saber mais o que dizer, e quando o ergueu de novo, percebeu que Jason olhava para ela com uma expressão vaga.
— Desculpe – ele olhou para as mãos por um momento – Quando preguei os olhos em Ali pela primeira vez depois que ela... voltou... também fiquei meio atônito. Não quis ter perdido o crescimento dela.
O coração de Hanna enterneceu com aquela última frase. Ali e Jason viviam brigando antes de tudo acontecer e foram poucas as vezes em que Hanna ou as outras meninas conseguiram testemunhar algo que provasse que Jason sentia, na época, alguma coisa pela irmã além de repulsa.
— Nenhum de nós quis, acredite – Hanna suspirou – Mas agora parece que ela está mais feliz do que nunca, e com razão. Parece querer viver tudo que não viveu durante todo aquele tempo.
Ao concluir, fitando os olhos azuis de Jason – que eram indiscutivelmente idênticos aos de Ali – Hanna percebeu que não havia falado com ela ou com nenhuma de suas amigas realmente durante a semana que passara em Nova Jersey com Mona. Trocaram algumas mensagens de texto e pelo Facebook mas só. Hanna não se arrependia, apenas quisera ter a sensação de reclusão total, mas agora notava que sentia falta delas.
Depois de se despedir de Jason, pediu a ele que desse a Ali o recado de que queria falar com ela. Após ouvir um amigável “é claro” do rapaz, Hanna se virou para adentrar o próprio quintal.
— Hanna? – chamou ele, depois de ter dado um passo também e arrastado Pepe para longe da árvore – Assim como a Ali, você também me parece feliz.
A garota precisou de alguns segundos para pensar na pergunta. Jason nunca havia falado realmente com ela, exceto de um jeito cordial enquanto acertava com ela e as outras garotas os detalhes para o memorial de Ali, anos atrás. De resto, antes – na época em que Jason era rebelde e só pensava em beber e fazer sabe-se lá o que atrás da porta fechada de seu quarto –, tinha vezes que nem as cumprimentava. Mas o sorriso que acompanhou a “análise” pareceu ser tão amigável que tudo o que conseguiu fazer foi sorrir de volta
— Eu estou – respondeu, convicta, fitando as mangas da blusa de Mona, que com certeza faria como seu pijama naquela noite –, mais do que eu jamais estive.
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