Homotenebrus
4 Amizade
Antony chega a sua grande mansão, bonita e vazia, como sempre. Não é tão distante da zona rural, mas tinha uma vizinhança um tanto abundante. A arquitetura é antiga, seus tijolos avermelhados e um muro abraçado por trepadeiras. Ao entrar pelo grande portão negro, seu mordomo logo o recebe.
Mais que um mordomo, Marcus é um amigo. Os anos de convivência fizeram com que o homem conhecesse Antony e sua longa história. Todas as intimidades e maiores segredos do homotenebrus acompanham a vida do mordomo, fazendo com que ele se adaptasse a cada detalhe e imprevistos da vida do seu senhor. Marcus não possuía família, foi adotado pelo próprio Antony, quando criança. Hoje, sente o prazer de viver a servi-lo. Ele, além de administrar a mansão do homotenebrus, elabora todas as estratégias para a camuflagem de Antony na sociedade. Pois, não é fácil e nem barato para um homotenebrus rico e popular viver na cidade sem ser percebido.
— Marcus, minha droga – disse Antony com a voz trêmula.
Rapidamente, Marcus lhe traz uma pequena ampola com um líquido esverdeado e Antony, sem demora, ingere. Sente-se cansado; sua mente está vazia. Não consegue pensar fixamente em algo. Pega algumas pequenas frutas e vai para um de seus quartos.
Em um florido jardim, Antony admira a lua. O vento suave acaricia a sua pele. A harmonia do local é perfeita e incomum. A lua escurece e se torna vermelha como sangue. Antony vê alguns antigos amigos tenebrus que estão indo ao encontro dela, para se alimentarem. Ele tenta impedi-los com palavras, mas é tudo em vão. Eles voam e monstruosamente atacam a lua. Alimentando-se do néctar sangrento. Antony não consegue se mover. Paralisado, observa a destruição e o caos.
— Ei! Acorda! Já está na hora de comer, criancinha. – Ele ouve uma voz feminina.
Ao abrir os olhos, aliviado por acordar do pesadelo, Antony dá um pequeno sorriso e fecha os olhos novamente. Era a garçonete da taberna. Uma linda mulher de longos cabelos dourados, olhos claros e roupa, em parte, sensual. Sua amiga. Única amiga.
— O que estava fazendo na taberna? Gostou de ter batido naquele grandalhão? Por onde você andou?
— Lucine, estou cansado. Aconteceu de novo – ele responde, ainda com os olhos fechados.
— Você está sendo procurado. Tem sorte porque naquela taberna todos estavam bêbados e se confundem ao relatarem os detalhes daquela noite — disse Lucine, ao mostrar um retrato falado de uma criatura com dentes grandes e olhos vermelhos – a sua cara.
— Cansei de ter que me esconder, de viver sem poder revelar quem eu verdadeiramente sou. Por toda minha vida eu tive que fazer isso – disse Antony depois de abrir os olhos. — São nesses momentos que eu sinto falta dos conselhos de seu pai.
Décadas atrás...
— Soldado, caído de novo? – disse Lucius, sorridente, com uma longa espada nas mãos. Ele é forte e sua armadura cobre quase que todo seu corpo. Os pelos grisalhos no seu rosto acusam a sua idade, mas seu corpo atlético confunde quem tente adivinhar.
Antony se levanta, pega sua espada e se prepara para o combate.
— Eu não sei quanto a você, mas já ultrapassei a marca dos cem — disse Antony bastante ofegante.
Lucius dá uma forte gargalhada.
— Não é válido. Você só mata iniciantes. É como pisar em baratas. Eu vou além disso. Não desperdiço energia com eles e logo chego ao líder.
— Soldados podres como nós não podem desafiar líderes.
Os amigos estão no meio de uma batalha. Um guerreiro inimigo se aproxima de Antony, atacando-o com uma espada. A lâmina passa ligeiramente em frente dos seus olhos, triscando em sua sobrancelha, fazendo Antony cair sentado. Em seguida, o guerreiro inimigo cai ao chão.
— Não te falaram que é falta de educação atrapalhar a conversa dos outros? – disse Lucius ao guerreiro já morto. Olhando para Antony ao chão, Lucius continua. — Toda vez que te vejo, você está engatinhando no solo. Devo ressuscitar sua mãe e pedi-la emprestado as suas tetas?
Levantando o corpo acrobaticamente, Antony pega a espada e lança em direção à cabeça de Lucius que se desequilibra caindo ao chão. A espada perfura o pescoço de um soldado inimigo.
— Você está louco? E, se eu não me esquivasse? – disse Lucius, bastante indignado.
— Você pretende continuar a engatinhar? – sarcasticamente disse Antony.
Antony corre em direção aos pelotões de primeira linha. É onde apenas os guerreiros de nível mais elevado se encontram. Nesta área os soldados de nível hierárquico baixo são proibidos de entrar. Não apenas pela proibição, mas pela qualidade técnica. Somente grupos especiais conseguem lutar no meio do campo inimigo. A infantaria consiste em atacar o inimigo frente a frente, mas a primeira linha ultrapassa a infantaria e se rodea de guerreiros inimigos. Lucius acompanha-o. Antony deixa cair a sua espada; atrapalhava sua corrida. Com bastante velocidade, ele se joga ao chão, deslizando na grama que está um tanto umedecida depois de uma noite chuvosa; ele derruba dois guerreiros inimigos. Lucius continua a correr se aproximando do seu amigo.
Antony se levanta rapidamente e, girando, chuta o rosto de outro guerreiro que cai desmaiado. O que normalmente chamam de tiro de meta.
— Você está gordo, velho! – Antony falou para seu parceiro que próximo dali estava. Não parecem estar guerreando. Parece mais uma corrida tendo homens como obstáculos a serem derrubados. Lucius ultrapassa seu amigo na corrida. Ao chegar à frente de um grande grupo de adversários, ele para e se agacha, escorando um dos joelhos ao solo. Antony usa as costas de Lucius como calço para saltar por cima da fixa fila de lanceiros; um salto um tanto anormal para um humano, mas não para um homotenebrus. Antes da queda ele encaixa o cotovelo na cabeça de um guerreiro inimigo, caindo e rolando ao chão.
Eles conseguem entrar na principal linha de defesa inimiga, munidos de espada. O sol ainda não veio para a luta. Lucius ataca os homens portadores de tochas para dificultar a iluminação, enquanto Antony se aproveita da pouca luminosidade para identificar rotas mais fáceis. Lógico que, sua visão noturna é extremamente apurada, mais que qualquer um animal que se conheça.
Neste local os guerreiros são mais defensivos e tentam impedir qualquer um que se aproxime. Um guerreiro defensor ficou confuso em saber qual dos dois ele irá atacar primeiro. Antony empurra Lucius para o lado. Um empurrão que Lucius realmente não esperava. Antony, pela parte inferior, gira a espada curta atingindo o defensor que põe as mãos no abdômen enquanto vê suas vísceras saírem do corpo. Eles observam e percebem que o líder de um pelotão inimigo está muito próximo. Antony arremessa sua espada atingindo com o cabo, o rosto de um soldado protetor do líder inimigo. Não foi o que queria, mas conseguiu deixá-lo desnorteado, tirando-o de combate.
O líder inimigo está distraído porque luta intensamente com Tauron, líder do pelotão do exercito de Luna Civitas. Não apenas Tauron, mas ali havia os melhores guerreiros de ambos os reinos. Antony identificara Laminor, Senzo e Malic; os três heróis lendários. Do outro lado, vira as grandes tranças de Forge, o guardião de Tauron, que luta com dois escudos afiados, como pontas de lanças.
Lucius se agacha parecendo estar cansado com a corrida, já que, ao contrário de seu ágil amigo, veste uma pesada armadura. Ele apenas observa os movimentos de Antony em meio a batalha.
“Essa loucura um dia vai nos matar. Acho que é por isso que os humanos tanto temem os homotenebrus; eles não cansam”. Pensou Lucius, dando um sorriso de canto.
Conseguiram entrar na linha de frente; grupo especialista em matar e morrer; Tauron Madrid é responsável pelo ensinamento tático do império de Luna Civitas.
Antony pega uma pequena pedra e arremessa na cabeça de Tauron, distraindo-o. Um capitão adversário percebe a falta de atenção de Tauron e não desperdiça tempo. Ele parte para um ataque preciso e com muita violência é atingido por Antony numa fortíssima esbarrada.
Antony está sozinho à frente do seu maior adversário. Está sozinho no sentido de foco visual, porque ao redor tudo está tudo muito tumultuado, corpos caídos aos montes e muito cheiro de sangue. O adversário não é mais um simples soldado, agora se trata de um líder; um grande líder. O tenebro parado, apenas observa e se move friamente em direção a ele, sem qualquer arma, sem olhar para os lados, convicto. Como se quisesse entregar a vida ao seu inimigo, que é muito poderoso; ele corre para mais uma possível esbarrada, mas ao chegar muito perto, Lucius enfia a espada nas costas de Antony, que, literalmente se abraça ao líder inimigo. Em um grito estremecedor, Lucius usa toda sua força para enfiar a espada mais a fundo e transpassa o corpo de Antony, atingindo o peito do capitão que deixa cair a sua espada. Após tirar a espada dos corpos, Lucius a crava no chão. Antony cospe sangue e não consegue levantar. Lucius pega seu amigo nos braços e o afasta da batalha, com a ajuda de Forge, o guardião.
Deitado na maca da enfermaria, Antony conversa com seu amigo.
— Maldito. Você precisava ter feito aquilo?
Depois de risos silenciosos, Lucius responde: — Sim. Foi necessário, seu tolo.
— Você tem sorte de eu não poder levantar daqui — disse Antony, tentando se mover.
— Não fiz aquilo por mim. Fiz por você. — Lucius fala enquanto come uma maçã.
— O que aconteceu depois que apaguei? – perguntou Antony, preocupado.
— Depois de pouco tempo os inimigos recuaram e a batalha do dia foi vitoriosa. Você ganhará uma medalha – disse Lucius. Depois de risos, continuou – Você salvou a vida de Tauron... Ganhei uma suspensão por ter matado um líder inimigo, desonrando Tauron e lutando longe do meu pelotão, farei serviços sociais por alguns dias. Sorte minha que, diferente de você, tenho um status considerável no nosso exército.
Antony não podia se expor aos raios solares, por isto faltava aos treinos e quase não comparecia às reuniões. Contudo, ele era um dos mais respeitados por Tauron, que o admirava. Tauron sabia da sua natureza, por isso o dispensava dos treinamentos diurnos. Antony era esperto o suficiente para sempre ter boas influências.
— Então, por que me varou as costas?
— Na euforia da batalha, – Lucius pausa por alguns instantes para roer o pouco que sobrara da maçã, muito empolgado no que fazia — não notamos o tempo passar. O sol apareceu. Seus olhos já estavam negros e não havia tempo para sair do campo de batalha para se esconder. Iriam descobrir o seu segredo e no dia seguinte você seria pregado num madeiro.
...
— É! Ele também me faz muita falta. E você esteve sempre comigo na sua ausência, mas por que não pensa em mim? Preocupo-me contigo. Você não entende e se arrisca assim. – disse Lucine.
— Perdoe-me. Não foi de propósito. Às vezes, não consigo controlar.
Antony se levanta, e a beija o rosto mantendo uma mínima distância.
— Não se preocupe, estarei sempre por perto, até o fim – sussurrou Antony. Após alguns segundos de silêncio, ele continua — Lembro-me da morte de Aniela, aquele dia foi muito obscuro e não pude fazer algo para impedir. Minha alma ainda clama por justiça – disse Antony, bastante pensativo.
Lucine o abraça.
— Eu sempre cuidarei de você. Até o fim.
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