Homo Sapiens
8 A estepe, a estrada, a canção
Arseni tinha ouvido falar daquele bar por alguns colegas de classe, embora não diretamente. Alguns gostavam da cantora, outros do pianista, outros dos dois, e quando mencionaram que a cantora era russa, ele se interessou. Com algum custo, pediu o endereço a um deles, recusando, no entanto, o convite de irem juntos. Podia fazer quase um ano que estava ali, mas ainda não estava preparado para beber socialmente.
Nos bares, ele bebia vodca, quando ia. A maioria dos bruxos de sua idade preferia outras bebidas, e quando notavam a quantidade de álcool que ele ingeria, geralmente se assustavam ou faziam comentários maldosos – o segundo era mais frequente. Ele então bebia, só, vários copos de dose de vodca, desejando ter um copo maior.
Engoliu a terceira dose, e chamou pelo barman.
— Mais. — disse, e o homem do outro lado do balcão obedeceu, enchendo o copo pela quarta vez. — Deixe a garrafa. — Arseni disse então.
A música que tocava era russa. A voz da cantora era agradável de se ouvir, e o sotaque dela lembrava um pouco o seu próprio. Bebendo a quarta dose de álcool, ele percebeu que estava começando a se sentir menos só, e aquilo era bom.
A quinta dose veio. O fogo ardeu sua garganta. Perguntou-se como voltaria para o campus: já vomitava quando aparatava sóbrio, não queria nem imaginar o que aconteceria se aparatasse enquanto estivesse bêbado. Mas aquilo não importava, pensou. Era um dia seu, ainda que não fosse nenhuma ocasião especial – ou talvez fosse, afinal, era a primeira vez que saía de seu caminho pensão-campus.
Sua cabeça começava a ficar confusa. Ele bebeu a sexta dose.
Era mais resistente ao álcool do que as outras pessoas. Os anos dividindo vodca em sua adolescência com seu tutor em Koldovstoretz lhe ensinaram ao menos aquilo. Podia não estar nem perto de ser um oclumente, mas era um bêbado resistente.
Então ele ouviu uma canção conhecida ecoar pelo bar. Você andava em uma troika com sinos de trenó, a mulher cantava, em russo, enquanto o piano acompanhava, e na distância, as luzes piscavam.
Ah, se eu pudesse te seguir agora, ele continuou, mentalmente, a dor em minha alma se extinguiria.
Ela continuou a letra: na estrada longa, sob a luz da lua… E, conforme o piano tocava, Arseni sentiu um aperto no peito. Virou-se do balcão para o resto do bar e notou que ele estava quase vazio, apenas alguns homens de meia-idade a segurarem suas cervejas sem beber. Ele engoliu a sétima dose e sua cabeça girou, mas o aperto no peito diminuiu.
A última nota do piano soou. As pessoas que ainda estavam no bar aplaudiram. A cantora anunciou que aquela era a última canção da noite, e logo os clientes foram se levantando para deixar o bar. Arseni bebeu outra dose de vodca e andou, um pouco cambaleando, para próximo do pianista.
— Com licença. — ele disse — Você pode tocar a última música de novo?
Ele concedeu.
A cantora já havia ido embora quando o pianista voltou a tocar. Arseni não se incomodou com a falta de voz, porque ouvia outra em sua cabeça, uma diferente, cantando a mesma canção. A troika e a estrada, a futilidade da canção, o desejo de encontrar aquela pessoa.
Enquanto os versos soavam em sua cabeça, ele percebeu que não tinha quem encontrar. Que não conhecia de fato ninguém naquele país estranho, que não tinha laços que fossem verdadeiros com ninguém. Perguntou-se se alguma vez teve tais laços de fato: com a garota que não estava interessada nele; com o namorado que o surrou; com o homem que o havia rejeitado.
É certo que ainda tinha laços com o último. Matviei sempre estava ao seu alcance, seja como professor, seja como colega de quarto na pensão em que passavam o verão, em Richmond. Mas quando olhava para ele, tudo o que pensava era o quanto tudo tinha mudado. Como Arseni tinha arrancado o homem de uma vida estável na Rússia e o obrigado a lhe acompanhar para um país desconhecido. Matviei dizia que aquilo não era tão ruim quanto parecia: ele estava infeliz na Rússia, afinal, tendo perdido a esposa e o filho para um divórcio. Mas Arseni não conseguia não se culpar. Se não fosse por ele, Matviei nunca teria se divorciado – mas nada aconteceu, ele repetia para si mesmo, nada aconteceu entre os dois—, se não fosse por ele, Matviei não precisaria ter saído do país.
Se Arseni não tivesse fugido do acidente de trem, ele não estaria onde estava agora. Ele nem mesmo sabia a razão de ter feito aquilo. O trem bateu em outro, algumas pessoas morreram, outras se feriram e ele, entre os feridos, simplesmente saiu andando, como se nada tivesse acontecido. Talvez fosse o que os trouxas chamavam de “choque”. Mas, mais do que isso ainda, ele tinha sido mordido por um lobisomem e sequer percebera. “Estado de fuga”, os trouxas do hospital lhe disseram, e dispensaram a mordida como uma de um animal qualquer.
Era uma situação ridícula. Seria risível se não tivesse passado o mês seguinte inteiro sonhando com a colisão do trem e ataques de animais selvagens, se não tivesse passado o mês inteiro em modo automático, sem sequer se lembrar dos dias. Então, em uma lua cheia…
Sua família estava morta por suas próprias mãos.
Ele se sentiu engasgar na saliva. A respiração ficou difícil e, por um momento, ele desejou que o pianista parasse de tocar. Aquela música, a voz em sua cabeça, a solidão, a falta de rumo: tudo pesava.
Sentiu uma lágrima escorrer por sua bochecha, mas imediatamente a limpou. Não podia chorar. Mas não conseguia se controlar, e logo outras lágrimas vieram, maiores, mais pesadas, e ele soluçava, o corpo arqueado, o peito a doer de maneira que nunca sentiu antes.
Os soluços começavam a incomodá-lo, mas ele não conseguia parar. Seu corpo todo doía, tenso, e suas costas pesavam com todo o peso de seus erros. Ele queria parar de chorar, queria sair dali e ficar sozinho, por medo e vergonha, mas não conseguia. Sentia-se estúpido, patético como um animal que não tem controle das próprias ações. E talvez fosse isso: ele era um animal, apenas. Talvez nunca tivesse deixado de ser um depois da primeira transformação em lobo.
E pensar naquilo o fez chorar com mais força. Seu peito doía, como doía, e o ar lhe faltava. Tentou esconder o rosto, mas as lágrimas pingavam em sua camisa e seus sapatos, e ele não sabia o que fazer. Precisava se controlar, precisava parar de chorar, mas não conseguia, porque tudo o que mantinha calado no último ano acabava de transbordar. Por causa de uma música.
E se sentiu pior. Mais patético.
Tentou respirar fundo. O ato foi interrompido por uma nova enxurrada de lágrimas, e ele sentiu a raiva faiscar. Queria socar uma parede. Queria socar a si mesmo, para quem sabe assim conseguir parar de chorar, conseguir se controlar, se tornar uma pessoa outra vez.
— Eu posso tocar de novo, caso você queira. — Ele ouviu.
Tentou focalizar a fonte da voz com a visão obstruída pelas lágrimas, mas não conseguiu enxergar além de contornos. Não conseguia dizer se o pianista estava incomodado com a situação ou se achava aquilo divertido – hah, qualquer um pensaria, olha só aquele moleque chorando, que patético.
Arseni tentou respirar fundo novamente. E conseguiu, daquela vez. Seu peito se se abriu ao ar, que circulou para dentro dos pulmões. Ele sentiu seu coração bater nos ouvidos, um som alto e rítmico, e dirigiu a atenção a ele. Duas batidas a cada vez, rápidas. Ba-dum. Ele respirou outra vez, limpando as lágrimas do rosto, agora vermelho, os olhos inchados.
— Perdão. — disse então, recuperando a compostura — Eu não queria… — ter um ataque na sua frente, não sabia como terminar a frase — Eu não queria ter agido desse jeito. Desculpe.
E limpou os olhos outra vez. Ergueu os olhos para o pianista, que parecia distante, desconfortável com a cena. Arseni mordeu o lábio e retornou à garrafa de vodca.
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