Homem Aranha: Azul

1 Homem Aranha: Azul


Homem Aranha: Azul

Peter Parker acordou se sentindo muito bem, hoje. Os psicopatas fantasiados de monstros que enfrentava no dia a dia não deram as caras em seus sonhos para importuná-lo, seu Sentido Aranha não o fez deixar sua confortável cama no meio da madrugada para lutar contra o crime nas escuras e frias ruas de Nova York. Por mais que tentasse, não conseguia lembrar de uma vez em que teve um começo de dia agradável como aquele. No fundo, entretanto, uma angústia crescente preenchia seu peito.

Em dois dias se completariam quatro anos desde a noite que Gwen Stacy, o amor de sua vida, morreu pelas mãos de Harry Osborn, seu melhor amigo. O sentimento ruim que o abatia era decorrente da culpa por estar tendo um bom dia, por ter acordado feliz. Será que a estava esquecendo? Não podia esquecê-la. Não queria que o rosto da loira fosse apagado da sua memória. Carregá-la na mente e no coração foi a única maneira que ele encontrou de expiar sua participação — acidental — na morte dela.

Durante anos sua consciência o torturou com o momento em que atirou sua teia nela para segurá-la e parar sua queda. E se tivesse disparado antes? E se tivesse feito mais para impedi-la de segui-lo até o local da luta contra o Electro? E se tivesse se afastado dela para sempre quando o capitão Stacy pediu? E se...? Perdeu dezenas de noites pensando nisso, se flagelando, se martirizando. No começo parecia que jamais superaria, no fundo nem queria. O desespero foi um castigo que aceitou, quase um amigo. Mas agora até isso o estava deixando.

Estava confuso, o pior de tudo era que não tinha com quem contar. Ninguém o entenderia. Por isso, vestiu-se de Homem-Aranha e foi para as ruas procurar um inimigo para combater, pra ver se assim se distraía, mas estava se balançando entre os prédios de Nova York com suas teias há mais de meia hora e nenhum sinal de problema. Não sabia se ficava irritado ou feliz. Êh vida, pensou depois de dar uma risada amarga. Quando queria lutar, quando estava disponível, criminoso nenhum tentava roubar um banco ou um carro forte. Cadê um maldito vilão para ameaçar a vida de um pedestre inocente quando se precisa dele? Não, pera... Se reprovou por desejar isso. Que o cretino do J. Jonah Jameson não saiba.

Pousou no terraço de um dos prédios mais altos da região e sentou-se na beirada dele. Quando percebeu a beleza daquela tarde, que já estava por terminar, retirou a máscara e voltou seus olhos castanhos para o horizonte. Se sua contagem estava correta, o sol iria se pôr em mais ou menos vinte minutos. Resolveu ficar e assistir. Voltou a pensar em Gwen e, de repente, pela primeira vez, se sentiu em paz. De um minuto para o outro, sem razão aparente, a lembrança dela parou de lhe trazer dor.

No topo de um edifício não muito distante dali, há cerca de seis anos, se sentou com Gwen para fazer um pique nique e observar o sol se pôr. Foi oficialmente seu primeiro encontro. Ela estava vestindo uma saia preta, uma camiseta rosa, seus cabelos estavam presos como rabo de cavalo e uma tiara preta os dividia. Absolutamente linda. Ali se deu conta de que a amava. Ali também se deu conta de que seus inimigos seriam inimigos dela, que ela correria perigo enquanto mantivesse alguma ligação com ele. Mas ignorou essa terrível constatação, se fez de bobo. Não podia deixá-la.

Seu sentido aranha apitou repentinamente. Peter vestiu sua máscara, pulou sobre a cidade e, ao se aproximar setenta metros do chão, acionou seu atirador de teia, mirou no prédio mais próximo, se balançou e se lançou para a frente o mais forte que pôde. Segundos após chegou num beco ao lado de uma ponte, local que estava sendo aterrorizado por um de seus mais chatos e insistentes adversários: Rhino, um brutamontes de quase três metros de altura que pesava toneladas e tinha um chifre de metal no meio da testa.

Peter grudou as mãos e os pés na parede do prédio ao lado e se aproximou sutilmente. O canalha estava com uma refém. Chegou mais perto para vê-la e, com o susto, seus pés e mãos se descolaram da parede. Caiu, mas se recuperou antes de atingir o chão e ficou de pé. Infelizmente Rhino e os policiais notaram sua presença. A refém era fisicamente idêntica à Gwen, até o estilo das roupas era parecido.

Avoado, o Amigão da Vizinhança caminhou lentamente na direção deles, sem desviar por um segundo os olhos da garota. Por um instante jurou ter visto Harry segurando sua falecida namorada e reviveu o cenário de quatro anos atrás. Era como se estivessem lá no topo da torre do relógio novamente. "Harry, solta ela", se lembrava de gritar para ele. "Isso é entre mim e você! Você quer lutar? Lute comigo!" Gwen, apavorada, implorava para que o Duende Verde a soltasse. O desgraçado, entre risadas, gritou em resposta: "Harry está morto!".

— Homem Aranha! — Bradou Rhino, trazendo-o de volta à realidade. Ou quase. — É você que eu quero! Venha!

— Só vou pedir uma vez, Rhino — O teioso retrucou, se agachando em sua característica pose de combate. — Deixe a garota ir!

— Salve-a, se puder! — Exclamou o gigante inescrupuloso, fazendo Peter reviver, no mesmo instante, o momento em que Harry deixou Gwen cair.

O corpo do Homem Aranha foi tomado por uma fúria sem precedentes. Ele se esqueceu de tudo, de todos e correu para cima do Rhino como se o assassino de sua falecida namorada estivesse ali em pessoa, assustando até mesmo os policiais, que saíram amedrontados da reta.

Rhino largou a garota e usou o braço esquerdo para tentar socar o herói aracnídeo, que lançou uma teia em seu punho e o prendeu a parede. O grandalhão tentou acertá-lo com o braço disponível, mas o aranha se esquivou do golpe, saltou e esmurrou sua cara com toda a força, derrubando-o no primeiro golpe.

Quase que totalmente desligado da realidade, Peter o encarou inerte enquanto ele estava no chão. Deixou que Rhino se reerguesse, esquivou-se dos três socos desferidos pelo grandão e deu um gancho de direita no queixo dele, arremessando-o para cima. Rhino tentou se levantar novamente, Peter tomou distância e acertou um poderoso chute em seu rosto. Fim de luta. Os expectadores ficaram surpresos. Ninguém nunca o tinha visto lutar daquele jeito, talvez nem ele próprio soubesse que era tão forte.

Mas o Homem Aranha, não satisfeito, montou no brutamontes e deu uma série de socos, um mais bruto e cheio de ódio que o outro, na cara dele. Quando voltou a si, o sangue do vilão inconsciente, provavelmente semi morto, estava em seus punhos e em sua máscara. Olhou em volta. Os policiais e a refém o fitavam atônitos.

A boa notícia era que não havia esquecido Gwen. A, pensou ele, era que precisava ver um psicólogo. Lançou sua teia e se afastou dali o mais rápido possível, voltou para casa. Felizmente tinha algo de graça e muito melhor do que um psicólogo para ajudá-lo. Trocou de roupas, comprou o buquê de flores mais bonito e foi para o cemitério visitar o túmulo de Gwen.

Contou a ela de seu último ataque, contou tudo o que têm feito nos meses em que ficou sem visitá-la e jurou, de olhos fechados e cabeça abaixada, nunca deixar de amá-la e jamais esquecê-la.

Fim.

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