Homem

1 Como ela consegue


Notas iniciais
Olá, pessoal.
Bem, essa é minha primeira One, então...
Comente muuuuuito, ok
(E favoritem
E comentem).
Ao capítulo!

Vocês se conheceram de uma maneira bem clichê — aliás, seria, se você não tivesse estragado tudo. Uma jovem distraída, de cabelos cerúleos caminhando distraidamente rumo a faculdade, mesmo sabendo que está atrasada. Caminha a passos lentos e curtos, observando o céu e tentando adivinhar as formas das nuvens. Assim que ela chega, vê a porta do elevador se fechando e, tenta correr e alcançá-la. Coitadinha! Tropeça em seu cadarço desamarrado e cai com tudo no chão.
Como, você é tolo, Gray!
Você viu o estado dos sapatos da menina, sabia que ela poderia cair a qualquer momento, mas não a avisou. Timidez? Maldade?. Como saber?
Como se não fosse bastante o descaso, você estava próximo o bastante para impedi-la de cair. Envolvesse seus braços em sua cintura fina, trouxesse-a para ti. Qual é sua dificuldade em ser gentil? Hã?
Ela recolheu seus pertences, recebeu ajuda, mas não sua, porque você e o amor ao próximo se desconhecem. E você olhava, olhava e olhava. Perdeu o primeiro elevador, o segundo também. Mas não se dispunha a sair do lugar e ser uma pessoa descente.
O jovem rapaz que a ajudou — que não foi você, vale ressaltar, e que era muito belo por sinal — esperou que ela ficasse de pé, já com todos os seus pertences em mãos e, não se levantou, o que ele fez surpreendeu você. Ele amarrou os botas da menina.
Você achou patético, uma humilhação. Ao julgar pela situação corriqueira, ele nem mesmo a conhecia. Era estúpido.
Mas Gray, você era o estúpido, o único patético nessa situação, onde você foi um mero expectador, talvez vilão, quem sabe.
A menina deu um leve sorriso, e você o achou lindo, as maças avermelhadas de vergonha davam um ar de graciosidade que você precisou admitir.
Ele beijou as costas da mão da moça e ela ruborizou ainda mais, você achou que não fosse possível atingir tal tom de vermelho. Era com certeza uma menininha iludida, na sua opinião. Que reagiria como uma adolescente só por isso?
Era uma criança.
Uma outra figura se aproxima dos dois um pouco alterada.
'Vamos, Lyon?' Disse com tom doce, mas dirigiu um olhar duro para a recém acidentada, que logo entendeu o recado. Meneou a cabeça se desculpando, e a outra repete o ato mais amena. A menina internamente desejou que os dois se entendessem, mesmo que pelo visto, o rapaz de cabelos prateados não soubesse dos sentimentos de sua amiga — não por vontade.
A vida pegou você de surpresa, Gray. Ela era da sua sala.
Ciências do Mar. Seu grande sonho, uma garota tão delicada parecia temer tudo e todos, inclusive os mistérios do oceano. Mas lá estava ela. E seu sorriso permanecia ali.
Você o achou lindo, se repreendeu por isso.
Um som ecou em toda a sala, e ela retirou o celular da bolsa constrangida.
'Mil perdões. Não irá se repetir' Disse de cabeça baixa, saindo da sala para atender.
Você estava perto da porta, Gray. Você viu o roto em pânico da menina. Você desejou que ela sorrisse outra vez, que os olhos dela brilhassem de entusiasmo e não de terror. Sabia que o celular dela não estava no alto-falante, mas ouviu muito bem o que falavam do outro lado da linha.
'Ordinária, porque você fez isso, cretina?' A voz dizia severa
'Eu tive que fazer compras, tio. Não tinha nada em casa' Ela respondeu e mordeu o nódulo de seu dedo.
'O dinheiro é meu, você não pode sair gastando assim. Se quer mesmo comer, arrume um emprego. Vá para esquina de noite e se venda para um velho rico! ' Você ficou espantado com o que ouviu e decidiu continuar escutando.
'Sinto muito, tio. Não farei outra vez' Ela põe a mão na boca e impede o tal tio de ouvir seu soluço. Mas você ouviu, Gray. E você não pensou que fosse te machucar.
Mas doeu em você.
Estranho, foi o que você achou.
'Não me importa o que você diz, garota. Saiba que não vai ficar assim'
'Sei disso tio, tenho que voltar a aula'
'Te espero em casa, não ouse demorar, Julia' Você sabia que aquela fora uma grande ameaça, não uma preocupação parental.
'É Juvia,' Respondeu cerrando os punhos depois de desligar.

E então, ela sumiu.
Voltou poucos minutos depois, com o mesmo sorriso do início do dia e, foi aí que você notou, era a mais pura falsidade. Pela primeira vez você se preocupou com alguém, você se preocupou com ela.
A aula não durou muito, foi na verdade uma introdução ao curso, mera recepção.
Ela pegou as coisas apressada e saiu, sem socializar e, você, a seguiu. Não sabia porque fazia, mas não conseguia evitar.
Viu a menina revirar a bolsa, procurando a chave sem sucesso, e desistindo ela tocou a campainha. Viu um homem de aparência esquisita e cômica abrir a porta e viu mesmo com uma boa distância, o corpo da garota enrijecer. Ele enrolou as mãos nos cabelos da menina, a puxou para perto e marcou seu pescoço alvo. Ela ainda de cabeça baixa fungou alto, seu sangue ferveu.
'Cale a boca, vadia!' Falou levantando seu rosto e fazendo-a encará-lo. A puxou para mais perto e apertou forte suas nádegas e, a menina se remexeu tentando se desvencilhar do homem, que a apertou mais forte e puxou sua perna para cima. Ela grunhiu com lagrimas banhando a face.
'Tio Jose, pare com isso. Eu prometo que reponho todo o dinheiro' Disse assustada.
'Você vai ter que fazer o trabalho que a mulher que receberia meu dinheiro faria. E vai ter que ser igualzinho. Ou melhor, Julia.' Disse lambendo suas lágrimas.
'Eu posso conseguir o dinheiro agora, tio. Só me dê uma hora' Ele a puxava para dentro e ela tentava se libertar, mas ele era mais forte, embora fosse bem magricela.
Você estava petrificado. Como aquela menina conseguira sorrir?
Você queria fazer algo, como nuca quis antes, mas suas pernas viraram gelatina.
'Meia hora, tio. Por favor!' Ela implorava já sabendo o que ia acontecer. E você também sabia.
Você ouviu um estalo. E, Gray você nunca teve tanta certeza do que se tratava aquilo. Sua mente lhe proporcionou a imagem perfeita do rosto da jovem vermelho, não de vergonha como das últimas vezes.
Você quis estrangulá-lo.
'Nem meio segundo, Julia'

E você foi.
Abriu a porta com um chute, mas saiba você que ela já estava aberta. A cena que você viu, lhe fez querer vomitar. Ele havia jogado a garota no grande sofá, aliás, tudo era grande ali, o cara tinha dinheiro. Aquele não parecia ser o problema naquela grande construção. Isso lhe fez pensar, que ele só queria um pretexto para assediar, ou melhor, violentar a sobrinha.
Ele estava por cima dela, com um canivete em mãos, que você reparou, ele havia usado para rasgar o vestido azul dela. E se debatia debaixo dele e tentava atirar coisas. Sua resistência deixava o tio seminu mais irritado.
Ela o viu, mas o homem parecia dedicado demais em sua tarefa de despi-la para reparar você.
Os olhos dela te chamaram, Gray. E você correu em direção a ela, puxou Jose pela gola e o virou de frente para você.
'O que pensa que está fazendo, maldito?' Foi tudo o que você disse. Ele tentou te acertar, mas mesmo sendo mais forte que ela, não era mais forte que você. E você o bateu muito.
Você nem mesmo sabia que conseguia fazer isso.
Santa adrenalina!
'Não sabia que tinha arranjado um namoradinho, Julia. Achei que já tivéssemos conversado sobre isso' Você sentiu Juvia tremer no sofá
'Não tenho medo de você, Jose. Dê adeus a sua sobrinha. Você não vai vê-la nunca mais'
'Não faça isso, por favor. Deixe' Mas você não a ouviu.
Quem diria, Fullbuster! Em qualquer outro momento, diria: Tudo bem, bom estupro pra você, viraria as costas e sairia sem remorso. Por que com ela não?
Você não sabe?
Tem certeza?
'Você já reparou que só fala besteiras?' Você pegou ela no colo e tentou cobri-la ao máximo. Gray Fullbuster, cobrindo alguém? Hã? Impossível!
'Vou encontrar você, moleque. Vou pegar o que é meu de volta e, vou te destruir' Disse Jose com o nariz torto sangrando, caído no chão, tentando sem sucesso se levantar.
'Não vai precisar procurar, não vou me esconder. E que eu saiba, Juvia é minha, não sua. Tchau!' Você acenou irônico pra ele e fechou a porta. Ligou para um táxi assim que viu o estado da garota que já dormia.
'Filho da...deixa pra lá' Quem sabe a mãe dele foi uma boa mulher, e ele sim foi uma droga de filho. Não podia culpar ninguém. Mas os outros palavrões deixou escapar, mesmo temendo que a menina com aparência de anjo ouvisse.
Desde quando se preocupava com isso?
Arg!
Um taxista acharia muito estranha toda a situação, mas era seu amigo, Natsu, que trabalhava meio período na cooperativa para se manter sozinho, já que havia se mudado com a namorada para aquela cidade, seu sonho de se formar estava mais próximo agora.
Gray explicou tudo a ele e, mais assustado com a reação de Gray do que com a situação, Natsu abriu um largo e malandro sorriso.
'Você gosta dela!' Foi tudo o que disse
'Ô imbecil, eu a conheci hoje!' Você disse irritado
'Hmm, entendi. Se não gosta ainda, um dia vai gostar'
'Não fale besteiras, Natsu. Só porque está aí caidinho e usando um L no pescoço, não significa que tudo seja romance'
'Espere, Gray. É só esperar' Você bufou, e seu melhor amigo revirou os olhos. Ele era um imbecil que queria cursar engenharia química para explodir coisas. Como esperar algo correto desse idiota, não é?
Mas sendo seu melhor amigo desde sempre, ele sabia muito sobre você. E quem disse que você pensou isso?
Chegou em casa abrindo a porta com dificuldade e a deitou na sua cama. Foi tomar um banho. Quem diria que o primeiro dia de faculdade seria assim tão cheio.
Você saiu do banheiro só de cueca, uma samba-canção ridícula por sinal. Ela não estava na cama, você se desesperou. Como pode deixá-la sozinha, retardado? Jose podia ter mandado segui-los.
Você só sabia se xingar.
Soltou um suspiro alto assim que a viu mexendo nas suas coisas. Que alívio, não? Brigaria com ela, a mandaria deixar de ser enxerida, mas a fala dela, cortou seu coração.
'Pode acabar logo com isso? Tenho que ir embora. O que quer de mim?' Ela disse fria
'Um obrigado já era o bastante' Foi tudo o que você disse'
'Eu não tenho tempo para que brinque, por favor, diga o que quer' Agora ela chorava. Não conseguiu manter a compostura.
'Quero que se acalme, só isso.' Disse se aproximando, ela andava para trás.
'Você não...' Ela disse enxugando os olhos 'Não me comprou?' Hã? Que história era aquela?
'O quê? Claro que não. Deixa eu resumir: Seu tio tarado...' Fez um gesto com a mão que a garota entendeu
'Jose'
'Esse mesmo. Tentou te estuprar, certo?' Delicado como uma rocha, Gray. Credo!
'Certo' Disse fazendo uma careta de choro.
'Ei, não chore. Espera' Vê-la esfregar os braços nos olhos foi a coisa mais graciosa que você já viu, mas ela queria te ouvir continuar 'Eu vi que ele estava forçando você e tirei você de lá. Ponto, fim'
'E você não quer nada de mim? Mesmo?'
'Não, mas que cisma! Na verdade, já disse que quero que pare de chorar, não disse?' Esse é o Gray de sempre, áspero como uma lixa.
' Sinto muito, não consigo' Ela se aproximou, Gray. E você ficou nervoso. Pois é, ficou sim, não adianta mentir. Ela te abraçou, te apertou forte. Diferente daquelas que esfregavam os seios em você e faziam sons insanos em seus ouvidos. Ela quase quebrou suas costelas e para sua surpresa, você retribuiu o aperto. O som que saía dos lábios da moça, era um soluço abafado, por sua culpa, que não a deixou chorar.
Que insensível, Gray!
Ela quase foi violentada, entendeu isso?
'Eu não vou mais incomodar, está bem? Eu vou retribuir de alguma forma. Tome cuidado com tio Jose' Sabe-se lá como, ela conseguiu apertar-se mais contra você, e foi bom, você gostou disso.
Muito.
'Eu vou dar um jeito nisso, vou proteger você, não se preocupe tanto, eu vou, juro' Ela agarrou os seus cabelos, seria sensual se não fosse desesperado.
Você só pode notar o quão bom era seu cheiro.
'Eu já disse que não tenho medo dele, não ouviu?' Ele se afastou dela.Ela o estava achando covarde? Depois de tudo que havia feito?
'Ele é perigoso, senhor...'
'Gray. Meu nome é Gray'
'Senhor Gray. Sou-lhe grata por toda a vida já que eu... bem, eu...' Ela enrolava os dedos com o rosto vermelho e você tinha uma leve ideia do que se tratava 'Eu nunca...'
'Você é virgem. Entendi'
'Isso. Obrigada por não...não fazer nada comigo' Irritado, você estava bem irritado.
'Tenho cara de maníaco, é?' Você estourou.
'Desculpe-me, não quis ofender, senhor Gray. É que, as pessoas não costumam ser assim, sem querer nada em troca'
Você sabia que ela tinha razão, você nem mesmo sabia porque estava agindo tão gentil perto dela.
'Tudo bem, não importa. Você precisa de um banho e descanso'
O rosto da menina voltou a expressão perturbada e você quis abraçá-la outra vez, e outra, e outra vez mais.
'Não posso. Se eu voltar logo ele pode não machucar você, mas se... Oh, não, se ele vier atrás de você. Os outros já podem saber'
'Outros quem, Juvia?'
'Os amigos, empregados, não sei o que eles são de tio Jose. Já tentei fugir daquele inferno, acha que não? Mas eu sempre vou voltar pra lá'
'Não vai mais' Foi só o que você disse e ela tentou argumentar, mas você não deixou.'É muito normal namorados morarem juntos em uma cidade nova para cursar a faculdade, sabia?'
'Sim, mas por que mudou de assunto?' Ela estava confusa e você sorriu. Quanto tempo não fazia isso. Lembra da última vez? Não?
'Não mudei. Você é minha namorada e vai morar comigo. É isso, sem discussões'
'Mas...'
'Sem discussões, Juvia. Jose acha que estamos juntos'
'Ah, sim. De mentira. Por que não disse que não era verdade?'
'Eu ia, mas achei melhor não. Você é muito imbecil sabia? Como pôde me mandar embora no meio daquilo tudo? '
'Eu mandei?'
'Não se lembra?'
'Só de Jose ter furado minha perna, nada depois disso, desculpe'
'O infeliz te drogou? Rrrrr, ele só pode estar querendo morrer' Que estranho, você nunca se importou tanto com alguém, Gray. O que acha que isso quer dizer, hein?
'Tudo bem, senhor Gray, já estou acostumada. Não precisa se incomodar tanto'
'Quer dizer que você gosta disso? Desculpe ter atrapalhado então' Esse era o Gray de sempre. A menina está chorando, parabéns!
'Acha que sou uma vadia?! É isso? Eu estou tentando poupar você! Mas se quer mesmo morrer, eu namoro com você, eu me caso, senhor Gray!' Ela se sentiu ofendida, Gray. Óbvio!
'Por que está gritando?'
'Porque me chamou de vadia, senhor!'
'Não me chame de senhor, tenho dezenove anos!' Conserte isso, Gray! 'Olha, desculpa. Só não entendo o motivo de você querer voltar'
'Não quero, Gray' O som que saiu dos lábios da menina ao dizer seu nome foi encantador. Você adorou.
'Então fique, pode ficar. Vá tomar um banho.'
'Tudo bem'
Ela foi até o banheiro e, você só conseguiu pensar: Que confusão!
Mas sabe o que foi mais estranho? Você não achava uma confusão ruim, pelo contrário
'Senhor Gray?' Ela o chamou.
'É Gray, Juvia'
'Certo, que seja. Eu não tenho roupas. As minhas estão rasgadas' Ela disse constrangida, você sorriu. Outra vez.
Outra vez, Gray? Que esquisito.
'Espere, você está com sorte hoje' Você foi buscar um pijama da sua irmã que havia acabado de chegar da lavanderia.
'Eu não chamaria nada disso de sorte' Você ouviu-la sussurrar. A propósito, sua audição estava ótima, não?
Você sentiu vontade de proteger a menina, você sentiu que não podia perdê-la.
Vai negar?
Você decidiu ignorar por ora. Perguntaria tudo mais tarde.
'Juvia pode pegar, estou na porta' Você segurou a muda de roupa de Ultear
'Promete que não vai olhar?'
'Deixei uma toalha aí, Juvia.'
'Mesmo assim...'
'Está bem, Juvia. Não vou olhar'
'Promete?' Mas você não disse nada 'Promete, Gray?'
'Tudo bem, Juvia. eu prometo'
E ela abriu a porta, o rosto vermelho e cabelos molhados. Você tinha certeza que ela havia chorado ali.
Você não pôde evitar.
'Obrigada' Você só sorriu, outra vez.
O que ela estava fazendo com você?
Ela saiu do banho, com o pijama que lhe caia perfeitamente e, você a fitou por um longo tempo, sem desviar o olhar.
Que descarado, Gray!
'Eu usei seu xampú, espero que não se importe, posso comprar outro se quiser' Como ela era fofa.
'De jeito nenhum, tudo bem,. Durma um pouco, vou comprar algo pra você vestir, já estarei de volta'
'Não' Ela puxou seu troco para perto, você se assustou. Você não cansaria de se assustar se ela fizesse isso mais vezes. 'Não vai! Tio Jose pode voltar, pode estar vigiando o prédio agora mesmo. Sei que é pedir demais, mas fique' Ela afundou a cabeça em seu ombro e sentiu seu cheiro nela. Seu xampú era bastante para os dois e, você sabia disso.
'Eu vou deixar o porteiro e os seguranças avisados, fique tranquila. Tente dormir'
'Tudo bem, desculpe'
'Você tem que parar com isso'
'O quê?'
'Pedir desculpas a toda hora, que desnecessário'
'Está certo, desculpe' Você a encarou de sobrancelha arqueada 'Ah, eu fiz de novo' Ela disse batendo com a mão na testa.
Que graciosa.
A esperou dormir e saiu, não antes de olhá-la por alguns segundos. Que bonita era ela.
Você saiu pelas lojas mais próximas, sempre se preocupando em não ir muito longe, Juvia poderia estar com medo e, os seguranças podiam não dar conta dos tais capangas de Jose. Comprou um vestido até o joelho, de mesmo tom de azul que a menina usava antes, simples e bonito.
Você o comparou a ela.
Lembrou-se que quando a pegou no colo, ela estava descalça. Foi a uma loja de sapatos e arriscou um número qualquer, torcendo para ser o certo.
Sem cadarços, foi o que você pensou.
Que cômico.
Correu, correu pra casa, correu para ela.
Chegou em seu apartamento se despindo como louco. Estava muito calor e, nem mesmo o condicionador de ar dava jeito em você. Voltou a ficar com aquela cueca.
Nuvens, Gray? Quantos anos você tem, sete?
A encontrou dormindo na sua cama, com uma feição assustada. Pálida e suada. Se remexia e escondia o rosto nas mãos.
'Juvia' Você a balançou de leve, mas nada. 'Juvia' Ainda nada.
Oh, céus! Você subiu na cama desesperado e sacudiu-a com mais força. 'Juvia! Acorda!'
'Uhn?Não! Solte!'Ela gritava e se sacudia. Você tirou alguns fios de cabelo do rosto suado dela e esperou ela te reconhecer 'Gray?' Coçou os olhos 'Gray!' Ela abraçou você outra vez, você estava se acostumando com isso.
Ah, estava sim.
Você a pegou no colo. Que gracinha. Sabe o que foi mais estranho? Os pensamentos impuros não habitaram sua mente, mesmo com a posição constrangedora em que estavam.
'Eu estou aqui. Fica calma'
'Não saia, por favor' Nessa hora você riu, ela o olhou confusa.
'Eu já fui' Você afagou os cabelos dela. O seu cheiro ficaria nele.
O dela em você. O cheiro do xampú forte entrou em sus narinas e você se sentiu bem.
Bem até demais.
'Que horas são?
'Não importa. Você não dormiu muito se quer saber'
'Obrigada, Gray.' Ela lhe beijou a face 'Por tudo'.
'Não se importe com isso. Já disse. Qualquer namorado faria isso, não?' Você sorriu travesso.
'Gray...' Você continuou a encará-la. 'Tio Jose não está aqui' Ela disse tímida, virando o rosto.
'Eu não estava falando sério, relaxe.'
É claro que estava, Gray. Só que ela não sabia. E talvez, só talvez, você também não.
'Ah, sim' Ela continuou em seu colo, você pensava se ela havia reparado ou não. Mas, quer a verdade?
Ela havia reparado sim, mas exatamente como você, ela não quis perder esse contado, exatamente com você. 'Eu posso trocar de roupa, se quiser. Sua namorada de verdade pode ficar brava' Ela disse saindo de cima de você. Você quis que ela voltasse.
'Que namorada?' Você perguntou atônito.
'A da foto. Desculpe-me por ter olhado'
'Ultear? Ultear é minha irmã' Ele pegou a foto, onde os dois estavam abraçados fazendo careta.'Na verdade, prima'
'Hã?' A menina não entendeu nada, Gray. Sua vida é confusa, lembra? Se você não a entende direito, quer que ela entenda?
'É uma história longa e íntima' Você a olhou sorrindo. 'Mas posso compartilhar com você se me contar a sua' A olhou desafiador. Ela lhe sorriu, você viu os olhos dela brilharem. Brilharem do jeito que você queria. Ela estava curiosa.
'Justo! Eu conto' Ela não parecia coagida perto de você.'É rápido.' Ela se ajeitou de frente para você na cama e, sacudiu os cabelos para trás. 'Minha mãe e meu pai morreram num naufrágio. O barco de pesquisas dele, cedeu a uma tempestade.' Ela respirou fundo e continuou 'Não encontraram o corpo da minha mãe e nem do assistente de bordo, era um menino. Meu pai e o restante da equipe estão enterrados cada um em sua respectiva cidade'
'Sinto muito' Você realmente disse isso porque queria. Não foi formalidade, como das outras vezes.
'Tudo bem. Desenvolvi um grande respeito pelo mar depois disso. Fico feliz por não ficar com fobia ou repulsa'
'Acho que nunca entraria na água depois disso'
'Posso contar um segredo?'
'É claro' Você se encheu de alegria ao ver que ela confiava em você.
Que tonto, Gray. Como não? Você a salvou.
'É idiota, está bem?'
'Tudo bem, eu sou idiota. É o que dizem' Ela gargalhou. Alto até. Nossa!
'Às vezes eu acho que vou encontrar minha mãe. Eu sei que é impossível. Eu tinha seis anos, mas não consigo matar isso em mim'
'Não mate. Por que viver sem um objetivo?' Você disse isso pensando nela. Ela era seu novo objetivo, você queria alcançá-la, certo?
'Eu sei, mas continua idiota. Agora começa a parte ruim' Ela bateu as mãos no rosto tentando não chorar.
'Seus pais morreram, Juvia, essa não foi a parte ruim?'
'Não a pior. Tio Jose foi o único parente próximo, eu não sabia que ele era... assim. Ele é influente, e ninguém acredita no que eu digo. Como uma órfã pode falar assim de que a acolheu como uma filha?' Foi o que disseram. 'Ninguém imaginaria o inferno que Jose podia proporcionar. Mas nunca cheguei a pensar que ele pudesse chegar a esse ponto. Parte do dinheiro é meu, meus pais eram bem sucedidos, mas ele não me dá nada, nem o essencial. Vou completar a maior idade daqui a duas semanas, e o dinheiro virá finalmente pra mim, estarei livre por inteiro. Ele bebia muito e se drogava às vezes, raramente na verdade. Mas beber... Ele bebia muito. Chegava em casa me chamando por um nome aleatório e fazia... Fazia coisas, Gray. No começo eu não entendia nada, só nojo, mesmo sem saber que era errado. Eu tinha acabado de fazer seis anos. O que é que eu sabia?' Você ficou assustado, Gray. Pra caramba! ' Ele me mandava fazer coisas que eu não queria, me forçava e me batia. Fui obrigada a tocar em partes... e não só. Ai, Gray, me deixe parar de falar. Sei que prometi, mas me deixe parar' Ela estava chorando. Chorar é pouco. Existe algo pior do que chorar?
Se sim, era pior que isso. Você queria ouvir, ouvir tudo, mas não a forçaria.
'Tudo bem, vem aqui' Você a puxou pela mão. Você está surpreendendo, rapaz! Puxaria uma garota bonita pela cintura e se aproveitaria da fraqueza dela. Por que com Juvia não?
Era o que você se perguntava.
'Eu já perdi pessoas importantes por causa dele. Eu tinha um grande amigo' Amigo? Humm... 'Ele sofreu um acidente depois de brigar com tio Jose. Depois disso, Gajeel desapareceu. Nem sei se ele está bem.' Gajeel? Redfox? Quem mais se chamaria Gajeel e teria uma amiga assediada pelo tio por aquelas bandas?
Que destino é esse?! Você sabia quem ela era, afinal.
'Sinto tanta falta dos meus amigos. Todos eles. Tenho medo de sentir sua falta também. Você é meu herói, certo?'
Você ruborizou, que gracinha!
'Não vou sumir, juro'
'Obrigada. Sua vez, chega de falar de mim' Disse esfregando as palmas das mãos no rosto, limpando as lágrimas.
'É mais rápida que a sua, não se decepciona, tá?' Essa assentiu frenética 'Meus pais foram assassinados quando eu tinha quatro anos, tive sorte, tinha dormido na casa de um amigo, não sei o motivo. Muitos morreram na minha cidade nesse dia. O que me faz acreditar que eles não fizeram nada de errado' ela novamente assentiu. 'Fui morar com minha tia Ur e Ultear, minha prima, mas eu tinha quatro anos, ela é minha irmã.'
'É claro que é. Nascer de mesma mãe ou pai não é tudo, Gajeel é meu irmão também, nem temos o mesmo sangue, mas não me importo. Sei que ele não sumiria assim, tio Jose deve ter ameaçado fazer algo comigo, porque Gajeel não teme por ele.'

Tinha mesmo, Juvia. Era o que queria dizer. Disse que faria o que tentou fazer hoje se ele voltasse. E mais. Prometeu que faria seu inferno piorar, de todas as formas possíveis. Gajeel tinha te contado.

'Nós dois desenvolvemos a mania de usar pijamas bregas, pode rir. Só não esqueça que está usando uma'
Ela olhou o pijama de flocos de neve e sorriu. Que sorriso brilhante.
'Não é brega, só é infantil' Ela esticava es pernas e olhava melhor 'Tem certeza que ela não vai ficar brava?'
'Total. Agora vamos dormir, vai ficar tarde' Você se deitou na cama de barriga pra cima.
'Gray? Onde fica o sofá?' Você rapidamente se sentou na cama.
'Você é minha namorada, vai dormir comigo, oras!' Disse brincalhão, mas logo lembrou do que quase aconteceu com a jovem neste mesmo dia e ficou sério 'Eu durmo no sofá, sem discussão' Ela pareceu perceber o que você pensava. 'Não sou muito moderna, mas posso aceitar isso'
'Então deita logo, senhorita tradicional' Ela se jogou do seu lado animada, mas logo foi ficando sonolenta e apagou.
Você suspirou.
Foi um longo dia.
Antes de deitar, você fez um telefonema. Deitou e abraçou a menina, mesmo que ela te batesse.Ela acordou primeiro. Você sentiu ela tocando seu braço, se virou pra você e tocou seu rosto, você continuou fingindo que dormia.
'Gray?'
'Hun?' Você resmungou
'Tenho que ir pra faculdade' ela disse ainda sonolenta
'Vai chegar atrasada, porque eu vou pro banho primeiro!' Você correu pro banheiro e bateu a porta
'Você toma banho todo o dia? Podia jurar que não' Ela disse com voz suave e você abriu a porta
'Ontem eu não tomei' Pôs a cabeça para fora da porta e mandou língua pra ela e entrou outra vez.
'Eca!' Ela disse gargalhando.
Você tomou um banho rápido e saiu indo em direção a uma sacola de papel.
'Toma, o vestido eu escolhi, as roupas íntimas eu não quis nem olhar, então se for meio esquisito, culpe o vendedor'
'Foi um homem?' ela disse de olhos arregalados abrindo a sacola sem te deixar ver.Suspirou aliviada, você ficou decepcionado, admita.
Você riu dela e a empurrou para o banho. Ela foi rápida, mas você já estava pronto. Você a entregou outro pacote .
'Pegue. Vamos ver se você tem sorte' Ela o olhou de soslaio e abriu o embrulho. Uma caixa. De sapato.
Ela abriu encantada. Uma bota. Preta, lisa e simples, com um zíper na lateral e nada mais.
Ela lhe sorriu e calçou. Ficou um número maior, mas nada demais. Era melhor já que se tratava de um sapato fechado, foi o que ela disse.
Você deu um caderno pra ela e alguns materiais básicos, tamanha foi a surpresa ao saber que eram da mesma sala.
'Tudo bem,eu sou invisível mesmo' Você disse 'Ninguém repara em mim. Tudo bem' Ah, Gray. Sério isso?
'Não, por favor, não faça assim' Ela apertou suas bochechas. 'Você é lindo e, um nobre cavalheiro que salve pobres camponesas' Você ficou vermelho de novo.
'Pobres? Aham'
'Camponesas não-tão-pobres. Melhor?'
'Mais real' Foi o que você respondeu. 'Sem contar a parte do cavalheiro'
'Isso só o tempo vai dizer. Não te conheço o bastante, não é? Mas é impossível pensar algo ruim de você'
'Sorte sua não ter me conhecido antes. Sério' Você confessou. 'Eu era um canalha'
'Era?' Você assentiu ' Ótimo! Significa que não é mais. Isso é bom' Ela sorriu mais ainda.
'Você é estranha garota' Revirou os olhos.
Você pegou a mão dela e saiu.
'Gostou da roupa? Não pude procurar muito' Perguntou descendo as escadas com ela, ainda de mãos dadas.
'Sim, você até que escolhe' Ela disse 'Adorei as botas' Ela girou os calcanhares, ainda sorridente. Você não queria que ela parasse de sorrir.
'É de zíper, pra você não cair mais' Oh, Gray. Se entregou.
'Você viu?!' Ela parou na portaria e encarou Gray envergonhada 'Que droga! Fiquei feliz por não terem rido de mim. Que vergonha!'
'Juvia, você dormiu comigo, deixa de neura' Ela te bateu com o caderno e você tentou se proteger com os braços.
O porteiro sorriu, os seguranças também.
Você nunca tinha estado tão alegre antes. Contagiava atá os outros.
Você colou seus lábios aos dela, ela ficou sem reação. Piscava os olhos várias vezes e você sentiu o coração dela. Sentiu o seu. Foi só um leve contato.
Você se lembrou de tudo que ela passou, pensou que ela não fez nada por sentir endividada com você. Você ia se desculpar, mas a viu sorrir de cabeça baixa. Achou que você não tinha visto. Mas você viu.
Passou o braço por seus ombros e seguiram até a faculdade juntos.

Talvez você devesse dar ouvidos a Natsu, Gray
Ele era seu melhor amigo. Alguma coisa sobre você ele tinha que saber.
Você não se incomodou em abandonar a vida imbecil que você tinha.
Não temeu a perda de liberdade, não temeu a Jose.
Você temeu perdê-la, descobrir que foi tudo um sonho. Um muito, muito maluco por sinal.
Parabéns, Gray. Você se rendeu ao sorriso encantador dela. Você deixou de ser um moleque.
Você se tornou um homem.

'Tenho uma surpresa, vire pra cá' Chegando a porta da faculdade você a virou e ela fitou você. Intensamente. 'Mas, você tem que me beijar'
'Não, Gray! Pare com isso!' Ela disse mais vermelha ainda. Você apertou suas bochechas.
'Você é minha namorada agora' Quando ela ia falar você a interrompeu. 'De mentira é o caramba! Vai me beijar ou não? Se serve de chantagem você vai adorar o que está ali atrás'
'Não, Gray. Tudo já foi vergonhoso demais. Não força a barra. Eu já moro com você, eu já sou apaixonada por você, eu já fui beijada hoje'
'Apaixonada, é?'
'Como não? Você me salvou, não é? Como não amar um bad boy tão fofo?' Ela falava naturalmente, ela não parecia falar de algo profundo e sim, de uma grande gratidão.
'Tá, que seja, namorada. Pronta?'
'Sim, quer dizer, não. Mas tudo bem. Vai ser bom, não é? Acredito em você'

Acredito em você. Coisa boa de se ouvir, não é?

'Então está bem, vamos lá' Você a virou de costa e tapou seus olhos com as mãos. Se entortou todo e ficou de frete para ela. A beijou outra vez, ela sorriu até te beijando. Foi só um tocar de lábios outra vez, mas sabia que não faltava muito pra isso evoluir. Ela merecia sorrir, você diria isso a ela quando tivesse coragem, a pediria em namoro também. Um dia é claro. Estava cedo demais ainda.
Mas você sabia que isso ia acontecer.
Simplesmente sabia.

'Gray, você trapaceou!' Ela lhe bateu leve, não tão leve na verdade, gargalhando.
Não tão longe uma figura revirava os olhos e caçoava de você só com o olhar. Você sabia o que estava pensando: Gray, você cuida bem dela ou morre!

'Pode olhar agora' Você disse alegre, você estava emocionado. Não precisa contrariar. Foi evidente, seus olhos lacrimejaram. Você achou que nunca fosse chorar de novo. Na verdade, você não chorou, mas seus olhos brilhavam contra a luz do sol. Mas não eram lágrimas.
Claro que não.

Você tirou as mãos dos olhos dela e ela petrificou. A figura que Gray observou ao longe abriu os braços, e Juvia soluçou alto deixando as lágrimas caírem. Ela virou pra você. Ela juntou os lábios dela aos seus, beijou seu rosto e agradeceu muito. Virando seu rosto de um lado para outro e estalando beijinhos. Você nunca se sentiu tão bem 'Você é o melhor namorado do mundo, sabia? Como foi que você...?'
'Depois te explico isso, ok?' Você afagou os cabelos dela. 'Vai lá. Vai Juvia!'

E ela correu, correu para longe de você, mas você sabia que ela voltaria. Sua voz embargada de tanta felicidade te animou. Muito.
Ela perdeu a compostura nata que você já havia reparado e gritou, sem se importar com ninguém.
Ela abriu os braços chorando muito, abraçou a figura que a girou no ar apertando-a forte. Eles estavam quase se fundindo. Ela o enforcava e ele quase quebrava sua fina cintura.
"Gajeel!"

Notas finais
Espero que tenham gostado.
Obrigada!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!