"[...]Quando a noite chega, o terror se instaura. O dia é a esperança. Está de noite... É hora das criaturas alimentarem-se do que resta da humanidade e de quaisquer outros animais."

Cortez fechou seu pequeno caderno, caderno no qual esperava futuramente tornar-se um registro de como fora o apocalipse, desde o Dia Z até o seu último dia — ou enquanto alguém o escrevesse -. A cabana onde Cortez abrigava-se daquela que seria uma das noites mais intensas de sua vida pós-apocalíptica, era uma simples fazenda no meio do nada. Uma cabana solitária, com plantações na parte de trás, porém que há muito haviam morrido e secado. A casa não estava nas melhores condições: faltavam telhas, anteriormente arrancadas por ventos de alta velocidade, janelas esburacadas por mãos cadavéricas e rombos enormes que outrora foram de uma arma poderosa de um homem que tentava defender sua casa e sua família. O chão, rangente e simples estava desgastando-se mais rápido do que deveria, provavelmente pela falta de cuidados daquela que, no início da construção da casa deveria ser uma bela madeira. Não existia fonte de energia neste lugar e por isso Cortez estava em um completo breu, iluminado apenas pela pouca luz da lua que rastejava pelos pequenos espaços no telhado, tornando o cenário mais macabro.

Cortez era integrante de um grupo que fora praticamente dizimado enquanto tentavam tomar uma área maior do que eles poderiam para tentar começar uma nova vida, um recomeço para a humanidade, mas, nem tudo é um mar de rosas... Quando o grupo investiu em limpar áreas urbanas pequenas e ir expandindo-as para conseguir terreno para uma comunidade, as lutas eram pequenas, mas depois de um tempo tudo começou a ficar mais difícil, até que o grupo foi quase completamente morto, sobrevivendo apenas Cortez, Túlio, seu grande amigo de infância que agora o ajudava nas mais complicadas situações e Daniele, a paixão de Cortez desde o colégio, antes mesmo de eles imaginarem um dia serem o que são hoje.

Daniele era uma das garotas mais populares de sua classe e de parte do colégio no qual os três estudavam quando crianças, mas, ela escondia sua real personalidade debaixo de maquiagem e roupas caras. Ela era uma fanática por ficção, adorava escutar o bom e velho Rock 'n' Roll e vivia de jogar RPGs onlines. Apesar de tudo, Daniele tinha uma vida social ativa e um currículo escolar perfeito. Abarrotado de notas 10. Era a garota que todos os garotos desejariam namorar, mas, que nunca conseguiriam... E mesmo que seu rosto agora estivesse sujo de sujeira e sangue, sua beleza não era ofuscada. Os mesmos cabelos castanhos lisos e longos que se estendiam até seus ombros, seu rosto com traços finos, olhos castanhos, lábios carnudos e um corpo atlético desenvolvido por meses de esforço físico em academias, trilhas e desafios que fariam qualquer menina mimada chorar de desespero.

Túlio nunca fora o maior atleta, jogava no time de futebol do seu colégio e as vezes praticava corrida de bicicletas, mas, mesmo com todo este esforço, Túlio não possuía o corpo atlético que deveria ter. Ele não tinha um peitoral definido, nem braços musculosos, muito menos pernas poderosas. Ele era um jovem que cuidava de sua saúde, mas, não exercitava-se ao ponto de ganhar massa muscular suficiente para ter a aparência que tantos desejavam antes do apocalipse, menos ele. Apesar de todos acharem que Túlio era um garanhão com as mulheres, ele apenas sabia como tratá-las bem e logo elas ficavam apaixonadas pela sua simpatia e humildade. Infelizmente nenhuma destas garotas jamais conseguiria nem sequer um beijo deste rapaz. O fato de Túlio ser tão delicado com as moças era que ele omitia seu verdadeiro eu, sua real preferência sexual: A homossexualidade.

Cortez não demonstrava sentimentos, ele queria passar toda sua vida abaixo do radar, mas, fazia de tudo para chamar a atenção de Daniele, e isso o levou a vários constrangimentos que o tornaram cada vez mais frio e analítico no que fazia. As pessoas começaram a chamá-lo de retardado e lerdo após certo tempo, pois o coração de Cortez havia sido tão esmagado por Daniele e pelos outros que logo ele começou a calcular e analisar por vários minutos o que iria dizer após receber uma pergunta, mas, ao contrário de o chamarem de "Cortez, O Calculista" como ele queria, foi chamado de "Cortez, O Retardado". Quando o apelido realmente pegou e todos do colégio, até os que não o conheciam começaram a chamá-lo disto, Cortez tornou-se uma rocha dura e fria que protegia um frágil coração despedaçado pelas dores de uma paixão mal correspondida. Sua aparência mudou, sua forma de falar mudou, tudo mudou depois daquele dia.

* * * * *

– Túlio, há dois contaminados lá fora. Me dê a pistola. — pediu Cortez, observando atento os dois contaminados que batiam de forma demente um no outro.

– Aqui. — estendeu a mão o rapaz, entregando-lhe uma pistola 9mm.

Cortez operou o mais silencioso possível, tentando fazer a menor quantidade de ruídos para não atrair visitantes indesejados. Os tiros foram suaves e rápidos, emitindo apenas dois sons agudos e rápidos que ecoaram pela casa lentamente. Uma fumaça quase invisível passeou pelo ar mal iluminado e empoeirado da casa, estourando a janela e colidindo contra os cambaleantes. Os dois zumbis caíram falecidos no chão. Um com um tiro no seu pescoço, atingindo quase de raspão e o outro com um tiro na testa. A arma foi entregue novamente a Túlio, que guardou-a dentro de uma mochila grande, capaz de carregar uma escopeta dentro.

– Já percebeu que a cada dia que passamos aqui o número de infectados que aparecem vai aumentando? — perguntou Túlio sentando-se a mesa e bebendo um pouco da água que restava da ante-penúltima garrafa d'água de seus mantimentos.

– Sim. Isso me preocupa, creio que se ficarmos muito tempo aqui em breve seremos visitados por essas coisas em números gigantes. Se isso acontecer, estaremos mortos. — respondeu, juntando-se a mesa com seu colega.

Os dois ficaram em silêncio por um bom tempo, apenas quietos, observando a escuridão e, de vez em quando fitando um ao outro.

Apesar de Cortez ser o melhor amigo de Túlio há mais de 15 anos, Túlio nunca havia contado-lhe da sua homossexualidade. Cortez sempre fora um homem compreensível, mas, tinha certos preconceitos em relação a isso. Túlio fizera uma ótima atuação por todos estes anos, não deixando qualquer pista, qualquer aparência ou demonstração de quem ele realmente era. Um tinha vergonha e imaginava que se contasse para seu amigo, ele o rejeitaria como um bastardo rejeitado pelo pai; já Cortez pensava que todas as histórias engraçadas e um pouco constrangedoras sobre as namoradas de Túlio eram reais e isto sempre o forneceu comodidade.

– O que vocês estão fazendo aí? — perguntou Daniele, sonolenta, tentando fazer seus olhos acostumarem-se com a nova luminosidade que lhe era fornecida.

– Nada. — responderam os dois em coro olhando-a entre a escuridão.

– Hum... Vocês não vão dormir? — perguntou apontando para as duas outras camas que estavam encostadas nas paredes.

– Nós estamos vigiando a fazenda, agora a pouco encontramos dois... — Túlio parou de falar quando viu o olhar sinistro e ameaçador de Cortez, mandando-o calar a boca e apenas ficar quieto.

– Encontraram dois o quê? — perguntou com a voz nervosa e um pouco amedrontada.

– Não encontramos nada. — respondeu, Cortez, terminando a conversa que havia se iniciado da maneira que ele não desejara. — Não encontramos nada...

Daniele observou-o por um tempo, tentando lembrar de como era o antigo Cortez. Ela nunca admitiu e sempre tentou rejeitá-lo, na esperança de que ele encontrasse alguma garota que não tivesse tantos problemas como ela, mas, Daniele sempre fora apaixonada por Cortez, mas, depois de tanta humilhação que o homem havia sofrido, seu coração estava tornando-se uma casca oca, sem amor ou qualquer outro sentimento além da raiva, ódio e vingança. Ela lembrava-se das festas de aniversário aos dez anos, suas reuniões para fazer trabalhos escolares e os encontros aleatórios que os dois tinham quando iam a piscina do condomínio em que moravam. Sempre olhavam-se com olhares apaixonados, trocando beijos e abraços mentais, na forte esperança de que aquilo um dia se torna-se realidade. Com o tempo essas memórias foram ficando apagadas, mas, agora elas estavam ativas e com ainda mais força. Depois do Dia Z, os dois amantes secretos começaram a conversar um pouco mais e tornaram-se mais íntimos, apesar de ainda não serem o que as pessoas chamariam de casal.

Seus pensamentos renderam-lhe longos minutos de uma incrível sensação de paz e tristeza. Seu desejo neste momento era que Cortez voltasse a ser o que era, voltasse a ser aquele garoto piadista e educado, sonhador e inspirador, um líder nato e com certeza um amante nato. Ela sabia que aquilo poderia jamais acontecer, mas, buscou conforto em seus pensamentos e logo voltou a dormir.

– Cortez... — parou e tentou reformular a frase que havia imaginado em sua cabeça. — Você já viu como ela olha para você? Você nunca percebeu que ela é apaixonada por você desde a 8° série? — ele ficou observando as feições de Cortez por um tempo, tentando descobrir o que ele estava pensando, mas, concluiu que só aquilo não ia bastar, e continuou. — Eu sei que você ainda a ama, vejo isso nos seus olhos e nos dela. Vocês dois se amam desde pequenos. Eu sei disso.

Cortez foi bombardeado com lembranças apaixonantes e incríveis dos momentos felizes e ingênuos que vivera com sua amada. Momentos que ele sabia que jamais voltariam. Em meio a tantos pensamentos outros começaram a aparecer, mas, esses trouxeram as consequências de sua paixão e trouxeram a tona o por quê de todas aquelas coisas não voltarem a acontecer.

– Eu... — Cortez tentou iniciar uma resposta. Enquanto ele tentava falar, seu coração acelerava cada vez mais, sua mente parecia ficar mais e mais confusa e seu estômago parecia embrulhado, mas, apesar de tudo era uma sensação boa. Uma sensação que ele não sentia a vários anos. Daniele também sentia isso, ela estava acordada quando os dois começaram a conversar, apesar de fazer o mínimo de movimentos esperando a confirmação de tudo que ela achava que ele sentia por ela.

– Vai, fala... Diz o que você sente por mim. — Daniele usou todas as forças que tinha para tentar enviar um sinal telepático para Cortez.

Cortez viu Daniele se mexendo lentamente, tentando virar-se para o lado em que os dois amigos estavam sentados. Ele sabia o que aquilo significava: Daniele estava acordada. Ele sabia que se contasse o que sentia, seria novamente atormentado por possíveis lembranças do seu passado e ainda pior, novas lembranças que o atormentariam para sempre se ele se declarasse para sua amada e logo em seguida a perde-se novamente. Com confiança e tristeza, ele pronunciou:

– Eu não sinto nada por ela. Tudo que fiz no passado, achando que realmente a amava havia sido apenas uma ilusão, um erro. O que fiz naquela época foi a pior coisa que já fiz na minha vida. Aquilo me atormentou por um bom tempo, mas, agora eu superei isso e não quero mais saber dela. Eu não a amo. — uma dor agonizante tomou conta de Cortez, que de relance viu o rosto de Daniele mudar de um tom calmo e esperançoso, para um triste e arrependido.

Daniele sentiu como se um punhal tivesse penetrado seu coração, a dor que sentiu, a vontade de jogar-se em lágrimas era enorme e tornava-se mais forte, mas, ela soube se controlar. Se convenceu de que no fundo, Cortez ainda gostava dela. Foi com isso que ela encontrou conforto e virou-se a sua antiga posição, de cara com a parede. Passou alguns minutos de olhos fechados, tentando imaginar algo que a deixasse feliz para dormir e não conseguiu. Escutou a conversa dos dois por algum tempo, tentando ver indícios de que o que Cortez havia dito era mentira, mas quanto mais tentava se manter acordada, menos forças ela tinha. Seu cérebro se desorganizou aos poucos, as ideias foram se esvaindo, até que ela entrou em outro mundo. O mundo dos sonhos.