Hollow Spirit - O enigma 917
7 De volta à Era Medieval
A notícia de que o corpo de Augusto que era o que estava na caixa de água se espalhou rapidamente pela Universidade. Alguns ficaram espantados, uns não acreditavam que ele havia morrido e outros estavam dando risada da situação.
Na Dazer todos estavam tentando entender o porquê do ocorrido.
– Será que ele tentou salvar o Mick? – perguntava-se Dani.
– Não pode ser, até eu mataria ele se ele estivesse tentando salvar aquele encosto – Ingrid responde.
– Credo, Didi! Que do mal isso — Jay fala rindo.
Mas nem todos estavam achando graça da situação, é claro. Felipe e André estavam se sentindo um pouco estranhos com a notícia, eles o conheciam desde pequeno, e por mais que ele tenha sido um filho da puta, ele fez parte – e uma bela parte – da vida deles.
– Dá para vocês pararem de falar disso? — André explode depois de mais alguns comentários sobre a morte. — Ele morreu! Isso que importa — ele fala e sai da sala em direção ao seu quarto. Felipe o segue sem falar nada.
Quando os dois entram no quarto André se deita na cama olhando para o teto, e Felipe começa a mexer em algumas agendas em cima da escrivaninha.
– É estranho, não é? — André começa a falar. — Saber da morte de alguém que nós conhecemos há tanto tempo...
– Ele mereceu, por mais que tenhamos passado um bom tempo juntos ele foi um idiota, e mereceu a morte – Felipe diz.
– Eu sei, mas acho que não queria que ele morresse, sei lá.
– Entendo... Mas Dré, você está afim de tomar um Toddynho? — Felipe fala tentando brincar, os dois riem.
***
Já no jardim da Universidade, Tico estava no balanço, quando Letícia se aproxima.
– E aí, Tico!
– Oi Leti, quanto tempo, hein?!
– Pois é, muita coisa mudou né? – Letícia disse se jogando em um dos balanços ao lado de Tico.
– E muita gente que nós conhecíamos se foi — ele acrescenta.
– E outros morreram.
– Um morreu, Leti.
– O Matheus também morreu. Para aqueles que o conhecia, ele morreu, mesmo estando vivo.
– Quem diria que se tornaria isso, né?
– Ainda me lembro daquele dia em que você me deu alguns conselhos e vice-versa! – Letícia disse relembrando os bons momentos. – Tá afim de repetir a dose?
Tico deu uma risada.
– Aquele dia foi bem legal, lembro até hoje como eu me sentia sozinho. Você lembra-se do que o Danilo fez? Impossível de esquecer. – Os dois ficaram ali, rindo e relembrando os bons momentos. Aqueles momentos que, infelizmente, não voltariam mais.
***
Na quadra do campus, Isadora, Bruna, Julia e Triza, estavam sentadas em roda. Triza mexia em seu celular – que não soltava nem pra respirar –, Bruna estava costurando uma nova blusa e Julia estava lendo um livro.
– Ele era meu marido! Eu gostava dele – Isadora fala com algumas lágrimas nos olhos.
– Eu sei! Lembra quando ele derramou Toddynho na minha roupa? — Bruna fala relembrando.
– Não, e nem sei se quero lembrar, ele mudou muito, ele deixou de ser o Guut do Toddynho — Isa fala se levantando e saindo do meio da roda.
– Eu sinto em admitir que sentia a falta dele — Julia fala se levantando também.
– Não, nós sentíamos a falta daquela época — Triza fala e ajuda Bruna a se levantar, as três seguem em direção a suas irmandades.
***
– Hey Dan, ainda com o gosto do sangue do Augusto na boca? — Luiz fala para Danilo quando se aproxima dele.
– Como você consegue achar graça disso? Ele morreu — Danilo fala.
– Eu sei, só quis amenizar as coisas.
– Não amenizou nada.
– Ele escolheu isso, Danilo.
– Eu sei, não importa mais, ele se foi, a vida continua, e o passado é o passado – Danilo diz friamente e segue o corredor para a sua aula.
***
Todos estavam aguardando a aula de ciências. Conversavam sobre coisas paralelas e sobre o acontecido na festa.
– Silêncio! – grita a professora, e todos ficam confusos.
– Mas que diabos a professora de história da está fazendo aqui? – pergunta Athos.
– Estou aqui para substituir o professor de vocês que, obviamente, não está aqui – respondeu ela, com a frieza que sempre teve.
– Ah, e você sabe algo sobre ciências? – debocha Pfeifer.
– Vou passar um texto que o professor me passou e copiem, senão serão suspensos – ela ignorou completamente a Ana e começou a passar a lição, olhando seu relógio de 5 em 5 minutos.
– Mano, eu não vou copiar isso – sussurrou Danilo, indignado.
– Você gostaria de uma visita a diretoria, Danilo? – perguntou a professora.
– Gente, ela tem audição sobre-humana – supôs João Tonioli.
– Para de pensar em TVD, moleque. Eu em, parece a Barbara – rebateu Ana, irritada. E eles começaram a copiar, incomodados com a aparência da professora, que não era a das melhores.
Era uma mulher que vivia usando um vestido preto, cabelo longo e cacheado que sempre estava preso em um rabo de cavalo, com seus olhos escuros e misteriosos. Ela falava baixo e grosso, e sempre está olhando para baixo, e geralmente andava com um relógio de bolso, como aqueles que se usavam antigamente.
– Sinistra – disse Clara.
– Misteriosa – indagou Aljarilla.
– De fato, bem estranha – concordou Arthur.
A professora acabara de copiar e se sentara a mesa, corrigindo provas.
– Professora, sabe alguma coisa sobre a matéria que acabou de passar? – perguntou Ana.
– Não, Senhorita Pfeifer, por que, se não percebeu ainda, sou professora de história. Mas a sua capacidade mental exige muito pra capitar isso, não é? – respondeu ela. Ana ia retrucar, mas Athos repreendeu-a, sussurrando um “Não”.
O sinal toca e, como uma velocidade surpreendente, a professora sai.
– Olha, se querem saber a minha opinião... – começou Tonioli, mas Ana cortou.
– Você acha que ela é uma vampira, ok, Toni. Entendemos que você é viciado em TVD – e então eles sairão da sala.
***
Na segunda reunião do "clube de estudos", os alunos chegaram como combinaram: a cada duas pessoas entravam em um intervalo de 1 minuto, pra não levantar suspeitas.
Todos discutiam abertamente sobre suspeitas e sobre o sangue saindo das torneiras.
– Eu acho que Matheus está por trás disso — diz Hanna.
– Discordo, ele está bem preso — fala Xande.
– E acha que ele não tem contatos aqui fora?
– Enfim, não é sobre isso que devemos discutir — diz Triza. — Americo achou algo muito interessante no laboratório de química.
Triza abre uma cartolina e encontra o desenho de um cérebro visto de cima. Várias partes dele estão marcadas com um ponto verde. Apenas três dos 10 pontos são vermelhos. E há um ponto grande e azul bem no centro do cérebro.
– Que bosta é essa? — pergunta Toni.
– Um cérebro — diz Xande.
– Sério? Achei que fossem duas nuvens.
– O curioso é que essas partes marcadas por pontos são as que reservam nossa memória — diz Hanna.
– E o ponto grande e azul seria onde se localiza o controle das nossas funções? — pergunta Paulo.
– Ou a noz cerebral — sugere Triza.
– Mas isso não é biologia? O que fazia no laboratório de química? — pergunta Toni.
– Bem observado. Americo, você tem alguma pista de alguém que estava na sala?
– Não, simplesmente fui pegar umas substâncias e achei isso — responde ele.
– Substâncias? — ri Hanna.
– É. Isso não é do seu interesse.
– Okay, então podemos elaborar uma lista de suspeitos — fala Paulo. — O primeiro o Professor Benjamim, de Química ambiental.
– E a professora Hallugo — diz Xande.
– Ingrid entra pra lista também? — pergunta Triza.
– Pode ser — fala Paulo.
– E pode ter a substituta de História — diz Toni. — Ela é muito estranha.
– Okay, Prof. Benjamin, Profª. Hallugo, Ingrid e Substituta de História. — Fala Hanna — Mais alguém?
– Por enquanto, só — diz Triza. – Bem, vamos fazer assim: Toni e Ale vão atrás da substituta, Hanna e eu atrás da Hallugo, Americo e Paulo atrás do Prof. Benjamin. Ingrid fica sempre por perto e não tenho muita fé de que seja ela, mas fiquem atentos.
Todos saem da mesma maneira que entraram.
***
Como era sexta-feira, as aulas estavam QUASE no fim e todos foram para o refeitório –cansados – para um lanche. O silêncio era absoluto, talvez só algumas garotas da Vebnus que fofocavam e alguns da Dazer conversavam, mas fora isso, nenhuma outra alma pronunciava uma palavra.
Foi quando um barulho soou pelo refeitório e todos procuravam de onde o tal barulho vinha, parecia mais um tambor, e estava ficando cada vez mais alto, mas de repente, uma voz também se juntou com o som:
– HOJE A JIRIPOCA VAI PIAR, VOU DISTRIBUIR ATÉ O SOL RAIAR! ATÉ O SOL RAIAR... – Rick estava com um grande tambor em seu pescoço andando pela universidade, todos olhavam para ele, o pessoal da Mercure animaram-se um pouco e começaram a rir, mas embora Rick estivesse cantando com o intuito de brincar, ele estava sério. Quando parou o som e a voz também. Rick subiu em uma das cadeiras do refeitório, anunciando:
– Oi gente, eu sou o Rick. – Algumas pessoas gritaram “ah vá”. – Tem gente que não sabe, tá? Enfim, eu vim falar com os pombinhos da universidade, eu tô aqui com esses papéis... – Ele parou por um instante olhando para Gabriela, não demorou muito, Rick jogou sua baqueta em cheio nela. – PRESTA ATENÇÃO, GABRIELA!
– VOCÊ É LOUCO, RICARDO?
– Sou – ele disse rindo. – Vou entregar o papel pra vocês e vocês POR FAVOR, preencham sem o seu parceiro do lado e me entreguem até o fim do lanche.
Não demorou muito e todos – exceto Gabriela que ainda estava se doendo por causa da baqueta – entregaram o papel a Rick.
– OBRIGADO, TERRÁQUEOS. DOMINGO ESTEJAM NA QUADRA PONTUALMENTE ÀS 14HRS, OBRIGADO NOVAMENTE. – Rick desceu da cadeira seguindo para a mesa da Mercure.
***
A última aula do dia era de Anatomia, a professora adentrou a sala de aula com a maior seriedade possível.
– Aconteceu alguma coisa, professora? – Virgínia perguntou.
– Nada que pare o mundo – ela disse, rindo. – Oi gente! Hoje é o dia da nossa prova que disse na semana passada, quem lembra?
– Fodeu – Paulo disse, levando a mão a testa.
– Que prova? – Arthur perguntou.
– Vocês são desnaturados mesmo... A prova, gente. Façam fileiras.
Todos fizeram o maior barulho arrastando cadeiras e mesas.
– SEM ARRASTAR, LEVANTA ISSO! – a professora grita e Felipe leva um susto porque era um dos que arrastavam a cadeira.
Quando toda a sala estava enfim arrumada e todos os alunos estavam em seus devidos lugares, a professora pegou as provas, entregando uma a cada um.
– Somente caneta em cima da mesa, nada além. Se eu ver algum engraçadinho com celular ou outras coisas modernas que existem para cola hoje em dia, vai se acertar comigo no fim da aula.
– Opa, colando – Americo disse, mas levou um soco nas costas de May.
Quando todas as provas foram entregues, a professora tomou a sua mesa.
– Vocês têm uma hora – ela disse consultando o relógio e voltando a mexer em seu computador.
A prova estava correndo bem, até alguém bater na porta. Esse alguém era Alj.
– Posso ajudar? – a professora pergunta.
– Thaís, posso entregar isso a Letícia? – ele disse, desajeitado.
– Entregue a mim e eu entrego a ela – ela disse se levantando, mas Felipe entrou na sala no mesmo momento em que a professora se levantava, os dois se chocaram e a professora caiu em cima de Felipe, todos começaram a rir.
– Ai, CUIDADO! – ela disse se levantando e se recompondo. Felipe sussurrou algo, mas ninguém conseguiu ouvir somente a professora. Os dois trocaram olhares e Felipe foi até a mesa de Letícia entregar a tal coisa.
– Bicha... – Letícia sussurrou e os dois começaram a rir.
– Obriga-gada, Felipe – a professora disse arrumando o cabelo e voltando ao seu assento. Alj deu uma última olhada para ela e a mesma sorriu.
A professora estava inquieta, sua perna tremia e ela parecia esconder alguma coisa.
– Gente, terminem a prova. Eu vou aqui e já volto. Estou confiando em vocês – ela disse se levantando e saindo da sala rapidamente.
Ela encontrou Alj parado na porta e o puxou pra sala da frente, que era a sala de química. Os dois começaram a se beijar e não pararam durante vários minutos, Thaís já se encontrava ofegante quando ele a apalpou.
– Ui – ela disse e os dois voltaram a se beijar. Ela começou a tirar sua blusa enquanto Alj pegou todos os experimentos e os empurrou para o lado jogando-a em cima da mesa, Thais envolveu suas pernas em Alj e o mesmo a levantou tentando desabotoar seu sutiã. Foi quando um barulho de maçaneta virando chegou ao ouvido dos dois e quando se viraram encontraram uma Jay parada na porta.
– Eu vou fingir que não vi isso – Jay disse.
– Ei, não é isso que você está... – A professora tentou falar, mas Jay a interrompeu:
– Desver – ela disse rindo. – Desculpem, não entro nessa sala nunca, NUNCA mais.
E então ela saiu, fechando a porta, mas Thaís vestiu sua roupa rapidamente e saiu correndo atrás de Jay.
– Jaimara, eu...
– Professora, não precisa se explicar – ela disse.
– Acontece que eu não quero perder meu emprego, querida.
– E você não vai. Não devo satisfação da sua vida e nem da vida do Felipe a ninguém.
– Obrigada – ela disse, aliviada.
***
A noite chegou e todos na Dazer estavam animados porque no domingo ocorreria a Feira Medieval.
– Nem acredito que finalmente vamos poder usar facas... – Felipe disse, limpando um dos facões que estavam na cozinha.
– E não vai ter nem uma Ana Luisa pra impedir – Letícia disse olhando pra Ana.
– Joga essa faca aí – André disse para Leti.
– PENSA RÁPIDO – ela disse.
– NÃO, VOCÊ É LOUCA
Leti atirou a faca e voou ao lado de André.
– Nojento – ela disse.
– Vocês vão para essa feira? – Ingrid disse.
– Claro. – Barbara se sentou ao lado de Felipe e quase se espetou com uma faca.
– CUIDADO – Dani disse puxando a faca rapidamente.
– Estou simplesmente amando esse fim de semana e vocês?
– Programa de casais e feira medieval no mesmo dia – Clara disse.
– Esse programa de casais com casais falsos, apenas observo – Barbara disse guardando uma das facas.
– Cuidado, ela está armada – Stefani disse rindo enquanto parava de ler um dos seus livros.
– Sté, o que você faz na Dazer se você só estuda o tempo inteiro? – Ingrid perguntou.
– Eu consigo ser má e estudiosa ao mesmo tempo, desculpa se você não.
– Ui, estudiosa – Ingrid disse. – Acontece que eu também sou muito inteligente, tá?
Todos riram.
– Vou subir...– Leti disse. – Você vem, Jay?
– Daqui a pouco eu vou.
– Eu também vou – André disse se levantando.
Letícia subiu as escadas e André veio logo atrás, ela virou o corredor seguindo para o seu dormitório, mas André a seguiu.
– Leti...
– Seu dormitório fica pra lá, se perdeu, foi? – ela disse.
– Me faz companhia até lá...
– Por quê? Tá paranoico de novo?
– Não, nem sei o que me fez fazer aquilo naquele dia. Pareceu até que eu tava enfeitiçado.
– Claro, eu que te enfeiticei.
– Enfeitiçou mesmo, to apaixonado – ele disse rindo. – Então, vai comigo ou não?
– Ai, tu é muito chato.
Os dois saíram andando até o dormitório de André e enfim chegaram à porta.
– Satisfeito? – ela disse.
– Na verdade, não. – Então André puxou Letícia e a beijou. O encaixe foi perfeito e os dois adentraram o quarto. Os dois se jogaram na cama de Felipe e continuaram aos beijos, a cama estava toda bagunçada e o clima esquentou e acabaram debaixo das cobertas. Quando estavam quase indo mais um pouco além de beijos, a porta se abriu e revelou um Felipe com facas na mão.
– NOSSA! – Felipe disse. – Logo na minha cama? Vocês vão arrumar isso aí.
Letícia se enrolou na coberta deixando André sem nada, o mesmo se escondeu atrás dela.
– Sempre que alguém tá se pegando na Dazer alguém entra e estraga o prazer – Jay diz da porta. – Experiência própria
Todos olharam para ela.
– Não que vocês tenham estragado, quer dizer... Ah, tchau. Te espero no quarto, descarada. – Ela aponta pra Letícia.
Letícia correu para o banheiro com as suas roupas enquanto André arrumava a cama de Felipe que o olhava com uma cara de “vocês poderiam ter feito tudo, mas não na minha cama” e logo após Letícia sai seguindo para o seu dormitório.
***
O sol ainda não tinha surgido no céu e grande parte das pessoas das irmandades já andava apressadamente pela Universidade finalizando todos os pormenores para o fim de semana que estava a começar.
Hoje era o primeiro dia da Feira Medieval, um evento que leva todos a viajarem no tempo até a Idade Média. Toda a Universidade e espaços adjacentes, como jardins, bosques ou lagos, estavam irreconhecíveis. Tudo fora modificado e devidamente decorado de maneira a que os visitantes se sentissem realmente numa Era Medieval.
Maria chega à Dazer trazendo sacos com tantas fantasias que quase ninguém a via no meio de tantas roupas.
– Alguém me dá uma ajudinha aqui? – Maria pergunta enquanto todos a olham, mas ninguém se mexe para ajudar. – Af, bando de imprestáveis vocês! – diz ela atirando tudo para o chão.
– As vossas fantasias para a feira estão todas nesses sacos, divirtam-se a procurar.
– Aqui quase que só têm vestidos e collants, cadê a roupa de homem? – pergunta André.
– Tá tudo aí, sabe naquele tempo as calças não estavam na moda ainda- ri Maria.
– Ai me ajuda pufavô, não quero ir vestido like a rapariga.
– Eu até ajudava, mas como vocês foram tão simpáticos em não me ajudar eu vou retribuir o favor e fazer absolutamente nada – diz ela piscando o olho e saindo em direção às restantes irmandades.
Pouco depois a maioria dos alunos já estava junto à entrada da feira, esperando o reitor fazer o seu discurso inicial antes de todos tomarem as suas posições.
– Bom dia alunos. – O professor sobe em cima de um banquinho de madeira de aspeto frágil para que todos o pudessem ver e ouvir bem. – Este fim de semana vai ser longo e cansativo, mas como sabem o dinheiro que conseguirmos aqui é muito importante para a faculdade, pois permitirá comprar novos equipamentos e materiais. Por isso é tão importante que todos façam o seu melhor para cativar os visitantes. Entenderam? – A maioria dos alunos acena afirmativamente com a cabeça. – Então bom trabalho e divirtam-se.
Nesse momento Victor vem carregando um montão de feno, e sem dar conta do reitor vai contra ele e o derruba do banquinho, sujando-o todo.
– Ai me desculpe papai, eu não vi o senhor! – diz Victor ajudando-o a levantar-se e sacudindo os restos de feno que ficaram presos no cabelo do reitor.
– José Victor, não sabe ver por onde anda não? – diz ele furioso. – Vai ficar uma semana responsável pela limpeza da irmandade para ver se começa a aprender a não bagunçar tudo.
– Velho chato – comenta baixinho Victor, mas o reitor não o ouve e continua o seu caminho.
À entrada da feira já se viam filas enormes de pessoas esperando a abertura das portas. As crianças brincavam umas com as outras e os adultos comentavam entre si com entusiasmo sobre aquilo que esperavam encontrar na feira.
Por volta das 10 horas da manhã as portas foram abertas e os visitantes começaram a entrar, exclamando de admiração e apontando para as coisas que iam encontrando no caminho.
– Olhe só o tamanho da espada daquele senhor, papai! – exclamou um menino passar junto a um ferreiro que fabricava as armas para o exercito do Rei. – Posso ter uma?
– Aquelas são perigosas para você, meu querido. Vamos procurar umas que não machuquem ninguém – responde o pai e a criança esboça um enorme sorriso.
Ao longo dos vários caminhos da feira iam-se encontrando coisas relacionadas com a era medieval, como as casas dos ferreiros onde eram fabricadas as armas para os exércitos, os conventos onde residiam os membros do clero, os campos de batalha, os povoados com as casinhas de madeira que pertenciam à classe mais pobre: o povo, a estrebaria onde estavam os cavalos, barracas onde se vendia coisas como pão assado em fornos de pedra, barris de vinho, peças talhadas em madeira, vegetais acabados de serem colhidos da terra, galinhas e outros animais, etc.
Existia tanta coisa para se observar que era quase impossível visitar tudo num dia inteiro.
Numa das ruas tinha um local chamado: Arqueiros D’el-Rey que simulava os locais onde os arqueiros do Rei treinavam a sua pontaria (para quando fosse necessário defender o reino em alguma batalha). Vários alvos estavam alinhados e mais à frente cada um tinha um cesto com flechas para que os visitantes pudessem experimentar atirar no alvo.
Letícia, Stefani e Ana Pfeifer eram as responsáveis por este posto. Cada uma carregava nas suas costas um arco e algumas flechas e ajudavam os visitantes a posicionar a flecha e a mirar o alvo.
– Só colocar a flecha bem firme aqui e fazer pontaria e... vai, tenta você – Leti diz para a criança que ela estava ajudando. A menina tenta e com pouca pontaria a flecha passa bem longe do alvo.
– HAHAHAHA, moça você está tentando acertar no alvo ou na árvore que está 2 metros ali ao lado. – Leti não consegue conter o riso e ri muito alto. O queixo da criança começa a tremer e logo começam a cair lágrimas dos seus olhos. – Ai moça, não chora! Ai desculpa, eu não queria… eu não estava a dizer… Ai, ajudem-me vocês as duas! – reclama Leti para Sté e Ana que estavam a observá-la com ar de deboche.
Stefani aproxima-se da menina, fala umas coisinhas para ela numa voz meiga e no fim dá-lhe um pirulito e a garota sai sorrindo.
– Vê, não foi tão difícil assim – diz Sté a Leti.
– A partir de agora você fica responsável pelas crianças que vierem aqui! – diz Leti mal humorada.
– Oi belas donzelas! – André chegou junto delas vestindo a sua roupa de soldado: uns collants pretos e umas botas bem pesadas até ao joelho, uma túnica cinzenta e vermelha até meio da perna presa na cintura com um cinto de couro, e uma armadura pesada que era de cotas de malha (feitas com argolas de aço entrelaçadas) e que lhe cobria a cabeça, braços e tronco para uma maior proteção. Trazia também consigo uma espada presa no cinto e um enorme escudo com o brasão do reino gravado.
– O que você está fazendo aqui? – pergunta Sté. – Não devia estar junto com os restantes soldados?
– Estou vendo como ficou a feira. Está tudo tão legal – diz André. – Quanto é que se paga para a gente treinar um pouquinho aqui nos alvos?
– 5 reais – respondeu Ana.
– E por ser para mim?
– 5 reais.
– Mas eu sou seu irmão!
– 10 reais então.
– Sério isso? Chata você – diz André e segue caminho em direção às estrebarias.
O Mercado era um dos locais que atraía muitos visitantes, pois todos queriam comprar alguma coisinha para levarem para casa como recordação daquele dia. Neste local tinha várias barracas cada uma vendendo um tipo de produto. As vendedoras usavam vestidos compridos com tons bastante coloridos, que possuíam longas e largas mangas, cordas ou cintos de couro em volta da cintura, sandálias de couro e coroas de flores nos seus cabelos bem arranjados. Os vendedores usavam túnicas bastante compridas em tons escuros, com uma corda em volta da cintura, meias até ao joelho e sapatos de pano pontiagudos.
A primeira barraca era a mais cheirosa de todas. Caroline Rodrigues estava responsável por ela e esforçava-se ao máximo para cativar as pessoas, sobretudo as mulheres.
– Venham experimentar os perfumes mais exóticos e sensuais do mercado – dizia ela para as pessoas que passavam. – Deixem-se encantar pelos aromas frescos dos citrinos, acendam novamente o romance com os deliciosos cheiros florais e esquentem a paixão com os cheiros mais picantes que a natureza nos oferece!
– Isto resulta mesmo? – pergunta curiosamente uma senhora de meia idade com entusiasmo no rosto.
– Com certeza minha senhora. Experimente um pouco e veja por si só, com certeza o seu marido vai adorar! – diz Caroline para a senhora deixando-a experimentar um dos perfumes.
– Hummm, que delícia! – diz a senhora com um ar maravilhado. – Vou levar dois frascos, e quero também umas velas aromáticas e uns incensos para ajudar a esquentar o clima.
Carol ri e começa a colocar tudo em um saquinho enquanto mais pessoas se aproximavam.
Na barraca seguinte estava João Fray sentado num banquinho e pintando um leão do brasão de um escudo feito em madeira. Ele vendia pequenas espadas e escudos para as crianças, estandartes e bandeiras com diversas cores e brasões, coleções de moedas e algumas roupas de soldados para os menores. Ao lado estava Barbara Rodrigues com a sua barraquinha das lembranças, onde cada pessoa podia comprar pequenos objetos alusivos à feira medieval, como: canecas pintadas à mão, pequenos soldados em plástico, bandeiras, bottons, bonequinhos de madeira, pergaminhos, livros, frasquinhos de chás, ervas aromáticas e especiarias, entre muitas outras coisas.
Tico e Americo estavam numa discussão, mas ninguém percebia se era a sério ou não, pois eles estavam a falar muito alto, mas ao mesmo tempo rindo.
– Como isso foi ficar dessa cor, me explica? – Tico não conseguia acreditar no que via e começou a rir.
– Eu não sei, eu só me afastei uns minutos e isso ficou assim – dizia Americo em tom de suplica.
– Mas preto? Isso é suposto ser branco, não PRETO! – Tico não aguentava o riso.
– Cala a boca traveco!
– Ainda diz que é bom cozinheiro Americo, olha só para esse arroz... HAHAHA, mais parece um tacho cheio de carvão!
Americo joga um pano na cara do Tico e vai despejar o arroz queimado no lixo. Eles dois eram responsáveis pela barraca da comida, e como se estava a aproximar a hora de almoço eles estavam já preparando uma comida deliciosa para servir.
– Faça melhor então, nojento – diz Americo rindo.
– Com certeza. – Tico segue para junto do fogão para fazer um arroz decente para vender às pessoas. Nesse momento May chega junto da barraca.
– Oi gato, o que poderia me sugerir para eu matar a minha fome? Já não como desde as 5 da manhã.
– Tem aqui um cacetinho gostoso e quentinho, se eu barrar um pouco de manteiga você vai adorar – malicia Americo.
– Ai você não presta! – ri May. – Traga-me qualquer coisa, amor.
– Ok linda. – Americo pisca-lhe o olho e vai-lhe preparar um delicioso sanduiche enquanto ela se senta numa mesinha de madeira.
Na rua que seguia em direção ao lago, um pouco acima do mercado, formava-se uma fila enorme. A razão dessa fila era a barraquinha do destino, aonde pessoas iam para tentarem descobrir o que esperar do futuro e como enfrentá-lo.
Jay estava sentada dentro da barraquinha. Vestia uma saia comprida castanha e uma blusa branca rendada com um corpete de pele acentuando o formato da sua cintura. Trazia um lenço branco à volta dos seus cabelos e colares com pedaços de metais circulares, de aspeto velho, em forma de moedas. Dentro da barraca tinha imensos sacos de pano branco com objetos variados, e em sua frente um caldeirão enorme e bastante desgastado, cheio de objetos parecidos com conchinhas de madeira.
– Pagamento, por favor?! – dizia Jay numa voz grossa a uma moça que se aproximava. Ela tira algumas moedas e deposita no pratinho das moedas ao lado de Jay.
Jay pega então numa enorme colher e começa a remexer os pedacinho de madeira que estavam dentro do caldeirão.
– Escolha o primeiro que o seu instinto lhe indicar, não pense demais – diz Jay parando de mexer as pecinhas e a moça tira de imediato uma. Cada pedacinho de madeira do caldeirão tinha um símbolo quase invisível que indicava o saco onde iria estar o amuleto daquela pessoa. Jay após observar o símbolo, tira uma concha branca em forma de espiral, com uma superfície muito ramificada e áspera.
– Nesta concha já habitou em tempos um animal – Jay coloca a concha na palma da sua mão e começa a falar num tom de voz forte e misterioso. — No mar ele teve que enfrentar muitos obstáculos para conseguir sobreviver e chegar até a costa das nossas praias, e agora que o animal abandonou a sua conchinha, ela passa a ser um símbolo da luta e força de vontade para enfrentar qualquer obstáculo.
A moça tinha os olhos fixos em Jay, ouvindo atentamente cada palavra como se sua vida dependesse disso.
– Com certeza a menina tem algum obstáculo que deseja muito ultrapassar, certo? – pergunta Jay.
– Sim, sim! – responde a moça abanando afirmativamente a cabeça, parecendo um pouco louca.
– Este vai ser o seu amuleto e vai-lhe dar forças para futuramente ultrapassar qualquer obstáculo. – Jay coloca a concha na mão da moça. – Mas para isso tem que fazer o seguinte: cobrir essa concha com areia, água do mar e algas, e deixar durante a noite a ser banhada pelos raios da lua. Na manhã seguinte lava-a e guarda num local especial para si. Entendeu tudo?
– Sim, muito obrigada mesmo! – respondeu amoça entusiasmada fazendo Jay revirar os olhos. Jay então agarra nas mãos dela e de olhos fechados começa a dizer umas palavras que ninguém entendia. Por fim abre os olhos:
– Vá em paz minha filha, e que a sorte esteja com você.
A moça sai e Jay de imediato grita a chamar o próximo.
Junto aos jardins o barulho da criançada já se ouvia ao longe, pois era lá que estavam as áreas para animar os mais novos. No cantinho dos pequenos artistas, as crianças davam asas à sua imaginação e construíam objetos para as suas personagens.
– Que bonitinho! O que você está pintando? – pergunta Monique para um menino que tinha um monte de riscos desenhados numa folha de pergaminho.
– Não dá para ver que é um gatinho? – diz o menino.
– Oh sim, claro. Que lindo gatinho! – diz Monique não fazendo ideia de onde estava o gato, e segue para ver o que as outras crianças estavam a fazer.
– Hehehe, que burra ela, nem percebeu que isto era um pato – diz a criança para o menino que estava ao seu lado e ambos riem de Monique.
Se o desenho de Monique estava riscado, o que dizer de Naty. Seu corpo estava totalmente pintado com tintas, na sua cara tinha um enorme bigode preto desenhado e uns óculos, e na sua testa tinha escrito “Natieli” (tentativa falhada de uma criança escrever “Natali”).
Suuh estava a tentar descolar as mãos de um menino, que estava cheio de cola vai-se lá saber como, quando ouve Naty gritar:
– Suuuh, SUUUUUUUUH, venha aqui rápido!
– O que foi? – pergunta Suuh.
– VENHA CÁ LOGO! — grita Naty de novo.
– Monique, fica aqui com este menino e vê se consegues descolar as mãos dele, enquanto eu vou ver o que houve com a Naty.
Suuh vai em direção ao lugar onde estava Naty e quando lá chega vê Naty de pé com uma cadeira colada na sua bunda.
– Como aconteceu isso? – pergunta Suuh contendo a sua vontade de rir enquanto as crianças quase choravam de riso.
– EU. NÃO. SEI. Eu simplesmente me levantei e a cadeira veio junto agarrada à minha saia, deve estar colada ou assim – diz Naty furiosa.
Suuh olha para o menino que Monique estava a tentar descolar as mãos e finalmente entendeu tudo.
– O que você falou para aquele menino ali? – pergunta Suuh a rir.
– Só lhe disse que a Gryffindor pisa na venenosa da Slytherin.
– Acho que ele não gostou muito do que você falou – Suuh ajudou Naty a andar em direção à tenda onde tinham coisas armazenadas rindo. – Venha comigo, devemos ter alguma roupa lá na tenda para que você possa trocar.
Naty a segue e já dentro da tenda ela coloca a cabeça de fora e grita: — MESMO COM A MINHA BUNDA COLADA A GRYFFINDOR É A RAINHA DESSA BUDEGA!
O menino tenta fazer o gesto com o dedo do meio para Naty, mas como as mãos estavam coladas não saiu direito, então ele simplesmente colocou a língua de fora para ela.
Ao lado da zona de artes estava a zona do treino de escudeiros e pequenos guerreiros, onde eles aprendiam sobre como se lutava nas batalhas, como são manuseadas as espadas e como se atira uma lança, entre outras coisas.
No lado do manuseio dos objetos estava Lyn, Vick e Dio, enquanto que no lado dos jogos de luta estava Bah e Didi.
– Quero que formem 4 grupos – começa Didi a falar para o grande grupo de crianças que lá estavam. – Cada um vai ficar um bocadinho em cada área, imaginem… começam nas espadas depois vão paras as lanças, etc. Entenderam? – As crianças acenaram que sim e começam a se dividir pelos vários postos. Diovana começou a distribuir espadas de plástico pelas crianças enquanto que Vick mostrava a outro grupo como deviam posicionar o corpo antes de atirar uma lança.
Lyn e Didi tinham ficado com a catapulta, um objeto com uma espécie de braço em forma de colher que disparava bolas ou outros objetos em direção a um alvo distante. Neste caso, como a catapulta era pequena e não lançava tão longe assim, elas tinham colocado uns barris empilhados a alguma distância para que as crianças os derrubassem com bolas de feno do tamanho de uma bola de futebol.
– Antes de vocês lançarem eu vou mostrar para vocês como devem fazer para usarem a catapulta, está bem meus queridos? – diz Lyn numa voz doce para as crianças. – Didi, pode ir empilhar os barris para mim?
– Pronto Lyn – diz Didi após ter colocado o ultimo barril no sítio. – Vou contar até três e aí você lança, certo?
– Sim. Crianças prestem atenção agora.
– Um… dois… e… vai Lyn!
– Vai o quê? — Lyn fica olhando para Didi sem entender.
– Vai! Lança mulher!
– Isso foi o três?
– FOOOOOI! Vamos de novo, vou começar! – diz Didi impaciente. – UM…
BOOOM! Uma enorme bola voa na cara da Didi que cai no chão com o impacto.
– AAAAAAAAAAAI! – grita Didi ao ser atingida.
– Ahhh me desculpa Didi! – diz Lyn indo a correr no seu encontro. – Eu achei que tu ias começar logo no três… e… e… foi tudo muito rápido, me desculpa!
– Eu. Vou. Matar. Você. – diz Didi tentando se levantar ainda meio tonta com a pancada.
Bah e Victor estavam tendo problemas também. Bah com o menor toque conseguia mandar Victor ao chão e este estava a ficar irritado por estar a ser o motivo de riso de todas as crianças.
– Eu só estou a deixar que ela me derrube porque sou um humilde cavalheiro e não quero envergonhar a senhorita… – Victor ainda estava dizendo para as crianças e já estava sendo derrubado de novo.
– Sabes Victor, vieram avisar que já chegou a coruja com a encomenda de ‘dignidade’ que te está faltando – diz Bah zoando ele. – Vá, admita que eu sou melhor!
– Teria que me matar primeiro — diz ele.
– Mais fácil do que cair no sono – ri Bah iniciando nova luta.
Nas áreas mais abertas do jardim estava localizada a estrebaria, que é o local onde são recolhidos os cavalos e onde se guardam os materiais referentes a estes (como as selas, os estribos, etc.), e ao lado estava montado uma espécie de picadeiro onde os visitantes poderiam experimentar andar um pouco a cavalo.
Sara Cirino estava a escovar um dos cavalos, enquanto que Ana Moreira passeava elegantemente no seu cavalo enorme e com um lindo pêlo da cor do chocolate negro.
– Seu cavalo é lindo – diz Sininho. – Posso dar uma volta nele?
– Não sei, ele tem dificuldade em confiar noutras pessoas que não eu — diz Ney.
– Relaxa, eu amo cavalos e tenho muito jeito com eles. Não te preocupes! – Ney deixa Sininho montar no seu cavalo e este inicialmente estranhou, mas logo se habitou a ela. — Viu Ney, eu falei que ele ia gostar de mim.
Sara começara a passear um pouco com ele à volta do picadeiro quando Brenda surge perto dela.
– Oi Sara, olha só esta pequenina que eu achei – diz Brenda e Sininho chega junto dela. Para sua surpresa Brenda trazia uma cobra enrolada nos seus dedos.
– Credo, onde você achou esse bicho?
– Estava ali perto da estrebaria, devia estar tão assustada com esta confusão, coitadinha. – Brenda mostra melhor a cobra a Sininho e nisto o cavalo de Ney começa a relinchar e a ficar muito agitado.
– Ôôôô, calma meu querido – Sininho tentava acalmar o cavalo que estava assustado com a cobra. Ele começa a dar coices e a correr como louco e Sininho perde o controlo sobre ele.
– O que houve? – Ney chega correndo ao ver o seu cavalo assustado. – Eca, tira isso daqui! Tá assustando o meu cavalo!
– Calma, pronto. Vou deixá-la ali junto ao bosque. – Nisto ouvem um barulho de algo a cair. Ao se virarem encontram Sininho caída no chão e o cavalo a correr para longe dali.
– VOLTA THUNDER!!! – Grita Ney para o cavalo, mas ele nem lhe prestou atenção. – Brenda, é melhor a gente levá-la à enfermaria, ela não está bem.
– Vamos chamar antes uma ambulância, ela pode ter se machucado bastante – diz Brenda com lágrimas nos olhos ao ver o que tinha causado.
Pouco depois a ambulância chega e transporta Sininho para o Hospital e Brenda que tinha ido para lhe fazer companhia. Enquanto isso Ney foi à procura do seu cavalo.
Jujuba andava a volta de um grupo de crianças mostrando-lhe um lindo falcão.
– A cetraria ou falcoaria é a arte de criar, treinar e cuidar de falcões e outras aves de rapina para a caça – diz Jujuba perante os olhares espantados.
– E eles não vos mordem? – pergunta uma criança.
– Eles são treinados para não nos machucarem, por isso estão tão calminhos pousados aqui nos nossos braços – diz Andriele que também exibia um belo falcão num dos seus braços. – Os falcões são aves com algumas características diferentes das restantes aves de rapina…
– Possuem um voo em grande velocidade devido à forma das suas asas, matam as aves com o bico em vez das patas e gostam especialmente de caçar em espaços abertos – continuou Jujuba. – Na Idade Média eram essencialmente usados para caça pelos mais ricos como os Reis e a Nobreza.
Dito isto Andriele faz um gesto ao seu falcão e ele começa a voar muito rapidamente, voltando depois a pousar novamente no seu braço. As crianças começaram a aplaudir fortemente, excitadas com o animal.
Já fazia algumas horas desde que tinha anoitecido, e a maioria dos soldados estava reunido junto à “Taberna do Viajante”. Durante o dia era um local de descanso para os viajantes que por lá passavam, pelos mercadores, músicos e até soldados… mas com o anoitecer transforma-se num bar cheio de música, animação, álcool e mulheres para satisfazer os prazeres dos mais “necessitados”. Timbó servia canecas de vinho a um grupo de soldados enquanto que Wenzo observava uma ruiva dançando em cima da mesa, exibindo o seu decote exageradamente grande.
– BRRRRRRRRUUUUUP! – Arrota Tonioli bem alto. – Como esse vinho estava uma delícia! Moço, traga-me mais uma caneca.
– Não exagera – diz Gabriel. – Amanhã nem vai conseguir levantar a espada quanto mais combater.
– E aí bonitões – diz uma das mulheres com um cabelo negro cacheado, chegando junto de Vivaldo e Áxel. – Dois soldados tão sós, com certeza precisam de um pouco de companhia. – Ela ajeita os peitos bem na cara deles e o queixo de Vivaldo descai um pouco.
– Não, obrigado – diz Vivaldo.
– E você queridinho? – diz ela para Áxel.
– Aaaah… – ele não sabia o que dizer. –… desculpe, mas não.
– Que pena – diz a mulher e segue para junto de outros homens.
Passado um pouco começa uma música a tocar na rua em frente à Taberna, e todos saem para ver do que se tratava.
Um grupo de mulheres dançava pelas ruas, com as suas roupas coloridas um pouco transparentes e cheias de objetos metálicos, que chocalhavam na medida em que elas se abanavam. Na sua cara um véu cobria o seu rosto, avistando-se apenas os olhos. Paulo e Lucas estavam vestidos de músicos e comandavam as meninas enquanto tocavam música para elas dançar.
Dan que estava a passar ao ver aquilo se aproximou de imediato.
– Uhuuu, suas lindas, dancem aqui para o Danilo – dizia ela dançando no meio delas. Uma delas aproxima-se dele e começa a dançar à sua volta. – Venha cá sua linda, vamos dançar.
A moça tira o véu e Dan finalmente a reconhece.
– MAAARIA! Meu amor! – diz disfarçando o seu espanto. – É claro que era você, uma coisa tão linda só podia ser você.
– Idiota – diz ela chateada. – Tava adorando estar ali no meio delas que eu sei.
– Claro que não Mariazinha do meu coração, estes olhinhos só querem saber de você – diz ele abraçando-a.
– Ahaaam, sei – ela liberta-se dos braços de Danilo e volta para junto das outras bailarinas.
Quando a música terminou todas tiram o seu véu e finalmente se soube quem eram as bailarinas: Maria, Triza, Dani, Duda, Karol e Virgínia. Elas voltam para junto de Paulo e Lucas e seguem para outro local, para voltarem a mostrar a dança do ventre aos restantes visitantes.
O local mais “mágico” de toda aquela feira era o ‘Lago dos Feitiços’, que ficava localizado num dos jardins com maior vegetação, o que dava ideia de estar no meio de uma floresta. O pequeno lago tinha muitos nenúfares na sua superfície, pétalas de rosa brancas e rosa claro a boiar e também pequenos barquinhos com velas acesas, que iluminavam elegantemente o lago. Nas árvores arbustos, estavam penduradas pequenas luzinhas, algumas fitas coloridas tinham sido entrelaçadas nos troncos, vários canteiros de flores tinham sido iluminados o que tornava todo o local encantador e mágico durante a noite.
À volta do lago estavam posicionadas quatro tendas, que eram onde estavam os bruxos prontos a compreender aquilo que o homem não consegue explicar. Cada uma tinha um aspecto diferente, tinham tecidos e cortinas de vários tons, pecinhas de metal e lantejoulas a decorar, entre outras coisas. Na primeira tenda estava Liza, ela era uma bruxa dedicada à Magia Negra e era muito requisitada pelos visitantes para praticar pequenas vinganças através de voodoo ou outros rituais. A segunda tenda pertencia à Vivian e a terceira à Ursinha. Ambas usavam as cartas de tarot, leituras das mãos, dos búzios… para prever o futuro. Por fim, a última era a tenda de Danilo… ou como era conhecido: Papa Zatan. Ele era o intermediário entre as pessoas e o mundo espiritual, e ajudava-as a comunicar com aqueles que já morreram.
Perto das tendas circulavam três pessoas: Gabriela, Beto e Clara. Os três tinham túnicas negras e um lenço cobrindo a cabeça para que não fossem reconhecidos. Eles eram traficantes e procuravam as pessoas que recorriam às tendas para tentarem-lhe vender produtos que prometiam a resolução de todos os seus problemas.
Felipe Casanova, o novo aluno da faculdade, estava sentado num banco perto do lago.
– Oi moço, é novo aqui? – pergunta Gabriela.
– Sim, quem são vocês?
– Negociantes das melhores poções. Está precisando de algo?
– Só se tiver uma poçãozinha para eu emagrecer.
– Emagrecer? — Gabe olha para ele rindo. — Isso nem com um milagre moço.
Nesse momento Felipe Miranda ia a passar apressado, quando foi interrompido por Clara.
– Qual é a pressa?
– Minha mão tá doendo e tenho que procurar algo para a dor – diz Fê mostrando a mão em ferida. — Ia socar um bêbado lá na Taberna, mas alguém me desviou e eu soquei a parede.
– A gente tem algo aqui que pode ajudar, vem ver – diz Beto abrindo o casaco e exibindo dezenas de pequenos frasquinhos.
– O que é isso? – pergunta Fê.
– Depende do que você quiser… — começa a explicar Clara. – Tem poções para as mais diversas doenças, poções para ficar mais belo, poções de amor, poções da sorte, etc.
– Me dê qualquer coisa para a minha mão, estou farto disto.
Beto ia tirar um frasquinho com um líquido castanho, mas Gabriela agarra o braço dele e em vez disso, pega num frasco com um líquido vermelho.
– Pronto Fê, beba esse – disse ela.
– NÃOOO, espera… — Beto tentou impedi-lo, mas Fê já tinha bebido tudo. — Essa era a poção de amor, foi engano… — Beto olha para Gabriela tentando entender o que ela estava a fazer.
– A Pfeifer disse que estaria à tua espera na estrebaria – disse Gabe.
– Ótimo, vou ter com a Aninha – diz Fê e sai correndo.
– Porque você fez aquilo? – pergunta Clara a Gabe.
– Precisava o fazer acreditar que tomou uma poção de amor.
– Mas então aquilo não era uma poção de amor? – Clara não estava a entender nada.
– Não, na verdade era suco de morango, mas ele não precisava saber disso – diz maliciosamente Gabriela.
Eram quase 2h da madrugada e a feira já estava encerrada pelo dia de hoje, só algumas pessoas ainda estavam a acabar de arrumar os seus postos antes de irem dormir.
Ana Pfeifer estava junto à estrebaria a guardar os cavalos, pois Ney e Sininho ainda não tinham voltado.
– Ufa, ainda estás aqui, achei que já não ia encontrar você – Felipe tinha acabado de chegar a correr. – Deixa que eu ajudo você com essas caixas.
– Me encontrar? Por que você… O QUE HOUVE COM A SUA MÃO? – diz Ana ao ver a mão machucada dele.
– Só uma briga, nada demais.
– Vem ali ao armazém, tens que limpar isso antes que piore. – Ana e Fê seguem junto até ao armazém onde guardavam o feno, algum material e o estojo de primeiros-socorros para o caso de alguém se machucar. – Senta aí.
– Onde? Não tem banco – diz Felipe.
– Senta em cima do feno mesmo, acha que eu me importo. – Ana começa a limpar a ferida dele. – Fica quieto agora.
– Você tem tanto jeitinho para isto – diz Fê colocando uma mecha de cabelo de Ana atrás da orelha dela, pois esta teimava em ir para frente dos olhos. – Já pensou em ser uma enfermeira? Aposto que ficaria uma gata naquele uniforme sexy.
Pfeifer carrega com força na ferida para calar Fê, que solta um gemido de dor.
– Para de ser ridículo Felipe! – ela solta um sorriso disfarçado. – Como se eu fosse usar essas coisas. Pronto, já está feito. — Ana tinha terminado de colocar umas ligaduras na mão de Fê.
– Obrigado Senhora Enfermeira Aninha. – Fê aproximou-se dela para beijá-la, mas ela joga-lhe o resto das ligaduras na cara.
– O que você tá fazendo?!
– Ia mostrar meu agradecimento com um beijo, né! Vai dizer que não quer.
– Não, não quero – mente Ana.
– Diga isso nos meus olhos!
Ana o olhou, mas nenhuma palavra saiu da sua boca. Fê, percebendo isso, agarrou-a pela cintura e puxou-a para o seu colo. — Você mente tão mal, Aninha. – E nisto dá-lhe um beijo. No momento em que os seus lábios se tocaram um arrepio percorreu seus corpos. Tudo à volta parecia ter desaparecido e só eles os dois existiam naquele momento. Fê beijou-a lentamente, descendo dos lábios dela para o pescoço, a mão dele subia pela coxa dela até chegar à bunda. O clima esquentou bastante e eles acabaram por transar ali. No fim seguiram para a Dazer antes que alguém desse pela falta deles.
No dia seguinte a correria começou logo cedo também. Pela mesma hora do dia anterior a feira abriu novamente e todos voltaram aos seus postos. Depois da hora de almoço já grande parte das pessoas esperava junto a um grande palco no cimo do monte, onde iria haver uma peça de teatro que retratava um amor proibido dos filhos do Rei.
Arthur era um rei que tinha cinco filhos: o Príncipe Álvaro, o mais velho dos cinco, o Príncipe Rick, o Príncipe Athos, o Príncipe Netto e a Princesa Erica que era a mais novinha de todos. Eles viviam no castelo juntamente com a irmã do Rei, Sarinha, e suas duas filhas, Hanna e Natália.
A peça de Teatro começa num dos quartos do castelo, onde estão duas pessoas andando de um lado para o outro
– Você está louco! O pai nunca poderia saber, ele matar-nos-ia Álvaro.
– Que outra opção a gente tem Rick? Eu não aguento mais fingir, eu quero que todos saibam o que eu sinto por você.
– Você é meu irmão, nunca ninguém ia aceitar isso.
– Tem que haver alguma maneira, haverei de arranjar um jeito.
A cena mudou e seguia-se um jantar com toda a família real. Sarinha e Arthur conversavam animadamente sobre o futuro sucessor do trono: Álvaro. Mas ele não se mostrava muito animado com isso. Quando o jantar terminou e quase todos tinham saído, Sara chama Álvaro.
– O que você tem Álvaro, quase não tocou no seu jantar e está assim tão triste?
– Não é nada tia Sara, não se preocupe.
– Fale comigo, meu querido. Sabe que pode confiar em mim.
Desde que a mãe de Álvaro tinha morrido que Sara era como uma mãe para eles.
– Prometa-me que não nos julga! Prometa que não conta nada para o Pai! Minha vida acabaria se ele soubesse…
– Claro que prometo, fica só entre nós. Mas o que aconteceu para deixar você tão perturbado assim? — pergunta Sara preocupada.
– Estou apaixonado por um menino.
Sara não conseguiu esconder o seu espanto. Por muito que ela amasse o sobrinho, um relacionamento homossexual não era bem visto naquela época.
– Um… menino?
– E o pior não é isso – continua Álvaro. – Esse menino é o Rick.
– RICK?! Seu irmão! – Sara não acreditava no que estava ouvindo. – Oh meu Deus, como foi isso acontecer?!
– Por favor, não fique brava, eu amo ele de verdade, eu faria qualquer coisa para ficar com ele! – Álvaro implorava – Me ajude, por favor.
Sara caminha lentamente até uma cadeira e senta-se, seu rosto estava pálido. Mal ela se recompôs falou novamente.
– Chame o Rick aqui, tem uma coisa que eu tenho que contar para vocês.
Passado um pouco Álvaro regressa com Rick e ambos se sentam nas cadeiras em frente a Sara.
– Tem uma coisa que vocês não sabem... Que aconteceu no dia em que a Rainha e o meu marido morreram. Nessa altura o Rei estava disputando uns terrenos com outro Rei de um reinado vizinho. Tendo o vosso pai conseguido vencê-los em batalha e ficado com os terrenos, esse Rei jurou-lhe vingança. Numa noite, eram vocês os dois uns bebês pequeninos, o nosso reino foi atacado. O Rei, vosso pai, juntamente com o meu marido e suas tropas partiram para a luta, mas o castelo foi atacado e toda a gente que lá morava foi perseguida. — Sara faz uma pausa para respirar fundo, pois estas recordações traziam-lhe muita dor.
– Foi assim que a nossa mãe morreu? – pergunta Rick.
– A Rainha tinha uma empregada, a Elena, que a ajudava a tomar conta das crianças. Elena também tinha um filho, e no dia do ataque ele estava no quarto dela, enquanto que Elena estava a ajudar a Rainha. Ao serem atacados, Elena ajudou a proteger a Rainha e o seu filho Álvaro e acabou sendo morta. Ambos estavam a salvo, até que a Rainha se lembrou do filho de Elena que estava sozinho no quarto e voltou para buscá-lo… — As lágrimas escorriam pelo rosto de Sara. – E pelo caminho foi morta.
Todos ficaram em silêncio, só se ouviam os soluços e suspiros do choro abafado. Tanto Álvaro como Rick estavam aterrorizados com a forma como a mãe morrera.
– O que houve com a criança? – perguntou Rick. Sara olhou-o nos olhos.
– A criança era você, meu querido.
As cortinas fecham e depois veio o segundo ato. Rick e Álvaro fugiram, pois mesmo sabendo que não eram irmãos, o Rei não aceitava aquela relação. Arthur manda as suas tropas atrás deles e no final os dois morrem decapitados.
No final da peça, todos estavam radiantes com a sua prestação. Rick fora falar com Álvaro.
– Parabéns “irmãozinho”, você esteve muito bem – diz Rick.
– Obrigada! – diz Álvaro enquanto despia sua roupa encharcado de falso sangue. – Podes-me ajudar aqui com o fecho.
Rick começa a abrir o fecho e a sua mão toca nas costas de Álvaro. Este vira-se para ele e os dois beijam-se.
–Hummmm, danadinhos. – Hanna tinha chegado naquele momento para trocar de roupa. — A peça de teatro foi só para disfarçar né?- Ela sorri para eles e deixa-os sozinhos se pegando.
Quando a feira chegou ao fim todos estavam completamente cansados. Tinham trabalhado tanto e dormido tão pouco que quase pareciam zombies ao final do dia. O reitor tinha estado a fazer o balanço das contas e anunciou que tinham feito bastante lucro para a faculdade, agradecendo de seguida a todos pela colaboração e pedindo que fossem descansar.
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