Hollow

3 Capítulo III


Notas iniciais
Yay, chegay, pessoinhas! Queria agradecer àqueles que deixaram reviews, fico muito feliz que tenha gente acompanhando e gostando ♥ Esse capítulo tem mais músicas! E usem sua criatividade para imaginar programas de patinação porque eu não sei descrever todos aqueles saltos não. ...E eu exagerei na dose de clichês. Tipo, muito. Se você olhar com uma lupa pode parecer um tanto quanto romântico ao invés de platônico, não foi minha intenção, sério (ou foi? you'll never know). Aproveitem o capítulo!

Semanas depois as tão esperadas Olimpíadas chegaram e Yuri se viu viajando com a delegação russa pelo simples fato de que ele podia. Era estranho ir a esses eventos e ficar apenas assistindo, mas não totalmente novo. Yuri tem certeza que Yakov e Lilia quebraram algumas regras ao colocarem-no em um quarto na Vila Olímpica, mas ninguém os incomodou por isso. De qualquer forma, ele detestaria ter que ficar em um hotel longe dos estádios onde as competições aconteceriam.

Apesar de ser o evento mais esperado do mundo dos esportes, Yuri não aproveitou como deveria. Era entediante assistir a tudo sem treinar nem competir. Ao menos ele podia torcer por Otabek sem se preocupar com o próprio desempenho.

Ah, sim, a patinação artística. Obviamente, a parte mais interessante dos jogos para ele e seus amigos, mas era claro o clima estranho no ar. Atmosfera de luto. Se ao menos os organizadores da competição não fizessem um discurso pomposo sobre a perda de duas lendas do esporte, talvez eles pudessem fingir que tudo estava bem. Como se ninguém soubesse, ele pensou irritado.

Havia um motivo para ele odiar qualquer menção oficial sobre Yuuri e Victor desde o que aconteceu. A mídia é venenosa. Explorariam a morte dos dois por meses então nunca mais se falaria das lendas. Simples assim. Mas a quem Yuri quer culpar, realmente? Não é como se eles devessem falar do casal para sempre como se ainda estivessem vivos.

De qualquer forma, mesmo a patinação não divertiu o loiro como deveria. Após alguns dias de competição Giacometti conseguiu um ouro digno para encerrar sua carreira, Otabek ficou com a prata e o bronze ficou, para a surpresa de muitos, com Phichit Chulanont. Era esperado que um atleta de calibre maior, como Jean-Jacques ou Michele, chegasse ao pódio, mas o tailandês definitivamente batalhou para conseguir a medalha.

As festas e passeios revelaram-se mais interessantes e ele se viu arrastado para muitos jantares e tours por Pyeongchang com os outros patinadores. Ele nunca foi o mais social e ainda assim todos insistiam em sua presença. Era estranho. Não um estranho ruim, mas ainda assim estranho.

Ele apreciou o fato de que nenhum deles comentou sobre como ele estava lidando com a perda de Yuuri e Victor. Não, apenas estavam interessados em quando ele iria melhorar e que estavam torcendo para ele voltar a patinar. Era um sentimento reconfortante ter alguém se preocupando consigo. Isso até JJ se intrometer na conversa, como de costume, anunciando euforicamente que Isabella estava grávida e que consequentemente ele iria ser pai.

— Eu mal posso acreditar! — ele disse com o maior sorriso de todos na roda de conversa — Nós teremos um pequeno rei! Um JJ Júnior!

— Seriam três letras "J", Jean. Não fica bem. — Sara Crispino tentou intervir.

No momento estavam em uma das festas de encerramento das Olimpíadas, na cobertura de um hotel. Yuri estava sozinho, por assim dizer. Otabek havia voltado para seu país assim que as competições de patinação haviam acabado, então ele era um soldado solitário nesse último evento social. Além do mais, usar blacktie com uma tipoia era ridículo.

Olhando para a figura animada de Leroy, ele revirou os olhos mentalmente. Como se ele precisasse de mais motivos para se aparecer.

— Teremos sorte se o bebê não puxar o ego do pai. — ele murmurou pra si mesmo antes de tomar um gole de batida sem álcool. Champanhe tinha um gosto amargo em sua boca agora.

Jean-Jacques ouviu o que ele disse e riu alto colocando um braço sobre seu ombro.

— Ah, Yuri. Eu sei que essa é a sua forma de demonstrar o quanto está feliz por mim, então não vou me incomodar. É realmente uma pena que meu futuro filho não vai competir contra você. Já imaginou? Duas gerações de Leroys contra o Ice Tiger da Rússia!

— Tira esse braço de mim, idiota. — ele disse se afastando do mais velho irritado — Você nem sabe se vai ser menino ou menina e já tá falando bobagem.

— Oh, é verdade. Eu nem pensei nisso. — JJ pareceu pensativo por um momento, com a mão sob o queixo — Nesse caso, nossos filhos irão competir entre si e decidiremos finalmente qual é o melhor clã!

Yuri ficou olhando para o homem por um longo momento pensando em como raios alguém poderia ser tão estúpido. Ele nem pensava na ideia de se casar um dia, quem dirá ter filhos. O loiro apenas se virou e saiu andando dizendo:

— Estou saindo.

— Hey, Yuri, volte aqui, nós temos que discutir o futuro! — o canadense chamou atrás de si — Quer saber? Eu gosto dessa sua atitude punk. Se meu filho for menino, eu vou chamá-lo de Yuri! Yuri Yang Leroy, a nova lenda da patinação artística!

— Você está bêbado, xarope de bordo. — ele disse em voz alta sem se importar em olhar pra trás, mas um pequeno sorriso encontrou espaço em seus lábios. A ideia de ter alguém nomeado por causa de si era engraçada.

Ele saiu da área coberta onde ficava a festa para caminhar pela cobertura, observando a cidade iluminada. Havia uma cerca nos limites do prédio para impedir as pessoas de fazerem coisas estúpidas, provavelmente. Achou a vista muito bonita e o ambiente era pacífico.

— Hey. — uma pessoa chamou sua atenção, fazendo-o se virar.

Era Phichit Chulanont, com seu inseparável smartphone e um sorriso cordial.

— Hum... Oi?

— Espero não estar atrapalhando. Só queria umas fotos da paisagem. — ele disse antes de uma risada se aproximando do mais novo.

— Não tem problema. É todo seu. — ele disse colocando o copo descartável sobre o alambrado — Parabéns pelo bronze, aliás.

— Obrigado. Realmente me superei pra essa competição. — ele disse com seu usual tom descontraído.

Eles continuaram em um silêncio confortável, o qual só era interrompido pelo vento e os cliques ocasionais de Phichit no celular.

— Eu chorei por três dias depois do acidente. — Phichit disse quebrando o silêncio entre os dois.

Yuri não entendeu de primeira, mas logo entendeu o que o outro quis dizer. Já era esperado que ele sofresse com a perda, mas ainda assim o comentário o pegou de surpresa. O moreno continuou:

— Yuuri era muito importante pra mim. Sem ele, eu não seria essa bolha de confiança e alegria que as pessoas vêem hoje. Antes de Detroit... Antes de Yuuri... Eu não acreditava no meu próprio potencial. — o tailandês sorriu tristemente, os olhos ainda fitando a paisagem urbana, mas a mente em outro lugar. Lembranças, talvez.

Yuri se lembrou da mensagem de texto que havia recebido do patinador na época. Agora seria um bom momento para pedir explicações.

— Você me enviou uma mensagem logo depois que aconteceu. Algo como "nem tudo está acabado". Eu ainda não entendi o que quis dizer.

Agora o moreno olhava para o russo.

— Depois de me recuperar da crise e ver que eu ainda tinha uma vida pela frente, me dei conta de que havia outras pessoas sofrendo também. Por Deus, você estava no acidente com eles, imagino o choque que tenha sido. Eu sabia que desejos de melhoras não seriam o suficiente. Não foram pra mim. Então eu disse algo que eu gostaria de ter ouvido mais cedo. Nem tudo está acabado. A nossa vida não acabou com a deles. — ele terminou com um sorriso.

— Não foi fácil, mesmo assim. — ele murmurou olhando para as luzes da cidade. Não está sendo.

— Nunca é, Yuri. Mas temos que seguir em frente. É o que eles gostariam que fizéssemos. — ele disse colocando uma mão sobre seu ombro — Posso contar um segredo?

Yuri arqueou as sobrancelhas.

— Vá em frente.

— No terceiro dia, enquanto afogava minhas dores em margueritas, eu pensei em parar de patinar. — ele riu sem humor — Ridículo, não?

— Muito. — ele concordou. Nunca havia chegado àquele extremo. Seus problemas, pelo contrário, o obrigavam a continuar.

— Eu cheguei bem perto. Liguei para o meu treinador trocando os idiomas chorando e falei "Hey, não dá mais. Não sem ele." Celestino disse que conversaríamos quando eu não estivesse bêbado e desligou. — o sorriso ainda estava ali, mas desapareceu aos poucos — Foi quando eu me dei conta da merda que eu estava fazendo. Eu e Yuuri trabalhamos tanto para chegarmos onde estamos e eu queria terminar isso de um jeito tão patético. Então eu tomei vergonha na cara e voltei a treinar. Fui continuar vivendo a vida que Yuuri deveria ter vivido.

O silêncio de outrora voltou e Yuri não tinha certeza do que dizer. Entendia o dilema de Phichit, já passara por algo semelhante semanas atrás. Porém, a mensagem que o outro queria mandar não estava muito clara.

— Por que está me dizendo isso? — ele finalmente perguntou.

Phichit riu e o russo reparou que foi a primeira risada sincera dele desde que a festa começou.

— Porque você precisa se reencontrar também, bobo. Todos assumem que você está bem com tudo isso, mas você nem completou 18 e já perdeu suas duas maiores referências. Talvez eu esteja exagerando e você está lidando com isso perfeitamente, mas eu sei o quanto você era próximo de Victor, pelo menos. E dor não passa em dois dias. — o celular do outro vibrou e ele começou a digitar algo enquanto falava — Por isso, o meu recado é: siga em frente. Faça com que o esforço de Victor e Yuuri não tenha sido em vão. Eles ficariam felizes por nós.

Yuri assentiu. Ele compreendia agora, Phichit estava certo. Todos os medos que sentira agora eram normais, mas não deviam durar até o fim de sua existência.

— Acho que entendo. — ele disse após um tempo — Obrigado, Phichit.

— Disponha. — ele respondeu com um grande sorriso e levantou o celular — Selfie comemorativa?

O loiro sorriu e concordou. Já fazia um tempo desde que atualizava seu Instagram.



Três semanas após o fim dos jogos olímpicos, ele estava em sua consulta mensal ao médico. Ele estava ansioso por ter seu braço livre novamente e poder treinar, mas não foi isso que a médica de meia-idade esperava dele.

— Essa fratura só vai realmente melhorar em abril. Terá que esperar mais um pouco. — a tal doutora Zokova disse com um sorriso gentil.

A careta que ele fez estava longe de ser simpática.

— Eu tenho que treinar para o campeonato nacional em dezembro.

— Se você forçar, poderá ficar mais uma temporada sem competir. — ela disse um pouco mais séria — Você tem sorte de não ser um joelho ou tornozelo, mas um osso quebrado nunca deve ser subestimado. Além do mais, você está em fase de crescimento. Seria bom usar esse tempo para descansar.

Fase de crescimento? Eu já tenho 18 anos! ele pensou, mas não disse por causa do olhar de Yakov sobre si. O loiro suspirou visivelmente descontente e murmurou:

— Bom, não é como se eu pudesse opinar sobre o assunto, certo?

A mulher riu e deu tapinhas em suas costas.

— Não é o fim do mundo. Você ainda pode continuar com exercícios moderados, Sr. Plisetsky. E férias nunca machucaram ninguém. — ela apontou para um porta-retrato em sua mesa, onde se via ela com um homem mais jovem.

— Aquele é meu filho Misha, ele está na seleção de hóquei. Ele é teimoso como você, senão mais. Houve uma temporada em que ele deslocou o ombro e ficou fora de muitos jogos. Não preciso nem dizer o quanto ele ficou furioso. Mas foi durante essa folga que ele conheceu a noiva dele. — a mulher possuía um sorriso orgulhoso nos lábios — Entende onde eu quero chegar? Use esse tempo para se descobrir, fazer novos amigos, experimentar um pouco mais do mundo. O esporte às vezes nos toma tempo demais.

Ele sabia muito bem o quanto de tempo ele havia perdido, mas não diria aquilo em voz alta. Apenas bufou e cruzou os braços mal-humorado. Talvez fosse uma boa hora para aceitar a proposta de Otabek.

Yuri dificilmente visitava outros países como turista, então a chegada em Almaty foi um pouco estranha para ele. Estava acostumado com repórteres, câmeras, fãs, a pressa de chegar no hotel a tempo de treinar antes das competições. A calma no aeroporto era algo quase de outro mundo.

Mas felizmente Otabek Altin estava ali para recebê-lo como o bom amigo que era. O cazaque até mesmo o deixara ficar em seu apartamento.

— Tem um quarto extra para hóspedes. Você não vai precisar dormir em nenhum sofá. — o mais velho explicou já dentro do táxi.

— Então você tem um apartamento só pra você. E nem precisa se preocupar com gastos da faculdade. — o loiro sorriu de lado — Malditas crianças ricas. Imagino se você tem um chofer, também.

— Eu não preciso de um chofer, eu tenho minha moto. — ele disse tão calmo quanto antes, o olhar fitando a paisagem fora do carro — Embora papai tenha oferecido um quando eu comecei a morar sozinho...

Ouvindo aquilo o russo não aguentou e riu. Otabek não parecia nem de longe o estereótipo de "filhinho mimado" que ele realmente era, mas era melhor assim. Do contrário, ele seria apenas uma versão asiática de JJ.

O cazaque no momento cursava Filosofia na renomada Al-Farabi Kazakh National University, conciliando os estudos com os treinos rigorosos na patinação artística. A agenda cheia o deixava com pouco tempo para amigos, então ele ficou feliz ao saber que Yuri viria para Almaty.

Ele também fez uma nota mental para afastar o mais novo de qualquer exercício físico que pudesse machucá-lo ainda mais. Plisetsky era um tipo teimoso que poderia usar a viagem para treinar do jeito que quisesse longe das críticas de Yakov.

— Suponho que você ainda não possa patinar como antes. — o moreno disse logo depois que chegaram em sua casa.

— Não. — o outro disse com um revirar de olhos caindo sentado no sofá da sala — Não posso fazer saltos de nenhum tipo. Nem giros. Nem nada que use meu braço. Resumindo, posso apenas ficar sobre o gelo sem me mexer.

— Bem, a boa notícia é que meu treinador me deu uma semana de folga então você não precisa ficar fazendo nada enquanto eu treino. Seria um tédio ir àquele rinque sem você. — ele disse com um sorriso.

Yuri ficou de queixo caído por alguns segundos antes de dizer:

— Beka, não precisava. Não vim aqui para te atrapalhar.

— Não está atrapalhando, eu preciso de umas férias também. Vou usar esses dias para te levar aos melhores lugares da cidade ou simplesmente comer besteiras e fazer nada o dia inteiro. — ele se sentou ao lado do loiro — Você precisa disso mais do que eu.

O russo fez uma careta.

— Você para de me dizer que eu preciso descansar e eu finjo que estou gostando de ficar parado como uma estátua. Está bom assim?

— Perfeito pra mim. — ele disse dando de ombros — Está com fome? Posso fazer algo pra gente.

Você sabe cozinhar? — Yuri disse com uma sobrancelha arqueada — Essa eu quero ver.

Por mais que Yuri detestasse admitir, aqueles poucos dias sem pensar uma única vez em competições fizeram um bem tremendo a ele. Mais que tudo, ele era grato a Otabek por ser um amigo tão compreensivo de sua situação. Se não fosse ele, talvez Yuri estivesse com mais duas fraturas causadas por treinos não autorizados.

Num domingo, nenhum dos dois estava com ânimo para fazer nada. Apenas estavam jogados no sofá e checando vez ou outra as redes sociais, entediados. Isso até Otabek sugerir assistirem algo na Netflix.

— Quer alguma série? — o mais velho perguntou mudando as opções no controle.

Otabek tinha gostos discutíveis para séries em geral, então Yuri murmurou algo sobre preferir filmes, mas não parecia muito empenhado na escolha.

— Que tal esse? "Em algum lugar do passado". — Otabek leu um título, mas Yuri ainda estava distraído com seu celular — É um sci-fi romântico.

— Sobre o que é? — ele perguntou não muito interessado.

— "Na noite de estreia de sua peça, um jovem escritor se depara com uma senhora misteriosa que desesperadamente pede para que ele volte para ela. Após alguns anos, ele descobre que ela foi uma conceituada atriz do início do século. Obcecado, ele decide viajar no tempo usando a hipnose para encontrá-la." — Otabek leu na tela — Não parece tão ruim.

— Coloca esse, então. Melhor que Friends. — ele disse como uma piada, mas a descrição realmente lhe chamou a atenção. Era uma história um tanto familiar.

— Eu vou fingir que não ouvi isso. — o cazaque disse e apertou o play, começando o filme.

Parecia bem comum no início, mas pouco a pouco a história foi se desenvolvendo de um jeito interessante. O protagonista, Richard, realmente havia ficado obcecado em voltar ao tempo da famosa Elise.

Seria um filme normal se uma música em especial não começasse a tocar de repente. Yuri franziu o cenho e então arregalou os olhos ao reconhecer as notas.

— Eu conheço essa música. — ele falou do nada — É a mesma que Victor usou para o meu programa livre. O último que ele compôs.

O mais velho ficou em silêncio por um momento e depois perguntou:

— Quer que eu mude o filme?

— Não, pode deixar. — ele disse agora muito mais interessado no enredo.

Era essa a história que Victor queria que ele encenasse. O desespero de um amor proibido, o desejo de estar perto de alguém amado, a cobiça por tempos melhores. Inconscientemente, Yuri associava o programa a ele mesmo. A falta que ele sentia de Victor e Yuuri e o quanto ele não daria para tê-los ao seu lado novamente.

A história não acabava de um jeito muito feliz e Yuri se viu tendo compaixão pelo protagonista. A tristeza de perder alguém amado era irreparável, mas diferente de Richard, Yuri conseguiria seguir em frente. Era isso. Faria do programa não apenas uma perda, mas uma história de superação. Iria fazer dessa composição a mais emocional que ele já fizera.

Quando o filme acabou a cabeça de Yuri era um turbilhão de pensamentos. Ele precisava voltar para a Rússia o quanto antes para treinar. "Somewhere in time" deveria ser um programa perfeito.

— Eu preciso aprender isso para o Campeonato Nacional. — ele proclamou sentando-se no sofá — Pela memória de Victor e Yuuri.

Otabek comprimiu os lábios enquanto o observava.

— Não leve isso como uma obrigação, Yuri. Seu objetivo agora devia ser se recuperar.

— Eu não posso perder mais tempo. — ele disse passando a mão pelos próprios cabelos em sinal de frustração — Essa foi a última coisa que Victor fez pra mim e eu não dei a devida atenção, como muitas vezes antes. — ele fechou os olhos — Eu sei perfeitamente as emoções que devem ser representadas nesse programa. Deixar pra depois vai estragar tudo.

O ambiente ficou silencioso por alguns segundos antes do cazaque dizer em voz baixa:

— Eu confio em você para fazer a melhor apresentação que o mundo já viu. Algo que supere Victor e Yuuri não só em técnica, mas em emoção. — ele fez uma pausa — Mas acima de tudo eu quero confiar em você para ser cuidadoso e saber quando parar.

Yuri não queria magoar seu amigo e admitir que pretendia arrancar aquela tipoia assim que aterrissasse em São Petersburgo. Mas ele sabia que precisava agir como um adulto agora e parar de fazer tudo que quisesse sem pensar nas consequências. Ele ficaria bem.

— Não vou fazer nenhuma loucura, Beka. — ele prometeu — E vou acabar com você no Grand Prix.

O outro sorriu.

— Veremos, Plisetsky.

Obviamente, ele não convencera Yakov a deixá-lo patinar imediatamente. No fundo ele já esperava algo assim, mas isso não o deixou menos irritado. Seu técnico, porém, prometeu que entraria em contato com a médica para saber se o tratamento poderia ser encurtado. Isso deixou o garoto satisfeito, mas não realmente feliz.

Antes de sair do rinque, ele se lembrou de algo: as gravações. Havia umas duas ou três câmeras espalhadas por ali que serviam para gravar os ensaios de todos os patinadores. Seria bom ele dar uma olhada em seus últimos treinos para ao menos lembrar um pouco da coreografia.

Mila lhe emprestou um pen drive e ele apenas copiou todos os vídeos disponíveis no computador do centro de treinamento. Podia estar dividido por nomes, mas ele não estava com paciência para procurar seus vídeos especificamente. Também ignorou o pensamento inconsciente de que ali ainda havia filmagens de Yuuri e Victor que nunca mais seriam vistas por ninguém. Talvez uma última olhada não faria mal a ninguém...

A primeira coisa que fez quando chegou em casa foi ir direto para seu quarto e ligar o notebook. Não sabia por quê, mas estava ansioso por rever os vídeos com aquela música em especial.

Os nomes dos arquivos tinham o nome do patinador seguido da música. Não demorou para ele encontrar "Yuri P — Somewhere in time1.mp4". Mas não eram suas gravações que ele queria. Não, ele queria a versão patinada por Victor e foi essa que ele abriu.

Demorou um pouco, mas finalmente o vídeo entitulado "Victor N — Somewhere in time.mp4" carregou. A imagem do rinque logo entrou em foco e com ela havia Victor. Yuri prendeu a respiração inconscientemente. Parecia uma eternidade desde que o vira pela última vez, mas ali estava ele. Tão perto e tão distante ao mesmo tempo.

Ele colocou-se na posição inicial e logo depois a famigerada música começou.

Até hoje Yuri não tem certeza de como foi possível colocar tantos saltos em uma música lenta sem o programa ficar incoerente, mas Victor conseguiu. Ele sempre consegue. A carga emocional da apresentação é o que realmente encantava. Era possível ver a dor nos movimentos de Victor, juntamente com a nostalgia, o desejo da volta de tempos melhores.

O loiro sentiu-se afundando cada vez mais na cama, o notebook sobre seu colo. Seus olhos acompanhavam sem piscar os movimentos do falecido patinador na tela.

Victor sempre foi importante pra ele. Desde uma pequena queda até uma figura paternal, Nikiforov adquiriu muitos papeis em sua vida. Nunca escondera sua vontade de impressioná-lo, mas era o outro que sempre o fazia, de uma forma ou de outra. Agora que ele se fora, sentia falta das surpresas que não chegaria a ver.

Yuri parou o vídeo antes que pudesse pensar demais. Afinal, era uma música longa e ele já tinha uma ideia do que fazer. Seu olhar divagou sobre a lista de vídeos ali presentes. Logo encontrou uma fila que começava por "Yuuri K".

Conhecia a maioria das músicas ali, já vira inúmeros ensaios de Yuuri. Mas um título em especial lhe chamou a atenção: "Song for the little sparrow." Havia seis vídeos com a mesma música, mas Yuri tinha certeza de que nunca vira um programa com aquele nome. Por mera curiosidade e movido por uma sensação incomum dentro de si, ele abriu o arquivo mais recente.

Logo a imagem de um Yuuri bem próximo da câmera apareceu na tela. O moreno não parecia exatamente contente com a filmagem.

Victor, isso é mesmo necessário? Eu vou apresentar ao vivo. Já tem umas cinco gravações dessas. — disse o Yuuri do vídeo um pouco constrangido.

Você nunca fala nada nos vídeos, assim não tem graça. Yuri vai gostar de ver o quanto você se empenhou.— disse Victor fora da visão da câmera — Vamos, mande uma mensagem pra ele!

O japonês suspirou, desistindo de contestar o mais velho e sorriu para a câmera acenando.

Oi, Yurio. Eu estive pensando no que te dar no seu aniversário de 18 anos e decidi montar um programa pra você. Victor sempre faz isso pra nós dois e eu resolvi tentar.

Ciúmes!— Victor falou em voz alta, mas o moreno ignorou.

É um programa que mostra como eu vejo você desde que nos conhecemos. Você cresceu bastante e eu não estou falando da aparência. Eu vejo você amadurecer a cada dia e isso me deixa muito feliz, Yuri, porque eu sinto que sou um pouco responsável por isso.— ele disse desviando o olhar por um segundo, mas logo voltando para a câmera com o mesmo sorriso sincero — Você é jovem, mas tem tanta fúria e poder dentro de si e quando usa isso no gelo ninguém consegue te segurar. É isso que esse programa quer mostrar e eu ficaria muito, muito grato se você o usasse um dia. Mas só você gostando já é uma honra. — ele disse rápido e fez uma pausa para recuperar o fôlego — Eu tenho orgulho de você, Yuri.

A garganta do loiro ficou seca de repente e ele não conseguiria desviar o olhar da tela nem se tentasse.

Yuuri deslizou para o centro ao mesmo tempo em que Victor falava em russo:

— Ele fez esse programa sozinho, Yura, não há nenhuma opinião minha envolvida. — havia certo orgulho em sua voz e Yuri sabia que ele devia estar sorrindo — Vamos lá, Yuuri! Quando você estiver pronto.

Houve um momento de silêncio entre o japonês firmando-se em uma pose inicial e a música começando.

Yuuri movia-se com destreza e segurança pelo gelo, seus movimentos transmitindo perseverança e a necessidade de provar algo a alguém. Era raiva e delicadeza combinados. Se pudesse vê-lo de perto com certeza veria seu rosto contorcido em uma expressão de leve irritação. Era muito parecido com ele mesmo enquanto patinava.

Não demorou muito para que ele girasse em um triple axel, aterrissando perfeitamente e aumentando a velocidade à medida que a música se tornava mais intensa. A combinação de saltos que se seguiu era quase insana, mas ele conseguiu sair dessa sem praticamente nenhum defeito.

Yuri se deu conta de que era assim que ele era visto pelo patinador. Uma fera a ser temida, com o desejo voraz de vencer. Havia beleza no programa, mas não a beleza inocente que todos associavam ao mais novo. Não, era a beleza de um tigre e quem chegasse perto demais iria se machucar.

Ele nem percebeu quando começou a chorar.

A música assumiu um tom mais melancólico e os movimentos de Yuuri fizeram o mesmo. A fúria diminuiu e no lugar dela havia tristeza. Um pedido de ajuda, talvez. Ele entendeu a mensagem. Yuri não era de ferro, tinha seus momentos de fraqueza como todo mundo. Mas eles não duravam muito tempo e ele conseguia voltar aos trilhos, assim como a composição mostrava.

Yuuri finalizou com uma combinação de giros já conhecida pelo mais jovem. A pose final veio junto com a última nota da canção e a câmera tremeu um pouco quando Victor a deixou em uma mesa para ficar mais próximo do outro patinador.

Amor, isso foi incrível! Você captou a essência dele tão bem, foi como ver a patinação do próprio Yuri!

— Acha que ele vai gostar? Foi a sequência mais difícil que eu já fiz, mas talvez seja mediana pra ele, ou muito mais difícil do que eu pensei...— havia preocupação na voz baixa do moreno, mas não conseguia ver seu rosto.

— Tenho certeza de que ele vai gostar. Agora vamos pra casa, ainda temos que arrumar as malas para Zurique.

— Não. — Yuri murmurou entre soluços — Não vão pra Zurique, por favor...

Sim, odiaria deixar Yuri sozinho em uma viagem dessas. Ele realmente não queria ir.

Ele vai ficar bem, lyubov moya. Já não é mais nenhuma criança.

— Eu sei... Vitya, você desligou a câmera?

— Ahn...não.— e segundos depois o vídeo chegava ao fim.

Yuri fechou o notebook e abraçou um travesseiro, lágrimas molhando a fronha e os lençóis. Eles pensavam em tudo. Sempre ali, cuidando dele sem ele saber. Yuuri havia feito um programa curto pra ele, enquanto Victor fizera o programa livre. Era como se já soubessem o que ia acontecer.

Tem como vocês serem menos clichês? ele pensou com um sorriso sem humor. Aqueles dois. Se eles soubessem... Se apenas eles soubessem o impacto que tinham nele.

Eles nunca falhavam em surpreendê-lo.

Yuri sabia o que tinha que fazer agora. Tinha dois programas pra ensaiar e mostrar ao mundo.

— Eu não vou decepcionar vocês. — ele disse para o nada — Não vou.

Notas finais
Algumas considerações sobre esse chap: Pra quem está se perguntando onde está o Makkachin, ele está bem, sob os cuidados do Yakov, pois não sabemos se o Victor tem uma família (pelo menos uma que se preocupa com ele #shotsfired) Eu amo o JJ. Ele não fez nada de errado. E se a season 2 não mostrar ele casado e com um filho fazendo piadas no estilo Rei Leão eu desisto da vida. O filme Em algum lugar do passado existe mesmo e só serve pra ferrar com o seu emocional. Sem brincadeira. Se você quer ficar numa bad federal assiste esse filme. Um dos meus projetos era fazer uma fic Victuuri com o enredo desse filme só pra sofrer um pouquinho. Mas seria uma long fic então não sei se vai se concretizar...bem, a ideia tá aí, podem pegar =3= Meu outro headcanon é que Otabek é um puta filhinho de papai. Aconteceu depois de eu ler errado a citação de uma fic que se referia a ele como o príncipe do Cazaquistão. Eu pensei na hora que o Cazaquistão era uma monarquia e que o Beka podia ser literalmente um príncipe, O QUÃO FODA ISSO SERIA MAN. Mas a vida não é assim, o Cazaquistão é uma democracia. Então meu headcanon é rebaixado para garoto super rico. Sei lá, ele tem cara. Seung-gil Lee também. Bem isso é tudo por hoje, me digam o que acharam!! XOXO