Hollow

1 Capítulo I


Notas iniciais
Algumas informações pra considerar: — Eu TENTEI entender como funcionam as qualificações para as olimpíadas. Não deu. Apenas assumam que todos estão qualificados — O Grand Prix em que o Yuri levou ouro foi o de 2015 — Em 2018 as olímpiadas de inverno serão em Pyeongchang, na Coréia do Sul — Letras em itálico significam monólogos ou flashbacks. Teremos muitos deles!

Alguém há muito tempo dissera que nós apenas damos valor a algo quando perdemos. Yuri nunca entendeu essa frase. Por mais que perdesse algo, ele não ficava se lamentando por dias e dias a situação. Não, ele levantava a cabeça e lutava para conseguir aquilo de novo. Trabalhava para consertar suas falhas e ser o melhor de todos. Pois os melhores não sofrem, ele acreditava.

Com o tempo ele descobriu que estava errado sobre isso. Quem está tentando enganar, ele estava errado sobre um monte de coisas. Não que ele fosse admitir, claro. Isso, nunca.

Mas ele se arrependeu disso após aquela fatídica noite em Zurique.

Yuri já tinha 17 anos. Comparado com o ganhador do ouro do Grand Prix de 2015, ele havia mudado bastante. Havia alcançado Victor em altura, deixou o cabelo mais longo, seus traços se tornaram mais masculinos. Resumidamente, ele cresceu, algo que ansiava e temia ao mesmo tempo. Por um lado as pessoas o levariam mais a sério agora, por outro era um saco se acostumar às mudanças em seu corpo. Tinha que praticamente aprender os saltos do zero, pois seu senso de equilíbrio mudou. Seus membros doíam pelo simples fato de ele estar crescendo, como assim? Mas isso não significava nada, ele ainda seria um campeão em Pyeongchang e iria esfregar na cara de Nikiforov e seu marido.

Estavam no final de novembro, em Zurique, na Suíça. Yakov o arrastou para algum evento beneficente que incluiria a elite dos atletas da patinação no gelo e ele nem teve o direito de negar. "É bom você relaxar antes das olimpíadas". Ugh. Ele não precisava relaxar, ele precisava treinar os programas que iria apresentar em Pyeongchang. Havia algo meloso sobre o programa livre que Victor preparara que ele não engolia, mas era atraente mesmo assim.

— Essa música é muito melancólica. Só não é pior do que Ágape. — o loiro disse com uma careta.

— O que importa é a dança. Esse vai ser um ótimo desafio nos seus pontos de apresentação. É a história de um casal que não pode ficar junto, pois são de tempos diferentes. Você fará o papel do homem apaixonado que sente falta de sua amada do passado! — Victor explicou animadamente. Apostava seu almoço que ele assistiu algum filme, ficou obcecado e agora ele tinha que pagar o pato com programas.

— Não combina em nada comigo. — ele disse o óbvio.

— Claro que combina, só precisa incorporar a nostalgia, a saudade de tempos melhores. Sei que vai conseguir isso no futuro.

— Como tem tanta certeza?

O homem de cabelos platinados colocou a mão sob o queixo, pensativo.

— Não sei. Sexto sentido — ele disse com um sorriso.

Ainda se perguntava por que ele tentava.

De qualquer forma, agora ele estava preso em uma festa com muita gente famosa e importante e bebida. Já havia conseguido três taças de champanhe antes de Yuuri aparecer ao seu lado e dizer:

— Você não devia beber, Yuri.

— Você não manda em mim. — ele resmungou tomando o conteúdo do copo em uma virada, só porque ele podia.

O arrependimento bateu minutos depois.

Certo, foi uma decisão idiota. Yuri secretamente tinha uma tolerância muito baixa ao álcool, então três taças eram o suficiente para deixá-lo... não muito bem.

Ao ver o loiro se apoiando à mesa, Yuuri suspirou.

— Eu avisei.

— Hum... — ele queria dizer algo mais ofensivo, mas as palavras foram embora enquanto ele tentava recobrir a postura.

— Acho que devíamos voltar ao hotel. Vou buscar o Victor.

Antes que pudesse fazer algo, ele já estava no banco de trás de um carro alugado. Yuuri dirigia e Victor estava no banco da frente, mais bêbado do que o mais novo.

— Yuuri, ainda tinha muita festa pela frente! — Victor reclamou com um sotaque forte em sua voz.

— Não para quem tem um voo marcado para as oito horas da manhã. — o moreno respondeu calmamente.

— Eu não tenho voo nenhum... — murmurou Yuri de olhos fechados.

— Mas estava quase caindo sobre a mesa dos petiscos. E não temos Otabek para tomar conta de você hoje. — Yuuri disse com um sorriso.

— Vá a merda, katsudon. — Yuri respondeu fracamente, mas com um sorriso no rosto. Beka havia se tornado tão importante pra ele nos últimos anos.

Seus olhos observavam a rua preguiçosos. A cidade pareceria muito bonita se ele não tivesse a visão embaçada pela bebida.

De repente, o tempo passou mais devagar. Ele ouviu a buzina, a batida, as janelas quebrando. Tudo começou a girar. Ele bateu a cabeça e desmaiou.

Acordou com luzes piscando. Vermelhas, brancas, azuis, amarelas. Elas machucavam sua visão, então ele fechou os olhos novamente. Parecia que estava imerso em bolas de algodão. Sentia-se entorpecido.

Mãos estranhas abriram a porta do carro e o retiraram de lá. Falavam em uma língua estranha, provavelmente alemão.

Yuri abriu os olhos para olhar ao redor. Um ônibus havia batido no carro e literalmente amassou a parte da frente. Pertencia tudo ao ferro velho agora. Ao redor haviam carros da polícia, ambulâncias e uma multidão de curiosos.

Colocaram-no em uma maca e só agora ele percebeu algo viscoso em seu rosto. Seus dedos tocaram a área e sentiram sangue.

— Você consegue me ouvir? — um dos paramédicos perguntou em um inglês ruim, mas possível de entender.

Ele tentou assentir, mas o movimento doía, então ele apenas fez uma careta. Colocaram-no em um daqueles colares cervicais ridículos e ele torceu para que Victor não o visse, pois certamente riria.

Victor.

— Victor... — ele murmurou tentando olhar ao redor, à procura dos patinadores mais velhos — Yuuri...

Seus olhos captaram o momento em que colocavam outra maca em um dos carros de ambulância, que saiu do lugar em disparada. Não sabia quem era.

Logo depois ele viu algo que não gostou. Um corpo sob um lençol branco deitado no asfalto. O vento fez o pano levitar ligeiramente e ele viu uma aliança de ouro na mão direita. Yuuri não era tão alto, então só podia significar uma coisa.

Aquele era Victor.

E ele morreu.

Após se dar conta do que aconteceu, Yuri desmaiou e só acordou horas depois em uma cama de hospital.

O ambiente puramente branco fez seus olhos arderem e ele demorou alguns segundos para se acostumar à claridade. Um tubo estava ligado ao seu braço, conectando-o a um aparelho que media batimentos. Havia bandagens em sua cabeça que quase cobriam seu olho e seu braço esquerdo estava engessado também. Tudo doía e sua boca estava seca.

Ele não estava sozinho no quarto. Em uma cadeira ao lado estava Yakov dormindo. Julgando pela posição, não parecia muito confortável. Não havia janelas ali, então ele não fazia ideia de quanto tempo havia se passado.

— Yakov... — ele chamou com a voz rouca e quase inaudível, mas foi o suficiente para acordar seu treinador.

— Yuri! Graças a Deus, você finalmente acordou! Ficamos tão preocupados quando nos ligaram, eu nem tinha te visto sair da festa. — ele disse naquela mistura característica de mal-humor e preocupação.

Yuri piscou os olhos algumas vezes, lembrando-se pouco a pouco do que aconteceu.

— Eu estava com Yuuri e Victor, então veio o ônibus e... — suas palavras morreram com a realização e ele arregalou os olhos — Oh, meu Deus, Victor!

Seu primeiro instinto foi se levantar da cama, mas Yakov o segurou pelos ombros resmungando.

— Controle-se, Yuri. Você bateu a cabeça, se tentar levantar agora provavelmente vai cair de cara no chão. Seu braço quebrou e os médicos disseram que você pode voltar a patinar, mas Pyeongchang está fora de cogitação.

Ele grunhiu de raiva. Dane-se Pyeongchang, ele sempre poderia ganhar na próxima olimpíada. Havia outro problema agora.

— Victor. — ele murmurou com medo das próprias palavras — Eu o vi. Ele... ele...

Yakov suspirou ao seu lado, uma expressão em seu rosto com a qual ele não estava acostumado. Tristeza e impotência. Algo horrível que ele não podia mudar o quanto tentasse.

— Eu sinto muito, Yura, mas não há nada que pudesse ser feito. Ele já estava morto quando os médicos chegaram.

Yuri respirou fundo e engoliu o choro. Não, ele não ia chorar como uma criança agora. Era inútil. Ele tinha que focar em outra coisa que não fosse Victor.

— Yuuri. — ele levantou o olhar para o homem, enérgico por notícias — Eu o vi sendo levado pela ambulância antes de mim. Como ele está? Eu preciso vê-lo, Yakov, eu...

— Yuri. — havia mais dor se possível na voz do mais velho — Você foi o único sobrevivente do acidente.

Toda a energia que havia recuperado de repente parou e ele observou o outro estático, não se atrevendo a fazer nenhum movimento, como se isso atraísse uma notícia indevida.

— Como assim?

— O motorista do ônibus morreu na hora, estava bêbado. Não havia mais ninguém com ele. E Yuuri morreu antes de chegar ao hospital, fizeram tudo que podiam. — ele falava tudo com calma e pesar, dando tempo ao mais novo para entender.

Ele não entenderia mesmo se lhe dessem mil anos. Não perdera apenas Victor, perdera Yuuri também. Até isso eles tinham que fazer juntos, ele pensou amargo. E depois se arrependeu. Foi por causa daquela sua atitude fechada e mesquinha que a amizade dos três não foi melhor. Ele nem poderia pedir desculpas.

Yuri não se deu o luxo de chorar.

Os próximos dias passaram como um borrão para o jovem patinador. A saída do hospital não foi tão traumática, Yakov conseguiu evitar a maioria dos paparazzi. No voo de volta à Rússia, ele se viu incapacitado para dormir mesmo após Lilia oferecer pílulas. Ele estava lutando contra o sono, pois sabia que com ele viriam os pesadelos.

O reencontro com seu avô nunca foi tão esperado, mas ainda assim silencioso. Enquanto recebia o neto em um abraço apertado, Nikolai murmurou:

— Está tudo bem, Yurachka. Está em casa agora.

Sim, estava em casa. Mas faltava algo ali. Faltavam risadas, discussões bobas e demonstrações públicas de afeto que o faziam querer vomitar. Nunca teria aquilo novamente, então nunca teria sua "casa" de volta.

Apenas aí ele derramou as primeiras lágrimas desde aquela noite em Zurique.

Notas finais
Yes, está curtinho para os meus padrões, mas os outros serão maiores! Digam o que acharam :3 XOXO