Hold me Tight
2 Território proibido
Notas iniciais
– Yoongi POV -
Eu me permiti observar o rosto do garoto à minha frente por alguns instantes. Suas feições eram joviais, bochechas grandes e pele clara dando à ele um aspecto de bebê. Porém, não me passou despercebido o modo como suas roupas grudavam nos braços e no peito, sem dúvida escondendo músculos cuidadosamente esculpidos. Seu cabelo castanho estava estilizado com gel pra cima, longe dos olhos, que por sua vez eram escondidos por um enorme óculos quadrado que cobria metade de seu rosto. Ficamos nos encarando por longos segundos que se arrastavam, seus lábios rosados ainda boquiabertos devido ao choque que sofrera. Ergui minha sobrancelha afim de apressá-lo, afinal de contas, se ele gostava tanto assim do que via, poderia muito bem tirar uma porcaria de uma foto.
Assim que peguei a sacola com meu maço de cigarros e meu tão amado uísque, dei no pé. Não queria ficar ali por mais tempo que o necessário, e correr o risco de algum pedestre ter presenciado a cena toda e chamado a polícia. Nem me preocupei com o troco, pois o garoto parecia precisar de uma boa gorjeta.
Infelizmente ainda estava chovendo canivetes lá fora, então puxei o capuz do meu moletom pra cobrir minha cabeça e comecei a andar o mais rápido que eu pude na direção do “quartel-general” da minha gangue. Claro que este é apenas um apelido carinhoso, porque o lugar é uma pocilga. Pra chegar lá, é necessário virar várias esquinas duvidosas e entrar em diversos becos escuros. Eventualmente você passará por baixo de um viaduto, e avistará um prédio de seis andares que servia de estacionamento rotativo há quinze anos atrás. Segui por dentro de um túnel que servia de acesso para veículos há muito desativado, e quando me deparei com um portão de tela trancado com cadeado, soube que estava chegando perto. Pulei o portão sem maiores dificuldades, e fiz meu caminho até a pequena fogueira improvisada num barril de latão, rodeada por sofás gastos e bancos de couro arrancados de veículos roubados, situada bem no centro do primeiro pavimento do estacionamento. Alguém me disse que, por estar localizado numa área marginalizada da cidade, o prédio não gerava lucros, portanto foi largado às traças. E cá estamos nós.
Assim que me aproximei mais, pude distinguir duas pessoas na multidão que se reunira em volta da fogueira procurando qualquer resquício de calor. Sentado num dos bancos de carro, estava Namjoon, também ridiculamente chamado de Rap Monster, nosso temido líder. Sentado no seu colo, com uma daquelas máscaras de gás esquisitas descansando no topo de sua cabeça, estava Seokjin, seu namorado.
– Vocês querem fazer o favor de arrumar um quarto? – fiz cara de nojo, deixando bem claro que desaprovava suas demonstrações públicas de afeto. Vê-los juntos nessas condições parecia tão errado quanto ver seus pais sendo melosos na sua frente.
– Era exatamente isso que eu estava propondo pro Namjoonie, antes de você trazer sua bunda magrela pra cá. – Jin me respondeu, virando os olhos com desdém. Mesmo assim, ele se levantou e tomou lugar num sofá próximo.
– O que te traz aqui, Suga? Achei que só te veria amanhã. – Namjoon me perguntou, um leve tom de preocupação escondido na voz grave.
– Pois é, eu realmente não planejava voltar. – suspirei. – Veja bem, eu precisava reabastecer meu estoque de veneno, então fui numa lojinha de conveniência 24 horas...
– Vá logo ao ponto, Yoongi. – Jin tentou me apressar, olhando sem interesse pra suas unhas da mão esquerda.
– O ponto é – eu continuei, levemente irritado – que apareceu um filho da puta qualquer do bando do Yongguk, revólver na mão e tudo, – a audácia desses garotos de hoje! – querendo roubar a loja. No nosso território, Rapmon! De baixo dos nossos narizes! Porra, quem esses viados pensam que são? – minha voz já estava ficando alterada, então bufei, irritado, antes de me virar pra Seokjin. – E não me chame mais por essa merda de nome, entendeu?
Seokjin levantou as mãos em falsa rendição, enquanto Namjoon ponderava cuidadosamente o que eu acabara de relatar. – E o que você fez? – perguntou.
– O que mais eu deveria ter feito? – ri pelo nariz, indignado. – Coloquei meu próprio revólver na nuca dele e mandei ele vazar, antes que eu o mandasse pro Yongguk em pedacinhos. – meus lábios se contorceram num sorrisinho desdenhoso só de imaginar a cena.
– Ah, Suga... Sempre o temperamental. – o líder suspirou, passando as mãos pelos cabelos prateados. – Você chegou a ver a cara do sujeito?
– Claro que não, o viadinho cobriu a boca com aquela bandana ridícula deles. Minha vontade era de achar outra utilidade pra aquela porcaria.
– Eu realmente espero que não seja ninguém importante no grupo, senão teremos problemas. – Namjoon fechou os olhos e começou a massagear as têmporas. – Yongguk não é do tipo de levar as coisas na esportiva, ele pode encarar isso como uma ameaça de guerra.
– E daí que ele veja assim? – dessa vez eu realmente perdi minha calma. O modo cauteloso com que Namjoon lidava com tudo me dava nos nervos. – Ele precisa saber que não pode fazer o que bem entender no nosso território, Rapmon! Já se esqueceu do propósito dessa gangue? Já se esqueceu da promessa que você fez pra mim, que você fez pra toda essa gente? – esbravejei, girando o braço na direção genérica das pessoas que estavam ali ao nosso redor, daqueles que Namjoon acolheu com a promessa de uma vida melhor. Não uma vida correta, mas uma vida justa.
– Não seja ridículo, Yoongi. – poucas vezes eu o tinha visto sério, mas agora eu podia sentir que seus olhos queriam abrir buracos na minha pele. Ainda por cima usou meu nome verdadeiro de propósito, provando que não estava pra brincadeiras. Ficamos assim, nos encarando por um tempo que parecia muito longo, mas que não deve ter passado de alguns segundos. Devido aos nossos temperamentos diferentes, nós estávamos fadados a brigar de tempos em tempos. Mas hoje eu não queria saber, não tinha paciência. Tudo que eu queria era o conforto da minha casa, com uma garrafa de uísque numa mão e um cigarro aceso na outra, enquanto vejo porcarias na televisão. Hoje não era o dia pra bater cabeça com Kim Namjoon.
– Ah, quer saber? Vá se foder você também. – suspirei, dando as costas pros dois e começando a me afastar. Ouvi Jin gritar atrás de mim algo relacionado à falta de respeito, mas só lhe dei um dedo do meio como resposta. Os dois podiam muito bem ir se foder juntos. Ou foder um ao outro. Eca.
Pra minha sorte a chuva havia diminuído durante minha longa e cansativa caminhada pra casa. A distância era na verdade bem curta, mas qualquer caminhada era cansativa pra mim. Eu estava contemplando a possibilidade de roubar um carro quando avistei meu prédio ficando gradualmente visível no horizonte. Apressei o passo com a promessa de um banho quente e a sensação ardente de álcool descendo pela garganta, o que me proporcionaria um sono profundo sem sonhos. Subi rapidamente os degraus até o terceiro andar, pois obviamente prédios velhos no subúrbio da cidade não possuíam elevador, tomando cuidado pra não pisar em nenhuma substância não identificada e nem esbarrar nos drogados, bêbados e amantes apressados demais pra esperar até ficarem sós. Me enrolei um pouco com as chaves, mas imediatamente relaxei quando pude sentir o reconfortante cheiro de tabaco que impregnava minha casa inteira.
Após um relaxante banho quente e dois copos de uísque, comecei a pegar no sono ainda deitado no sofá onde comecei a ver um dorama histórico. Porém, o rosto dos atores lentamente foram dando lugar a um rosto rechonchudo, escondido por trás de grandes óculos quadrados, e estranhamente belo.
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