Hold me Tight
10 Quando seus sonhos são destruídos
Notas iniciais
– Jimin POV -
Na manhã seguinte eu acordei com uma dor de cabeça terrível. Amaldiçoei tanto a minha intolerância à bebidas alcóolicas quanto minha mania de dormir com as cortinas abertas, puxando o cobertor sobre a cabeça numa tentativa fútil de escapar da luz do sol. Porém, no momento que meus olhos pesavam para mergulhar novamente num sono profundo, minha mente resolveu brincar comigo. Flashes da noite anterior passavam como um filme na minha cabeça, me despertando completamente devido à uma lembrança particular. Eu havia beijado Suga. No rosto. Minha boca, na bochecha dele.
Levantei num salto, jogando o cobertor pro lado enquanto levava as mãos até meus fios castanhos, bagunçando-os. Eu beijei Suga. Minha mente repassava aquela memória em especial inúmeras vezes, incrédula. Com certeza não passara de um sonho, certo? Não havia a menor possibilidade de que eu realmente tivesse feito aquilo, por mais que as minhas atitudes fossem controladas pelo álcool. Aliás, não havia a menor possibilidade de Suga me deixar viver depois daquilo. Oh, céus – pensei – Suga vai me matar.
Peguei o celular para checar as mensagens, temendo uma ameaça de morte vinda do loiro. Suspirei aliviado quando não encontrei nenhuma. Como já estava completamente desperto, fui ao banheiro conectado ao meu quarto para fazer a higiene matinal, tomando um tempo além do necessário para jogar água fria no rosto. Retornando ao quarto, pude ver que Jungkook ainda estava imerso num sono profundo, apenas alguns fios de cabelo negro escapando por debaixo das cobertas. Decidi não incomodá-lo e segui na direção da cozinha o mais silenciosamente possível, fechando a porta delicadamente atrás de mim.
O apartamento que eu dividia com Taehyung – e agora Jungkook também – não era nada luxuoso, mas era mais do que o suficiente para abrigar três universitários que precisavam de um teto sobre a cabeça. Dividia o quinto andar com outros três apartamentos idênticos num prédio charmoso nas proximidades da universidade. Possuía duas suítes, um cubículo que chamávamos de lavabo no corredor levando aos quartos, um minúsculo hall que separava a porta da frente do resto do apartamento, e uma pequena cozinha americana, conectada à sala que possuía uma ampla janela que dava vista para a cidade. Se eu olhasse pela janela, poderia ver as torres góticas da universidade apontando no horizonte.
Constatando que eu era o primeiro a acordar – como sempre – fui até a cozinha afim de preparar o café da manhã. Deixei o arroz cozinhando na panela elétrica e fui mexer alguns ovos na frigideira, quando senti longos braços envolvendo minha cintura.
– Bom dia. – murmurou Taehyung, olhos ainda fechados de sono enquanto pousava o queixo no meu ombro. Eu apenas ri, constatando que o cheiro da comida devia tê-lo despertado. – Nada de panquecas hoje? – perguntou, fazendo beicinho.
– Ya, quem você pensa que eu sou? Seu chef particular? – ralhei de forma brincalhona. Apesar de não ser um mestre na cozinha, eu havia aprendido uma coisa ou outra com a minha mãe. O que me tornava o único capaz de cozinhar algo, já que Taehyung queimava tudo e Jungkook não sabia nem sequer ligar o fogão.
Taehyung suspirou, indo se empoleirar num banco, apoiando os cotovelos na bancada da cozinha enquanto descansava o rosto nas mãos, o bico ainda maior do que antes. – Eu queria panquecas. – reclamou, parecendo uma criança que crescera demais no seu pijama azul claro, dois números maior que o necessário, desbotado e puído nas bordas. Os cabelos lilases completamente desarrumados pelo sono e os olhos castanhos lutando para ficar abertos só contribuíam para o ar infantil.
Rindo da sua birra, voltei minha atenção para o fogão. Procurando o sal, constatei – com um grunhido – que ele estava guardado no armário acima da bancada. Fiquei na ponta dos pés, e por mais que eu esticasse os braços, eu só conseguia tocá-lo com a ponta dos dedos; e quanto mais eu insistia, para mais longe eu o empurrava. – Ya, me ajuda aqui- – eu comecei a pedir para Tae, mas uma presença atrás de mim cortou minha frase antes que eu pudesse terminá-la. Senti um peito sólido e quente colado nas minhas costas, um braço passando por cima do meu para alcançar o sal, e uma mão grande pegando-o com sucesso. Me virei cuidadosamente para encontrar ninguém menos que Jungkook, me estendendo o sal com uma expressão divertida no rosto. Antes que minha boca pudesse se abrir para dizer algo embaraçoso, notei dois pequenos alargadores pretos adornando suas orelhas. Fechei a cara imediatamente.
– Que porcaria é essa na sua orelha? – ralhei no melhor tom maternal que consegui.
– Isso? – ele virou o rosto para que eu pudesse ter uma visão melhor, desconsiderando totalmente minha irritação. – Um alargador. Por quê?
– Quando você fez isso?
– Ontem. – disse ele, deixando o sal já há muito esquecido sobre a bancada ao lado do fogão e se juntando à Tae do outro lado.
– Quem te deu permissão? – insisti, indignado com a rebeldia que essa criança estava demonstrando.
– Ninguém, eu não preciso de uma. Você não é a minha mãe, Jimin. – disse ele, brincando distraidamente com o objeto da minha raiva. Antes que eu pudesse torcer a sua orelha de uma forma bem maternal, ele olhou fundo nos meus olhos e sorriu de canto. – Aliás, você tá queimando a comida.
Me atrapalhando todo com panelas e frigideiras, terminei de preparar a refeição e coloquei a comida na mesa, juntamente com uma caixinha de suco de laranja. Nos sentamos ao redor da mesa circular que ficava meio espremida entre a cozinha e sala – o único ponto fraco de uma cozinha ligada à sala é que não havia espaço pra uma sala de jantar – e começamos a comer como se não víssemos comida há três dias, o único som presente no recinto era o que nossos talheres faziam na louça.
– Onde você estava ontem à noite? Você chegou bem tarde, e tava fedendo a cerveja. – Jungkook indagou-me, seus olhos negros analisando minhas reações. Corei violentamente devido à lembrança da noite anterior, e gaguejei um pouco ao responder.
– E-eu estava c-com o Suga-ssi. – disse simplesmente, encarando minha tigela de arroz com ovos.
– Quem é esse? – insistiu o moreno.
– É o amigo gangster dele. – Tae interveio antes que eu pudesse mudar de assunto. Eu me virei para ele com olhos arregalados, me sentindo traído, enquanto Jungkook lançou lhe um olhar desconfiado.
– Ele não é gangster! – defendi. – Ele só faz parte de um grupo de amigos que ocupam um prédio de estacionamentos abandonado... Fazendo... Nada. – eu estava convencido de que ele não era gangster, mas quanto mais eu falava, mais idiota parecia.
– Isso é o que a gente chama de gangue, Jiminie. – Taehyung corrigiu, utilizando o tom de voz que adultos usavam com crianças. – Inclusive, fontes confiáveis me disseram que viram seu amiguinho desovando um corpo no rio Han. – disse despreocupadamente, enfiando uma colher cheia de arroz na boca.
Eu estava pronto pra chamá-lo de mentiroso, pra dizer que aquilo era pura bobagem, quando me recordei das olheiras profundas nos olhos do loiro, e do modo como ele desviava das minhas perguntas e dizia que era melhor eu não saber de nada. Abri a boca apenas para fechá-la novamente, franzindo o cenho em concentração enquanto vasculhava minha mente por evidências que provassem que Taehyung estava errado. Infelizmente não encontrei nenhuma.
– Eu não gosto desse cara. Pare de se encontrar com ele. – ordenou o moreno, mas eu não sabia se ele estava tentando me proteger ou se só estava sendo ciumento.
– Não adianta, Kookie. – Tae suspirou, dirigindo um olhar preocupado na minha direção. – Desde o começo eu o avisei de que Suga era um cara perigoso, mas ele insistiu mesmo assim. Nosso Jiminie só faz o que quer.
– Não é isso. – eu tentei me defender, mas minha voz saiu falhada. Pigarreei. – É que... – tentei argumentar, mas a verdade é que eu não sabia o que dizer. Taehyung tinha razão; desde o começo ele me avisara de que Suga não tinha uma boa reputação na cidade, a arma que eu o vi carregando no dia que nos conhecemos e o modo rude que ele tratava as pessoas só contribuíam para esse fato. Mas então eu conhecera Seokjin e Namjoon, e eles pareceram tão legais que eu achei difícil de acreditar que eles saíam por ai atirando em pessoas e desovando os corpos no rio. O ambiente que eles frequentavam, apesar de localizado numa das áreas mais precárias da cidade, não me parecia assustador, mas sim aconchegante. Eu me sentia acolhido enquanto estava lá conversando com eles, mesmo com Suga tentando me afastar o tempo todo. Eu só não sabia como verbalizar isso para meus dois amigos, sentados à minha frente; um com uma expressão levemente preocupada, mas conformado. O outro, completamente irritado. – Me desculpem. Eu sei como isso vai soar, mas... Eu o considero meu amigo, e não vou me afastar dele a não ser que ele me dê motivos pra isso.
– Matar alguém não é motivo suficiente? – Jungkook provocou.
– Ele é inocente até que se prove o contrário. – sustentei seu olhar, procurando encerrar o assunto. – Você mais do que ninguém devia saber disso, Jungkook. Afinal, você não vai se formar advogado?
Jungkook ficou me encarando por um longo momento, o rosto fechado numa carranca raivosa. – Perdi o apetite. – anunciou o moreno, arrastando a cadeira contra o piso de madeira ao se levantar, deixando uma refeição pela metade para trás. Ele se moveu tão rápido que não me deu a oportunidade de dizer mais nada, e alguns segundos depois pude ouvir a porta do quarto batendo com um estrondo. Suspirei.
– Aish, aquele moleque. – resmunguei, colocando uma quantidade considerável de arroz na boca. – Não tem respeito nenhum pelo seu hyung.
– Não se preocupe, ele só tá com ciúmes. – Tae comentou distraidamente, colocando os restos da tigela de Jungkook na sua própria.
– Não fale bobagens, Tae-Tae. – revirei os olhos para ele, de repente perdendo o apetite também.
Os dias seguintes prosseguiram numa determinada rotina. Eu assistia às aulas pela manhã, almoçava com Tae – Jungkook ainda não voltara a falar comigo – e nos dias que eu não tinha nenhuma aula à tarde, eu treinava com Jackson para a competição de dança que se aproximava. À noite, eu ocupava meu costumeiro posto de caixa da loja de conveniência. Durante meu turno, eu contemplava o fato de não ter recebido mais nenhuma visita de Suga, levemente decepcionado. Mas, ao mesmo tempo, eu decidira não contatá-lo de forma alguma, ainda terrivelmente constrangido pelas minhas ações embriagadas daquela noite.
Certa tarde, eu andava apressado pelos corredores do prédio de artes após uma longa e cansativa aula prática de dança contemporânea, desejando mais do que tudo tomar um banho quente em casa antes que meu turno no trabalho começasse. O sol já estava baixo no céu, pintando-o nos mais belos tons de vermelho, rosa e laranja. A essa hora, a maioria dos alunos já haviam ido embora, portanto os corredores estavam vazios; eu só permanecia ali porque havia uma sequência de movimentos particularmente difícil que eu me recusava a ir embora sem aprender. Por isso apertei o passo, já mais atrasado que o normal, quando uma voz me chama a atenção e me faz parar completamente. A voz estava abafada, acompanhada de um piano, vindo de algum lugar mais adiante no corredor, mas eu conseguia distinguir a melodia triste que ela cantava. Quanto mais eu me aproximava, mais angelical a voz me parecia. Eu não reconhecia a música, mas o timbre e a paixão contida naquela voz trouxe lágrimas aos meus olhos.
Cautelosamente, me aproximei da sala de canto que parecia estar vazia exceto pelo dono daquela voz angelical. Espiei pela pequena janela de vidro esculpida no meio da porta para ver uma sala iluminada apenas pela fraca luz do sol poente e, no meio dela, sentado diante de um maravilhoso piano de cauda negro, estava a última pessoa que eu esperava ver ali: Jungkook. Prendi a respiração ao observar suas feições. Seus olhos estavam fechados e o cenho franzido, enquanto os lábios se moldavam ao redor das palavras que ele proferia com tanto sentimento.
“Eu estou sozinho no sofá onde você costumava estar
Eu estou aqui
Esperando por você
Até agora, do meu lado, você está tão longe
Eu ainda não te superei, apenas poeira é o que sobra
Enquanto eu espero por você”
Eu ouvia Jungkook cantar com lágrimas que ameaçavam rolar por minhas bochechas, tocado pelo timbre de sua voz e pelo significado da letra da música. Eu estava paralisado no lugar, completamente imerso na melodia, temendo que ela parasse se eu me atrevesse a entrar na sala. Infelizmente, eu pude apreciá-lo por pouco tempo; ao finalizar a música, Jungkook abriu os olhos e eles pousaram diretamente sobre mim. Notei as mais diversas expressões estamparem seu rosto: surpresa, confusão, constrangimento, raiva. Antes que eu me desse conta, estava entrando na sala e indo até ele como um furacão.
– O que você tá fazendo aqui? – ele me perguntou, claramente irritado por ter a privacidade violada.
– Sua voz é linda. A música é linda. – elogiei, limpando uma lágrima teimosa que escorrera pela minha bochecha com as costas da mão. – Mas eu nunca a ouvi antes. Foi você quem escreveu?
Jungkook corou diante do meu bombardeio, levando algum tempo para se recompor e me responder. – Foi.
– Woah, Jungkookie. Eu nunca imaginaria que você tinha tanto talento pra música. – comentei, fazendo-o ceder espaço pra mim no banco do piano. – Por que você não segue carreira como cantor? – indaguei, genuinamente curioso. O que eu não esperava, era que a expressão de Jungkook fosse se fechar tão depressa.
– Você acha que eu não tentei? – ele me dirigiu a pergunta com raiva, mãos cerradas em punho. – Meu sonho é ser cantor. Mas quando você nasce numa renomada família de advogados, onde seu pai é advogado, o pai do seu pai é advogado, e assim por diante, você não tem muita escolha. A situação só piorou quando meu irmão mais velho foi pra França estudar gastronomia. – ele cuspiu a última palavra, como se apenas pronunciá-la o enchesse de ódio. – Você deve pensar que, como primogênito da família, era função dele seguir a carreira imposta pelos pais, certo? Mas, como o garoto mimado e irresponsável que ele é, ele fugiu na primeira oportunidade que teve e deixou o cargo cair sobre mim. – Jungkook à essa altura já bufava, descontando toda sua raiva e frustração sobre mim, que apenas escutava silenciosamente. Seu relato me entristeceu e, ao mesmo tempo, confirmou que de fato eu era privilegiado, por ter a escolha de carreira tão prontamente apoiada pelos pais, mesmo quando eles não tinham a menor condição de bancar meu sonho.
– Eu sinto muito. – ofereci, estendendo a mão para secar uma lágrima raivosa que escapava dos olhos do moreno. Surpreso, – não sabia se pelo contato ou pela lágrima – Jungkook afastou minha mão com um tapa e secou os olhos com a manga da camisa com irritação.
– Eu não preciso da sua pena. – rosnou ele, levantando-se para ir embora com rapidez, me fazendo lembrar daquela manhã no apartamento. De repente eu entendi porque ele ficara tão ofendido naquela ocasião, e eu não poderia me sentir mais arrependido. Agi rápido ao segurar seu pulso, impedindo-o de se afastar, olhos suplicando por perdão.
– Eu falo sério, Jungkook. Eu realmente sinto muito. – ao sentir que ele resistia contra mim, apertei ainda mais minha posse sobre seu pulso. – E não quero dizer apenas sobre sua situação. Eu sinto muito sobre o que eu disse daquela vez também. Eu não devia. – com isso, a expressão do mais alto pareceu suavizar aos poucos, e ele já não mais tentava se livrar do meu aperto. Minha mão deslizou de seu pulso até sua palma, dando ali um leve aperto de compreensão antes de deixá-la descansar ao meu lado.
– Tudo bem. Você não tinha como saber. – ele suspirou. – Está perdoado. – adicionou, um leve tom de divertimento colorindo sua voz. Eu soltei um suspiro dramático, levando a mão ao peito como se um enorme peso tivesse sido removido de meus ombros, arrancando a primeira risada que eu ouvira de Jungkook. Era uma risada gostosa, soprada, aguda e jovial, o que me lembrou que ele não passava de uma criança, e já tivera os sonhos destruídos tão cedo. Sem conseguir controlar as emoções – e ações, diga-se de passagem – o envolvi num abraço de urso, escondendo o rosto em seu pescoço e murmurando desculpas como um mantra. Eu queria me desculpar por seus pais, por sua infância difícil, por seus sonhos.
– O quê...? – Jungkook ficou sem ação por um momento, braços congelados na lateral do corpo, tomado de surpresa. Quando finalmente caiu em si, me empurrou forte pelos ombros, provocando em mim uma leve perda de equilíbrio. – Me larga, hyung. Aish, tão grudento. – reclamou, saindo da sala antes que eu pudesse ver o tom rosado de suas bochechas.
– Jungkookie! – chamei, sorrindo de orelha à orelha. Ele me chamou de hyung, pensei. – Espere por mim! – corri para acompanhá-lo no caminho de casa, me sentindo muito mais leve por termos feito as pazes.
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