Hold me Tight

6 Maldita garrafa de soju


– Yoongi POV -

Eu fiquei estupefato, congelado no lugar de boca aberta, enquanto observava a silhueta pequena de Park Jimin se afastar aos poucos até desaparecer. Nunca imaginaria que ele pudesse revidar, nunca imaginaria que ele teria coragem. Pisquei algumas vezes pra me livrar do transe e, soltando uma risada seca, joguei o cigarro que eu tinha esquecido em mãos no chão, amassando-o com a sola do tênis logo em seguida. Contemplei a possibilidade de continuar meu caminho pra casa, mas depois daquela cena, decidi que eu precisava de uma bebida.

Sorri ao ler o letreiro que dizia “O enforcado” em letras garrafais verde néon. O bar que eu frequentava era uma pocilga, mal iluminado, fedendo a mijo e vômito e cheio de mau caráteres, mas pelo menos a bebida era boa e barata. Pedi uma simples dose de soju ao barman que me agraciou com uma garrafa inteira, dizendo que eu parecia precisar. Ri e, com a garrafa segura em mãos, fui me acomodar no lado mais recluso do bar; onde eu poderia ver, mas não ser visto.

Uma garrafa logo se tornou duas, e depois três. Assim que eu fiquei suficientemente bêbado pra não conseguir nem ficar em pé sem tropeçar, pude sentir uma mão feminina acariciando meu braço. Quando olhei pra cima procurando a dona daquela mão, me deparei com uma mulher um pouco mais velha que eu, usando roupas bastante reveladoras e exibindo lábios carnudos pintados de vermelho. Eu me recordava de já tê-la visto por ali antes, mas por algum motivo minha mente não conseguia dar um nome ao rosto, por mais que eu tentasse. Ela não precisou usar palavras para deixar suas intenções bem claras enquanto me arrastava pela mão para o banheiro masculino. Por mais que eu quisesse desfrutar de um pouco de calor humano, o meu estado embriagado não me permitiu prosseguir. Murmurando desculpas esfarrapadas, livrei-me dela e saí do bar em busca de ar fresco.

A noite estava fria e minha respiração saía em fumaças. Felizmente o álcool no meu organismo foi capaz de me manter aquecido enquanto eu vagava sem rumo pelas ruas de Seoul. Após muitas ruas e quadras, meus olhos foram atraídos pelo letreiro de uma loja de conveniência. De repente eu sentia muita, muita fome mesmo. Fiz o caminho até a porta da loja tentando não tropeçar nos próprios pés, sorrindo quando ouvi o sino indicar minha chegada. Com os olhos focados no objetivo, fui até a seção de macarrão instantâneo. A comida que vendiam nesse tipo de loja estava quase sempre fria, mas o gosto não era ruim e já estava pronta pra ser consumida. Peguei um pote de jjajangmyeon e me dirigi ao caixa.

– Suga-ssi...? – pude ouvir uma voz fraca chamando meu nome enquanto eu procurava o dinheiro nos bolsos da calça. Levantei o rosto na direção da voz apenas pra ser surpreendido por um garoto de bochechas grandes e óculos de nerd. Aquele mesmo garoto que insistia em me perseguir mais cedo.

– Por que você tá aqui? – perguntei, a fala um pouco enrolada pela bebida. Esse moleque já estava virando um stalker.

– Eu trabalho aqui, você não lembra? – ele falava como se eu fosse algum tipo de retardado. – Foi aqui que nos conhecemos.

– Jura? – eu estava genuinamente confuso. – Porra, onde é que eu tô? – indaguei, deixando o pânico aparecer na voz. Um segundo tarde demais eu percebi que não sabia onde estava, e nem como voltaria pra casa. Maldita garrafa de soju.

O garoto riu da minha desgraça, aquela risada aguda e infantil, enquanto contornava o balcão pra envolver seu braço nos meus ombros. – Vem, Suga-ssi. Vamos arrumar um lugar pra você comer. Meu turno já acabou, de qualquer forma. – ele recusou o dinheiro que eu estendia pra ele, dizendo algo como eu ter pago pelo macarrão previamente. Não entendi porra nenhuma, mas deixei ele me guiar pra fora da loja enquanto ele trocava algumas palavras com a pessoa que ia assumir seu lugar e desaparecia pelo acesso de funcionários. O álcool estava lentamente se dissipando no meu organismo, então dessa vez pude sentir o frio atravessar meu casaco fino até tocar minha pele. Estremeci, tentando não derrubar a tigela de macarrão, até que um casaco pesado foi jogado sobre meus ombros. Olhei pra Jimin, que sorria pra mim.

– Você devia ter se agasalhado melhor antes de sair de casa. – ele disse, sorriso ainda plantado firme no rosto.

– Eu não pretendia ficar até tarde na rua. – comentei, fazendo-o rir abertamente quando meu estômago roncou. Ele me direcionou até uma pracinha e nos sentamos em um dos bancos. Não demorei dois segundos pra retirar o lacre da tigela e pegar os hashis que ficavam colados no fundo da mesma. Mesmo sendo desconfortável não ter aonde apoiar a tigela pra comer, comi o macarrão mais que depressa, engolindo tudo como um aspirador de pó.

– Ei, vai com calma! O jjajangmyeon não vai à lugar algum. – ele riu, me estendendo uma garrafa d’água quando eu terminei de comer. – Aqui, toma isso. Vai te ajudar a diluir o soju que posso sentir no seu hálito. – confesso que fiquei um pouco envergonhado ao ouvir isso, mesmo não sabendo o porquê. Peguei a garrafa murmurando um agradecimento quase inaudível e acabei com a metade dela em apenas dois goles. Jimin riu de novo; parecia que ele era do tipo de pessoa que ria por qualquer motivo. – Nossa, se você toma soju como toma água... Não me admira porque você estava tão desnorteado.

– Cala essa boca. – resmunguei, a cabeça já começando a clarear.

– Omo, mas já? Poxa, e eu aqui pensando que iria me aproveitar da sua embriaguez por mais tempo. Você fica bem mais simpático quando está bêbado. – brincou, sorrindo mais abertamente quando lhe fiz uma careta.

– Por que você está aqui? – fitei-o de canto de olho. Ele não parecia esperar pela pergunta.

– Porque você apareceu na loja às duas da manhã procurando jjajangmyeon. Eu não podia deixar você sozinho.

– Por que não? – eu insisti, tentando compreender o que se passava na cabeça de Park Jimin.

– Porque amigos servem pra te fazer companhia enquanto você está bêbado e com fome, na rua, tarde da noite. – Jimin lançou um sorriso tímido enquanto sustentava meu olhar. Não consegui aguentar por muito tempo e desviei os olhos para o chão, que estava bem mais interessante no momento.

– Nós não somos amigos. – conclui.

– Ainda. – me virei para encará-lo e ralhar com ele pela presunção, mas o sorriso que encontrei me pegou desprevenido. Seus olhos sumiram completamente, virando pequenas linhas acima das bochechas. Seus dentes da frente eram levemente tortos, mas ao invés de defeito, aquilo se tornava um charme. Esqueci completamente o que eu tinha pra falar e ao invés disso, me levantei pra ir embora. – Já vai pra casa? Quer que eu te acompanhe?

– Não, eu estou bem. Você já me seguiu o suficiente por hoje. – virei meu rosto de lado para lhe devolver um sorrisinho quase imperceptível que sumiu na mesma rapidez que aparecera. – Boa noite, Park Jimin.

– Boa noite, hyung. – pude ouvir ele murmurar atrás de mim. A distância apenas serviu para engolir suas palavras, então eu fingi que não escutei nada e segui meu caminho para casa.

Eu não deveria me surpreender ao ver Park Jimin andando pelo covil da gangue como se fosse dono do lugar, mas de qualquer modo me surpreendi. Por mais irritante que fosse, eu tinha que admirar a persistência do garoto. Era uma tarde fresca de domingo, três dias depois daquela noite embaraçosa em que eu bebi demais. Observei incrédulo ele se jogar em um dos sofás puídos ao meu lado, esticando um dos braços sobre o encosto do sofá e dobrando uma perna por cima da outra como se fosse o maldito líder da gangue.

– Suga. – ele me cumprimentou com um aceno de cabeça, parecendo extremamente confortável.

– Yah, seu moleque! Onde foram parar seus modos? – rosnei, não gostando nenhum pouco da falta de formalidade na sua fala. – Aliás, quem te deu a liberdade pra entrar aqui desse jeito?

– Jin-hyung, quando me convidou aquele dia. – Jimin rebatia minha careta de desaprovação com um sorriso de falsa inocência. Eu não devia ter baixado a guarda perto dele, agora ele pensa que pode fazer o que bem entender. Moleque desgraçado.

– Aquele imbecil nunca te convidou, ele só estava tentando me irritar.

– Bom, pra mim soou como um convite, então eu vou encarar como um convite. – seu sorriso aumentou, fazendo seus olhos sumirem de novo. Tive que me segurar pra não tirar aquele sorriso idiota da cara dele na base do soco.

– Olha só quem apareceu! Quanto tempo eu não te vejo hein, Jiminie? – Seokjin exclamou, sentando-se no sofá ao lado de Jimin enquanto tentava lhe abraçar com um braço só. – Achei que você não ia aceitar meu convite pra aparecer mais vezes. – Jimin lançou um olhar significativo acompanhado por um sorrisinho debochado na minha direção e eu apenas revirei os olhos. Parece que hoje não era meu dia.

– Me desculpe hyung, eu estive meio ocupado esses dias. – ele riu. – Na verdade, eu vim aqui pra aproveitar meu último dia de folga antes das aulas começarem.

– Ah, você faz faculdade? Eu já comecei o curso de medicina uma vez, mas... Estudar realmente não é pra mim. – Jin riu, mostrando a língua de forma brincalhona. Uma completa bobagem, eu sabia, já que Jin era o cara mais inteligente que eu conhecia, depois de Rapmon. Mas acho que não seria apropriado dizer que ele largara a faculdade pra participar de uma gangue e fazer drogas. – Você cursa o que?

– Dança. – Jimin respondeu, orgulhoso, apesar que eu não sabia bem porquê. Jin tentou disfarçar a careta com uma risadinha, mas eu apenas deixei o desprezo transparecer nas minhas feições. – Que cara é essa, hyung? – agora ele hesitava, provavelmente com vergonha.

– Nada não, é que dança não é meu forte. – Jin forçou mais uma risada na esperança de dissipar o clima tenso. Porém, a confiança de Jimin não era abalada tão facilmente.

– Qualquer dia desses eu convido vocês pra me ver dançando. – ele sorriu, todo animado de novo. – Por falar nisso, eu ainda não tenho seu número né, hyung? Aqui, me dê seu celular. – Jimin trocou de celulares com o mais velho, ambos digitando seus respectivos números e salvando nos contatos. Quando destrocaram, Jimin se virou pra mim estendendo a mão gordinha. – Me dê seu número, Suga-ssi.

– Nem fudend-

– Me dá aqui. – a voz grave de Namjoon me cortou, digitando rapidamente no celular do garoto. – Oi, eu sou o Namjoon. Eu aproveitei e salvei meu número ai também. Depois você me manda uma mensagem pra eu salvar o seu, ok? – Rapmon agraciou o mais novo com seu melhor sorriso, covinhas à mostra e tudo. Jimin pareceu em transe por um momento, tomado de surpresa pela aparição repentina do líder e seu charme infalível. Quando ele finalmente caiu em si, levantou do sofá num pulo e fez mais uma daquelas reverências de noventa graus que ele fez pra mim e Seokjin. – Olá, m-me chamo Park Jimin. Prazer em c-conhecer! – gaguejou, suas orelhas ficando vermelhas no processo.

What’s up? – Namjoon se sentou do outro lado de Seokjin, dando-lhe um selinho rápido nos lábios. Agora além de vermelho como um pimentão, Jimin também estava com os olhos arregalados e a boca ligeiramente aberta, ainda desconfortavelmente em pé.

– Senta ai e limpa essa baba. – eu provoquei, sorrindo ligeiramente ao vê-lo se atrapalhar todo.

– Você tá aqui pra entrar pra gangue? – Namjoon perguntou pra Jimin, um braço envolvendo os ombros de Seokjin protetoramente.

– Não, Jimin é apenas um amigo do nosso doce Suga. – Jin respondeu no seu lugar. Rapmon ficou longos segundos encarando o namorado, depois mudou o olhar pra mim e Jimin. Por fim, ele soltou uma gargalhada tão alta que chegou a fazer eco no estacionamento.

– Amigo do Suga? Desse Suga?! Você tá me zoando né, Jinnie? – perguntou, ainda tendo crises de risos. Eu o encarei fazendo uma careta muito feia, na esperança de fazê-lo engasgar com a própria saliva apenas com a força do pensamento. Sem sucesso.

– Realmente, parece piada, né? –Jimin aproveitou pra rir junto. – Mas vocês sabiam que ele fica bem mais sociável quando bebe soju? Algumas noites atrás ele apareceu lá na loj- — eu voei pra cima dele, tampando sua boca com a mão antes que ele falasse alguma besteira. Ninguém precisava saber dos meus lapsos depois de uma bebedeira.

– Nossa, olha a hora! É melhor você ir né, Jimin. Amanhã você tem aula. – tentei ao máximo disfarçar a minha ameaça com uma voz doce, mas meus olhos clamavam por sangue. Era como se eles passassem a mensagem sem usar som algum. Dê mais um pio e você está morto.

Quando achei que seria seguro o suficiente retirar minha mão, fui agraciado com mais um daqueles sorrisos que escondem seus olhos. – Você tem razão, Suga-ssi. Qualquer hora dessas eu volto e continuo a história. – ele provocou, mostrando a língua de brincadeira e já se afastando para que eu não pudesse agredi-lo. – Até mais, Jin-hyung, Namjoon-hyung. – ele se despediu dos dois com breves reverências e se foi. Suspirei aliviado, mas fiquei tenso novamente ao sentir dois pares de olhos sobre mim.

– O que que foi? – rosnei, fazendo uma careta pros dois.

– De nada. – disse Jin, exibindo seu melhor sorriso debochado.

Ah, eu ainda mato esse desgraçado.