Hold me Tight
31 Faça o que deve ser feito
— Yoongi POV -
Assim que Jimin pegou no sono, fiquei por um tempo sentado ao seu lado observando-o dormir, apreciando o modo como suas feições relaxavam numa expressão serena que faziam-no parecer que estava completamente ignorante ao mundo exterior. Peguei-me hipnotizado pelos movimentos constantes e sutis de subir e descer que seu peito fazia ao respirar, pelo leve ressonar que escapava de seus lábios entreabertos, e pelo modo que seu único olho visível tremulava vez ou outra com algum sonho que estava tendo. Alguns minutos atrás, quando entrei no quarto para encontrá-lo meio adormecido, não consegui conter o impulso de beijá-lo. Seus lábios eram mornos e macios contra os meus, e mesmo agora eu ainda podia senti-los como se nunca tivesse os deixado. Jimin parecia tão vulnerável, indefeso, frágil. Vê-lo todo remendado desse jeito me doía o coração, mas ainda era melhor do que deixar expostas as marcas raivosas que marcavam sua pele. Jimin precisa de você. As palavras ainda ecoavam na minha mente como um constante lembrete do que era mais importante.
Meu lado impulsivo e violento ansiava por vingança, arranhando minhas entranhas para que eu fosse atrás daqueles que o fizeram mal, daqueles que colocaram Jimin – meu Jimin— naquele estado deplorável. Toda vez que eu pensava naquilo, minhas mãos instintivamente fechavam-se em punho, como se estivessem prontas pra brigar a qualquer momento. Eu precisava tomar uma providência, precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa; não poderia deixar Yongguk sair impune como um cachorro com o rabo entre as pernas. Jimin precisa de você. Lá estava de novo, o lembrete. Toda vez que meus pensamentos tomavam o rumo vingativo e sanguinário de agora, essas palavras ecoavam em minha mente como ondas na praia para apagar as chamas da minha cólera. Lembrando-me do que era mais importante – Jimin.
Vê-lo dormir de alguma forma me trazia paz; apenas o fato de que ele estava à salvo e seguro diante de mim já me trazia conforto. Enquanto me perdia no passo rítmico das suas respirações, notei que eu também estava muito cansado. Na noite anterior mal preguei os olhos, sendo acordado por pesadelos toda vez que conseguia adormecer por mais de uma hora. Os encargos que Seokjin colocara sobre mim também de nada ajudava; como instruído no papel que me dera, eu deveria comprar os remédios na farmácia mais distante que encontrasse, a fim de lhes dar privacidade – o que eu tive de fazer a pé. Então era seguro dizer que eu estava mais do que exausto no momento, e que a cama de Jimin era especialmente convidativa. Não me surpreendi quando, sem pensar muito no assunto, acomodei-me sob os lençóis no espaço vazio ao seu lado, aninhando-me contra seu corpo e apenas me permitindo apreciar o calor vindo dele. Em pouco tempo sua respiração leve e constante embalou-me num sono tão profundo quanto o seu.
Acordei com alguém sacudindo meu ombro; eu estava deitado de lado, rosto virado para Jimin – que ainda dormia profundamente – e de costas para quem quer que tenha perturbado meu sono. Ainda um pouco desnorteado, olhei ao redor para constatar que a noite havia caído, e se a escuridão do quarto pudesse servir de indicação, já fazia bastante tempo. Outro toque insistente no meu ombro arrancou de mim uma careta irritada, ao passo que eu entortava o pescoço para ver quem era o maldito que interrompera minha boa noite de sono: Jungkook.
— O que você quer? – perguntei com um sussurro, minha voz ainda mais grave pela sonolência.
— Você levou Jimin pro hospital? – indagou-me num tom igualmente sussurrado, indicando os curativos com um gesto da cabeça.
— Não. – respondi, contorcendo-me na cama para sentar recostado contra a cabeceira. – Quem cuidou dele foi um amigo meu, Seokjin. Você já o conheceu.
Assisti Jungkook apertar os olhos enquanto vasculhava sua mente atrás de lembranças, antes que os mesmos se arregalassem em reconhecimento e uma carranca se formasse em suas feições. – Você quer dizer aquele maluco que fabrica drogas? – questionou, sua voz cheia de julgamento.
— Esse mesmo. – assenti. – Mas ele também é o único médico que nós temos.
— Por que não o levou ao hospital? – insistiu ao ocupar a cadeira ao lado da cama, cruzando os braços à espera de uma resposta.
— Muitas perguntas seriam feitas. – disse simplesmente, encolhendo os ombros, o que arrancou uma risada seca do mais novo.
— E você seria egoísta o bastante pra negar tratamento adequado quando isso poderia te trazer problemas, não é? – provocou, seus olhos apenas duas fendas raivosas.
— Pra sua informação, essas foram as palavras do próprio Jimin ao recusar a minha oferta de levá-lo ao hospital. – rebati, adotando uma postura tão hostil quanto a dele. Estava cansado desse moleque e sua maneira de falar com os mais velhos. – Não fale coisas que você não sabe nada a respeito, garoto.
Jungkook apenas me encarou em silêncio com a mesma expressão desconfiada, e por um momento achei que ele fosse levantar e sair sem mais, por isso fui pego desprevenido por suas próximas palavras. – Vocês dois estão juntos agora?
— Jimin precisa de mim. – essa era a única coisa que eu me sentia seguro em dizer sem gaguejar. A frase que manteve minha sanidade e meu auto controle para que eu sobrevivesse à esses dois dias sem cair num surto de violência e sede de sangue. A frase que me impedia de quebrar a promessa que fiz e fugir como o covarde que sou. A frase que me mantinha aqui, ao lado da única pessoa que importava.
— Não foi isso que eu perguntei. – insistiu o mais novo, fitando meus olhos como se pudesse extrair todos os meus segredos através deles. Retribuí seu olhar na mesma intensidade, desafiando-o.
— Eu não vou deixá-lo, se é isso o que está me perguntando. – assisti uma pontada de dor atravessar suas orbes, ao mesmo tempo que seus lábios comprimiam-se numa fina linha. Sua reação me trouxe lembranças de todas as vezes que ele me tratara com hostilidade por causa do garoto que agora era o tópico principal da conversa. Jungkook não parecia contente com a minha resposta. – Você gosta dele, não é?
Ao pronunciar tais palavras, minha voz não apresentava o menor sinal de ciúmes ou descontentamento, o que acabara surpreendendo até a mim mesmo; ao invés disso, a pergunta soara calma e suave, uma curiosidade genuína mascarada com um pouco de piedade. A reação do garoto teria sido engraçada se não fosse tão reveladora: Jungkook arregalou os olhos e prendeu a respiração, mesmo que a surpresa só durasse uma fração de segundo. Tão rápido quanto veio, ela foi substituída por um olhar triste e resignado.
— Desde quando o que eu sinto importa? – indagou-me, abrindo um meio sorriso que não atingia seus olhos. Antes que eu pudesse retrucar, Jimin choramingou no sono e virou-se na cama, dando as costas para nós dois e puxando um pouco mais os lençóis sobre si. Ambos prendemos a respiração temendo tê-lo acordado com o som de nossas vozes, mas felizmente o garoto ainda dormia como uma pedra.
— Bom, já que você está aqui... – comecei, livrando-me dos lençóis e fazendo menção de sair da cama. – Acho que posso ir embora.
— Você poderia ficar um pouco mais? – pediu, o que me deixou intrigado. Jungkook me pedindo pra ficar? Essa era nova pra mim. – Taehyung queria falar com você quando chegasse do trabalho.
— E quando seria isso?
— Não deve demorar muito. – informou-me ao checar as horas no celular, de forma que eu apenas assenti com um murmúrio desinteressado. Diante do silêncio desconfortável que estávamos, sem nenhum novo assunto pra discutir, notei que Jungkook percorria os olhos pelo meu tronco como se só agora se desse conta de uma coisa. – Ei, essa camiseta é minha.
— O quê? – segui seu olhar como se pudesse encontrar na camisa alguma prova de que estivesse errado. – Mas eu a encontrei na parte esquerda do armário. Essa é a metade de Jimin, não é?
— Eu tenho certeza que essa camiseta é minha. Só eu compro números maiores. – insistiu, sua face formando uma carranca irritada e possessiva. Pelo visto não era apenas Jimin que o mais novo não gostava de dividir.
— Tudo bem, eu posso trocar—
— Não. Sabe de uma coisa? – Jungkook cortou, levantando-se de forma brusca e interrompendo minha iniciativa de tirar a camisa. – Fique com ela. Não a quero mais, de qualquer maneira. – cuspiu, sua voz pingando veneno, enquanto saía do quarto e fechava a porta atrás de si como o moleque insolente que era.
E pensar que meu sono foi interrompido pra isso, pensei, irritado. Alcançando meu celular, o relógio no visor me indicava que era quase onze e meia da noite. O que significava que eu havia dormido pouco mais de seis horas direto – bom, qualquer descanso era melhor do que nada. Foi com esse pensamento que levantei-me da cama, deixando para trás o calor que a figura adormecida de Jimin emanava com muita relutância. Percebendo minha ausência, Jimin resmungara coisas incompreensíveis e sem sentido, mas felizmente o frio súbito não fora suficiente para despertá-lo de seu sono induzido pelos remédios. Lançando um último olhar para suas costas e resistindo a vontade de aninhar-me contra ele e voltar a dormir, fiz caminho até o banheiro da suíte a fim de trocar-me para as roupas sujas que largara no piso frio após tomar banho. Uma vez que estava devidamente vestido, dobrei as roupas de Jimin – ou Jungkook, eu nem sabia mais – antes de deixá-las sobre a cadeira, como um agradecimento sutil e discreto por tê-las emprestado.
Fiquei tentado a observá-lo dormir mais um pouco, mas eu sabia que se me deixasse vencer, não teria mais ânimo nem coragem para fazer o que tinha de ser feito. Saí do cômodo esperando encontrar Jungkook na sala, mas ao invés disso me deparei com a porta fechada do quarto do outro lado do corredor, onde ele provavelmente se escondera durante todo esse tempo que eu ocupava o quarto de Jimin. Satisfeito por não ter que encará-lo uma segunda vez naquela noite, caminhei silenciosamente até a janela da sala e a abri, deixando que a brisa fresca da noite me atingisse a face. A vista do apartamento de Jimin era bonita – bem melhor que a minha, de qualquer forma – e se eu procurasse bem, poderia ver a silhueta das torres da universidade que frequentava.
Jimin morava num bom lugar, tinha uma boa vida; às vezes eu me pegava imaginando o que seria dele agora se eu nunca tivesse entrado em seu caminho. Certamente ele não estaria todo quebrado na cama, envolvido numa briga que pertencia somente à mim. Talvez estivesse participando de muitas competições de dança e ganhando muitos prêmios. Talvez estivesse retribuindo os sentimentos de Jungkook. Talvez estivesse mais feliz. Jimin precisa de você. Ri seco diante de tal pensamento – minha mente sequer se deixava boicotar. De repente era eu que precisava de algo: um belo trago. Apalpei os bolsos da calça para encontrar o maço de cigarros amassado no bolso de trás. Escolhi um dos cânceres em forma de palito com os lábios antes de acendê-lo e tragar toda a nicotina para meus pulmões, apreciando o modo como a fumaça preenchia minhas narinas e garganta, trazendo-me alívio imediato diante do estado estressado que me encontrava. Alguns poucos dias longe do vício e meu corpo já começava a apresentar sinais de abstinência. Patético.
Eu estava no segundo cigarro, soprando fumaça para o ar frio da noite pela janela aberta, quando ouço o bipe familiar de uma senha sendo digitada na porta da frente, antes da mesma ser liberada e aberta. Não precisava sequer olhar para saber que era Taehyung chegando em casa; o cheiro forte de bebida misturado com vômito do bar onde trabalhava era o suficiente para denunciá-lo.
— Você ainda está aqui. – comentou, parecendo levemente surpreso apesar da sua voz denunciar o cansaço acumulado durante uma noite servindo bebidas.
— Jungkook disse que você queria falar comigo. O que foi? – indaguei, apagando a bituca no batente da janela antes de me virar a tempo de vê-lo tirando os sapatos no hall de entrada. Recostei-me contra a mesma de braços cruzados, esperando que o mais novo diminuísse a distância entre nós.
— Bom, eu queria conversar com você sobre... sobre o Jimin, na verdade. – admitiu, sentando-se no pequeno sofá no meio da sala enquanto me indicava o espaço ao seu lado com a cabeça, um convite mudo para que eu o ocupasse. Fiz como sugerido e aguardei suas próximas palavras; eu já imaginava que alguém fosse tocar no assunto mais cedo ou mais tarde, já esperava ter “a” conversa sobre como fui irresponsável ao colocar Jimin em perigo, mas não podia negar que tamanha seriedade vinda de Taehyung me pegara desprevenido. O garoto que habitualmente se comportava como uma criança em corpo de adulto, agora sustentava o meu olhar não só como um amigo preocupado, mas como uma alma velha e cansada pronta pra me dar o sermão da minha vida.
— Não há nada que você possa dizer que eu já não tenha dito pra mim mesmo, Taehyung. – comecei, tentando poupar seu fôlego e meus ouvidos ao mesmo tempo, porém o mais novo apenas levantou a palma para me calar.
— Hyung, por favor. Eu gostaria que você apenas me ouvisse agora. – pediu, obtendo sucesso em manter-me calado ao passo que eu concordava com um aceno de cabeça, incentivando-o a continuar. – Antes de tudo, eu queria que soubesse que gosto de você, hyung. Mesmo que não tenha motivo algum pra isso, tem algo sobre você que me diz que o hyung não é uma má pessoa. Mas você é perigoso.
Não consegui deixar de me afetar com suas palavras; comprimi os lábios numa fina linha enquanto meu rosto tomava uma expressão levemente ofendida, mas mantive-me quieto esperando o garoto terminar de falar, pois sabia que não podia negar suas acusações.
— Eu já sabia disso antes mesmo da sua estranha amizade com Jimin começar. Eu sabia disso quando Jungkookie apareceu com marcas no rosto algumas semanas atrás, e mesmo que os dois tentassem esconder de mim os porquês e comos, eu sabia que toda a situação girava à sua volta. Por isso não me surpreendi ao ver Jimin naquele estado, mesmo que eu não tenha previsto o perigo que cercava aquele amigo novo. Ou talvez eu tenha. Mas isso já não é mais importante. – Taehyung fez uma pausa, olhando-me diretamente nos olhos enquanto deixava suas palavras entranharem-se na minha mente. Não pude fazer outra coisa senão retribuir seu olhar, já que me encontrava em falta de palavras; não que precisasse delas, pois não havia a menor possibilidade de defesa diante da verdade.
— O que quero dizer é: isso é tudo culpa sua. – acusou o garoto, suas palavras ferindo meu coração como adagas. – Eu gostaria de poder dizer que não, que ninguém teve controle sobre a situação, que ninguém poderia sequer sonhar com a possibilidade. Mas você sabia. Você sabia o tempo todo, e mesmo assim permitiu que Jimin ficasse preso no meio dessa bagunça – da sua bagunça. – fez outra pausa, correndo as mãos pelos cabelos enquanto desviava o olhar para o chão, rindo sem humor de algo que lhe passou pela cabeça. – Mas acho que também tenho minha parcela de culpa. Fui eu quem colocou Jimin no seu caminho pela segunda vez, afinal. Se ao menos eu pudesse prever o futuro...
— Olha, não me leve à mal. – continuou Taehyung, voltando seu olhar para o meu enquanto seus lábios se abriam num fraco sorriso apologético. – Acho corajoso da sua parte assumir a responsabilidade e finalmente admitir que há algo entre vocês dois. Porque não há dúvidas quanto à isso, definitivamente a atração que vocês sentem um pelo outro é algo que não pode mais ser contido ou ignorado. Eu entendo isso. Mas também sei que mais cedo ou mais tarde, um de vocês vai acabar machucado de verdade, se não os dois. Eu só queria dizer que, se você machucar meu Jiminie novamente, ou causar qualquer tipo de dano contra ele... mesmo que me doa, mesmo que eu ainda goste de você como um hyung, eu não poderei te perdoar. Nunca.
Eu não sabia que Taehyung tinha tantas coisas entaladas na garganta, sufocando-o até que ele explodisse. A sinceridade de suas palavras e a seriedade do seu tom de voz me deixou perplexo, mas de alguma estranha maneira, também me deixou aliviado. Era reconfortante saber que, não importa o que aconteça, Jimin tinha ao seu lado dois grandes amigos. Dois garotos capazes de fazer o que fosse possível para protegê-lo. Não consegui conter a vontade de sorrir para a criança de cabelos lilases ao meu lado, que agora me encarava com uma mistura de confusão e frustração. Talvez sorrir não fosse uma resposta adequada. Mas eu não poderia me importar menos.
— Ok, recado dado. – disse, soando mais desinteressado do que eu me sentia realmente. – Acabamos por aqui?
— Onde você vai? – indagou-me curioso, observando-me atentamente quando levantei-me do sofá e me dirigi até a saída do apartamento com passos largos e certeiros.
— Preciso descobrir quem fez isso com ele. – respondi do meu lugar no hall de entrada, checando os bolsos pela terceira vez pra ter certeza que não esquecera nada antes de calçar os sapatos deixados próximos da porta.
— Hyung. – sua voz grave soara baixa, mas estava bem mais próxima do que deveria. Virei-me para encontrá-lo apenas a alguns passos de distância, encarando-me nos olhos com tanta intensidade que um arrepio chegou a percorrer minha espinha.
— Sim? – perguntei, mão descansando sobre a maçaneta da porta enquanto aguardava por suas próximas palavras. Por algum motivo eu não conseguia desviar meus olhos dos seus. Qualquer traço da criança interior de Taehyung estava agora desaparecido e substituído por um olhar que eu conhecia muito bem, um olhar que eu mesmo apresentara diversas vezes nesses últimos dias – um olhar de quem ansiava por vingança.
— Eu espero que você mate aquele desgraçado. – Taehyung não precisava pedir duas vezes; com um aceno curto da cabeça, assenti e abri a porta, saindo do apartamento com o propósito renovado. Eu tinha que fazer isso não só por mim e Jimin, mas também por todos aqueles que o cercavam. Agora eu só precisava encontrá-lo.
O caminho para o apartamento que Namjoon e Seokjin dividiam fora cansativo, frio e torturante, uma vez que eu tive de percorrer a distância nada curta entre o bairro universitário onde Jimin morava e Gangnam de ônibus, já que meu carro ficara esquecido no estacionamento. Eu tive sorte de alcançar o ponto a tempo de pegar o último ônibus da noite, ocupado por poucos passageiros que, assim como eu, não encontraram maneira melhor de transportá-los até a parte rica da cidade. Passei a viagem toda ocupando sozinho um dos bancos ao fundo, observando as ruas de Seoul passar diante de mim pela janela enquanto tentava manter minha mente ocupada com planos e ideias para encontrar o desgraçado que eu deveria matar – nas palavras de Taehyung – e não pensar em Jimin e em como eu queria estar dormindo ao seu lado agora.
Desci num dos pontos mais próximos ao meu destino, mas de qualquer forma eu teria que percorrer o resto do caminho a pé. Me arrependi de não ter me agasalhado melhor quando saí de casa – há duas, talvez três noites atrás; já não me recordava bem – quando um vento particularmente gelado pra uma madrugada de verão assobiou em meus ouvidos e arrepiou minha pele. Tremendo levemente, abracei-me para impedir que o frio penetrasse minhas roupas e acelerei o passo até estar diante da portaria do prédio chique onde os dois residiam. Dirigi-me ao elevador lançando um curto aceno de cabeça em cumprimento ao porteiro, que já estava familiarizado o bastante comigo para me deixar subir sem fazer perguntas. Dentro da máquina, selecionei o décimo segundo andar e digitei a senha requerida sem piscar um olho, de tão acostumado que estava com o procedimento. Como o esperado, a subida até o andar solicitado fora rápida e eficaz; adicionei meus sapatos aos outros dois pares largados no hall e, como se fosse dono do lugar, digitei a segunda senha para abrir a porta da frente, apenas para ser recebido por uma dupla de cães que latiam raivosos com a minha presença.
— Olá pra vocês também, pestinhas. – cumprimentei, mesmo que minha voz estivesse recheada de ironia. Jjanggu e Rapmon me odiavam, mas não era como se o sentimento não fosse recíproco – eu gostava muito mais de gatos, de qualquer forma. O mais engraçado era saber que fora eu a encontrar Rapmon perdido na rua e presenteá-lo ao líder, chegando a nomear o cachorro numa forma de piada interna. Criatura ingrata, pensei ao passar pelos dois em direção à sala, ignorando seus rosnados e latidos agudos.
— Você está atrasado. – ralhou Seokjin de seu lugar no sofá, ao lado de Namjoon que agora se levantava para me receber no meio do caminho.
— Foi mal, Taehyung me segurou pra uma conversa. – expliquei vagamente, encolhendo os ombros num claro sinal de que não queria esclarecer mais do que isso.
— I’m sorry, man. – Namjoon me envolveu num abraço, o uso de outra língua passando despercebido por mim. Eu já estava acostumado com o inglês subitamente aparecendo no meio de conversas, em cumprimentos e despedidas. Era algo que o gênio que aprendera a língua sozinho não podia evitar. – Como está Jimin? Eu gostaria de tê-lo visitado, mas com você e Jin fora, eu não podia sair do estacionamento.
— Está tudo bem. Jimin é um garoto forte. – assegurei-lhe enquanto me desvencilhava de seus braços. – Quando saí ele ainda dormia.
— Isso é bom. Ele precisa descansar o máximo que puder. – Jin assentiu para si mesmo, o médico dentro de si falando mais alto. Tive que conter a vontade de rolar os olhos. – Talvez eu passe lá amanhã pra ver como ele está se recuperando. – acrescentou pensativamente.
— Tenho certeza que Jimin gostaria disso. – afirmei, lembrando-me de vê-los deitados juntos na cama, com o mais novo seguro nos braços do médico. Tentei ao máximo não deixar transparecer meus ciúmes, mas pelo modo que os lábios de Jin se abriram num sorriso provocador, eu sabia que havia falhado. – Podemos ir direto ao assunto?
Um par de horas mais tarde, reunidos ao redor da mesa de jantar com as sobras do tteokbokki preparado por Jin devoradas sobre a mesma, os dois Kim e eu discutíamos as estratégias e planos que nos levariam ao responsável pelo estado deplorável que Jimin se encontrava. Por mais que pensássemos profundamente e vasculhássemos nossa mente em busca de respostas e ideias brilhantes, nada parecia certo. Achá-lo não seria uma tarefa fácil, e provavelmente muito derramamento de sangue estaria envolvido. Encontrar uma solução simples e indolor para o problema provara-se impossível, e logo eu corria as mãos pelos cabelos, suspirando de frustração.
— É como encontrar uma agulha no palheiro. – resmunguei, apoiando os cotovelos na mesa e escondendo o rosto nas mãos. – Se ao menos Jimin me poupasse o trabalho e me dissesse o nome do infeliz.
— Mas ele não vai fazer isso. – Jin cortou, brincando com seus hashis de forma abstraída. – O próprio me disse que se recusava a te mandar pra uma armadilha.
— Eu sei... eu ouvi. – acrescentei ao me deparar com o olhar curioso do mais velho, que rapidamente se transformou num olhar de julgamento. – As paredes são finas, não posso fazer nada.
— Talvez eu possa espalhar a palavra de que estamos procurando alguém. Pedir ajuda ao Zico, quem sabe. – sugeriu Namjoon, ao passo que eu e Seokjin apenas concordamos com a cabeça, exaustos demais pra retrucar.
— Essa é a nossa melhor chance de encontrá-lo. Talvez a única. – disse, ponderando todas as possibilidades e não encontrando nenhuma mais atrativa do que essa. Definitivamente, o sentimento era de procurar agulha no palheiro; aquela uma chance em um milhão, aquele golpe de sorte que nos colocaria no caminho certo. Era disso que precisávamos agora: sorte e ajuda.
— Nós vamos achá-lo, Suga. – Namjoon assegurou-me, sua voz cheia de certeza e otimismo enquanto me dava leves tapinhas que eram pra ser reconfortantes nas minhas costas, mas que apenas serviu pra me deixar mais frustrado.
— Eu sei. Não vou descansar até pôr minhas mãos nele, de qualquer forma. – afirmei com um encolher de ombros, antes de fazer menção de ir embora. Já estava muito tarde, e eu sentia falta do meu apartamento. Precisava do silêncio e solidão pra pensar melhor.
— Onde você pensa que vai? – questionou o mais velho de nós três, erguendo uma sobrancelha como se me desafiasse a dar mais um passo em direção à porta.
— Pra casa. – constatei o óbvio, como se ele já não pudesse perceber.
— Está muito tarde pra isso. E você nem está com seu carro. – insistiu Seokjin. – Passe a noite num dos quartos de hóspede. Você pode ir embora pela manhã.
— Não sou muito fã de festas do pijama. – retruquei sarcasticamente, esperando amenizar a grosseria da minha recusa. Jin não pareceu satisfeito.
— Você não parecia reclamar quando estava no quarto do Jiminie. – observou com o seu habitual tom atrevido, retribuindo meu olhar mortal com um sorrisinho presunçoso estampado nos lábios.
— Kim Seokjin, eu juro que um dia eu te mato. – rosnei entredentes, arrancando uma gargalhada do mais velho, que tentava escondê-la atrás de dedos tortos sem sucesso.
— Vamos parar, vocês dois. – Namjoon interviu, cansado de todo aquele bate-boca em horas tão inapropriadas. – Deixe-me pelo menos te levar pra casa. – acrescentou, dirigindo-se à mim.
Estava aí algo que eu não podia recusar: uma carona. Despedi-me de Jin ignorando todos os seus resmungos de como eu era mimado pelo líder – o que era cômico pois eu, como mais velho, deveria estar na posição de dar mimo, não de recebê-lo. De qualquer forma, Namjoon apenas riu e despediu-se do namorado com um breve beijo nos lábios e uma promessa de retornar logo. Tive que reprimir a ânsia de vômito ao vê-los sendo tão carinhosos e íntimos um com o outro, pois tal cena ainda me dava a estranha sensação de ver meus pais se beijando. Felizmente, em pouco tempo eu era enxotado pra fora do apartamento com dois cães uivando em contentamento, e após calçar os sapatos, descia de elevador até a garagem do prédio onde estava a picape preta do mais novo. O trajeto até o local de minha residência era um tanto longo, mas fora percorrido em pouco tempo conforme as avenidas brilhantes e vivas de Gangnam davam lugar às ruas desertas do bairro periférico. Ambos estávamos imersos num silêncio contemplativo e profundo, um silêncio que só fora quebrado quando Namjoon estacionou o automóvel em frente ao familiar prédio de tijolos pichados.
— Não se preocupe, Yoongi. Nós vamos pegar o maldito que encostou as mãos em Jimin. – disse, apertando levemente meu ombro numa tentativa de me passar conforto. Virei-me para ele tentando passar indiferença, mas aceitei o gesto de qualquer forma.
— Não é com isso que estou preocupado. – retruquei. Estou preocupado com o que eu possa fazer com ele era o que eu queria dizer, mas ao invés optei por sair do carro com um simples “boa noite”, marchando em direção ao meu apartamento enquanto preparava-me para uma noite sem dormir.
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