Hold me Tight
33 Brincando de gato e rato
— Yoongi POV -
Eu estava inquieto. Até agora, todas as nossas tentativas de encontrar aquele filho da puta que agredira Jimin se mostraram inúteis e falhas. Rap Monster espalhou no underground a notícia de que estava à procura do maldito, mas aparentemente nenhuma outra gangue tinha conhecimento do ocorrido. Aqueles que poderiam ter, ou eram muito fiéis ou muito tementes à Yongguk pra dar com a língua nos dentes. Também não era como se pudéssemos encontrar um de seus subordinados por ai; por algum motivo – que eu sabia muito bem não ser mera coincidência – as ruas pareciam estar desprovidas de presença das bandanas vermelhas. Porém, se o último prisioneiro que fizemos pudesse servir de indicação, eu não acreditava que seus colegas de trabalho se mostrariam mais úteis. Claramente, aquele fora um serviço sigiloso, um ato que nem toda a frota que trabalhava sob as asas de Yongguk tinha conhecimento. O que dificultava ainda mais nossas buscas.
Num ato desesperado, Namjoon e eu decidimos fazer bom uso da parceira que tínhamos com o senhor das armas, vulgo Woo Jiho ou Zico. Ele tinha entre seu meio um hacker, alguém que poderia mostrar-se ser de grande utilidade pra nós. Infelizmente, dito hacker estava fora do país à trabalho – pelo que pude entender, um assalto na China – por isso não tivemos outra escolha se não esperar seu retorno. Zico contrabandeava seus armamentos de diversas partes do mundo – China, Alemanha, América, até mesmo Coréia do Norte – e frequentemente enviava seus empregados em missões arriscadas e perigosas ao redor do globo. Era em momentos assim que ficavam evidentes as diferenças entre a sua área de operação e a nossa; nós tínhamos sorte por ter alguém capaz de produzir algumas substâncias ilícitas, mas aquelas que não conseguíamos eram facilmente obtidas através de acordos amistosos e grandes quantias de dinheiro. Outros traficantes ao redor do mundo ficavam mais do que contentes em oferecer sua mercadoria em troca de um valor justo e aceitável. Já quando o assunto era armas, nem todos estavam dispostos a separar-se de seus brinquedos, sem contar a presença de contratos fixos com institutos governamentais e coisas do tipo. Por isso a gangue de Zico possuía uma reputação muito mais elevada que a nossa.
Assim que recebemos o aviso de que o hacker havia chegado de viagem, Rapmon e eu não perdemos tempo em nos dirigir até seu quartel-general. O lugar era distante e recluso, afastado de toda a agitação da cidade grande. Consistia em um pequeno prédio de três andares e dois grandes armazéns, rodeados por grades e cercas eletrificadas. Ao nos aproximar, notei sentinelas armados com fuzis nas torres de vigia espalhadas por todo o perímetro do terreno, dando-me a sensação de estar adentrando alguma base militar. Enquanto um dos guardas, após conferir nossas identidades, assentia para que abrissem o portão e permitissem passagem para a picape de Namjoon, eu me perguntava como diabos Zico conseguira colocar suas mãos num lugar como esse. Obviamente uma base militar, por menor e mais insignificante que seja, não estaria simplesmente abandonada à espera de alguma gangue como a sua ocupá-la. Isso me fazia contemplar exatamente o quanto Zico era influente nessa cidade; talvez influente o bastante para rivalizar Bang Yongguk. Nunca fui uma pessoa religiosa, mas neste momento senti a necessidade de agradecer aos céus por ter Zico ao nosso lado – Rap Monster definitivamente não precisava de duas gangues poderosas contra si.
Ao descermos do carro, fomos conduzidos por mais guardas armados até a construção grosseira no meio do terreno, que eu só podia imaginar que antes abrigava a parte administrativa da base. Hoje, servia de ponto de encontro para a gangue, onde eram feitos planos para assaltos dentro e fora do país, onde passavam inúmeras armas – grandes e pesadas, pequenas e letais – e onde um certo hacker praticava sua mágica.
— Monster! – cumprimentou ninguém menos do que Zico, fazendo questão de nos encontrar na entrada e aliviar os guardas de seus postos, puxando Namjoon pra um aperto de mão e um abraço amigável. – Bom te ver também, Suga. – dirigiu-se à mim com um sorriso e um aceno discreto, ao qual eu retribuí em silêncio.
— Onde está o hacker? – perguntei sem rodeios, arrancando uma risada divertida do líder.
— Estamos impacientes hoje, não? – o loiro brincou, rindo com seu tom de voz alto e reverberante, enquanto dava-me tapinhas nas costas. Reprimi a vontade de perder a paciência com ele: eu estava com pressa, sim, mas ele era mais velho e estava numa posição mais elevada do que a minha. Eu precisava ter calma.
— Sinto muito, Zico. – Namjoon, sempre o mediador, interviu. – Temo que não tenhamos muito tempo. Nós precisamos falar com o hacker, é importante.
— Claro, eu entendo. – assentiu, adotando uma postura mais séria diante da preocupação na face do amigo. – Queiram me seguir.
O senhor das armas então nos conduziu para as escadas, passando por salas de conferência e outras que pareciam ser de lazer, ocupadas pelos mais diversos tipos do que civis chamariam de baderneiros, delinquentes, gângsteres. Porém, ao invés de seguir as escadas para cima, Zico nos levou para baixo. Descemos dois lances de escada em direção ao subsolo antes de atravessarmos uma porta maciça de ferro. Atrás dela, eu esperava algum tipo de salão grandioso, munido com as mais poderosas máquinas e diversas telas de LED pelas paredes, mostrando fileiras atrás de fileiras de códigos indecifráveis e ininteligíveis, o som de teclas sendo pressionadas furiosamente por uma equipe de hackers servindo de som ambiente. Ao invés, dei de cara com um corredor estreito e mal iluminado com uma porta gêmea do outro lado, e ao atravessarmos a segunda porta, a sala que nos esperava não era grandiosa, mas pequena e abarrotada.
Como estávamos debaixo da terra, a sala obviamente não tinha janelas, o que adicionava ainda mais à sensação claustrofóbica que emanava. No centro, havia uma única mesa, com uma única máquina – três monitores, pelo menos – e uma única pessoa sentada diante dela. Porém, a quantidade de gaveteiros e arquivos, papéis espalhados não só sobre a superfície da mesa – e servindo de descanso para uma caneca de café frio – mas sobre o chão também, discos e mais discos, pen drives escondidos em todos os cantos, e um sofá velho e gasto com um travesseiro e um cobertor arrumados como numa cama improvisada é que realmente davam ao local uma aparência lotada. O cômodo estava escuro, iluminado apenas pela luz pálida dos monitores e pela luz do corredor que invadiu o espaço momentaneamente ao entrarmos. Como som ambiente, havia o esperado teclar furioso e certeiro de quem sabia o que estava fazendo, mas o que realmente me surpreendeu foi ouvir uma antiga balada fluindo pelos alto-falantes, uma letra triste à qual o hacker estava acompanhando com uma voz assombrosamente bonita.
— Taeil-hyung. Nós temos visitas. – chamou Zico, parecendo nenhum pouco impressionado com o dom vocal do outro. O hacker, cujo nome presumia ser Taeil, cortou a sentença que estava cantando abruptamente, como se não tivesse percebido nossa presença ali. Lentamente, a cadeira de couro negro e encosto alto e almofadado girou para que pudesse nos encarar. Apesar de Zico ter utilizado o honorífico “hyung” para se dirigir à ele, Taeil parecia ser mais novo do que todos nós. Tinha pele clara e rosto pequeno, um cabelo castanho partido no meio que não parecia ter visto água em algum tempo, um pirulito entre os lábios e óculos grandes de aro redondo e lentes grossas que ressaltavam seus olhos de forma cômica. Tomei grande satisfação ao notar que o topo de sua cabeça mal ultrapassava o encosto da cadeira que ocupava, dando-lhe a aparência de uma criança brincando com a cadeira do pai.
— São vocês que querem que eu encontre alguém? – perguntou ao tirar o pirulito da boca e colocá-lo dentro da caneca de café; notei aturdido que sua voz era incrivelmente doce e infantil. Um hyung que esquecera de crescer, era essa a impressão que dava.
— Sim. Um amigo nosso foi sequestrado há algumas noites atrás. – Namjoon tomou a iniciativa de explicar-lhe a situação. – Agora ele está bem e em casa, mas precisamos saber quem o sequestrou.
— Seu amigo não viu o rosto do sequestrador? – Taeil perguntou ao voltar-se para a tela do computador, digitando alguma coisa no teclado.
— Viu, mas ele se recusa a contar quem foi. – admiti à contragosto, cruzando os braços defensivamente na altura do peito enquanto o hacker soltava um suspiro cansado.
— Muito bem. Vocês disseram que ele foi libertado? Onde o encontraram? – questionou, seus dedos pausando por um momento enquanto esperava pela resposta.
— Não fomos nós que o encontramos. Foram seus colegas de quarto... – comecei, apenas para ser interrompido bruscamente pelo outro.
— Onde? – insistiu, sua voz tomando uma tonalidade irritada e quase hostil, como se os detalhes não importassem.
— Não sabemos ao certo, mas creio que foi nas imediações do local que mora. No bairro residencial próximo à Korea University. – esclareceu Namjoon, deixando-me intrigado para saber como conseguira tal informação. Até me lembrar de que Jin visitava Jimin o tempo todo; era óbvio que Namjoon sabia onde era.
Observei Taeil digitar mais algumas coisas no teclado, pausando apenas para pedir-me mais informações, como data e hora – cerca de seis noites atrás, entre meia noite e duas da manhã— antes de voltar a teclar furiosamente. Em pouco tempo ele havia hackeado as câmeras de segurança instaladas nas ruas, vasculhando cada uma delas pelo menor sinal de atividade suspeita. Dava pra quase apalpar sua concentração, de tão focado que seus olhos estavam em todas as três telas do computador, cada tela mostrando nove imagens diferentes – cada imagem equivalia à uma determinada câmera, conclui. Em determinados momentos o hacker selecionava uma delas e dava zoom, a fim de inspecionar melhor a cena, mas quando esta se mostrava inútil, ele retornava para o mosaico completo. Vê-lo trabalhar me deixava apreensivo, tornando quase insuportável a vontade de marchar em círculos pela sala.
Notando meu nervosismo, Rapmon indicou-me o lugar vago no sofá entre ele e Zico, que por sua vez tinha o travesseiro do amigo atrás do pescoço e os olhos fechados. Sentei-me de má vontade, com o tronco pendido pra frente, cotovelos apoiados nos joelhos, queixo apoiado nas mãos e um calcanhar pulando incessantemente num gesto inquieto. Namjoon apertou-me levemente o ombro e sorriu ao capturar minha atenção, tentando me passar segurança e conforto. Seu olhar dizia para não me preocupar, que encontraríamos o bastardo e que o faríamos pagar – tudo sem utilizar palavras. Revirei os olhos, exasperado; eu sabia de tudo isso – sabia que o encontraria e tinha certeza que o faria pagar. Mas isso não me impedia de ficar agitado e impaciente, desejando que aquele maldito hacker trabalhasse mais rápido e encontrasse o desgraçado filho de uma puta agora mesmo.
— É esse o seu amigo? – a pergunta súbita de Taeil quebrou o silêncio e me pôs de pé num instante. Parado ao seu lado, invadindo seu espaço pessoal com a face perigosamente próxima da tela direita para ver melhor a imagem desfocada da câmera de segurança, assisti uma van preta diminuir a velocidade numa rua vagamente familiar e despejar uma figura amarrada de forma estranha como se fosse um saco de lixo, antes de acelerar pra longe da cena. Reconheci a figura amarrada e dobrada em ângulos pouco naturais como sendo Park Jimin, e imediatamente senti meu sangue ferver. Com os punhos cerrados, continuei assistindo até ver Jungkook se aproximar afoitamente e tentar desamarrar o amigo sem sucesso, antes de jogá-lo sobre o ombro e correr na direção que eu presumia ser de seu apartamento.
— Você consegue seguir a van através das outras câmeras? – indagou Namjoon, me alertando sobre sua presença ali. Numa rápida olhada encontrei os dois líderes a postos atrás de nós, assistindo a cena atentamente. Taeil prontamente fez o solicitado, averiguando cada imagem atrás da mesma van preta.
— Merda. – praguejou, correndo as mãos pelos cabelos oleosos. – Eu a perdi. Não consigo ir mais além do que isso, não sem hackear outro grupo de câmeras. Mas parece que estavam indo na direção de Gangnam.
— Nós sabemos muito bem quem tem base lá. – comentou Zico num tom sombrio.
— Que foi Bang Yongguk quem ordenou o sequestro eu já sei. – rosnei, frustrado por dar de cara com outro beco sem saída. – Mas não é como se eu pudesse invadir sua casa e matá-lo. Eu preciso saber quem foi, especificamente. Preciso colocar minhas mãos no desgraçado responsável pelos hematomas de Jimin.
— Não temos nenhuma visão do motorista ou de algum ocupante da van, Taeil-ssi? – Namjoon perguntou, numa voz bem mais calma e controlada que a minha. Como sempre, eu podia contar com ele pra lidar com assuntos que eu não conseguia.
— Hm, deixe-me ver. – Taeil ponderou, voltando em algumas imagens frontais da van e dando zoom, mas todos nós podíamos ver que seus esforços eram em vão. – Parece que a van tem vidro escurecido. Esperto. – comentou, quase impressionado, e eu tive que me conter com toda a minha força de vontade pra não lhe dar um soco ali mesmo.
— Bom, já que não podemos ver pra onde eles foram... o que me diz sobre ver de onde saíram? – sugeriu Zico, numa ideia surpreendentemente brilhante. Três pares de olhos chocados viraram em sua direção, e o líder parecia quase ofendido. – O quê? Ninguém pensou nisso?
— Jiho... estou seriamente tentado a te dar um beijo agora. – comentou Namjoon, expressão atônita no rosto.
— E arriscar dormir no sofá pro resto da sua vida? Você não ousaria. – Zico riu, obtendo sucesso em elevar um pouco o humor. – Jin mataria nós dois.
— É, você tem razão. – concordou, rindo com o outro.
Eu tentava ao máximo ignorar a conversa paralela entre os dois líderes enquanto me focava exclusivamente nas telas do computador de Taeil, quando este voltara até a cena inicial de Jimin sendo atirado pra fora da van e fazia o caminho inverso; porém, eu não podia negar que um pequeno sorriso surgira nos meus lábios diante da imagem mental de Seokjin batendo em ambos com uma frigideira e deixando Namjoon de castigo por semanas – seria bem típico do médico. Por enquanto rastrear o veículo havia se mostrado tarefa fácil, com a van aparecendo em pelo menos uma das vinte e sete imagens distribuídas entre os três monitores. Até Taeil soltar outro suspiro cansado, e neste momento eu soube que havíamos encontrado outra parede no caminho.
— Por que as coisas não podem simplesmente funcionar como deveriam? – o hacker suspirou, frustrado, deixando os óculos sobre a mesa enquanto coçava os olhos e apertava a ponte do nariz de maneira exausta.
— O que aconteceu? – perguntei, sem entender bem o motivo de suas frustrações.
— Não consigo ter uma visão clara do prédio que eles saíram. – esclareceu, recolocando os óculos e dando zoom numa imagem específica. – Vê? Aqui. – apontou pro local de onde a van surgia, mas estava muito distante e com muitos obstáculos na frente pra ver com clareza. – Parece algum tipo de armazém. Deveria existir uma câmera que me desse visão completa da entrada, mas aparentemente alguém a destruiu.
— Você tem um endereço pra nos dar? – perguntou Namjoon.
— Sim, olhe. – Taeil indicou no canto da imagem alguns dados que a câmera informava, como data, horário e local. Nós dois franzimos o cenho ao mesmo tempo; aquele endereço era perigosamente próximo à nossa área de atuação, quase na fronteira. Yongguk estaria nos desafiando?
— Aquele verme estava se escondendo em baixo dos nossos narizes o tempo todo. – rosnei, fechando minhas mãos trêmulas em punho na tentativa de contê-las. Afastei-me dos monitores, incapaz de olhar por mais tempo. Minha vontade era de dirigir até lá agora mesmo e pintar as paredes daquele maldito armazém de vermelho.
Pressentindo a natureza de meus pensamentos, Namjoon envolveu um braço ao redor de meus ombros e conduziu-me para mais próximo da porta, dando as costas para o hacker ao sussurrar. – Se acalme, Suga. Nós ainda precisamos de um plano.
— Vamos subir. – sugeriu Zico, demonstrando ter ouvido o sussurro, mesmo que Namjoon não tivesse a intenção de escondê-lo. – Eu posso ajudá-los com isso.
— Tudo bem. – concordou o líder, cedendo espaço para que Zico pudesse passar e abrir a porta, liderando o caminho. – Muito obrigado por toda sua ajuda, Taeil-ssi. – agradeceu, curvando-se brevemente em sua direção e me forçando a fazer o mesmo. Por sua vez, Taeil apenas encolheu os ombros e colocou novamente o pirulito na boca, voltando para seu trabalho anterior.
Dessa vez Zico nos conduzira para o terceiro andar acima do solo, onde tinha uma espécie de escritório. O lugar era o equilíbrio perfeito entre o casual e o profissional, com uma pesada mesa de mogno com cadeiras acolchoadas num canto e uma mesa de sinuca no outro. Decorando o ambiente, haviam poltronas de aparência confortável e obras de arte que eram suspeitamente parecidas com aquelas que surgiam nos jornais sempre que um museu era roubado. Zico acomodou-se na cadeira presidencial atrás da mesa e imediatamente seu semblante transformou-se para um de quem queria tratar de negócios. Ao seu sinal, eu e Rap Monster ocupamos as cadeiras do outro lado da superfície, adotando a mesma posição.
— O que vocês pretendem fazer? – Zico fora direto ao assunto.
— Ir naquele armazém e matar todos que encontrar ali. – respondi sem um segundo de hesitação, atraindo seu interesse.
— Você sabe que o culpado não é a arma, mas quem aperta o gatilho, certo? – questionou, seu olhar estranhamente compreensivo e piedoso. Revirei os olhos.
— Não me impede de querer pintar aquelas paredes com o sangue de quem colocou as mãos imundas no meu Jimin. – retorqui, reparando um segundo tarde demais no que eu acabara de deixar escapar. Tentei controlar minha reação diante do sorriso sabido que puxava lentamente os lábios cheios do loiro, sem sucesso algum. Merda.
— Estou certo em assumir que aquela criança não é um mero amigo pra você? – indagou, mas Zico sabia que não precisava de resposta. O rubor que teimosamente coloria a ponta de minhas orelhas já dizia tudo.
— De qualquer maneira, não podemos atacar Yongguk abertamente. Isso seria suicídio. – Namjoon interviu, sempre ao resgate.
— Mas vocês precisam de uma vingança. – Zico disse. Uma afirmação, não uma pergunta. Assenti.
— Precisamos retaliar de alguma maneira. – elaborou Namjoon. – Se não fizermos nada, sairemos como fracos. Não sou idiota, sei que Yongguk fez de propósito. Ele está nos testando. Vendo até onde podemos ir.
— E consequentemente analisando sua força como gangue. – concordou Zico, recebendo acenos positivos de nós dois. Ao menos ele entendia nossa posição.
— Vai nos ajudar? – perguntei, tentando manter a esperança fora do meu tom de voz.
Assisti apreensivo o senhor das armas soltar um suspiro longo e pesado, passando as mãos pelos cabelos loiros arrumados com gel enquanto parecia ponderar suas opções. Por fim, assentiu quase imperceptivelmente com um aceno de cabeça.
— Vou. Porém... – começou, erguendo a palma virada para nós antes que pudéssemos comemorar. – Não posso lhes fornecer mais do que armamentos e alguns poucos homens. Muito em breve eu mesmo terei meus próprios problemas pra lidar, e preciso de toda minha equipe em ótima forma.
— Eu compreendo. – Namjoon concordou, fazendo uma breve reverência estranha enquanto permanecia sentado. – E agradeço sua cooperação.
Tal gesto arrancou uma gargalhada do outro. – Desde quando você precisa ser tão formal comigo, Monster? Deixe de bobagens. Vamos bolar um plano. – com isso, nós três entramos num debate um tanto quanto acalorado sobre as melhores táticas de abordar a situação. Eu preferia a abordagem ofensiva e direta, invadir o local e metralhar qualquer coisa que entrasse em meu caminho; Namjoon, por sua vez, era a favor da cautela. Sua ideia era observar os movimentos ao redor do armazém mantendo distância e então descobrir algum ponto fraco, algo que pudéssemos usar à nosso favor. Acabou que foi Zico quem colocou um fim ao impasse: nosso plano final consistia num comprometimento de ambas as partes – Zico mandaria homens para estudar a área e, quando o momento fosse propício, invadiríamos. Toda essa espera acabaria me matando, mas eu não podia dizer que não estava satisfeito.
Enquanto repassávamos os últimos detalhes do plano, uma mulher saiu de trás das pesadas cortinas vermelhas que adornavam a parede detrás da mesa em que Zico se sentava – cortinas estas que eu acreditava servirem apenas para decoração ou para esconder alguma janela, mas agora sabia levar à outro cômodo – e fez caminho até o líder com passos lentos e confiantes. Ela parecia ter acabado de acordar, visto sua escolha de roupas – uma lingerie preta sobreposta por um roupão de seda aberto – e sua expressão levemente sonolenta. Era uma mulher bonita, com pele olivada, longos e cacheados cabelos negros e uma tatuagem em forma de cruz sobre o estômago. Uma vez que estava próxima o bastante do líder, envolveu-o num abraço e depositou um leve beijo em sua têmpora.
— Ainda está trabalhando, querido? Quer que eu traga algo pra seus amigos beberem? – perguntou a moça, sem realmente nos dirigir o olhar.
— Não será necessário. – Namjoon respondeu por todos nós. – Já estávamos de saída. Muito obrigado pela oferta, Hyojung.
— Volte pra cama, querida. Já vou te fazer companhia. – murmurou Zico, com uma ternura na voz que eu jamais havia presenciado. Não precisou de muito para convencê-la a acatar seus pedidos, e logo Hyojung desaparecia atrás das cortinas novamente.
— Você tem um quarto aqui? – Namjoon vocalizou a dúvida por nós dois. O escritório por si só já era bem grandioso; não imaginava que ainda sobraria espaço para outro cômodo, mesmo que eu não soubesse suas dimensões. Mas, conhecendo Jiho, não seria nada modesto.
— Sim. Nem sempre eu posso voltar pra casa, ainda mais quando estou planejando uma nova missão. Então eu acabo trazendo a casa pro trabalho, por assim dizer. – sorriu.
— Entendo. Bom, agradeço novamente por toda a sua ajuda. – disse Namjoon. Os líderes trocaram um amigável aperto de mão, com Zico desconsiderando o agradecimento dizendo algo sobre amizade e necessidade de apoiar um ao outro. Me despedi dele com um curto aceno, como de costume, por isso me surpreendi quando fui chamado pouco antes de passar pela porta.
— Suga... aquele garoto, você disse que seu nome era Jimin, não é? – perguntou o loiro. Assenti, hesitante, sem compreender o motivo da curiosidade repentina. – Espero que ele se recupere bem.
— Já está se recuperando. – permiti-me sorrir discretamente. Antes de retirar-me do recinto, acrescentei. – Obrigado.
O líder reconheceu meus agradecimentos com um breve e quase imperceptível aceno de cabeça, antes de se oferecer para nos guiar até a saída e ter a oferta rejeitada por Namjoon. Fizemos o caminho de volta em silêncio, passando por rostos conhecidos – como o flower boy Jaehyo que na maioria das vezes parecia não ter nada entre as orelhas e o sorriso felino de Yukwon – e outros nem tanto. A caminhada até a picape de Namjoon fora feita sem escolta, e me espantei ao notar que a noite já havia caído; como todas as janelas do prédio estavam obstruídas de alguma forma, a passagem do tempo era algo que se perdia facilmente lá dentro.
Saímos do complexo com a plena sensação de trabalho cumprido, mas estranhamente não parecia ser o suficiente. Sim, nós agora tínhamos mais pistas e finalmente eu poderia ter a minha vingança, finalmente teria a oportunidade de colocar as mãos naqueles que fizeram mal à Jimin. Por um lado, eu me encontrava ansioso: o monstro dentro de mim poderia até estar domado – por ora –, mas eu ainda podia sentir a sede de sangue, como se ela nunca tivesse realmente cessado. Contudo, eu também me sentia apreensivo. Minha mente ecoara a fala de Zico durante toda a viagem de volta até o familiar e decrépito prédio de tijolos, as palavras repetindo-se num ciclo vicioso, zombando de mim e da minha confiança. Você sabe que o culpado não é a arma, mas quem aperta o gatilho, certo? E se o que eu planejava fazer não adiantasse de nada? E se Jimin ficasse em perigo novamente? E se ele ficasse em perigo para sempre, apenas por estar ao meu lado?
— Ei. – Namjoon chamou assim que paramos num sinal vermelho, sua voz suave e aveludada despertando-me de meus devaneios e atraindo minha atenção sem esforço. – No que está pensando?
— Em sangue. – respondi simplista, sem a menor intenção de elaborar mais além.
— Nós vamos pegá-los, Yoongi. – assegurou-me pela milésima vez. Suspirei.
— Eu sei. Não é isso que me incomoda. – apenas fazer essa simples afirmação era difícil pra mim; minha voz, geralmente tão grave e ríspida, não passava de um sussurro.
— O que te incomoda, então? – insistiu, acelerando o carro quando a passagem ficara liberada por uma luz verde. Houve uma pausa longa e desconfortável antes que pudesse responder.
— Eu tenho medo. Tenho medo que mesmo que eu pegue o responsável, mesmo que eu tenha minha vingança, não seja o suficiente. – admiti, derrotado. – Tenho medo de ter transformado Jimin em um alvo permanente, apenas pelo simples fato de ter entrado na sua vida. Eu temo que nada que eu faça vá remediar a experiência traumatizante pela qual ele passou. Nada poderá curar suas feridas e remover as cicatrizes. – passei a observar as luzes da cidade correndo em borrões coloridos pela janela, recusando-me a encarar o mais novo enquanto despia-me da minha máscara de indiferença. – Às vezes eu penso que Jimin estaria muito melhor sem mim. Park Jimin é uma criatura muito pura pra estar envolvida com escórias que não tem nada a lhe oferecer, como eu. – cuspi, minha voz saindo amargurada e carregada de auto aversão. Eu não merecia alguém como ele. Jimin precisa de você, dizia minha mente. Ri seco e sem humor diante de tal pensamento. O lembrete. Eu sempre poderia contar com o lembrete. – Mas, ao mesmo tempo, eu sou egoísta. Eu quero ter ele perto de mim, quero que ele precise de mim.
— Jimin realmente precisa de você. – disse, e se eu não soubesse melhor, poderia dizer que havia certeza em sua voz.
— Engraçado você dizer isso. É o que estou tentando me convencer desde aquela noite. – o sorriso que eu direcionava para a noite de Seoul além da janela do carro era incerto e amargo.
— Escuta, Suga... – começou, seu tom de voz calmo e brando, até cauteloso, eu diria. Como se estivesse tentando atrair um animal ferido pra fora de seu esconderijo. – Eu entendo o que quer dizer. Só posso imaginar o que você sentiu ao vê-lo naquele estado. Se algo semelhante acontecesse à Seokjin... eu provavelmente não estaria muito melhor que você. – seu riso também era desprovido de humor. – Mas fugir não vai ajudar, muito menos se esconder. Jimin precisa de você, quer você aceite isso ou não.
Por um instante, eu quis refutá-lo, quis negar sua óbvia afirmação, quis ignorar o que minha mente insistia em repetir pra mim todos os dias. Porém, eu deixei que suas palavras me alcançassem. Tentei convencer-me a acreditar nelas, a encará-las como se fossem a mais absoluta verdade. Por um dia, eu deixaria de ser tão duro comigo mesmo. Por um dia, eu iria parar de fugir de Park Jimin e ao invés correr em sua direção. Abraçar a ideia de que talvez eu não fosse tão egoísta por querê-lo ao meu lado como nunca quis ninguém; permitir-me sentir o que sentia livremente, sem complicações ou barreiras imaginárias. Era revigorante, esse sentimento.
— Você o ama, não é? – perguntou-me subitamente enquanto estacionava em frente ao meu prédio, como se tivesse algum tipo de superpoder e pudesse ler meus pensamentos. Franzindo o cenho, virei-me para encarar-lhe com o meu olhar mais afiado.
— Que tipo de pergunta idiota é essa, Rapmon?
— Não sei, Suga. Me diga você. – sorriu, covinhas à mostra e tudo. Ah, como odeio sua petulância.
— Você está louco, Kim Namjoon. Vá pra casa. – cuspi, fingindo não ver o modo como seu sorriso ficara absurdamente mais largo enquanto abria a porta para sair. Fiz uma pausa antes de descer completamente do automóvel e fechar a porta, lhe dirigindo um olhar e um pequeno sorriso cheios de significados ocultos. – Obrigado.
— Sem problemas. – Namjoon devolveu meu sorriso com um curto aceno da cabeça, tão imperceptível que eu poderia perdê-lo se não esperasse por um, antes de tomar o rumo da sua própria residência. Antes de correr em direção ao seu próprio ente querido. De repente me senti estúpido por me deixar assombrar por tantas incertezas e dúvidas inúteis. Namjoon e Seokjin eram a prova viva de que, não importava a vida de merda que levasse, eu nunca poderia me deixar vencer.
O interior de meu apartamento recebeu-me com o familiar aroma de cigarros e bebida, algo que para muitos podia ser repulsivo, mas para mim era extremamente reconfortante. Era tarde da noite e eu estava exausto, ansioso por nada mais além de um banho quente e cama. Foi exatamente o que fiz. Meia hora mais tarde, estava jogado na cama com os cabelos úmidos e roupas limpas, sem forças para deitar propriamente sob os lençóis. Meus olhos estavam quase fechando quando sobressaltei-me com uma notificação de nova mensagem no celular, e assim que fisguei o aparelho no criado-mudo e pousei o olhar sobre o remetente, despertei por completo.
De Park Jiminie: Sinto sua falta... >////
Relembrando toda a conversa que tive com Namjoon e as realizações sobre meus medos e a determinação de enfrentá-los, decidi respondê-lo com algo melhor do que uma simples mensagem de texto. Franzi o cenho impaciente enquanto aguardava o outro atender a linha; por que me fazia esperar, quando eu sabia que tinha o aparelho em mãos? E então um pensamento me ocorreu. Era ridículo, mas trazia um sorriso presunçoso aos meus lábios. Provavelmente Jimin estava surtando internamente com a minha ligação repentina.
— Alô...? – a incerteza e o leve tremor que encontrei na sua voz só comprovavam minha teoria. Abri mais o sorriso sem que me desse conta.
— Eu também sinto sua falta. – admiti, sem rodeios e sem máscaras. Por um dia, eu expressaria meus reais sentimentos.
— Oh.— soltou estupidamente, parecendo ter sido pego desprevenido com a minha incomum sinceridade. – Oh. Isso... i-isso é b-bom.
— Só isso que você tem a me dizer? Isso é bom? – provoquei, fingindo tomar ofensa.
— Hyung!— choramingou, soando incrivelmente embaraçado. Eu podia sentir que estava corando, mesmo que não pudesse vê-lo. – Pare de me provocar.
— Ok, Park Jimin. Vou parar... por enquanto. – adicionei após uma pausa, recebendo um ganido indignado em troca. Não pude deixar de rir. – Como vão os estudos?
— Ah, vão bem. Jackson-hyung está me ajudando bastante.— informou-me voltando para seu habitual jeito alegre e animado; enquanto falava fiz uma nota mental pra descobrir mais sobre esse tal Jackson em outro momento. – Em breve terei meus exames finais.
— Seu recesso de verão está próximo, não? – indaguei, uma curiosidade genuína que surpreendeu até a mim.
— Sim! Terei um tempo livre logo após os exames.— comentou, a ansiedade transparente na voz. – Estou pensando em voltar pra Busan por alguns dias. Sinto falta dos meus pais.
— Vai me largar sozinho aqui em Seoul? Que crueldade. – repreendi num tom pesado de falsa mágoa.
— Hyung, não seja assim!— reclamou, e precisei morder os lábios pra não deixar escapar uma risada e estragar minha farsa. – Você pode vir junto, se quiser.— acrescentou após uma longa pausa, sua voz pequena e incerta, como se temesse minha reação.
— Por que eu deveria? Você pretende me apresentar oficialmente como seu namorado? – minha intenção era dizer aquilo como forma de piada, mas o silêncio seguido por uma gagueira incontrolável do outro lado da linha demonstrava que Jimin levara aquilo mais à sério do que deveria.
— Yoongi...— Jimin parecia nervoso. Sua voz estava esganiçada e falha, como se estivesse com alguma obstrução na garganta. – Você se lembra daquilo que me disse enquanto cuidava de mim? Antes de Jin-hyung chegar pra avaliar meus ferimentos?
Precisei de alguns segundos pra vasculhar minha memória, mas felizmente eu me recordava. Muito bem, inclusive. – Eu quero você.
— Co-como?
— Eu quero você. – repeti, deliciando-me com o modo como Jimin gaguejava e fraquejava diante de uma simples frase. – Foi isso que eu disse, não foi?
— F-foi. Hm... podemos falar sobre isso?— indagou-me de tal maneira que quase parecia querer retirar a pergunta e esquecer o assunto.
— Agora? – questionei, e quando Jimin pareceu ter problemas pra me responder, acrescentei em tom de provocação. – Park Jimin, você está tentando me coagir a fazer sexo por telefone com você?
— O quê?!— praticamente gritou ao meu ouvido. Tive que afastar o aparelho, contorcendo o rosto numa careta de dor. – É c-claro que não! De onde tirou essa ideia ab-absurda?
— Se é tão absurda assim, por que está gaguejando? – rebati.
Jimin não tinha resposta. Tinha certeza que meu sorriso se assemelhava ao gato que comera o canário.
— Eu te odeio.— disse por fim, arrancando de mim uma risada alta e estrangeira aos meus ouvidos.
— Claro, Jimin. Se dizer isso te faz dormir melhor... – encolhi os ombros, mesmo que ele não pudesse me ver. Deixei que o silêncio tomasse conta da linha por um instante, na intenção de me despedir. – Bom, acho que te perturbei demais por uma noite.
— Não, hyung! Não desligue.— pediu, me deixando intrigado. – Eu... eu estou com problemas pra dormir. Pode conversar comigo até que eu pegue no sono?
Como eu poderia negar qualquer coisa à Jimin? Definitivamente não começaria hoje, principalmente quando ele parecia tão vulnerável e carente quanto agora. Foi assim que me vi concordando, debatendo diversos assuntos diferentes, falando sobre tudo e nada ao mesmo tempo. Enquanto conversava com Jimin não existia raiva, nem medo, nem sede de vingança. Não existia remorso, nem culpa, muito menos auto piedade. Por um dia, eu me permitiria apreciar esse sentimento de leveza e liberdade que acompanhava a decisão de nunca mais fugir – de dar um basta nessa brincadeira de gato e rato. Por um dia, eu me permitiria pegar no sono ao som da voz daquele à quem eu passaria a correr para, e não de.
Park Jimin.
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