Meses após nossa viagem, ainda penso esporadicamente em Carmén e María, gostaria de ter pego o contato delas antes de partir em direção ao Sheremetyevo. Às vezes, olho as selfies tiradas e me pergunto como elas estão.

Penso bastante em Irina e sua família. Será que entraram em contato com o pessoal da Fundação Graad em Yekaterinburg? Qual terá sido a decisão tomada por Irina? Sempre que encontrava Katya, acabava por perguntar se ela tinha alguma notícia de Irina, mas a resposta sempre era negativa.

Um dia, parei de perguntar.

—---

Shun e eu estávamos nos preparando para irmos para o Japão, passaríamos uma temporada por lá. Shun concilia os estudos com as obrigações de cavaleiro, além de outros trabalhos voluntários que fazemos quando temos tempo. Não víamos Ikki há alguns meses e Shun queria visitá-lo antes das aulas recomeçarem.

Já estávamos partindo do Santuário quando vejo Katya e Erda vindo em minha direção. Erda tinha um sorriso em seu rosto e Katya estava com um semblante feliz, mas não demonstrava a felicidade em um sorriso.

— Priviet, Hyoga! Kon’nichiwa, Shun! Já estão partindo para o Japão?

— Kon’nichiwa, Katya! Kon’nichiwa Erda! Sim, estamos partindo para o Japão!

— Aeroflot? — Katya ri.

— Não, não!

— Ainda não entendo qual o problema dos russos com a Aeroflot! Vamos por Vienna desta vez.

Conversamos mais um pouco até que vejo Erda entregando algo à Katya.

— Hyoga, este email chegou de Yekaterinburg hoje pela manhã. Irina está na Finlândia, junto com o filho e o irmão, Pyotr. Eles escolheram mudar para a Finlândia porque o namorado de Pyotr já havia emigrado para lá há alguns anos e esperava por Pyotr.

Katya me mostrou o email no celular e enquanto lia, uma onda de felicidade e alívio tomou conta de mim. Petya tinha alguém esperando por ele e Irina recomeçaria a vida junto do filho e do irmão na Finlândia, onde já havia uma estrutura pronta para recebê-los. Shun se aproximou de mim, colocando sua mão em meu ombro e se aproximando para ler o email.

— O sobrenome de Irina é Lebedeva?

— Não, Shun. Ela mudou o sobrenome para não ser rastreada, mas a história é, no mínimo, interessante. — Enquanto respondia Shun, Katya olhou para mim. — Ela disse que o irmão, Pyotr, só teve um namorado e que antes dele fugir para a Finlândia, os dois viram um casal de cisnes. Na Finlândia, os cisnes são comuns, assim como na Rússia. No dia em que Irina te conheceu, Pyotr sonhou com um cisne encontrando sua outra metade e Irina te descreveu como ‘um homem tão gracioso quanto um cisne’. Essa foi a maneira que eles resolveram te homenagear.

— E nenhum deles sabe sua real identidade. — Erda sorriu.

Me lembro dos sorrisos de Shun, Erda e Katya, mas não consigo me lembrar de minha própria reação. Segundo Shun, fiquei boquiaberto durante nossa viagem inteira, de Atenas à Tokyo. A sensação era a de vitória: mesmo sendo somente quatro pessoas, sabia que parte de uma grande batalha havia sido vencida e, novamente, Shun estava ao meu lado.

Nos apoiamos um no outro.

Notas finais
Lebed = cisne. Russos têm muitos sobrenomes derivados de pássaros.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!