Hoje ela era
30 Uma humana
Notas iniciais
Hoje obrigaram ela a ser "humana". E ela não sabia como fazer isso.
Fora elefante, hoje, o mundo lhe ensurdecia. Não era mais suricato e não conseguia se esconder. Ficava calada porque não era papagaio... Continuava sendo a culpada mesmo sem ser cobra e caiu na mesmice ao deixar de ser pavão.
Se perdeu agora que não era formiga e fazia tudo já que não era preguiça. Não tinha tempo para enrolar ao deixar de ser besouro e perdeu a habena da vida porque não era cavalo. Deixou de ser lobo e ignorou a lua.
A simplicidade só agradava corujas e, agora, não tinha tempo para dormir que nem ursos; emagreceria hipopótamos e aceleraria jabutis. Conseguiria arrancar o chumbo de qualquer rinoceronte.
Caçaria lebres, mataria orcas e esmagaria mariposas com suas luzes. Riria de hienas e não temeria gorilas.
Odiaria abutres e não encostaria em águas-vivas. Zombaria de flamingos, teria nojo de vermes e ignoraria jacarés.
Não veria camaleões, jogaria inseticida em vaga-lumes, fingiria não ver a coroa do leão e correria atrás de qualquer guepardo.
Tudo isso porque era humana.
Mas, no fim do dia, ela sabia. Ela não esquece. Sabia que, mesmo humana, podia ser o que quisesse.
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