Hoje a Noite Não tem Luar
7 VII – O Mundo Pertence a Nós.
Tenho certeza que não sonhava. Talvez a Marcella tivesse razão quando me disse que eu estava “apaixonadinho pela garota da praia”. Eu estava?
Bem, o que eu sabia era que a Liz estava comprando pipoca. Olhei a hora no telefone: faltavam cinco minutos para as três horas da manhã. Eu não conseguia me despedir. Queria continuar lá, só com ela.
— Acho que está ficando meio tarde. – disse-lhe.
— Ah sim, deve estar. – eu sentia um peso em sua voz. – Meus amigos estão naquela boate que passamos. No Privilège, acho.
— Jura? E você não me falou nada? Podíamos estar aproveitando a festa! – Ela não riu. Esqueci que ela estava irritada com eles.
— Tudo bem, eu fico esperando eles ali por perto. – “idiota! Pensa em alguma coisa!” – Adorei passar a noite com você. – Ela me deu um abraço, só que dessa vez não me sujou, muito menos riu, apenas me soltou e voltou para onde havíamos acabado de voltar.
Para aquele caminho que passamos a noite conversando.
Para aquele caminho que dividimos nossas histórias e segredos.
Para aquele caminho que nos beijamos.
Talvez Marcella realmente tivesse razão. E foi por isso que liguei para ela na mesma hora.
∞
— Vim o mais rápido que pude – disse ela ao sair do carro. – Amor, pega lá para mim, por favor? – Gustavo saiu do carro e pegou a bicicleta que estava presa no porta-malas. – Deixa eu ver se eu entendi... Você vai ir atrás dela de bicicleta?
— Sim! Quer dizer, mais ou menos – ela me olhava, confusa. – Você está me fazendo repensar e concluir que essa ideia é estúpida. Acho melhor esquecer.
— Não, não é – ela me entregava a bicicleta enquanto continuava seu “discurso inspirador”. – Vá atrás dela! Não se pode simplesmente deixar uma menina que te aturou quase o dia inteiro escapar.
— Obrigada. Mas me diga, vocês ficarão aqui?
— Sim, nós te damos uma carona de volta para a pousada quando você terminar seu encontro.
— Obrigada, galera.
— Vai procurá-la, senhor apaixonado.
E eu fui.
∞
— É Eliza? – Eu reconhecia aquela voz. Levantei o rosto e ele estava ali, montado em uma bicicleta.
— O quê?
— Seu nome... É Eliza?
— Não – aproximei-me dele. – É Elizabeth.
— Ah, sim. Faz mais sentido.
— Voltou só para descobrir meu nome?
— Claro, por que mais eu voltaria? – senti-me surpresa com a resposta. E triste. Por algum motivo, não era isso que eu esperava ouvir. – Brincadeira. Vim também te oferecer um último passeio. Aceita, mademoiselle?
— Bem, esse não é o cavalo branco que eu esperava, mas...
Ele pegou velocidade o bastante para eu conseguir subir no bagageiro traseiro e abraçá-lo. Foi desse jeito nós refizemos todo aquele caminho que já havíamos feito mais cedo. E assim, a noite linda continuava.
— Gostando do passeio senhorita Elizabeth? – o vento e a maresia se mesclavam com o perfume dele e fazia eu me desligar do mundo, pensando apenas naquele momento. – Depois eu te deixo de volta com seus amigos, para você voltar para a casa do Samuel...
— Cauã, não vamos pensar nisso agora – levantei um dos braços e gritei. – O mundo pertence a nós!
∞
Depois de algumas voltas pela rua, paramos novamente perto daquela estátua, que acabei descobrindo ser da Brigitte Bardot. Ficamos parados, em silencio até o meu telefone tocar.
— É o Samuel.
— Você já vai?
— Sim, está na hora. Como você mesmo disse ‘está tarde’.
— Nossa, vai dar quatro horas já! – ele se levantou comigo e envolveu seus braços em mim. – Você só vai embora segunda, certo? – confirmei. – Posso te ver mais tarde?
— Eu prometi para a Rose que iria passear com ela pela manhã. Tem varias praias que ela queria ver e me levar junto – senti que ele estava um pouco decepcionado, por isso completei. – Mas o que você acha de me encontrar aqui às sete horas?
— Mal posso esperar.
Depois que ele me soltou, andamos juntos até a boate, onde ele me deixou com o Samuel e mais duas pessoas que procuravam a Rose desesperadamente. Despedimos-nos e antes dele ir embora, cochichei em seu ouvido:
— Minha promessa – Peguei minha pulseira de couro, que tinha uma pequena estrela no centro, do meu pulso esquerdo e entreguei a ele. – Se quiser, amanhã podemos resolver a minha visita ao Rio de Janeiro.
Beijamos-nos, ele virou e foi embora. E essa foi a última vez que nos vimos.
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