Hoje a Noite Não tem Luar
6 VI – Passeamos por ai.
Nos encontramos a noite num lugar chamado Rua das pedras. Ela estava sentada em frente a uma sorveteria com os longos cabelos negros presos com uma caneta. Usava uma regata branca coberta apenas por um tipo de casaco fino aberto e ainda tomava um picolé de chocolate com menta que, por causa do calor, pingou e acabou manchando sua blusa.
— Oi. Você está aqui – me peguei sorrindo.
— E você aqui! – Ela retribuiu o sorriso.
Liza veio me cumprimentar, me dando um abraço meio desajeitado. Visto que ela se levantou rapidamente, seus cabelos se soltaram revelando um leve cheiro de lavanda.
E também... mãos geladas.
— Te sujei de sorvete, desculpa! – ela me soltou e foi pegar papel para me limpar.
— Mesmo que a blusa seja escura, é bom limpar logo! Não queremos manchá-la, certo? – Ela parou de esfregar o meu ombro e olhou para mim, provavelmente esperando uma resposta. Ou um beijo. Eu devia ter feito um dos dois, mas apenas dei um passo para trás esbarrando numa placa que eu não havia percebido.
Ela riu.
∞
— Então, você nunca veio aqui para o Rio. O que tem achado? – começamos a caminhar no meio daquelas pessoas que ignoravam totalmente o casal manchado de sorvete que havia se conhecido somente há oito horas.
— Diferente.
— Mas está pensando em voltar?
— Depende do que tem de bom para fazer.
— Se você fosse para a capital, eu te levaria para o pão de açúcar, andaríamos de bicicleta na orla de Copacabana, faríamos piquenique na Quinta da Boa Vista e passaríamos o dia no Jardim Botânico. – ela parou e me encarou, porém ignorei e continuei andando.
— Pensou nisso tudo agora? – ela perguntou.
“Não, pensei depois que você me beijou na praia.”
∞
Passeamos por ai. Rimos, comemos num bar que achamos enquanto caminhávamos, nos conhecíamos cada vez mais e, perto da meia noite, sentamos em um banco perto de uma famosa estátua e mais perto ainda da água.
Em um lugar escondido. Só eu e ele.
— Agora você vai me contar o significado da tatuagem de lua? – ele perguntava enquanto pegava delicadamente meu punho.
— Tá, vou contar! – ele esboçou um sorriso. – Mas prometa que não vai me achar louca?
— Dou a minha palavra.
— Na Wicca, a lua cheia é uma fase de plenitude – dei uma pausa, respirando profundamente. – Traz prosperidade, alegria, saúde, beleza, amor... E paixões.
— Hum... – ele colocou a mão no queixo, pensativo. – É, Você é louca!
— Babaca! – empurrei-o.
— Estou brincando – ele chegou perto. Muito perto. – Acho uma tatuagem linda, Liz.
— Acha? – Nossos olhos se cruzavam e sentia a mão dele na minha cintura.
— Posso? – Outro beijo me pediu. Acenei com a cabeça.
Antes de fechar os olhos e me desligar completamente do mundo, olhei e ela estava lá.
A lua de prata, no céu e o brilho das estrelas, no chão.
∞
Andávamos abraçados. Ele estava com o braço em volta da minha cintura, me protegendo do mundo, talvez. Andando sempre naquele mesmo ritmo lento dos outros casais que estavam a nossa volta.
Em tão pouco tempo já havíamos conhecido tanto um do outro. Parece até clichê dizer que com ele eu me sentia como a Liza que eu não era há um tempo, uma Liza feliz. Uma Liz feliz.
— Então seu pai morreu enquanto ele viajava com a amante? Que louco!
— É, deve ser.
— Desculpa, foi insensível da minha parte.
— Não! De jeito nenhum. Eu... Eu nunca tinha parado para pensar como isso é realmente engraçado. Ele infartou em Viena! O funeral foi digno de um filme de dramédia. A família da amante dele era louca! Ela era louca!
— Por que a família dela estava lá?
— Porque ela é louca! – rimos juntos daquele louco filme de comédia que estrearia em meados de verão com algum comediante de sucesso fazendo um papel secundário. Um sucesso de bilheteria.
— Você é bem forte por estar vendo dessa forma.
Lembrei-me da noite passada, aquelas longas horas no banheiro. Não, eu não era forte.
— Eu fui criado pela minha avó – ele cortou meus pensamentos. — Ela sempre me apoiou em tudo que eu quis fazer. Na verdade, ela se ofereceu para pagar a minha faculdade. Sem ela eu não seria um quarto do homem que eu sou hoje.
— Ela parece ser muito fofa.
— Ela é. Aliás, ela que me mandou viajar. Eu não tava afim. Não queria deixá-la sozinha. Enfim, ainda bem que eu a ouvi – percebi que nessa hora ele me olhou rapidamente, porém o suficiente para sentir um frio na barriga. – Ela não tem estado muito bem recentemente, mas meus tios estão lá com ela.
— E a sua mãe?
— Ele deve estar lá também, sei lá – “ufa, ela não estava morta.” pensei – Ela mora com o marido e os outros filhos em Nova York. – Dessa vez, ele respirou profundamente enquanto tirava o braço da minha cintura e enfiava as mãos nos bolsos da calça. – Quando engravidou, ela estava prestes a trabalhar numa empresa nos EUA. Não tinha como ela cuidar de um bebê lá, por isso minha avó se comprometeu a cuidar de mim. Quando voltou para me ver, eu já tinha sete anos, ela já estava casada com esse cara rico dono da empresa e estava grávida novamente, a diferença é que esse ela teve em Nova York, enquanto eu fiquei aqui.
— Que droga...
— Está tudo bem, eu não ligo mais.
— Então quer dizer que a sua avó gosta de Turma da Mônica? – tentei mudar de assunto.
— Ela adora, sempre gostou. Tem caixas e caixas e ainda compra várias! Recentemente eu que tenho comprado para ela e toda vez que eu chego com uma revista nova, ela me dá um beijo. Para falar a verdade, deixei umas na cama dela antes de viajar.
“Gostaria de conhecê-la”
— Se você for para o Rio, você pode – ele logo complementou. – Eu leio mentes, não sabia?
— Eu pensei alto?
— Um pouco.
— Você é muito idiota!
— Que bom que você gosta.
— É, sorte sua.
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